Em Chamas
1 Capítulo único
Notas iniciais
Medo.
Acho que eu nunca compreendi corretamente a intensidade e a extensão deste sentimento, até o dia de hoje.
Por que eu estava preso nesta sala agora? Eu sabia o por quê. Apenas não entendia por que se deram ao trabalho de trancar a porta, já que o fogo que me encurralava cada vez mais fazia um ótimo trabalho me mantendo preso aqui.
Aquela fumaça toda estava me deixando tonto e eu já havia passado do ponto “Parece que tem uma lixa na minha garganta” para o “Qual é a sensação de ter os pulmões cheios mesmo?”. Não acho que haja muitos mais pontos após este.
Nem espaço para me afastar mais eu tinha; quando o fogo começou, o único lugar que eu tive alguma chance de alcançar foi a parede do lado oposto da porta, onde eu encarava assustado todos os outros caminhos se fechando para mim. Algo parecia não querer que eu tivesse qualquer chance de fugir daqui, e pior, estava conseguindo êxito nisso. Alcancei a parede, já tentando pensar se havia alguma forma de chegar à janela, apenas para o medo me tomar mais um pouco. Estava longe demais. Então não me restou muita opção além de me encostar na parede atrás de mim, como se minha vida dependesse disso.
E dependia, na verdade. Mas por mais que eu desejasse, eu não podia atravessá-la como se fosse um dos personagens dos jogos do Matt.
Estava quente. Muito quente mesmo.
Levou um segundo a mais do que imaginei que levaria se algum dia me encontrasse em uma situação dessas, mas mesmo assim não demorei a lembrar do que deveria fazer. Rasguei um bom pedaço da minha blusa e pressionei com força no meu rosto, assim como se ensina em qualquer aula de "Como proceder em uma emergência", e tentei respirar o mais calmamente possível.
Inspirar e expirar. Inspirar e expirar.
O tecido não adiantava de muita coisa, verdade, mas era indiscutivelmente melhor do que respirar diretamente aquela fumaça tóxica e nauseante. Talvez me desse alguns minutos a mais, pelo menos.
Nunca imaginei que teria que enfrentar algo assim algum dia, e até agora eu mal conseguia acreditar. Eu sempre odiei fogo; o simples pensamento de estar próximo ao calor exalado por ele me causava uma sensação desconfortável e fazia eu sentir vontade de conferir para ver se minha pele continuava na mesma palidez de sempre. E mesmo as pessoas que por um motivo ou outro acabavam descobrindo isso, me perguntando o motivo, eu nunca soube explicar direito, porque nem mesmo eu sabia ao certo. Eu não sou nenhum pirofóbico, mas acho que esse meu “desgostar” ultrapassava um pouco a aversão que a maioria das pessoas sente por esse “elemento”, por nenhuma razão específica que eu conseguisse pensar.
Bom, se eu ainda tiver a chance de ouvir essa pergunta, desta vez eu terei uma resposta mais completa para dar.
Porque se estar sozinho em uma sala trancada que rapidamente é consumida pelas chamas flamejantes não for uma boa resposta, então eu sinceramente não sei qual seria.
...
Eu acho que devo estar soando bem mais calmo do que realmente estou, mas isso é um hábito que nem mesmo uma situação dessas é capaz de sobrepor. Eu não estou calmo. Muito pelo contrário. Qualquer um que me visse agora provavelmente não me reconheceria sem minha máscara de calma e distância. Mas também não cheguei ao ponto de entrar totalmente em pânico; começar a gritar desesperadamente não vai fazer nada mais além de acabar com o oxigênio respirável que me resta e fazer minha garganta arder ainda mais. Ainda mantinha um mínimo de racionalidade, obrigado.
Chorar também não vai adiantar de nada, minhas lágrimas não vão conseguir apagar o fogo. Isso é o que a razão me diz, mas meus olhos parecem querer ignorá-la completamente, porque eu conseguia senti-las se acumulando nos meus olhos, e o caminho úmido que deixavam no meu rosto ao escorrer. Umidade esta que logo desaparecia pelo calor que me envolvia, e que também logo era teimosamente formada mais uma vez. Era uma ciclo vicioso.
Então, como chorar, gritar e principalmente, sair correndo em pânico não iam adiantar de nada, só me restava tentar manter o pouco controle que restou em minha mente e pensar em uma maneira de não virar carvão. Afinal, sempre me disseram que deveria tentar manter a calma em toda e qualquer situação, por mais extrema que fosse, e que somente assim eu seria bom o bastante para suceder L...
Mas que fique bem claro: tentar não está nem perto de ser o mesmo que conseguir.
Tentei encontrar uma "rota de fuga" olhando para a sala uma segunda vez, tanto quanto o fogo e a fumaça permitiam, talvez esperando que a surpresa inicial tivesse me escondido alguma coisa, qualquer coisa.
Mas não.
Porta; trancada. Janelas; emperradas desde sempre. Paredes; de concreto.
...
Por mais inútil que fosse, eu senti uma vontade enorme de gritar – já que chorando eu já estava – não importando o estado que minha garganta ficaria, mas eu não o fiz. Acho que mais pelo medo entalado que me emudecia, do que por qualquer razão lógica.
Por que isso foi acabar assim...?
— Near, só desta vez — aquele garoto mais velho pedia enquanto eu mantinha meu olhar totalmente centrado no quebra-cabeças semi-completo à minha frente.
Eu não tinha nada contra ele, que incrivelmente sempre era agradável comigo, independente de querer algo ou não. Mas nem por isso eu faria o trabalho dele. E eu tinha certeza de que ele sabia disso, então por que ainda pensou em pedir?
— Não vai aceitar, Near? – outro do grupo mais velho do orfanato apareceu na porta, com alguns outros o rodeando como se fossem cachorrinhos em volta do chefe da matilha — Você realmente não se importa com os outros, não é? Mas nesse caso eu não posso culpá-lo, afinal, quem iria perder tempo ajudando esse inútil?
O que me fez sentir incomodado não foi a clara provocação dirigida a mim; até porque eu já estava acostumado. Talvez tenha sido a sua atitude superior ou então por ele ter ofendido o outro, sendo que este era um dos poucos que falava mais de três palavras comigo por vontade própria. Qualquer que seja a razão, eu fiquei incomodado. E antes que eu pudesse me refrear, ignorar como eu sempre faço, já estava falando, sem tirar os olhos das pequenas peças brancas.
— Bom, ao menos ele teve a decência de pedir ajuda. Eu soube que alguns garotos tentaram pegar e copiar o trabalho do Mello há alguns dias. Ao que parece, esses são mais do que inúteis, não?
Não estava olhando, mas tenho certeza de duas coisas: uma, o garoto ao meu lado estava se esforçando para conter a risada; e outra, o garoto na porta estava me olhando mortalmente agora.
Também posso jurar que ouvi dedos se estralando.
Eu sabia que tinha sido ele e mais alguns (provavelmente os "cachorrinhos" junto dele na porta) que tinham tentado pegar o trabalho do Mello. E também sabia que Mello chegou bem na hora e quebrou o nariz de dois deles.
Francamente, tentar roubar alguma coisa do Mello e achar que ficaria tudo bem era mais do que idiotice, chegava ao nível de carência de neurônios. Pergunto-me o que eles fazem na Wammy's afinal.
— Near! Você pode vir aqui por um instante? — Linda apareceu na porta também, sorrindo, aparentemente sem notar o clima pesado. Ou quem sabe estivesse apenas ignorando.
Levantei e pude sentir o olhar de raiva me acompanhando até sair da sala, como um ímã.
Eu não imaginava que um simples comentário carregado com um pouco de sarcasmo pudesse resultar nisso.
Bom, agora eu já sei.
Eu procuro nunca ser sarcástico, nunca provocar alguém propositalmente. Sempre pensei que deixar pra lá fosse um método bem mais eficiente, e acho que isso é uma dica para eu continuar pensando desse jeito.
- Mello? — sim, eu estava um pouco surpreso. Talvez mais do que somente “um pouco”, afinal, eram 10h da noite e Mello estava batendo na minha porta. Quando é que isso tinha acontecido antes? Basicamente... Nunca.
— Estou aqui só para dar um aviso — ele parecia... Sem jeito?
Estranho...
— Matt ficou me enchendo o saco para vir falar com você, e eu acabei vindo só pra fazer ele calar a boca — ele tentava se explicar, como se fosse a coisa mais importante do mundo deixar bem claro que só sendo obrigado ele viria falar comigo civilizadamente. Por algum motivo isso não me atingiu, como se lá no fundo eu não acreditasse realmente que fosse verdade. Talvez não passasse de uma esperança sem sentido, enfim — E eu não sei por que eu tenho que ficar servindo de mensageiro para você!
Eu apenas esperei em silêncio ele terminar.
— Aqueles caras mais velhos — isso podia ser um pouco vago, mas eu sabia de quem ele estava falando – Eu ouvi... Quero dizer, Matt... Ah! Esquece! – por que ele parecia tão alterado afinal? – De qualquer forma, tome cuidado com eles — então ele desviou o olhar e falou em um tom um pouco mais alto, propositalmente evitando me encarar — Pronto, aviso dado — e foi embora.
Simples assim.
"Tome cuidado"...
Isso significa que eu vou precisar andar com um extintor de incêndio para todo lugar agora?
...
Não sei por que eu continuo falando como se existisse um "depois". Porque, sinceramente, eu não sei como poderia haver.
Pessimismo? Não. O pouco de pensamento lógico que conseguia se sobrepor à todo o resto apontava todo para esse lado.
O pano que fazia parte da minha blusa já estava se tornando mais inútil do que era no início. Inspirar estava se tornando cada vez mais difícil, e assim que conseguia, começava a tossir. Parecia que o monóxido de carbono ocupava todo o espaço disponível nos meus pulmões, essa tosse parecia fazer minha cabeça girar ainda mais, e a despeito do crepitar ao meu redor, eu conseguia ouvir nitidamente meu peito chiando como se fosse uma chaleira velha.
O ar quente é menos denso que o ar, ele sobe. Por isso desde o começo eu procurei ficar próximo ao chão, tentando prolongar meu estoque de ar e alimentar uma esperança vã de que alguém apareceria para me ajudar. E essa perspectiva parecia mais distante a cada segundo que passava.
Eu estava sentado no chão da sala de brinquedos do segundo andar, montando o mesmo quebra-cabeças do dia anterior, meu favorito, quando vi a porta se abrindo e uma mão jogando desajeitada alguma coisa dentro da sala.
A porta foi fechada rápido e eu ouvi o clic alto da chave fazer eco no silêncio.
E então um barulho muito maior.
Aparentemente essa "alguma coisa" era uma daquelas bombinhas caseiras que são feitas apenas para fazer barulho e assustar os desavisados. Ou seja, elas não deveriam incendiar-se.
Mas acho que eles quiseram (porque eu sabia quem tinha sido, eu não era burro) dar um maior "efeito" e modificaram ela adicionando alguns materiais não recomendados e em proporções menos recomendadas ainda.
Como eu sei disso? Porque levou muito pouco tempo para o fogo ser formado e começar a se alastrar sem demora, já que eles tiveram a capacidade de jogar o negócio direto no castelo em estilo medieval que eu havia construído há algumas horas, feito de palitos de fósforos.
Acho que agora o meu quebra-cabeças está totalmente destruído... Ele tinha sido um presente do L... Provavelmente estava na mesma situação que os restos de bonecos que eu ainda conseguia ver na minha frente, e que agora não passavam de pedaços retorcidos e enegrecidos de plástico.
Eu não sou um exímio seguidor de regras como muita gente acha; eu apenas não vejo tanta graça quanto os outros em quebrá-las. Mas tem uma regra que eu acho que todos deveriam seguir: “Jamais soltar ‘brinquedos’ explosivos em locais fechados”. E principalmente, não em um dia de inverno como este, onde o ar seco poderia muito bem transformar uma mínima fagulha perto das árvores, em um desastre ambiental.
Essa é uma boa regra, por que não prestam atenção nela? Poderia evitar que eu estivesse nessa situação de agora.
...
Minha consciência parecia estar começando a me abandonar... Eu não sentia mais a temperatura elevada, ou o peso no meu peito, nem mais meus olhos ardendo. Mas estranhamente, mesmo assim eu me senti sendo envolvido por algo. Algo que rodeou meu corpo e o apertou forte, de forma protetora, quase como se me carregasse para algum lugar.
Pareciam... Braços?
Não, isso seria impossível... Talvez a situação extrema na qual me encontrava estivesse finalmente afetando o meu discernimento da realidade. Não duvido. Uma prova é que por um segundo inteiro imaginei se não seria alguma entidade maior me levando para longe dali, para o lugar que Linda dizia que todos iríamos um dia. Nunca tinha acreditado nela, mas quem sabe...
...
-...
Parecia que tinha alguém me chamando...
-...ire!...ear!
Estava tão distante, seria mesmo...?
— Near! Ei, respire! Near!
... Quem...
— Mas que merda! Near!
Foi como um choque quando eu senti o ar entrar e sair novamente nos meus pulmões. Parecido com alguém que esteve muito tempo debaixo da água e finalmente consegue emergir, mas muito mais doloroso e menos prazeroso. Eu estava mais tonto do que nunca e minha cabeça doía muito, sem falar nos meus membros doloridos e na minha garganta insuportavelmente seca e áspera. Nunca tinha me sentido pior em toda minha vida, e parte de mim desejou ter continuado naquele estado de “nada” por mais tempo.
Quando eu consegui parar de tossir um pouco, o suficiente para conseguir olhar em volta com a minha visão embaçada e turva, me surpreendi por não estar mais tudo brilhando em chamas vermelho alaranjadas. Ao invés, tudo o que eu encontrei foi o verde. O verde escuro e vivo que jamais me pareceu tão atraente quanto agora.
Eu estava no jardim.
Mas... Como?
Foi então que eu me dei conta da voz. A voz que continuava me chamando sem parar, a voz que tinha me trazido de volta. Eu demorei um pouco para conseguir focar em quem estava na minha frente, e mesmo assim a "qualidade" da minha visão não estava 100%. 65% talvez. Mas mais do que o suficiente para reconhecer quem era.
— Me... Mello?... — minha voz soou muito estranha aos meus ouvidos e aquele simples esforço foi o suficiente para me fazer voltar a tossir.
Era realmente Mello. Ele... Ele tinha me tirado de lá? Como? Por quê?
Seu cabelo loiro estava um pouco chamuscado, seu rosto estava sujo e acho que sua roupa também não estava nas melhores condições.
Mas o que mais me surpreendeu foi a expressão dele. Não conseguia focar direito, mas aquela expressão...
Tentei ver melhor, mas minha cabeça doía muito e ao fechar minhas pálpebras pesadas, na intenção apenas de espantar as lágrimas e tentar limpar um pouco a visão, foi mais forte do que eu. Só lembro de ouvir uma espécie de sirene ao longe e depois mais nada.
~*~
Abri os olhos com um pouco de dificuldade, incomodado com a luz que sentia mesmo através das pálpebras, e nos primeiros instantes tudo não passava de um grande borrão para mim.
— M-Mello... — falei, estranhando minha voz sair tão fraca e baixa assim.
Sim, eu o estava chamando porque eu me lembrava dele pouco antes de tudo apagar. E principalmente, porque eu reconheci sua silhueta bem ao meu lado assim que minha visão se ajustou o suficiente para isso.
Sentei-me devagar na cama, ficando satisfeito por conseguir. Pelo menos minha cabeça parou de girar. Eu não reconhecia aquele lugar, mas não era preciso pensar muito, nem reparar na abundância de cores claras, para concluir que eu devia estar em um hospital.
Encarei o loiro sentado ao lado da cama, estranhamente em silêncio. Um silêncio que eu nunca esperei ver envolve-lo.
— Mello? — chamei uma segunda vez, percebendo que mesmo aos poucos o volume normal da minha voz não voltava. Parecia ter algo prensando meu peito – ainda pesado, mas não mais de uma forma dolorosa como antes – e uma mão ameaçando se fechar na minha garganta, forçando-a a realizar o mínimo esforço possível.
— Eu dei aquele aviso à toa? — eu não podia ver seu rosto, escondido como estava pelos seus cabelos, um pouco mais curtos do que o normal, mas aquilo não pareceu exatamente uma bronca. Sua voz estava baixa demais para ser.
Eu não reconhecia aquela pessoa, eu não reconhecia esse Mello que falava baixo e parecia evitar me encarar. Olhei para baixo, para as mãos dele fechadas em punhos em cima das pernas. Estavam marcadas. Ele...
— Você se queimou.
Deixei escapar, e antes que pudesse sequer pensar no que estava fazendo, ou nas consequências que apareceriam, estendi as minhas próprias e encostei nas dele. Senti a pele morna, cada traço das linhas escuras que as marcavam agora, cada contorno que não deveria estar ali. Uma pequena parte do meu cérebro percebeu algo no mínimo inusitado, mas o restante não prestou muita atenção naquele momento. Ele não fugiu do contato.
— Você se queimou – repeti tolamente.
Eu deveria me desculpar? Ou agradecer primeiro? Eu não sabia, eu não fazia ideia do que deveria fazer, ou falar. O que eu deveria...
Mas antes que eu me desse conta, aquelas mãos enfim se afastaram das minhas e foram parar nas minhas costas, ao mesmo tempo que seus braços envolviam fortemente o meu corpo. Eram os mesmos braços que me tiraram do incêndio, essa sensação...
Mello estava... Me abraçando? Ele? Mello?
Acho que eu inalei fumaça demais.
— Idiota, idiota, idiota... — ele falava baixo com o rosto perdido na curva do meu pescoço, sem me soltar, a voz ficando um nível mais baixa a cada "idiota" pronunciado.
O que... O que era isso? Mello estava realmente... Preocupado comigo? De verdade?
Isso era algo que eu sempre considerei tão improvável, algo que eu precisava refrear o desejo que não o fosse, que agora, quando a realidade parecia estar querendo me provar o contrário, estava sendo difícil de processar. Quero dizer, quais eram as chances disso acontecer? Sempre achei que quase nulas, então por que agora...
— M-Mello...? — eu me sentia um idiota sem saber o que falar.
Ele não disse mais nada, apenas me apertou mais forte e quando eu percebi, eu também erguia meus braços e fazia o mesmo. Quantas vezes eu imaginei como seria? Quantas vezes eu me recriminei por continuar imaginando? E agora...
Mello está tão perto...
Senti o rosto dele se desencostar de mim e me deparei com os olhos muito azuis me encarando de uma maneira que não sabia definir. Eu não conseguia ler sua expressão, era como se ele vestisse uma máscara impenetrável que eu, por mais que tentasse, não conseguisse atravessar. Quando os papéis tinham se invertido? E seus olhos... Nunca os tinha visto assim tão azuis antes.
Estava totalmente perdido neles, e só despertei quando Mello encostou sua fronte na minha com um suspiro pesado ainda mais indecifrável.
— Não se atreva a fazer isso de novo... – ouvi ele dizer baixo, tão baixo, que era como se estivesse falando consigo mesmo.
— Mello? – repeti esperando que ele voltasse a olhar para mim. Não voltou – Obrigado.
— Idiota...
Eu queria perguntar o porquê dele ter feito o que fez, e o motivo dele estar assim tão próximo de mim agora, mas de repente me dei conta de que não importava. Pelo menos não neste momento. Não agora onde algo que eu sempre desejei tão imensamente, e sempre considerei tão impossível, parecia estar se realizando como um presente. Não, realmente não importava.
Obrigado, Mello...
Fale com o autor