Em Busca do Oculto
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Meus olhos se abriram e eu fitei o céu azul acima de mim, eu usava um vestido longo e preto, estava deitada, em um jardim, um lindo jardim com flores vermelhas, me levantei e comecei a caminhar por entre as flores, admirada com tamanha beleza. Senti alguém puxar meu braço, me virei para olhar me deparei com ele, os olhos num pavor enorme, olhei para seu corpo e havia sangue em sua roupa, ele estava ferido, eu me apavorei, mas era tarde, seu corpo tocou o chão que já não era mais florido, olhei minhas mãos e nelas estavam o seu sangue. Fitei o lugar ao meu redor, e não era mais o mesmo. O céu estava negro, o antigo jardim florido,agora era um cemitério aberto, com diversos corpos caídos á minha volta, lá estavam todos que um dia fizeram parte da minha vida. E eu estava marcada, com o nome de cada um.
...
Acordei em um pulo, assustada com o pesadelo que acabara de ter, levantei correndo e desci as escadas, não havia ninguém na sala, subi novamente, abri a porta do quarto de minha avó e suspirei aliviada ao ver que ela ainda dormia, então tive certeza de que aquilo foi somente um sonho.
Tomei um banho e me arrumei para a escola, o dia estava quente, então me atrevi a colocar um vestido de estampa indiana com um casaco fino por cima, era outono e eu era uma pessoa que sentia muito frio, então saía de casaco mesmo em dias de sol. Desci as escadas e comecei a fazer o café, já que ainda era cedo, sei que dona Eleonora provavelmente se sentiria mal por eu ter feito algo que ela se sente na responsabilidade de fazer, mas não iria me arrancar um braço fazer o café hoje.
− Já acordada querida? – Ouvi a doce voz que me acompanha desde que me conheço por gente.
− Bom dia vovó! Fiz o café pra senhora hoje. – Eu disse e lhe dei um abraço rápido.
− Christie, não precisava. – Ela disse com um sorriso. −Você já tem tanto para fazer.
− Vovó! Já conversamos antes e eu já disse que não me incomodo.
Ela sorriu e eu me despedi, decidi ir para aula mais cedo, na esperança de encontrar com Daniel antes do pessoal chegar, queria conversar com ele, a respeito do que aconteceu no dia antecedente e sobre o sonho, no qual ele fazia parte.
Quando cheguei, a escola ainda estava fechada, decidi me sentar na escada que havia em frente à entrada, e comecei a observar tudo ao meu redor, havia arvores, flores. Parecia um lugar calmo. Era diferente, não parecia aquele lugar infernal, cheio de pessoas vazias, que só querem o mal umas das outras, parecia um lugar de paz, onde eu podia ser o que eu quisesse. Notei entre as arvores a presença do mesmo corvo que nos observava ontem, aquele corvo era extremamente estranho, era um animal, mas a profundidade do seu olhar fazia com que eu me sentisse vigiada por ele.
Algum tempo se passou e avistei Daniel, usava uma calça jeans com alguns rasgos no joelho, uma camisa vermelha com um pentagrama invertido estampado. Achei bonita e ao mesmo tempo cômica, era como dizer “sou rebelde”. Seu cabelo estava solto e se movimentava com a brisa leve que soprava.
− Christie? Está um pouco cedo, não acha? – Ele disse sentando-se ao meu lado.
− Sim, eu decidi vir mais cedo para ver se te encontrava. – Respondi meio envergonhada.
− Me encontrar? Pra que? Aconteceu algo? – Ele soou meio preocupado.
− Não! Quer dizer, sim, mas não nada sério. Ta talvez seja sério. Mas talvez seja somente uma bobeira. – Eu disse tão rapidamente que mal consegui entender minhas palavras.
− Christie, primeiro se acalme. – Ele me interrompeu. − Organize seus pensamentos e me conte o que aconteceu.
Eu puxei o colar do bolso e notei seus olhos brilharem ao vê-lo. Comecei a contar sobre o homem na locadora, sobre o colar, sobre a ida ao mercado e sobre o sonho, mas escondendo sua participação no mesmo, ele me ouvia atento, quando percebi a escola já estava lotada.
− Christie, isso é muita coisa! – Ele disse.
− Eu sei, e sei que parece ser mentira, mas eu juro que não estou louca.
− Acredito em você. – Sorri ao ouvi-lo.
− O que eu faço com isso? – Disse segurando o colar no ar.
Ele me dava arrepios, me causava sensações estranhas, e ao mesmo tempo me atraía, eu queria ficar com ele, mas não podia.
− Use-o, eu não costumo acreditar em seres supremos, mas tenho certeza que ele pertence a você. – Ele me disse com convicção.
Suas palavras me deram a certeza de que eu realmente queria usa-lo, no mesmo momento então o coloquei, e combinei com Daniel que diria a todos que foi um presente dele, para não me acharem louca por usar algo que um estranho deixou na locadora.
Meus amigos chegaram e se aglomeraram no mesmo lugar de sempre. Convidei Daniel para ir até lá comigo, mas ele preferiu ir para a sala, então nos despedimos e o disse para guardar um lugar para mim ao seu lado. Fui até meus amigos e eles estavam super animados.
− Oi pessoal. – Eu disse.
− E ai Chris. Vi que curtiu o novato em. – Virginia disse com um cigarro entre os dedos.
− Ah, Daniel é legal. – Disse pegando o cigarro de sua mão e dando uma tragada.
− Hum, será que John está ganhando um substituto? – Soraya se pronunciou.
− Eu jamais seria substituído por aquilo! – John disse se defendendo. Algo em suas palavras me deixou extremamente irritada, John sempre foi lindo e me deixava louca somente com um olhar, mas seu jeito me irritava profundamente, sempre desprezando tudo a sua volta para se sentir melhor.
− Mas você se acha tanto não é? – Eu disse soando mais nervosa do que queria parecer.
− A princesa você sabe que eu tenho razão em me achar. – Ele disse debochando.
− Razão por quê? Acha bonito ser um babaca? – Eu disse grosseira.
− Que isso Chris? Ele ta só brincando! – Erick entrou no meio.
− Não Erick! Você sabe que ele não está só brincando. – Eu aumentei o tom. − Eu to cansada dele desprezando todo mundo, diminuindo qualquer um que chega nessa escola. Que merda John! – Eu gritei e fui em direção á escola.
− Princesa calma, eu não quis ofender seu amiguinho. – Ouvi sua voz em meio a risos e não consegui me conter, mostrei o dedo do meio pra ele e saí.
Entrei na escola bufando, quem ele pensa que é? Agarrei meu colar e fui pra sala, Daniel estava lá, me sentei ao seu lado e sorri.
− Está tudo bem? – Ele perguntou.
− Sim! – Eu respondi com um sorriso.
Os alunos começaram a entrar e vi minha galera entrando, John passou por mim e sentou-se no fundo da sala, Virginia e Soraya sentaram juntas, atrás de Daniel e Eu. Senti as mãos de Virginia em minhas costas como um “relaxa amiga” e sorri para ela. A aula de Geometria correu bem, mesmo com minhas dificuldades eu estava indo bem. A próxima aula era Literatura e eu não teria a incrível companhia de Daniel. Despedi-me dele e fui em direção a minha sala, me sentei na terceira carteira, e logo avistei John entrando, revirei os olhos e abaixei a cabeça. Eu sabia que amanhã já estaríamos bem, mas eu não daria o braço a torcer.
Era hora do almoço e avistei Virginia e o Pessoal na mesma mesa de sempre, mais longe no mesmo lugar de ontem, perto da janela, estava Daniel, e eu segui em sua direção.
−Oi Christie. – Ele parecia mais solto que as outras vezes que conversamos.
− Pode me chamar de Chris. Todos me chamam assim. – Eu disse sorrindo.
− Ok Chris! – Ele disse com um sorriso tímido. − O que houve com seu namorado? – Ele disse ao ver John nos olhando com uma expressão nada agradável.
− John não é meu namorado! – Eu disse revirando o olho.
− Mas parece, ele te trata como uma propriedade. – Ele disse fazendo cara de nojo.
− Claro que não, ele me trata super bem.
− Ah Christie, não precisa mentir pra defender ele não. – Ele soou meio grosseiro.
− Eu não estou mentindo, só estou dizendo que ele não me trata como propriedade. – Eu continuei dizendo, até ser interrompida por uma das lideres de torcida.
− Oi novato gatinho, oi Christie, aqui está o convite pra festa de comemoração do time de basquete por mais um ano ganhando os jogos da cidade. – A menina loira, da qual eu não sabia o nome, colocou dois papéis decorados em cima da mesa. − Espero ver vocês lá, vai ter bastante Rock’n Roll, não vai ter graça sem vocês.
Ela saiu e eu dei uma olhadinha para Daniel, que pegou um dos papéis, nem sequer olhou, amassou-o e o jogou em direção a lixeira mais próxima.
− Qual é? Uma festa, bebidas, garotas, musica boa. Vamos? – Eu disse indignada com a reação dele.
− Eu não curto muito festas Christie. – Foi somente o que ele disse.
− Vamos, por favor? – Eu pedi fazendo biquinho.
− Eu vou pensar! Prometo. – Ele disse e eu soltei um riso.
Era incrível como a companhia dele me fazia esquecer tudo, eu não pensava em nada, somente em curtir o momento, em curtir cada detalhe dele.
A aula acabou e na saída eu vi a cena mais ridícula de todo o universo, John estava no maior amasso com Heloise, uma garota que me odiava, e que eu compartilhava do mesmo sentimento. Aquilo me deixou mais do que irritada, nós não tínhamos nada sério, mas prometemos respeitar um ao outro, e não pegar ninguém da escola. E ele estava lá, beijando a menina que eu mais odiava. Passei por eles batendo os pés e fui em direção á minha casa, hoje era minha folga, o melhor dia da semana.
Adentrei minha casa e segui para meu quarto, minha avó havia saído, nem me preocupei em saber para onde, ela tinha algumas amigas e gostava de visitar abrigos de animais, também passava horas no cemitério local, visitando o túmulo de seu marido, ela costuma dizer que pode sentir a presença dele, eu nunca acreditei, sempre achei que fosse coisa da idade, mas conforme fui crescendo meus conceitos mudaram. Muitas vezes me sentia sem rumo, perguntando o motivo da minha existência, querendo saber por que certas coisas aconteciam comigo, e sempre ouvia uma voz na minha cabeça dizendo “você é especial” por um tempo achei ser minha consciência, mas depois de um tempo, comecei a pensar na hipótese de ser minha mãe, me guiando pelos caminhos da vida.
Deitada em minha cama comecei a pensar em John, em nosso “relacionamento”, em como era ridículo, estávamos juntos desde o começo do ano, sete meses, eu alimentando esperanças de que um dia pudéssemos ter algo sério, enquanto ele me iludia. Comecei a pensar em todas as decepções, pra mim ele era meu príncipe, mas pra ele eu era só mais uma, eu realmente merecia isso? Eu não preciso das migalhas de um amor mal construído.
Passei a mão no meu celular e liguei para Daniel.
−Alô?
− Daniel?
− Sim, quem está falando?
− É a Christie! Ta ocupado?
− Oi Chris! Não estou no maior tédio.
−Bóra dar uma volta? Quero te levar pra conhecer uns lugares!
− Que lugares?
− Me espera em frente à escola, em meia hora passo lá.
− Ta bom!
Desliguei o celular e fui me arrumar, eu não iria ficar sofrendo por um cara que provavelmente estaria agarrado com a primeira que apareceu. Eu vou viver a minha vida. Coloquei uma calça jeans com rasgos na perna, uma regata colada vermelha, meus coturnos pretos e uma jaqueta de couro, graças ao trabalho dos fins de semana eu conseguia comprar umas roupas melhores. Fiz uma maquiagem leve nos olhos, e caprichei no batom escuro, que era algo que eu amava. Coloquei o colar no pescoço, decidi apelida-lo de “o amuleto”, e coloquei a pulseira que minha avó havia me dado. Meus cabelos estavam soltos e me davam um ar gótico. Deixei um bilhete em cima da mesa dizendo que voltaria tarde, e pedi pra ela não se preocupar.
Pedi a picape da vizinha emprestada, eu não tinha tirado minha habilitação ainda, mas já eram quase oito da noite, e a fiscalização já não era tanta naquela hora. Cheguei à escola e Daniel estava lá, usando uma calça preta, uma camisa branca do Black Sabbath, estava com coturnos parecidos com os meus, mas masculinos, seu cabelo estava solto, e seu braço esquerdo trazia uma pulseira de spikes preta. Ele estava lindo, ele era lindo.
− Está atrasada! – Ele disse olhando o relógio. Seus olhos me analisaram de baixo á cima, até pararem nos meus olhos.
− Entra logo! – Eu disse e ele se sentou ao meu lado no carro.
− Você tem carteira? – Ele perguntou enquanto colocava o cinto.
− Não. – Eu disse rindo.
− Meu Deus! – Ele disse e eu dei partida no carro.
Liguei o som e coloquei um CD da banda Tesla, a música embalava o momento, eu estava seguindo pela avenida principal, em direção à divisa da cidade, a alta velocidade fazia meus cabelos balançarem. Daniel ria do modo como eu dirigia. Parei em um posto de gasolina, enchi o tanque da picape e comprei uma garrafa de Vodka, umas cervejas e uns doces, eu estava decidida a me divertir.
Entrei na picape e fui em direção ao meu destino, começou a tocar Little Suzi, eu e Daniel começamos a cantar a música em alta voz. Nós riamos como duas crianças, sem nos importarmos com o que viria dali pra frente, pensando unicamente em curtir o momento, era eu, ele e a música.
− Onde estamos indo Chris? – Ele perguntou assim que encostei o carro.
− Continuaremos andando daqui pra frente, o carro não chega até a montanha. – Eu disse apontando o topo da montanha.
− O que vamos fazer na montanha? – Ele perguntou olhando pra cima.
− Lá em cima você vai ver. – Eu disse e sai em direção á mata.
Adentramos a mata e lá estava o caminho de pedras, Daniel seguia atrás de mim, resmungando algumas coisas como “você é louca”, “to sentindo que vou ser assassinado hoje”, eu somente ria de suas piadinhas. Talvez fosse uma loucura o que eu estava fazendo, eu estava no meio do mato, com uma pessoa que conheci não tem nem dois dias, mas eu sempre fora assim, de momentos, sem pensar na consequência das coisas, somente pensando em curtir tudo que a vida tinha para me oferecer.
− Chegamos. – Eu disse olhando o céu.
Eu estava no lugar que eu mais amava da cidade, o céu ali era lindo, milhares de estrelas amontoadas uma ao lado da outra. Daniel estava admirado, ele caminhou até a ponta da montanha, olhando cada detalhe dali.
− Christie, é lindo! Sério isso é muito bonito. – Ele disse apontando o céu.
− Eu sei! Disse que você iria gostar. – Eu disse me sentando e abrindo uma cerveja. Ele se sentou ao meu lado pegando uma pra si também.
Ficamos horas conversando, éramos eu e ele ali, sem malicia, somente dois amigos conversando, bebendo, e apreciando a beleza da natureza, demonstrando respeito á criação mais bela, o céu. Eu me senti completamente eu ali, a companhia de Daniel me fazia muito mais que bem, fazia com que eu me sentisse importante, com que eu me sentisse única.
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