Em Busca do Oculto
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Senti o toque suave das patas de Suzi no meu braço, olhei o despertador e ainda faltavam dez para sete, bufei, era segunda-feira, mais uma semana começava, e eu estava com a mesma animação de sempre. Senti o cheiro das panquecas da minha avó e consegui emitir um sorriso, aquelas panquecas eram simplesmente apaixonantes. Acariciei a cabeça do felino que me olhava com cara de carente e me levantei, calcei as pantufas e fui em direção ao banheiro. Olhei o espelho e vi a mesma cara de sono, o mesmo rosto fino com profundas olheiras, eu era assustadora de manhã. Escovei os dentes e fui em direção ao chuveiro, a água quente relaxava meus músculos e fazia minha mente viajar a um universo distante. Molhei meus longos cabelos lisos e extremamente secos, fazia tempo que não cuidava deles da forma como devia, o que era um descaso da minha parte, já que sempre fui dona de belos fios, minha avó diz que herdei os cabelos de minha mãe, pretos como o céu negro da madrugada e lisos como o mais fino fio de nylon. Terminei o banho e fui em direção ao meu guarda-roupas, que não guardava nenhuma peça especial ou extremamente elegante, vesti minhas calças surradas, uma blusa branca e minhas jaquetas jeans que traziam o logo da minha banda favorita atrás, calcei meus tênis vermelhos, já sujos de tanto uso, prometi a mim mesma que iria lava-los esse fim de semana, mas mais uma vez quebrei uma promessa.
Desci as escadas correndo, e me deparei com minha avó passando o café em um coador de pano remendado, prometi a ela que iria comprar um novo, mas me esqueci por completo.
− Bom dia vovó. – Disse depositando um beijo em sua bochecha ao passar ao seu lado. – Sei que prometi comprar o coador novo, mas me esqueci, prometo que compro depois da aula.
− Bom dia querida, tudo bem, este ainda passa bons cafés. – Ela disse com sua voz doce. A voz que eu mais amava ouvir de manhã.
Durante toda minha vida, vivi com minha avó, não conheci minha mãe, nem minha avó a conheceu, ela simplesmente me deixou na porta dessa casa, com uma foto em cima, na foto havia uma bela mulher, na qual consigo enxergar traços quando olho no espelho, havia também uma carta, que dizia o tamanho do seu amor por mim, e que sabia que aquela senhora me daria a melhor das educações, e desde então eu criei uma admiração enorme pela dona Eleonora Bessin, minha avó adotiva, da qual me orgulho muito. Vovó me disse que eu fui o maior presente dela, porque eu cheguei para colorir a vida dela, minha avó não tem filhos, ficou viúva muito cedo e não quis se casar de novo, eu fui um presente enviado dos céus para ela, trazendo enorme alegria ao seu coração.
− O seu café sairia maravilhoso até se fosse passado em uma meia dona Eleonora. – Eu disse e ela riu, aquela era a risada mais gostosa do mundo.
− Uma meia minha filha? Creio que não seria possível. – Ela disse e me entregou uma xícara com café e um prato com as melhores panquecas. – Agora coma querida, você tem um dia cheio hoje. – Sorri e comecei a me deliciar das melhores panquecas do mundo.
Eu realmente teria um dia muito cheio, a escola era cansativa de mais, e após ela eu ainda trabalhava em uma locadora até as oito da noite, um horário perigoso para alguém que mora em um bairro pobre da Carolina do Sul, mas eu já estava acostumada, era isso ou passar fome, o salário de minha avó não era nada grande, e só davam para a compra mensal e algumas contas não muito altas, o que nos salvava era o salário que eu ganhava na locadora e a merreca que a vizinha me pagava por olhar seus filhos no fim de semana. Algumas vezes sobrava alguma coisa e eu conseguia me presentear com algum livro ou disco.
Terminei de comer e fui para a escola, ou melhor, para o inferno. Aquele lugar me causava pânico, olhar aquelas meninas nojentas se esfregando em garotos medíocres me causava repulsa. Mas eu sabia que era algo necessário, e não duraria para sempre. Eu tinha meu grupinho, a galera do meio termo, que estudava e curtia ao mesmo tempo, e sim isso é possível.
Avistei de longe Virginia e Erick, meus melhores amigos, com eles estavam Oliver, namorado de Virginia, Charlie, um novato que tirava o fôlego de qualquer uma, mas que atirava para o mesmo alvo que eu, Soraya que tentava de todos os meios ter a atenção de Erick, e ele, meu sonho de consumo, John, o cara mais lindo do grupo, e o mais cachorro também, mas eu não me importava nem um pouco com isso, ele me cumprimentou com um selinho e voltou sua atenção ao que Soraya contava. Eu e John não tínhamos um relacionamento serio, mas às vezes a gente se pegava nos corredores e intervalos de aula.
− E ai pessoal, o que ta rolando? – Eu perguntei vendo a agitação.
− Soraya está contando sobre a vergonha que passou no aniversário de seu irmão por parte de pai. – Virginia disse.
− Não foi isso, eu só bebi um pouco alem do que devia e dancei em cima da mesa. – Soraya dizia rindo de si mesma.
− Meu Deus amiga. – Eu disse rindo.
O som estridente do sinal tocou e nós fomos em direção a aula, Virginia subiu de cavalinho em Oliver que resmungou algo como “Você engordou”, e foi estapeado pela namorada revoltada. Eu entrei rindo com Soraya, que ficou de lado assim que John passou o braço por meus ombros, fomos conversando sobre a avaliação de filosofia, na qual eu gabaritei.
Adentramos a sala e eu logo vi um sujeito sentado no meu lugar, ele era alto, tinha cabelos longos que iam até o meio das costas, eram em um tom de castanho não muito escuro, seus olhos tinham cor de mel, e seu rosto era quase perfeito, tinha um físico bem estruturado, não era muito forte, mas suponho que praticava algum esporte.
− Oi novato, se importa de trocar de lugar? Minha garota costuma se sentar ai. – Ouvi John dizer isso e na mesma hora me manifestei.
− Não, eu sento aqui perto da janela John, ele não sabia. Amanhã a gente troca de lugar. – Disse e segui para perto da janela, onde havia uma carteira vazia. Ouvi John resmungar algo, mas não consegui entender, estava hipnotizada com a beleza daquele garoto.
Ele não disse uma palavra, mas seu olhar tinha um mistério, algo diferente, algo que me deixava intrigada.
A aula correu normalmente, o garoto foi apresentado a sala como Daniel Stone, escrevi seu nome em minha agenda para depois procura-lo nas redes sociais. Era hora do almoço, fomos em direção ao refeitório, eu e minhas amigas avistamos os garotos em uma mesa, achei que Daniel estaria com eles, mas diferente disso, ele estava sozinho encostado na janela do refeitório, olhava atentamente para fora. Pude então notar o que ele vestia, uma calça preta, coturnos e uma camisa preta também, usava um cinto com spikes, e braceletes de couro, seu cabelo deixava seu estilo bem dark, e eu gostava daquilo, decidi que iria até lá.
− Chris, não vem com a gente? – Ouvi Virginia me chamar.
− Depois eu vou Gini. – Gritei.
Fui em direção à janela e parei ao lado dele, que me olhou e voltou à atenção à janela.
− Oi Daniel. – Eu disse olhando para o mesmo lugar que ele.
− Ola Christie. – Ele respondeu seco. Sua voz era calma, passava algo bom.
− Gostou da escola? – Perguntei tentando puxar assunto.
− Sim. – Ele disse somente isso. – Seu namorado não liga de você estar aqui? – Perguntou olhando John, que nos encarava.
− John não é meu namorado, a gente só fica às vezes, e não estou fazendo nada de mais. – Eu respondi.
− Ah, entendi.
Ficamos quietos por um tempo, observando o jardim, havia casais se abraçando, meninas fazendo unha, outras comendo frutas, mas algo entre as árvores me chamou a atenção. Havia um corvo, mas aqui não era comum ter corvos.
− Um corvo! – Eu apontei.
− Estou vendo, o que há de mais em um corvo? – Ele disse no mesmo tom calmo do inicio da conversa.
− Nada, só que não é comum Corvos aqui. – Eu disse meio amedrontada.
− É só um corvo, não há nada de mais. – Ele disse com um sorriso. Um belo sorriso, um dos mais lindos que já vi. – Vamos pra aula Christie.
Seguimos para a sala, por uma coincidência teríamos as mesmas aulas durante o resto do dia. Pude notar que Daniel não estava muito a vontade, imaginei que fosse pelo fato de eu ser uma menina e ter um suposto namorado, mas não toquei no assunto.
− Curte Skid Row? – Ele perguntou olhando o logo da banda na minha jaqueta.
− Sim, é a melhor banda de Hard Rock pra mim. E você? Não curte?
− Só algumas musicas, eu não costumo ouvir Hard Rock, prefiro Black Metal, Heavy Metal e tal. – Ele disse
− Tipo Mayhem e Cannibal Corpse?
− Isso, você escuta? – Ele perguntou animado.
− Algumas músicas sim, umas três na verdade.
− Interessante.
O Silencio reinou novamente entre nós. Daniel parecia ser uma pessoa incrível, mas ao mesmo tempo eu sentia que ele tinha um segredo muito forte, e que precisasse esconder aquilo do mundo, ele era muito misterioso. Mas me sentia bem perto dele, era estranho ainda, acho que por ser o primeiro dia dele.
− Foi mal por ter sentado no seu lugar hoje de manhã, eu não sabia. – Ele se desculpou.
− Não tem problema, podemos sentar em dupla amanhã. – Eu disse.
− Acho que seus amigos vão se sentir trocados se você largar eles.
− Não se eu te apresentar a eles, sério, vocês vão se dar super bem. – Comecei a falar sobre meus amigos e conforme descrevia cada um ele tinha uma reação, riu das bobagens que Soraya faz, se irritou com algumas atitudes de John, sentiu por Charlie não conseguir se assumir Gay para os pais, e ficou feliz ao ouvir a história de Oliver e Virginia.
A aula acabou e nós saímos juntos, fui até meu pessoal e os apresentei a Daniel. Todos foram muito simpáticos, exceto John, que se mostrou um pouco enciumado, mas fingi não ver.
Era hora de ir pra locadora, Daniel disse que era caminho da casa dele e foi comigo até lá, deu uma olhada em alguns filmes, levou alguns que eu recomendei e disse que amanhã me contaria o que achou.
As horas passavam lentamente, um filme no computador me distraia, mas me cansava também, sei que não o assistiria se tivesse escolha, mas parte do trabalho de uma locadora é assistir os filmes para recomenda-los aos clientes, e esse eu não recomendaria a ninguém.
Nem percebi quando um homem entrou na locadora sussurrando algumas palavras, das quais eu mal conseguia ouvir, ele usava um casaco com capuz preto, calças jeans e tênis, tinha uma barba grande e acinzentada. Ao se aproximar de onde eu estava abaixou a cabeça, não conseguia ver seus olhos, suspeitei que fosse um assalto e já comecei a abrir o caixa, quando ele tocou meu braço e eu entendi que era para parar.
− Posso ajudar? – Perguntei, tentando disfarçar meu medo perante aquela situação.
O homem nada disse, somente pegou minha mão direita, tirou algo do bolso e o depositou nela.
− Cuidado com quem anda ao seu redor, abra seus olhos, enxergue além do horizonte, descubra quem você é e o seu potencial. Isso irá te proteger em sua jornada, escute seu coração, sua mente te engana e você só tem a ele, e ele somente a você. – O homem disse e fechou minha mão, se virou e saiu da locadora.
− Então ta! – Foi a única coisa que eu consegui dizer.
Abri a mão para olhar o que havia de tão importante lá, e ali havia um colar, não um colar comum, era um relicário, aqueles colares que você abre o pingente e geralmente há uma foto de um familiar ou algum texto gravado. Era lindo, a corrente de prata muito bem desenhada, se esticava com o peso do pingente, que era redondo, prata com alguns desenhos em preto, desenhos rústicos e ao mesmo tempo muito delicados. Fiquei curiosa para abrir o relicário, mas o medo foi maior, aquilo não era meu, e provavelmente aquele homem era um esquizofrênico. Decidi que guardar o colar e leva-lo á delegacia no dia seguinte era o melhor a se fazer.
Olhei o relógio e vi que já podia ir pra casa, fechei a locadora, peguei minha mochila e fui em direção a minha casa, fui pensando sobre o que aquele homem me disse, milhares de teorias passaram pela minha mente, desde esquizofrenia a satanismo, algo muito comum hoje em dia, quanto mais pensava, mais tinha certeza de que devia me livrar daquilo. Pensei em mostrar aos meus amigos, mas imaginei que iriam rir e fazer piadas, como sempre, eu me sentia na obrigação de mostrar a alguém, como se aquilo fosse muito necessário, era como se eu devesse compartilhar esse presente, e eu sentia que havia uma pessoa certa, mas quem seria essa pessoa? Minha mente me dizia pra me desfazer daquilo, mas algo em mim dizia que aquilo realmente pertencia a mim.
Cheguei em casa e minha avó já dormia, todos os dias eu chegava e ela já estava deitada, olhei a mesa e havia um prato coberto, ao lado dele um bilhete:
Fiz bolo de trigo, coma o quanto quiser, há chá de erva doce no armário, o coador não aguentou o ultimo café. Tenha uma boa noite, te amo. Vovó.
Sorri ao ler o bilhete e lembrei que havia me esquecido de compra o coador novamente, imaginei que minha avó não iria se irritar e nem se magoar comigo, mas sabia como ela gostava de tomar café de manhã, era parte de sua rotina, seria muito mal da minha parte quebrar a rotina de uma senhora por culpa de minha cabeça distraída.
Olhei o relógio e vi que eram quinze para as dez da noite, o mercado da esquina ainda estava aberto, pensei em como seria arriscado, mas minha culpa me fez pensar que nada poderia acontecer. Peguei o dinheiro que estava na bolsa e saí em direção à esquina. Não havia ninguém mais na rua, somente alguns adolescentes fumando e bebendo, alguns casais que esperavam essas horas para dar uns “amassos” dentro do carro ou próximos a uma creche que havia ali. Entrei no mercado, procurei o coador e assim que achei me apressei em pagar e ir pra casa.
Ao sair me surpreendi com o fato de não haver mais nenhuma pessoa na rua, nem mesmo as que estavam lá antes, eu não havia ficado mais que vinte minutos dentro do mercado, e todos já haviam sumido. Havia somente um gato, do qual eu não conhecia, ele era preto, tinha os olhos amarelos e brilhantes, imaginei que fosse um animal perdido, me aproximei para acaricia-lo e ele correu em direção a um carro, em um impulso me vi seguindo animal, que pulou em cima do carro e se sentou no teto. Parei quando o vi.
− Ué, o que faz ai gatinho? Esse carro é do seu dono? – Disse fazendo um carinho em sua orelha.
Impulsionada pela curiosidade resolvi olhar pelo vidro para ver se encontrava algo dentro do carro que denunciasse o seu dono. Não havia nada dentro do carro, mas havia algo fora dele, olhando meu reflexo no vidro pude ver que atrás de mim, a alguns metros, havia uma mulher, encostada no muro, olhando fixamente para mim. Virei-me para olhar a mulher e senti meu corpo estremecer, ela não estava lá, ninguém estava lá, olhei para o teto do carro e nem mesmo o gato que estava deitado observando meus movimentos estava lá, ele simplesmente desapareceu no silencio daquela noite.
Com o coração acelerado e o corpo tremendo, corri em direção a minha casa, sem ao menos olhar para trás. Quando cheguei, entrei rapidamente e tranquei todas as portas e janelas. Tomei uma caneca de chá, comi um pedaço de bolo e consegui me acalmar, subi as escadas, dei uma olhada no quarto de minha avó e ela estava lá, dormindo, como um anjo, agradecida por ela existir, suspirei e fui em direção ao banheiro, tomei um banho, ainda processando tudo que havia ocorrido no dia, desde a chegada de Daniel até o episódio assustador que me ocorrera a alguns minutos atrás, deitei em minha cama, ainda pensando no reflexo que havia visto no carro, comecei a me fazer perguntas e tentar responde-las era o mais difícil, o que era aquilo? Porque eu havia visto? Seria minha imaginação? Algum sinal? Será que havia algo para acontecer? Nenhuma resposta me vinha à mente, e meus olhos lutavam comigo, acabei vencida pelo sono.
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