Em Busca de Teu Perdão

10 Capítulo 10 - Perjuro


Notas iniciais
Amores, comentários recomendações e favoritos não fazem mal à ninguém, viu? rs Continuem lendo e não se esqueçam de comentar para que eu possa saber como você estão recebendo a história! ;)

***

Maria segurava o nó em sua garganta, sentia que a qualquer momento ia explodir em lágrimas frente à Esteban e não queria que isso acontecesse, não podia permitir mostrar-se frágil, ele nunca mais a veria frágil.

_ Você me disse que merecia uma explicação. E eu concordo com você. Foi uma insensatez o que aconteceu à noite. Não há porque mudar as coisas entre nós. – Maria procurava de todas as maneiras manter sua postura aparentemente insensível.

Esteban seguia sem reação. Como podia haver sido tão tolo? Acreditou que ela havia estado em seus braços por amor, pelo mesmo amor imensurável que ele sentia por ela e Maria tratava tudo aquilo com uma frieza que o chocava. Ele já havia desconfiado que ela não havia sentido nada, por isso o abandonou pela manhã, e foi em busca de, quem sabe, seu amante... Mas ouvi-la falar daquela maneira era demasiado para ele, de fato, Maria estava irreconhecível. Diante da inação de Esteban, Maria seguiu desferindo palavras cruéis contra ele.

_ Esteban, por favor. – Disse Maria com um sorriso cínico. – Não me diga que você achou que aquilo mudaria as coisas entre nós? As coisas entre nós estão claramente definidas e não vai ser uma noite de sexo que vai mudar nada. Foi só isso, só sexo. Eu queria, você queria e terminamos na cama. Ponto!

_ Por que você está fazendo isso? – ele finalmente reagiu – Eu sei que você não está sendo completamente sincera. Em algum ponto dentro de você, você sabe que as coisas não foram assim. Que o que aconteceu entre nós foi um encontro de amor. Para mim foi tão sublime, tão maravilhoso, tão singular. Não há maneira de seguir a vida como antes depois do que aconteceu entre nós.

Maria voltou a sorrir, mas dessa vez de maneira mais escrachada deixando Esteban atônito, petrificado.

_ Esteban, você está falando como uma mocinha apaixonada dos romances que eu lia antes de... Bom, há muito tempo. Por favor! Não há razão para esses romantismos, isso é coisa dos livros, foi só uma noite, sem importância, nenhum significado...

Esteban se irritou e se lançou para cima dela segurando-a muito forte pelos dois braços. Ela não se impactou e o olhou provocadora com um leve sorriso de canto nos lábios.

_ Então se é assim... Eu quero mais! – disse olhando-a cheio de raiva e de desejo.

_ O quê? – pela primeira Maria demonstrou alguma surpresa. Não esperava aquela reação dele.

_ Você não disse que não sentiu nada? Que para você foi uma insensatez provocada pelo álcool, não?

_ Sim, foi exatamente isso que aconteceu. – Recuperou-se do susto e passou a olhar para uma das mãos dele que comprimia fortemente seu braço e a mantinha junto ao corpo dele imóvel.

_ Então também não vai significar nada para você se acontece de novo, não é? – instigou-a olhando sedento sua boca rosada.

Maria corou e não respondeu. Permaneceu olhando-o desafiante. Ele voluptuosamente envolveu sua boca num beijo cálido, girando sôfrego a cabeça dela e com lascívia explorava a boca dela com sua língua, atacava a língua dela, literalmente a comia a beijos. Maria sentiu que flutuava, por que ele a beijava e a fazia sentir assim? Por que só ele podia lhe dar aquela sensação de alcançar as nuvens enquanto o beijava, enquanto sentia seu gosto e sua respiração quente sobre sua pele anelante de mais, de muito mais dele. Maria ficou sem ar e afastou-se dele num impulso, os beijos de Esteban deixavam-na sem controle de suas emoções e, naquele momento, ela precisava manter-se firme.

_ Você está louco! – disse como conseguiu por como arfava depois do beijo de Esteban.

_ E só agora que você se deu conta? – ele reptou-a.

_ As coisas não são assim! – ela negou-se.

_ E como são? – disse Esteban segurando-a pelo braço outra vez – Como são? – gritou sacudindo-a. – Qual o problema de eu te beijar se você não sentiu nada ao fazer amor comigo? Você disse que eu estou louco. Sim, eu estou! Estou louco, desesperado e é você que me deixa assim.

_ Nunca havia percebido que você era tão sentimental. – Maria tentava de toda maneira esquivar-se da excitação dele. Não queria de nenhuma maneira falar de amor.

_ Muitas coisas você nunca havia percebido sobre mim! E eu nunca havia percebido que você pudesse me machucar tanto! – reclamou Esteban.

_ Machucar? – Ela se soltou dele ficando de costas. Uma lágrima a lhe escapou e ela a secou disfarçando. – Você realmente está agindo como uma mocinha dos romances, Esteban. Não parece um homem.

_ Desde o primeiro dia desse maldito casamento você se empenha em me humilhar. O mais terrível é que eu já estou me acostumando com esse tratamento e me deixando utilizar e ser humilhado. Você me trata como seu escravo e eu me submeto a esse papel porque reconheço minhas culpas...

_ Então porque você insiste em me perguntar como são as coisas? Está claro não? Você recordou bem. Cada um de nós têm seu papel à desempenhar dentro dessa tragédia, ou comédia, pouco importa. Não há nada mais a esclarecer, não te parece claro?

_ Você não é assim! Essa é uma armadura que você vestiu por... – se deteve ao lembrar as razões pelas quais ela havia mudado.

_ Talvez você tenha razão. – disse com desprezo. – Mas você conhece muito bem os motivos que me fizeram munir-me das muitas roupas e máscaras que exige essa sociedade que você, exatamente você tanto admira....

_ Que se dane a socidade! – ele a interrompeu irritado.

_ Não espere que eu seja a mesma de antes porque eu não pretendo ser de novo aquela idiota que podia ser facilmente enganada. – Ela ignorou sua intervenção. – Aprendi a conhecer as pessoas, Esteban e, sobretudo, aprendi a dar a cada um o seu devido lugar. Não é isso que essa sociedade exige? Que cada um desempenhe seu papel? Pois é isso! É isso o que eu faço, desempenho o papel de senhora da sociedade que o dinheiro do meu avô me deu. Ou acaso estou te defraudando como esposa?

_ E você acha que eu sei disso? – gritou, enfurecido.

_ O que você está insinuando? – Maria indagou ofendida.

_ Primeiro você se comporta como uma mulher que acha que o sexo é algo... banal. Depois, depois que temos uma noite que eu acredito que seja de amor e agora você me diz que foi simplesmente fruto de um pouco a mais de álcool, me abandona antes do dia amanhecer para um maldito destino que eu desconheço! – voltou a se descontrolar e a gritar enraivecido.

_ Isso não me faz uma mundana! – defendeu-se Maria indignada.

_ Tampouco te faz uma senhora respeitada! – Atacou Esteban com ciúmes – Se você não estava com outro homem, se não é o Eduardo ou qualquer outro maldito que você vai encontrar todos os dias, por que diabos você não me diz onde esteve? Por quê? – indagou gritando.

_ Porque não te importa! Minha vida não te importa! O que importa entre nós é o contrato que temos. Você é meu marido porque eu... Eu o comprei e venho cumprindo impecavelmente todos os meus papéis de esposa!

Esteban se aproximou de seu rosto alterado pela expressão de raiva e, se não soubesse que ela desfrutava de feri-lo, podia garantir que havia algo de dor em seus olhos. Mas não, era loucura... Estava claro que Maria era uma mulher insensível e tudo que queria dele era vingança. Sim, tudo que queria e esperava dele era uma vingança impiedosa, não iria mais criar ilusões. Se não podia conquistar seu amor que pudesse ao menos ter dela algo que tanto desejava. Agora só lhe restava encarar o jogo dela. Acariciou levemente seu rosto e disse carregado de cinismo:

_ Não todos, minha pequena!

Maria gelou com as palavras dele. Entendeu claramente o que ele quis dizer que queria que ela cumprisse com suas obrigações de mulher todas as noites. Não poderia! Não suportaria fazer amor com ele outra vez sem delatar-se, sem confessar que o amava, só a ele, que desejava desesperadamente ser dele todo o tempo. Como o convenceria que era apenas sexo se toda sua estrutura se abalara ao fazer amor com ele? Se o seu coração disparava só com a lembrança de que havia sentido na noite anterior suas carícias, seu calor, a pulsação de seu coração junto a ela? Se mal conseguia suster-se sobre suas pernas quando ele a beijou ali no jardim? Conhecia a sua força, mas sabia que não podia controlar seus sentimentos se voltasse a ser dele. Não podia, jamais voltaria a se entregar a ele!

_ O que você quer dizer com isso? – Maria fingiu não entender.

_ Não se faça de inocente porque está claro que aquela Maria inocente só existe na minha memória e... Talvez, talvez tenha sido apenas uma ilusão, nunca tenha sido real.

Maria se sentiu agravada por suas palavras, mas não se defendeu. Porque, no fim, não era isso que ela queria que Esteban pensasse? Que para ela fazer sexo com ele não significava nada? Teria que encontrar alguma maneira de livrar-se daquele imbróglio. Ao mesmo tempo lhe doía, lhe doía profundamente que Esteban tivesse aquela visão dela, de uma mulher que ele poderia utilizar-se para satisfazer seus desejos sexuais e nada mais, não ter com ela nenhuma ligação afetiva depois disso. E se realmente tivesse que voltar a estar com ele? Queria ser dele, fazer amor com o homem que amava, com o homem com o qual se casara, mas em meio à tantas palavras de mágoas desferidas pelos dois não suportaria, seria muito doloroso para ela. E o que importava? O que importava seu coração, seus sentimentos? Já estava tão, tão machucada com tudo aquilo que não sabia se voltar a fazer amor com Esteban seria algo capaz de machucar-lhe mais.

_Vai voltar a me ofender? – ela indagou com os olhos cheios de lágrimas que ela fazia um imenso esforço por impedir que rolassem por sua face. – Então eu mereço que você me trate como uma meretriz para satisfazer suas necessidades masculinas?

_ Eu não estou te tratando assim. – disse Esteban se aproximando dela. – Estou te tratando com você quis ser tratada. Além do mais... – acariciou a boca dela com desejo – O sexo não é só uma necessidade masculina, mas também feminina. A mulher que você é agora deve saber bem disso, não? A não ser quando há amor, o que não é o nosso caso, não é mesmo?

_ Exato! – ela confirmou quase sem forças para resistir às lágrimas

_ Então eu espero que não seja nenhum sacrifício para você cumprir seus deveres de esposa porque senão...

_ Senão o quê?

_ Senão serei obrigado a procurar em outro lugar uma mulher que me satisfaça como homem. – Respondeu Esteban impiedoso.

_ A mim pouco importaria! – Mentiu Maria. – Mas tenha claro que, se você estiver com outra mulher, jamais voltará a estar comigo! – sentenciou.

_ Ora, e por quê? – indagou Esteban cínico.

_ Não há necessidade de porquês, não vou ser mais uma na cama de homem nenhum, independente da situação atípica desse matrimônio!

_ Então eu não sou mais um na sua cama? – Esteban voltou a ofendê-la.

_ Não me ofenda! – ela se defendeu.

_ Então é verdade que o lugar ao qual você vai todos os dias em diferentes horários não é para encontrar seu amante?

Esteban sentiu o calor do impacto da mão direita de Maria sobre seu rosto e se encheu de ódio.

_ Não queira inverter as coisas! – ela lhe gritou atingida pela ofensa. – Nesse casamento se há alguém que tem que lidar com pecados de falta de dignidade é você, não eu, Esteban, esteja claro! Jamais, jamais em sua vida volte a me ofender e duvidar da minha honra ou você vai se arrepender!

Virou-se e deixou Esteban sozinho no meio do jardim se dirigindo à entrada da mansão em que viviam. Correu para seu quarto sem falar com dona Úrsula e se jogou na cama aos prantos. Questionou-se se havia agido bem casando-se com Esteban. Por que tudo tinha que ser tão complicado naquela história. A dor lhe desgarrava as entranhas e os soluços brotavam de sua boca incontrolavelmente. Por que não podia ser como as outras mulheres? Por que não podia contentar-se com o quanto se sentia completa nos braços do homem que amava e que era seu marido? Por que não podia perdoá-lo? Por que lhe dava armas para que ele a tratasse como a pior das mulheres e pisoteasse seus sentimentos? Em meio ao desespero, novamente lhe veio à mente a ideia de tirar sua própria vida, mas recordou Isabel. Ela, que desde que soube que sua semente estava engendrada em seu ventre foi seu motivo para seguir em frente.

Estar casada com Esteban e que os dois se torturassem daquela maneira não era ainda mais doído do que se estivessem separados? Levantou-se da cama depois de chorar horas imersa em seu desespero e sentou-se em frente ao espelho: “Eu não vou sucumbir! Ele não vai ter o prazer de me ver derrotada!”

Esteban voltou a sentar-se no banco do jardim e, imerso em seus pensamentos, não se deu conta da intensidade de sua dor até sentir o calor de uma lágrima pesada escorrendo por seu rosto. “O que eu fiz, meu Deus? O que eu fiz? Por que a tratei assim?” Ferir a Maria era como ferir à sua própria carne e ele sucumbiu à dor e entregou-se ao choro. Será que aquela história teria solução? Será que o amor de Maria e dele ainda teria remédio e ele poderia novamente se sentir situado no mundo? Sem ela seu mundo não tinha sentido, se sentia perdido. Mas Maria não aceitava à seu amor, o tratava como traste, um adorno mais de sua vida luxuosa e sua reação era feri-la de volta.

***

Quando dona Úrsula veio chamar Maria para o jantar ela se deu conta que seu rosto estava refletindo toda a dor daquela conversa. Ainda não entendia porque ela e Esteban se machucavam tanto, mas era preciso voltar a encará-lo. “Fui eu quem articulou essa situação, não? Não vou permitir que as coisas saiam do prumo”. Ela tardou alguns minutos em preparar-se, gastou uma boa quantidade de maquiagem tentando disfarçar a os efeitos da dor em seu rosto, colocou um de seus melhores vestidos e se dirigiu à sala de jantar.

Ao adentrar o ambiente Esteban já estava na mesa e, ao vê-la, ainda que uma fração de segundos antes haja sentido sua presença e seu perfume, baixou os olhos, não conseguiu encará-la. O clima grave entre o casal não surpreendia dona Úrsula, ela já se havia acostumado com as poucas palavras que os dois trocavam. Superficialmente tinha algum conhecimento sobre a história dos dois, sabia de Isabel e outros detalhes que Esteban desconhecia, mas procurava manter-se à margem da vida conjugal de Maria que ela tinha como uma sobrinha. Ela sabia que, apesar de eles serem um casal que se formou em circunstâncias atípicas, existia amor entre eles e deixava que os dois levassem da maneira que lhes conviesse a própria história. Tentou conduzir uma conversa, mas naquela noite, os dois estavam peculiarmente silenciosos e ela preferiu não se meter.

Após o jantar dona Úrsula tomou o jornal, mais para esquivar-se da conversa com os dois do que para ler, de fato as notícias e dar um espaço aos dois. Porém, ao perceber que os dois permaneciam estremecidos um com o outro resolveu intervir.

_ D. Esteban, sabe o que combinaria bastante com essa noite tão clara de hoje?

_ O que, dona Úrsula?

_ Que o senhor nos recitasse um dos tão agradáveis poemas como faz algumas noites. – respondeu a viúva.

_ Perdão, dona Úrsula, não estou muito para poemas hoje. – respondeu Esteban imerso em sua tristeza.

_ Por favor, Esteban, nos dê essa alegria. – pediu Maria sustentando um falso sorriso. – Dedique um poema à sua esposa.

_ Bom, se é você que me pede, o faço para servi-la com gosto. – respondeu Esteban assumindo sua posição de marido comprado. Afinal, não era isso que ela esperava dele?

_ E que maravilha da literatura o senhor vai nos trazer hoje? – indagou dona Úrsula animada como sempre ficava quando se tratava de literatura.

_ Vou recitar a tradução do soneto 88 de William Shakespeare. Conhecem? – disse dirigindo-se à Maria à viúva, mas, sobretudo, à esposa.

_ Não conheço. – respondeu Maria seca.

_ Eu também não. Me encanta as maravilhas que o senhor traduz, Dom Esteban. – animou-se dona Úrsula.

Esteban se aproximou da lareira e fitou Maria que estava sentada na poltrona ao lado da janela. Muitas vezes desviava o olhar do marido e da parenta na sala para perder-se na luz dos astros que invadiam o jardim naquela noite. Assim ela permaneceu quando Esteban se preparou para recitar o poema. Não era incomum que ele o fizesse, algumas noites eles se dedicavam àquela atividade já que Esteban era amante da literatura e dona Úrsula se encantava em conhecer poemas em outras línguas traduzidos por ele.

Quando me tratas mal e, desprezado,

Sinto que o meu valor vês com desdém,

Lutando contra mim, fico a teu lado

E, inda perjuro, provo que és um bem.

Quando Maria ouviu a primeira estrofe do poema, virou-se assustada para Esteban que a fitava com os olhos emocionados. Seu coração disparou como disparava quando ele lhe dedicava alguma de suas carícias.

Conhecendo melhor meus próprios erros,

A te apoiar te ponho a par da história

De ocultas faltas, onde estou enfermo;

Então, ao me perder, tens toda a glória.

O significado oculto naquelas palavras encheram o coração de Maria de emoção e ela não pôde conter as lágrimas.

Mas lucro também tiro desse ofício:

Curvando sobre ti amor tamanho,

Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.

Assim é o meu amor e a ti o reporto:

Por ti todas as culpas eu suporto.

Dona Úrsula aplaudiu quando Esteban terminou de recitar o poema com a voz ainda embargada. Ele se dirigiu à Maria que permanecia sentada na poltrona, mas não conseguiu disfarçar a emoção.

_ E você não diz nada? Você me pediu que dedicasse um poema à minha esposa, foi exatamente o que eu fiz. Quer que eu recite outra vez?

Maria não disse nada, não conseguiu responder, as lágrimas a assaltavam sem que ela pudesse controlar e ela simplesmente se levantou da poltrona e saiu correndo rumo ao corredor que dava para os quartos. Esteban olhou para dona Úrsula sem saber o que fazer.

_ O que está esperando? Vá atrás dela! – o aventou sorrindo.

Esteban levantou-se da posição em que estava e correu aflito por alcançar à Maria.

***