Em Busca De Um Lugar Desconhecido
2 Capítulo 2
Notas iniciais
* Jean*
Ando pelo corredor como um foragido, olho para todos os lados antes de continuar o caminho, meio agachado e nas pontas dos pés.
Quando uma pessoa passa por mim, fazendo menção de me cumprimentar, coloco o dedo sobre a boca desesperado, fazendo um gesto para que a pessoa fique em silêncio. Felizmente ela compreende e continua andando como se nem tivesse me visto.
Olho pela janelinha de uma das portas e vejo uma bailarina girando sem parar sob as sapatilhas, um homem a acompanha com um violão em mãos e provavelmente alguma canção que não posso escutar devido a acústica do lugar. Observo por mais dois segundos e quando vejo que minha perseguidora não está na sala, entro com tudo, fechando a porta rapidamente atrás de mim.
A música para e os dois me encaram.
— Jean?
— Desculpe atrapalhar o ensaio de vocês, mas estou me escondendo do dragão. – Explico, fazendo-os rir.
— Tudo bem, precisamos mesmo de uma pausa. – Diego, meu melhor amigo diz, se sentando no grande sofá que há na sala. Vou até ele e trocamos soquinhos.
— Eu estou exausta! – Agatha desaba no tapete em frente ao sofá de uma forma nada graciosa, o que causa um contraste engraçado com a delicadeza das piruetas que fazia antes de eu entrar. – É bom te ver, Jean.
— É bom ver vocês também, eu estava com saudades. – Sorrio para ela e me largo no mesmo sofá que Diego. – O que vocês estavam ensaiando?
— Música nova. A Agatha estava montando uma coreografia quando você entrou. – Meu amigo explica.
— Legal, depois quero ouvir. Você vai participar também dessa vez? – Viro-me para ela.
Agatha e Diego são um casal, têm uma história de dar inveja em qualquer romancista, daquelas que seus netos vão pedir para ouvir um milhão de vezes. Eles viralizaram em um vídeo juntos, ela dançando e ele tocando e cantando em um encontro inesperado no metrô. Desde então o mundo clama pelos dois.
— Não dessa vez. Vou fazer parte da peça nova do teatro nacional.
— Isso é incrível! – Inclino-me sob o sofá e estendo a mão num hi-five. – Você vai dar um show.
— Literalmente. – Diego ri. – Mas e aí? Como vão os quadros?
— Essa era exatamente a pergunta que eu ia fazer.
Viramos para porta com um susto.
Ela me achou. Droga.
— Lorena. – Reclamo em voz alta e observo os dois traidores rirem do meu sofrimento.
— Eu estava te procurando por todos os lados! – Ela me acusa.
— E ele fugindo de você por todos os lados. – Diego murmura bem humorado. Dou-lhe uma cotovelada nas costelas, fazendo-o reclamar. Que belo melhor amigo.
Lorena, mais conhecida como O dragão (não fui eu quem apelidou, mas a pessoa não poderia estar mais certa), é minha prima e empresária. Começamos juntos no mundo da arte, eu como pintor, ela como empresária. Apesar de eu ser o seu primeiro cliente, ela não queria que pensassem que se tornou o que é apenas por causa de nosso parentesco, por isso atende como Lorena Christie, em vez de Porttini.
Não tiro o mérito dela. A garota é uma verdadeira workaholic e se esforça tanto ou até mais que seus clientes artistas.
Eu amo a minha prima. Tendo apenas dois anos de diferença, crescemos juntos em todos os sentidos, tanto no familiar, quanto na amizade e no profissional. Somos uma boa dupla.
Mas ultimamente Lorena tem sido especialmente irritante comigo.
— Vem, precisamos conversar. – Ela abre a porta e aponta para fora, indicando que eu saia.
— Oh, você vai terminar comigo? – Caçoou, mas faço o que ela pede (manda). Agatha e Diego se despendem da gente segurando o riso. Aliás, se não fosse pelo abafamento do som, tenho certeza que estaríamos ouvindo a gargalhada deles nesse momento.
Sigo a mulher até o escritório dela pelo longo corredor, dessa vez cumprimentando normalmente as pessoas a minha volta. Quando passo pela porta da sala, ela a fecha. Numa paleta de tons de preto e branco, o escritório dela exala poder. Os móveis caros e bem escolhidos mostram que ela planejou o lugar tanto quanto, ou até mais, sua casa.
Bem, talvez esse escritório seja mais sua casa que sua própria casa, afinal a maior parte de seu tempo ela está aqui.
Não é o tipo de trabalho que eu goste, ou entenda. Mas cada maluco com sua maluquice, né?
Quer dizer, quem sou eu pra julgar? Eu sou pintor!
— Você precisa fazer alguma coisa com esse bloqueio, Jean! – Ela começa a falar antes mesmo que eu me sente.
— Você fala isso porque não entende. Um bloqueio criativo não é tão fácil de acabar assim. Acha que não tentei? Acha que gosto de acordar todas as manhãs e saber que não faço aquilo que amo porque minha própria cabeça não deixa? É frustrante, Lorena! – Jogo tudo para fora de uma vez só. Isso faz com que sua expressão se suavize.
— Você tem razão, eu não entendo, desculpe. Mas é que fazem dois anos que você não pinta nada de diferente. Você nem me disse o que aconteceu pra gerar isso.
— Nada aconteceu. – Murmuro.
Uma mentira.
— Olha, te ver assim, cada vez mais pra baixo está me deixando muito mal e preocupada. Se não consegue pintar, faça outra coisa! Gaste um pouco do seu maldito dinheiro com coisas absurdas, ou sei lá, faça uma viagem pela Europa. Só não fique ai, definhando ainda mais como um velho inválido de oitenta e três anos, quando na verdade você só tem vinte e três!
— Eu não sei o que fazer, okay? Nada parece fazer sentido.
Lorena solta um longo suspiro e pega uma pasta.
— Eu já imaginava que você diria algo assim, por isso te trouxe isso. – Ela coloca a pasta na minha frente. Vejo a logo do programa “Em busca de um lugar desconhecido” bem na capa. – Eles enviaram esse convite há alguns dias, para você.
— O que isso quer dizer?
— Eles querem você no programa. – Ela dá de ombros como se fosse a coisa mais óbvia de todas.
— O que? Não mesmo, não vou participar de um reality, Lorena. Pirou?
Eu sabia que trabalhar demais não estava fazendo bem a ela, aparentemente estava queimando todos os neurônios daquela cabeça.
— Porque não? Pensa: um tempo longe de tudo, viajando o mundo, sendo pago para isso e concorrendo a um prêmio bem gordo. Além de que isso ajudaria bastante na sua imagem, aparentemente os seus fãs gostam de saber tudo o que se passa nessa sua vida tediosa, eles iriam ficar loucos com isso!
— Há, quem ficou louca foi você. – Digo e saio de sua sala, não querendo mais falar do assunto.
Eu? Num reality? Nem morto!
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