Em Clima de natal

1 Capítulo único


Já estamos em dezembro novamente. Mais um ano chegando ao fim. E passou tão rápido. Parece que foi ontem que estávamos comemorando o ano novo e agora é quase natal.

Okay... Meio exagerada minha comparação, mas o ano realmente passou rápido. Devo ter dormido demais, ou sei lá. Em todo caso esse não é o foco da história.

Nessa época do ano é normal nevar no Japão, porém, diferente da imagem passada em filmes, são poucos os que se arriscam a sair no frio. O número diminui ainda mais entre aqueles que cismam em brincar na neve. Para quem vive em países que é verão quase o ano todo e nunca viu um floco de neve fora da TV não tem nem ideia do quão ruim isso pode ser. Às vezes desejo que o inferno seja mesmo quente. Apesar de quem mora do outro lado do mundo já prefere que ele seja frio. Que seja dividido para agradar os dois lados, pronto. Assim ainda terá um ponto “zero” entre a divisória.

Alguém tem ideia do quanto dói uma queimadura por congelamento?! Okay... Nem eu sei, mas não quero chegar ao ponto de descobrir. Apenas li sobre o assunto uma vez.

A queimadura por frio é semelhante à queimadura por calor, mas os tecidos do corpo ficam congelados. Sendo possível formação de gelo até nos vasos sanguíneos. Muito comum nas mãos, nos pés, no nariz e nas orelhas, normalmente as partes do corpo que ficam descobertas. Causa dor, inchaço, falta de sensibilidade e vermelhidão. Em alguns casos a pele pode ficar dura e com bolhas. Nesse tipo de problema é preciso buscar ajuda rapidamente, pois quando a pele começa a ficar num tom púrpura é possível que esteja acontecendo gangrenas. Nos casos mais graves existe até a necessidade de amputar as partes do corpo que foram queimadas pelo frio.

Para prevenir esse tipo de queimadura é recomendado que as pessoas se mantenham aquecidas com várias camadas de roupas.

No meu humilde caso adoraria estar em casa dormindo debaixo das cobertas ou até jogando, com direito a alguma bebida quente. Mas assim como muitos que adoram deixar as compras de final de ano para a última hora, aqui estou eu quase congelando dentro do shopping. Que não entendo por qual razão ainda deixam o ar condicionado ligado. Parece que já não está frio o bastante do lado de fora, tem que gelar aqui dentro também.

O bom que ainda é começo do mês e não véspera do natal, então ainda não está tão lotado. E também não vim fazer compras, estou só acompanhando certa “criança” que inventou de ir ao cinema, ver um filme que não fez nem valer a pipoca.


E a implicância não foi só minha. Mia também odiou o filme e ainda me culpou por não tê-la avisada que era tão ruim, já que havia lido os livros. Primeiro: Nem lembro porque li, talvez porque tantos diziam ser bom e eu, curiosa, li odiando a história, mas com uma falsa esperança que o final salvaria. Segundo: Eu nem me lembro qual foi minha última refeição, acha que eu lembraria de uma história que fiz questão de esquecer? Mas que já fique de lição: Se tiver um publico muito grande, em especial garotas adolescentes ou mulheres desiludidas por nunca ter “encontrado seu príncipe”, é fria. Nada mais de filmes e livros “famosinhos”. Se tivesse morrido todo mundo e só aquela garotinha ter conseguido fugir com aquele pseudo lobo teria sido bem melhor que aquele romance nojentinho.


Surpreende-me não termos sido expulsas do cinema. Ah sim... O lanterninha que estava tomando conta da sessão acabou sentando do nosso lado só pra rir um pouco com nosso comentários. Quantas crianças ficaram irritadas com a verdade e por ter que nos aguentar até o fim do filme.

Após essa sessão tortura me restou apenas esperar Mia do lado de fora do banheiro, o que quase me fez sentir como sua segurança particular, com direito a até pessoas evitando contato e passando rápido.

Outra coisa também impossível de não se notar era o tumulto em volta a “Casa do Papai Noel”. Normalmente ele chega na metade de novembro e fica até o natal tirando fotos com crianças, mas esse ano acabou atrasando. É sorte demais vir no shopping justo no dia da sua chegada. Já até mudaram a música, ele deve estar chegando, mas nem me atrevo a ir até aquele meio só por uma pessoa fantasiada.

- Mia está começando a demorar. – murmurei começando a ficar inquieta. – Só falta querer se afogar após um filme ruim. – pensei em entrar no banheiro atrás dela quando o tal velhinho de vermelho abrindo a porta do banheiro masculino.

Aquela muvuca em torno da casa do Papai Noel e eu que estava evitando o movimento dou de cara com o velhinho saindo do banheiro. Sério mesmo?

Se fiquei parada sem reação? Claro! Só o escutei pedindo licença e continuando o caminho até onde deveria estar.


— Keiko? Hey! – minutos depois Mia resolveu aparecer. – Algum problema?

- Hã?! Não... Nada. Só fui surpreendida pelo senhor Noel quando ia atrás de você pra saber o porque da demora.

- Noel?! Ele estava no banheiro e eu não vi?!

- E por que não me surpreendo? Espere diminuir o movimento e depois te levo pra vê-lo. Se formos agora podem te confundir com um ajudante e eu te perder naquele meio.

- E o que quer dizer com isso?!

- Você entendeu bem. Refiro-me a sua altura – sabia que ela ia se irritar, mas era a intenção mesmo. – Estou com fome. Aquela pipoca não foi suficiente.

- Também estou com uma pontinha de fome. Vamos comer onde?

- Subway. Está mais perto e pelo menos podemos escolher o que colocar no lanche. – sugeri e ele aceitou.

Agradeci por não ter fila, porque já aconteceu de várias vezes de ter um indeciso que não escolhe nada e só atrasa o andar da fila. Por isso ver o local quase vazio me animou.

Também não demoramos a montar nosso lanche, já sabíamos o que queríamos. Mas o que conseguiu me irritar foi ver Mia nem na metade do lanche enquanto eu já quase terminava o meu.

- Não aguento mais... – disse largando mais da metade do lanche sobre a mesa. E eu, que já havia terminado, só observava.

- Se não era pra não comer tudo porque não pegou o menor?

- Porque achei que ia aguentar.

- E agora?

- Agora vou comer só o cookie mesmo...

- E vai jogar o lanche fora?!

- Eu não aguento mais. Espera que eu faça o que?

- Espaço pra doce tem.

- Sempre existe espaço para doce.

- Não vai comer mais mesmo?

- Já disse que não.

- Então me dê ele aqui.

- Pra que?

- O que você acha? Não vou deixar jogá-lo fora.

- Ok. – riu – Bom apetite.

- Do que está rindo? – indaguei começando a comer o lanche.

- Sua cara. Você ficou realmente se irritou comigo por causa do lanche, não foi?

- Não provoca.

- Oh... Tem gente olhando pra nós.

- Problema deles.

- Acho que ficaram com medo de você.

- Acabe logo esse cookie pra irmos embora.

- Ah! Como assim já está acabando o lanche? Sabe que precisa mastigar primeiro?

- Só o suficiente pra poder engolir.

- Não é a toa que consegue comer tanto, não dá nem tempo do cérebro processar tudo que come. E também nem sente o gosto da comida.

- Já acabou?

- Ainda não. Quer um pedaço de cookie? – minha resposta foi pegar um pedaço sem dizer nada. – Realmente não sei para onde vai tanta comida. – riu.

- E pra onde agora?

- Ainda deve estar um inferno a casa do Papai Noel... Andar pelas lojas de brinquedo?

- E por que não? Vamos logo. – sorri concordando.

Era uma boa desculpa afinal. Já que estamos aqui, comprar alguma coisa de natal para ela. Mas não sei o que comprar e também não posso pedir para que escolha, senão apenas irá brigar comigo e não vai querer nada.

Terei que persuadi-la.

- Mia, olha essas pelúcias. – não estou com nenhuma ideia melhor. E prefiro alguma coisa macia caso resolva jogar em mim.

- Sim, são fofos.

- Me ajude a escolher um.

- Você? Querendo uma pelúcia?

- É. – dei de ombros. – Não faz mal nenhum, não é?

- Ta então... – ela está desconfiada, mas o importante é me ajudar. – O que acha desse leãozinho? – pegou uma das pelúcias do fundo.

- Hm... Lembra um pouco um dos seus penteados esquisitos.

- Hey!

- Vou ficar com ele.

- Ehe. Só por que parece comigo?

- Sim. É o presente perfeito.

- Como? – agora que já escolhi o presente, não tem problema ele saber o verdadeiro propósito. – Você não...

- Acha que deveria embrulhar pra presente? – ignorei o fato dele já está irritado comigo. – Poderia embrulhar pra mim? – entreguei a pelúcia para a vendedora que embrulhou me devolvendo assim que paguei.

- Hey! Keiko!

- Vamos Mia. Preciso entregar seu presente, mas fora da loja.

- Não acredito que me enganou pra isso!

- Não te enganei... Apenas te persuadi. Se eu dissesse que queria comprar algo pra você não teria me ajudado.

- Não teria mesmo!

- Viu? – sorri. – Bom... Feliz natal. Um pouco adiantado. – lhe entreguei o embrulho.

- Eu te odeio sabia. – fez bico abrindo o embrulho. – Não pareço nada com esse bichinho. – acabei rindo de sua atitude, parecia realmente uma criança.

- Vamos, Mia. Já deve ter diminuído a fila para tirar foto com o Papai Noel.

- Não quero foto com ele!

- Que criança birrenta...

- Não sou criança!

- Ta... Ta... E finjo que acredito. Agora vamos logo.

Emburrada, seguimos até a casa do Noel e a convenci a tirar foto com o bom velhinho.

- As crianças costumam sentar no colo do Noel.

- Bate logo essa foto Keiko. Antes que eu bata em você.

Resolvi tirar logo a foto antes que ela desistisse disso também.

- Pronto Mia. Agradeça e já podemos ir.

- Nada disso aconteceu, okay?

- Não direi nada. – respondi não evitando um riso.

- Por que sempre aceito essas suas loucuras?

- Minhas?! Não sou a única culpada. Não tem uma vez que saímos juntos que algo normal aconteça.

- Vou começar a pensar duas vezes antes de sair com você.

- Não aguentaria a monotonia. – respondi e ela ficou quieta. – Mia?

- Fiquei com vontade de comer Fondue de frutas. – ela está desconversando.

- Mais comida?! Não aguentou nem o lanche!

- Não é comida e sim doce.

- Seu argumento não é válido.

- Eu quero doce! Isso é válido o suficiente pra você?

- Só se tiver morangos.

- Eu não como morango!

- Mas ninguém falou que é pra você. Eu quero morangos.

- Que seja. – bufou. E ela achou mesmo que eu deixaria comer tudo sozinha?

Em uma coisa tenho que concordar com Mia. Sempre há um espaço no estômago para doces. E passando em frente ao Quiosque compramos o tal doce. Morangos pra mim e nem prestei atenção em o que mais ela escolheu. No final as frutas vinham todas misturadas em um potinho e cobertas por chocolate. Então não fazia muita diferença.

- Droga. Peguei um morango. – estávamos sentados em uma das mesas da praça de alimentação, para podermos comer melhor. E claro que estava só esperando a primeira reclamação de Mia sobre morangos no meio do doce.

- É só devolvê-lo e pegar outra fruta.

- Não quero.

- Então fique quieto e coma.

- Keiko, diga “ah”. – sorria.

- O que? Não farei isso.

- Pare de ser chata e abre a boca.

- Não.

- Come logo a porcaria desse morango!

- Tsc. – apenas para deixá-lo “feliz”, fiz o que queria. Deixei ele me dar o morango na boca.

- Ah! Alguém ficou vermelha!

- Cala a boca e termine de comer.

- É sério. Você ficou mais vermelha que aquele morango.

- Mia. Eu vou comer tudo se continuar falando.

- Mas foi fofo.

- Está começando a chamar a atenção das pessoas.

- E agora se importa?

- Mia, deixarei só morangos pra você e te fazer engolir na marra.

- Chata.

Como deixá-la quieta... Apenas se estiver de boca cheia.

Após essa gula ficamos apenas conversando algumas banalidades sem nem prestar atenção no tempo que passava. Quando nos temos conta a maioria das lojas do shopping já estava fechadas. E o sono começou a apontar.

- E o que fará agora Mia?

- Como assim? Vou pra sua casa beber com você. Sem mencionar que VOCÊ é minha carona de hoje.

- Mas não falei nada de ir em casa.

- Isso foi um auto-convite. – apenas ri de tal resposta.

- Se não se importar de dormir no sofá... – sorri dando de ombros. – Apesar de que... Se nós duas bebermos, acabaremos ficando na sala mesmo.

- Partiu beber o resto da noite! – disse de modo tão animado que me lembrou uma criança quando consegue algo que tanta deseja.

- Mia, sem correr.

- Eu sei. Não sou criança.

- Mas é o que parece. Principalmente quando faz essa cara e infla as bochechas. – e ele só voltou a repetir o ato me fazendo rir.

- Nee... Keiko. Obrigada mesmo pela pelúcia, apesar de eu ainda querer te bater.

- Não foi nada?!

- Hoje foi divertido. Como todas as vezes que saímos juntas.

- Que bom que gosta de passar seu tempo comigo, me sinto até especial.

- Agora menos sentimentalismo e vamos embora logo. Quero beber ainda hoje.

- Calma Mia. A bebida não vai sumir. E ainda falta achar o carro no estacionamento.

- Não lembra onde parou?!

- E alguma vez eu lembro? Ainda mais que nevou. Está tudo branco. Por sorte aparenta não ter bloqueado as ruas.

- Tem alarme, não tem? É só destravar a porta que vemos onde está. Dê-me essas chaves.

- Está em mãos. – entreguei a chave para ela que não demorou em apertar o controle.

- Ali! – mal tive tempo de falar para ele não correr. Deixando-me consideravelmente para trás.

- Você não me deixou dizer Mia... Mas também gosto de passar meu tempo com você. – murmurei apenas para mim. Afinal ela já estava longe para me ouvir.

- Keiko!!! Vem logo! – gritou já ao lado do carro. – Se começar a nevar de novo não sairemos daqui!

- Já estou chegando! – sorri negando com a cabeça e mantendo o meu ritmo.

Aquela noite ainda seria longa, mas o tempo gasto com ela é uma das poucas alegrias da minha vida. Algo que não trocaria por nada...

Notas finais
É sim uma historinha boba, mas especial pra mim.

Então... É apenas isso ~~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!