Em Busca Da Felicidade.
21 Um tiro certeiro.
Notas iniciais
–Isso será por pouco tempo. — Rabadash entrou ali. — Logo, logo o general manterá uma boa distância de Susana.
–O que você quer aqui, Rabadash? — Susana pôs-se de pé ficando entre Dr. Cornélius e eu.
–Estava procurando você. — disse ele, com a maior naturalidade. — Precisamos falar sobre o baile, lembra-se? Devemos planejar cada detalhe, quero uma festa inesquecível! — sorriu.
Susana e eu trocamos um olhar. Sabíamos que aquilo seria inevitável, uma vez que fora dito pelo Rei que a esta altura já devia estar a caminho da Arquelândia.
–Vá, minha querida, podemos conversar depois. — disse Dr. Cornélius, colocando a mão no ombro de Susana. Uni as sobrancelhas ao ver a expressão dela, sem poder fazer nada, mas sabia que não os deixaria sozinhos.
–Vamos, temos muito trabalho pela frente. — chamou o príncipe novamente. Insegura, Susana o acompanhou e, sem hesitar, eu os segui. Ao ouvir meus passos, Rabadash virou-se para mim. — Onde pensa que vai? — perguntou, superior. Os olhos de Susana pularam dele para mim.
–Sou responsável por acompanhar a princesa para onde ela for. — falei tranquilamente.
–Ela está mais segura comigo do que com você. Sou um príncipe, lembra? — ergueu as sobrancelhas.
–Não quer dizer que seja mais forte, nem que pode desobedecer o Rei. O que acredito não ser o caso, já que faz questão de cumprir as ordens dele. Vejo isso por ter vindo aqui buscar a princesa para isso. — falei. Susana sorriu sem se importar com o olhar furioso que Rabadash dirigiu a nós.
Sorrindo satisfeito, segui uma Susana aliviada e um Rabadash aborrecido.
[…]
Durante todo aquele dia foi só o que fiz: segui-los. Susana não parecia diferente de mim, apenas seguia Rabadash também, mas se esforçava para aparentar interesse. O que só piorava tudo, por que aí ele lhe dava mais atenção e diversas vezes chegou perto demais dela fazendo meu sangue ferver. Felizmente em nenhuma vez precisei intervir, ou seja, Rabadash continuava com todos os dentes.
Aquele martírio se alongou por duas semanas e sempre que Susana e eu dávamos um jeito de nos encontrarmos à noite, bem longe de qualquer calormano. Entre nós ainda pairava aquele clima de despedida, o que me incomodava bastante porque era praticamente uma despedida mesmo, cada noite que eu passava no quarto dela. E a cada uma, se aproximava o retorno do Rei Franco, consequentemente, o dia do noivado.
Um dia, depois de deixar o quarto de Susana antes do amanhecer e aguardar até a hora adequada para ser visto na companhia dela, fui buscá-la em seus aposentos, mas encontrei apenas Lúcia arrumando a cama. Bati na porta entreaberta.
–Ah, bom dia, Caspian. — ela me dirigiu seu belo sorriso sem interromper suas tarefas.
–Bom dia. — sorri um pouco, entrando no quarto. — Achei que uma Lady não deveria fazer esse tipo de trabalho. — comentei.
–Ainda não sou nenhuma Lady, Caspian. — explicou.
–Mas vai ser. Edmundo me contou. — sorri sincero, estava feliz de verdade por eles. — Quando foi que falaram com o Rei?
–Pedro falou, na verdade. — contou. — Rei Franco chamou Edmundo e avisou que concordava em nos casar se estivéssemos de acordo. — ela sorriu de orelha à orelha.
–Estou muito feliz por vocês, Lu. De verdade.
–Obrigada, Cas. Mesmo que ainda vá demorar um pouco, apenas saber que acontecerá já me deixa imensamente feliz.
Assenti uma vez e ela continuou o que estava fazendo.
–Ah – lembrei de repente o que fui fazer ali. — E Susana, você sabe onde ela foi?
–Ela saiu já faz algum tempo, disse que precisava ficar um pouco sozinha. — disse.
–Hm – respondi, compreendendo o que ela queria dizer. — Obrigado, Lú.
–Disponha. — a ouvir dizer antes de sair, sabendo exatamente para onde ir.
Apressei o passo um pouco mais. Sabia para onde Susana ia quando tinha vontade de ficar só, uma condição que não queria necessariamente dizer que ela desejava também ficar longe de mim. Alcancei os campos relvados atrás do castelo, lugar que os guardas usavam para treinar, e lá estava ela, diversas braçadas longe do alvo em que mirava, tinha o arco e flecha em posição de tiro. Estava bastante concentrada, mas não deixei de me pronunciar, logo que cheguei ao campo, apenas para não atrapalhá-la. Outra pessoa se aproximava dela antes de mim.
Ela atirou, acertando o centro do alvo. O outro, que já a alcançava, aplaudiu, chamando a atenção de Susana. Segui com cautela, escutando o que ele dizia.
–Magnífico, Alteza! — disse ao aplaudir.
–Miraz? — questionou ela. — O que faz aqui?
–Bem, eu estava andando por aqui e resolvi ver como está passando, Alteza. — explicou simpático, com um sorriso no rosto. Susana parecia muito desconfortável com a situação. — Pensei que devia estar ansiosa com a proximidade do noivado.
–Sim, um pouco. — ela pensou no que dizer, afastando-se para as flechas numa clara tentativa de desvencilhar-se dele, mas, claro, ele a seguiu.
–Seu último tiro foi sublime, Alteza. — elogiou. — O mais certeiro que já tive a honra de presenciar.
Ela deu um sorriso amarelo sem sequer erguer os olhos para ele, mas Miraz parecia não notar.
–E a senhorita deve saber que já vi muito tiros, aliás, estive lutando bravamente em muitas batalhas, portanto...
–Alteza! — dei uma breve corrida para fingir que chegara agora, caprichando na atuação, passando de Mirz e alcançando Susana. Miraz tornou-se para mim, desgostoso. — Estive procurando-a por todo o castelo!
Susana olhou-me aliviada.
–Diga, General.
–Príncipe Pedro pediu para chamá-la. — menti da forma mais solene que pude.
–Mas... — começou Miraz, porém Susana logo o interrompeu.
–Oh, claro. Não queremos deixar o futuro Rei esperando, não é mesmo?
–De forma alguma. — concordei com um aceno de cabeça.
–Pois então vamos! — ela recolheu sua aljava. — Até logo, Lorde Miraz. — fez uma minúscula mesura e me acompanhou de volta ao castelo. — Para sair dali concordaria até em conversar com Lilliandil. — confidenciou quando alcançamos o castelo. Eu ri.
–Agora você pegou pesado.
–Pedro não me chamou de verdade, não é? — falou depois de rir também.
–Nem sabe que o usei como desculpa para salvá-la.
Ela sorriu. Então, ao virarmos em um corredor, encontramos Edmundo.
–Ah, aí estão vocês! — disse ele. — Vamos, Pedro está chamando.
Susana e eu nos entreolhamos e rimos.
–O que? — quis saber Edmundo.
–Nada, Ed. — Susana ria levemente. — O que ele quer?
–É o Rei. — explicou. — Ele voltou.
Susana e eu nos entreolhamos de novo, agora apreensivos. Sabíamos muito bem o que aquilo queria dizer.
–Vamos – Edmundo continuou. — O Rei quer ver todos.
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