Elvenore: A Revolução Das Marés
28 Capítulo 26
Novo Lar
O castelo na minha frente mais parecia uma fortaleza, uma ponte de pedra interligava a trilha pela mata que pegamos e o palácio. O rio que cortava o meio do caminho era de água escura porém cintilante, cheio de vida mesmo sendo tão sombrio. Avançando pela ponte percebo a segurança reforçada da fortaleza, havia guardas em todas as torres, nos portões de entradas e no pátio principal, armados casualmente com espadas e adagas.
Maren se sentia confortável naquele ambiente, segura de si e confiante, enquanto Skander olhava por seus ombros, distante e atento. Minhas narinas captam um cheio mais ácido, limão e álcool, todos aqueles guardas eram drows e eles sabiam que eu ela uma elfa. Um dos homens da Rainha dos Mares, posicionado na porta principal me fuzilou com o olhar enquanto Maren o informava do que estava acontecendo.
Relutantemente ele abriu as portas, mas antes que eu pudesse entrar, seu hálito alcoólico me atinge.
— Porcaria élfica — Ele sibilou baixo o suficiente para apenas eu ouvir, cuspindo em minha bota logo em seguida.
Mal consigo me virar para encará-lo quando escuto engasgar, ficando sem ar por ter alguém segurando seu pescoço. Era um homem de cabelos marrons como os meus, densos porém vivos, e pele alva como a neve, usando uma armadura diferente de todos os outros guardas, feitas do que mais pareciam ser escamas de dragão, de um preto cintilante e quase metálico.
— Não preciso te lembrar, Fahed, de quem manda aqui, ou preciso? — Sua voz era como a noite, dura e sombria.
— Não, senhor — Ele lutava para respirar, mas o homem que o dominava não tinha nenhuma gota de piedade em seu ser.
— Não, senhor…? — Percebo um brilho doentio nos olhos do homem de cabelos castanhos, uma espécie de perolado, combinado com o tom prata de sua íris.
Fahed se debate, estava ficando perigosamente sem ar.
— Não, senhor Eirlys.
Eirlys o solta, parecia satisfeito. Fahed cai no chão, inspirando com dificuldade.
— Pare com isso, Draven — Maren esbravejou, correndo até mim — Não precisa ficar aterrorizando seus capatazes.
Dou um passo para trás, Draven se parecia com a loba que matei na Floresta de Galodonel, um canino feroz prestes a atacar. Meu coração congela, assustada com sua presença pesada e tenebrosa.
— Ele precisava de uma punição — Revirou os olhos, arrumando a armadura e depois voltando seu olhar para mim — Quer trocar de sapatos?
— Eu… — Ele havia me protegido ou só estava procurando um motivo para enforcar Fahed? — Não.
— Não temos tempo para isso de toda forma — Maren continuou, me empurrando salão adentro — A rainha te espera.
— Ela está na sala de reunião — Draven disse, indiferente, apontando para um corredor escuro — Estou indo para lá. Me encarrego de levá-los, Maren.
— Finalmente se fazendo de útil, não é mesmo, Draven? — Ela sorriu, parando de me puxar — Skander está encrencado. Não deixe ele escapar.
— E quando ele não está? — O olhar mortífero de Eirlys se volta para Skander, que sorri incerto se fugia ou aceitaria de cabeça erguida sua punição.
— Em minha defesa, se não tivesse agido logo, era provável que nunca mais conseguisse tirar a Kyanite do castelo da Alta Corte e… — Ele tenta falar, mas se cala, cruzando os braços.
— É bom saber que não é burro o suficiente e sabe calar a boca quando precisa — Draven se volta para mim, seus olhos prateados me analisam de baixo para cima — Me siga.
Balanço a cabeça positivamente incerta se ele me mataria se eu me recusasse a segui-lo ou me enforcaria como fez com Fahed. Havia algo em Draven estranhamente familiar, mas não conseguia encará-lo por muito tempo, pois ele me dava calafrios.
Caminhamos pelo corredor de pedra iluminado por velas e candelabros até uma sala cheia de estantes e uma grande mesa de mogno no centro, redonda e cheia de miniaturas de barcos.
Havia uma mulher parada de frente para uma grande janela colorida, um vitral colorido que contava história de Acqua. Começando com uma ilha vazia, depois um navio se aproximando dela. Depois mostrava a parte em que o pedaço de terra começou a ser povoado e a parte superior do vitral era o porto, cheio de vida e cores.
— Mãe — Draven anunciou, se sentando na mesa e movendo duas figuras — Chegaram.
— Ah… — Ela murmurou, virando-se devagar, sua voz era familiar, segura de si e reconfortante ao mesmo tempo — Que ótima notícia.
Havia um sorriso sutil em seus lábios, mas eu não podia deixar de encarar as cicatrizes. Uma cortando seu lábio, sua bochecha e subindo por seu olho castanho e desaparecendo em seu couro cabeludo e a outra rasgando sua maça do rosto direita, mas nenhuma delas deixava a mulher feia, muito pelo contrário, ela parecia uma guerreira.
Meu coração cai até o meu estômago quando encaro seus olhos, um castanho e outro verde, como os meus. Seus lábios finos esboçam um sorriso sutil, mas o que eu sentia não era alegria, meu corpo fervia em medo, raiva e tristeza, um acúmulo de sentimentos que acho que nem meus olhos seriam capazes de expressar.
Isso não podia estar acontecendo… Ela deveria estar morta.
Ela desce de onde estava, caminhando até com passos precisos e sonoros, com seus cabelos castanhos balançando a medida que andava. Estavam compridos, na altura de seus ombros, exatamente como na aparição na praia naquele dia que subi em Rasdir para espairecer.
— Kyanite…
— Mãe… — Falamos juntos, mas minha voz soou fraca e cortada.
— Filha… — Suas mãos firmes e calejadas tocam as minhas e sinto uma onda de calor maternal me atingir.
Aquele era minha mãe, viva.
Eu a tinha em meus braços, perto de mim. Podia abraçá-la, chorar em seus braços e conversar com ela. Tudo o que eu sempre quis estava ali, bem na minha frente.
— E-Eu… — Gaguejei, sentindo o choro se acumular na minha garganta como um amontoado de alegria e tristeza.
— Você está aqui — Ela disse, sua voz é rígida, porém doce, exatamente como eu lembrava — Está comigo e com seu irmão. Nada mais importa.
As lágrimas rolam pelo meu rosto como uma cachoeira quando seus braços envolvem meu trêmulo corpo. Minha mãe estava viva!
Suas mãos acariciam meu cabelo, silenciando-me com carinho e amor. Como eu tinha sonhado com esse momento, poder abraçá-la mais uma vez. Poder sentir seu odor robusto e madeirado, como dançar na floresta durante uma chuva.
— Não… — Choraminguei baixinho, afastando-me de seu toque — Você deveria estar… Morta.
Nossos olhos se encontram e eu sinto meu poder fluir novamente, preenchendo cada vazio de meu corpo com o conhecido gelo ardente.
— Você morreu quando eu tinha cinco anos… E-Eu vi o seu túmulo… — Solucei, dando um passo para trás. A luz cintilante começou a iluminar a minha pele pálida, acumulando-se nas minhas mãos — Papai disse que…
— Eu tive que sumir, Kyan — Falou, sua voz era como a terra, uma certeza — Não era seguro para você — Ela se vira para Draven, meu irmão — Quando conheci o seu pai, estava grávida de seu irmão. O meu… O meu “marido” era o rei dos piratas na época e eu fui vendida a ele como uma moeda de troca…
Draven se levanta, marchando até minha… Nossa mãe.
— Barba Negra deveria proteger o povo sereiano das maldades humanas e eu seria o símbolo dessa união, mas a verdade era que ele só queria uma mulher para procriar. Precisava de herdeiros e uma boa aliança — Continuou, convidando-me para sentar em uma de suas poltronas — Depois do que aconteceu na minha noite de núpcias e depois de todos os abusos, eu não podia mais ficar do lado daquele homem nojento…
Draven cruza os braços, furioso. Seus olhos repousavam em mim quando me sentei tremulamente na cadeira.
— Seu pai me encontrou em um porto durante uma coleta de impostos para o rei. Me ofereceu abrigo e comida. Draiko é… Era um bom homem e nunca deixaria ninguém passar pelo que passei — Havia uma nuvem de tristeza em seus olhos, lágrimas — Me colocou em Elfdale, me deu uma posição e cuidou de mim até Draven nascer… O deixei em segurança com um senhora em uma vila humana. Caso Barba Negra viesse atrás de mim, ele estaria seguro.
Engulo a montanha de perguntas que se acumulavam na minha língua, estava na hora de eu ouvir.
— Eu não contava que me apaixonaria por ele. A meio sereia e meio elfa Ciana se apaixona por Draiko Liadon… Parecia impossível — Ela tenta rir, mas sua risada soa dolorida. Uma lágrima escorre, seguindo o caminho de sua cicatriz até a boca — Mas foi o que aconteceu. Nos apaixonamos e nos casamos… Você veio dois anos depois de seu irmão, um bebê tão quieto e delicado…
Ciana para, respirando fundo para não chorar ainda mais. Eu, por outro lado, tinha desistido de conter o choro, minhas lágrimas corriam livremente, libertando-me de minhas dúvidas. Draven se aproxima de mim com um copo de água, gentilmente ele me entrega e diz para bebê-la, pois me acalmaria.
— Queria ficar com vocês dois, mas de um lado eu tinha Barba Negra, que me caçava dia e noite e do outro o rei Evander, que caçava sereias por esporte e estava convicto de os piratas estavam impedindo seu caminho para conseguir mais territórios.
— E estavam? — Indaguei, incapaz de encará-la. Meus olhos fitavam o copo, encarava meu reflexo maltratado.
— Temos um povo, Kyanite — Suspirou, sentando-se na minha frente — Drows, sereias, elfos, humanos. Homens, mulheres, crianças e idosos. Eles dependem de mim e apenas querem viver em paz, longe da doença que é a monarquia dos Drogomir — Draven para ao lado de sua… nossa mãe, como um filho fiel — Eles dependem de mim, Kyan. Entendi isso?
Mordo o interior da minha bochecha, desviando o olhar.
— Precisei sumir para manter você segura e depois que matei Barba Negra, busquei Draven e o trouxe para Acqua, para perto de mim. Ia fazer a mesma coisa com vocês, seu pai e você, Kyan, mas Evander já tinha se infiltrado em Elfdale como nunca antes — Ela murmurou, arrumando a postura — Disse que se eu tentasse me aproximar de vocês, ele os mataria… Foi uma guerra fria por todos esses anos até que um dia Draiko foi enviado para Acqua. Achei que seria finalmente uma rendição do rei, pois por mais que ele tivesse um bom exército, sua marinha é uma tragédia. Perderia em poucos minutos de batalha.
— Evander disse que meu pai… Disse que ele foi morto por piratas — Solucei, sentindo o copo tremer em minhas mãos — Morto pelo seu povo…
— Foi uma emboscada — Draven se pronunciou, tirando o copo de minhas mãos — Ele foi morto pelos soldados de Evander como um aviso de agora em diante as coisas iriam mudar, que ele estava pronto para anular a paz que reinava em Elvenore e Acqua para conseguir ter acesso ás nossas terras — Repousando meu copo na mesinha ao lado da poltrona, ele me olha — Evander tirou você de Elfdale para conseguir ter uma vantagem contra nós, contra minha mãe e eu.
— Não pode ser verdade… — Engasguei, quando Draven tocou o meu ombro. O cheiro amadeirado e ocre invade as minhas narinas, vinha dele, vinha de meu irmão — Evander disse que me levaria para Alta Corte para me treinar… Além disse, ele e meu pai eram próximos, amigos… — Meus olhos encontram a frieza dos olhos de Draven — Ele não seria capaz de matar o melhor amigo, seria?
— Faz perguntas, mas não parece satisfeita com as respostas — Ele disse, afastando-se de mim — Desde que soubemos que ele levaria você para o Palácio da Alta Corte, começamos a agir. Tínhamos um espião na Corte Menor do conde Thorton. O estúpido do Skander — Escuto Valir grunhir e se jogar em uma poltrona — Era para ele se aproximar de você com calma e levá-la até nós em segurança…
Draven pressiona a ponte de seu nariz, estava certa de que ele estava com enxaqueca.
— Ou seja, o completo oposto do que ele fez com você — Nossos olhos se encontram e me perco no mar cristalino que ele carregava — Peço desculpas, Kaynite.
— O importante é que ela está aqui — Minha mãe pronuncia, fuzilando Skander com o olhar — Não é, Valir?
— Claro, Ciana — Ele sorriu desajeitadamente.
— Não há como negar, as condições não são as desejadas, mas tenho você aqui do meu lado, filha e é isso que importa — Ciana se levanta, aproximando-se de mim — Também é de me conhecimento de que entrou em contado com sereias e que não foi nem um pouco vantajoso.
Sinto meu corpo tremer só de lembrar.
— Saiba que as sereias que te atacaram estão sendo caçadas nesse exato momento e são rebeldes, contra a nossa causa e contra Evander. Criaturinhas sem moral alguma — Draven sibilou, sentando-se — Não se repetirá.
— Eu…
— Precisa descansar, Kyan — A voz da minha mãe e calma e reconfortante — Imagino que elas fizeram um estrago grande em você e mandarei meus melhores médicos para seus aposentos quando tiver descansado e comido algo melhor do que os ensopados de Guda.
Balanço a cabeça positivamente, ainda tentando raciocinar toda a informação.
— Draven a levará até seu quarto e Maren a acordará quando for a hora do jantar — Ela toca o meu rosto e me sinto tentada a me apoiar nela, mas me contenho — Sei que há mais dúvidas em sua cabeça, posso ver isso em seus olhos. No jantar discutiremos.
— Eu… — Respiro fundo, piscando rápido para afastar as lágrimas — Obrigada.
— Venha, irmãzinha — A voz de Draven se tornou doce por dois segundos, enquanto ele se levantava.
Ele estica sua mão na minha direção e eu a seguro. Draven me ajuda a levantar e me guia com cuidado até o lado de fora da sala.
— Bom descanso, filha — Minha mãe sorriu, despedindo-se com um breve aceno de cabeça, voltando sua atenção para Skander logo em seguida — Não pense que esqueci de você, Valir…
Não consegui escutar o resto da conversa, pois Draven me guiava pelos corredores com maestria e em silêncio. Ele era mais alto que eu, uns bons dez ou doze centímetros, mas nossos cabelos eram parecidos, marrons e brilhoso, porém o dele era meio curto, penteados para trás com esmero. Não tinha barba e seus olhos eram sempre atentos e distantes.
— Seu quarto é o da direita — Falou, apontando para a porta — O meu é o da frente. Não hesite em me chamar caso precise de alguma coisa.
Murmuro um “uh-hm” e abro a porta.
— Há… sapatos novos no guarda-roupa — Disse, desviando o olhar — Pegue o que precisar.
— Obrigada — Minha voz é fraca e cansada.
A porta nos separa e eu mal reparo no quarto, caio direto na cama, havia emoções demais em mim. Cubro meu rosto com o travesseiro tentando sufocar as lágrimas e os soluços. Tudo tinha sido uma mentira, uma vida cheia de farsas e manipulação. Evander me usava como vantagem e Dominic devia saber disso, afinal era o herdeiro do trono.
Meu coração explode e se estilhaça em milhões de pedaços.
A lembrança da sensação de seu toque era como fogo, corroendo cada pedaço de meu corpo. Seu beijo era veneno, cheio de mentiras e falsidades. Ele sabia que meu pai não foi morto por piratas, sabia que minha mãe estava viva e sabia que eu era um peão nas mãos de seu pai e não fez nada. Me fez me apaixonar por ele mesmo ele sendo um completo idiota desde de sempre. A raiva queima fundo dentro de mim.
Dominic havia me enganado, assim como Skander.
Me apaixonei por um mentiroso que só se aproximou de mim para conseguir mais informações para o homem que matou o meu pai. Me sinto enojada ao pensar que dividi uma cama e que abri meu coração para ele.
O príncipe de Elvenore era um canalha, um farsante.
Eu o odiava mais do que nunca.
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