Elvenore: A Revolução Das Marés
42 Epílogo
Dominic dava vários passos desnecessários no corredor frio perto da ala da enfermaria, andando círculos como um cachorro que persegue o próprio rabo. Seu coração batia fora do ritmo, acelerado, forçando-o a parar a cada três minutos para respirar fundo e não ficar tonto. Ele não deveria estar ali, na verdade tinha enganado seus guardas e usado Casper como disfarce.
Aquela noite, quatro dias atrás, ele tinha observado cada passo que Kyanite havia dado, desde de quando chegou ao baile comemorativo até quando passou por ele na saída, antes do segundo ataque a Alta Corte. Uma onda quente correu pelo ar quando a bomba caseira explodiu e Dominic foi impulsionado para frente, caindo de joelhos. Mas ele estava longe de todo o perigo.
Kyanite estava perto.
Perigosamente perto.
Seu corpo pálido tinha sido atirado a metros de distância e mesmo acelerando como se sua vida dependesse disso, Dominic não conseguiu alcançá-la. Ele apenas viu tudo, quase que numa câmera lenta. Primeiro foi a cabeça dela que se chocou no chão, um som assustador soou, fazendo o coração do príncipe se partir ao meio.
O som de osso se quebrando.
E depois o corpo pulou mais uma ver, dessa vez a queda foi amparada por suas costas e novamente o som se espalhou com o vento. Dominic perdeu o chão, vendo o sangue escorrer de sua cabeça, manchando com um vinho vivo as pedras brancas que demarcavam o caminho até o palácio.
Um leve chiado escapou da boca de sua amada e então um espasmo.
— Kyan… —Seu nome era um sussurro, levado pela noite.
Ela estava acamada a três dias, ninguém podia entrar na ala da enfermaria e nenhum curandeira podia falar sobre a situação de Kyanite. Entretanto, a ansiedade havia corroída cada senso de autopreservação dele, Dominic não podia passar nem mais um minuto longe dela…
— Senhor! —Ele gritou vendo um curandeiro sair do quarto onde Kyanite estava — Senhor, por favor, como ela está? Já posso vê-la?
— Majestade…
— Por favor, não me diga não — Ele sentiu sua voz falhar e sua garganta fechar, ele engoliu o choro e fechou a expressão em seu rosto.
— Majestade, ela ainda está desacordada — O médico explicou, sedendo aos pedidos do príncipe — Não podemos dizer o que vai ser dela de agora em diante… Esperamos que ela acorde, mas prognostico não é bom — O senhor suspirou — Entre, mas…
Sem nem ouvir as recomendações médicas, Dominic entrou no quarto, sem mais nem menos. A imagem que ele se deparou foi assustadoramente avassaladora. Kyanite estava deitada em uma cama, com gaze cobrindo sua cabeça e curativos em seus braços queimados. Seu cabelo parecia opaco, sem vida, assim com sua pele.
Parecia mais um fantasma do que uma pessoa.
Dominic não conseguiu controlar o choro, as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, frias e cheias de temor.
— Os danos cerebrais devem ser imensos, mas as queimaduras já estão quase completamente cicatrizadas — O doutor falou, segurando a maçaneta da porta com pesar — Eu sinto muito.
O príncipe se senta em uma cadeira ao lado da cama, segurando com muito cuidado a mão da mulher na cama.
— Não… — Ele soluçou, desviando o olhar — Não diga a ninguém que estou aqui… Serei breve.
O médico assentiu, fechando a porta e deixando os dois sozinhos.
Pela primeira vez em sua vida, Dominic rezou. Rezou para as entidades marinhas e as que vivem nas montanhas. Rezou para todos os deuses que conhecia, em todas as línguas que sabia falar. Rezou por um milagre, mesmo ele sabendo que não era merecedor de tamanha luz…
— Humm… — Um chiado escapou da boca semiaberta de Kyanite.
Os olhos de Dominic se arregalaram e ele avançou para cima da mulher, olhando, petrificado, procurando qualquer movimento e barulho. Kyanite se mexe, movimentando suas pálpebras e quando ela abriu os olhos um medo súbito toma conta de seu corpo fragilizado.
— Q-Quem… —Ela gaguejou, engasgando-se com a própria saliva e com secura em sua garganta.
— Kyanite —Dominic não conseguiu conter o próprio sorriso.
De repente ela falou o inesperado, fazendo o príncipe cair com tudo na cadeira. Sua voz é assutada e Kyanite usou todas as suas forças para falar:
— Quem é você?
Fale com o autor