Elos- O Início
3 Capítulo 3
No dia seguinte levantei, como de costume, às 05h50min da manhã para me preparar para ir à escola. Era uma segunda-feira nublada e abafada, a ponto de dar ânsia de vômito.
Cheguei à escola por volta das 07h10min. O que sempre era bom, o sinal batia às 07h15min, dando-me tempo para conversar sobre oque acontecia atualmente no nosso ambiente de confinamento. Estavam Fanta-Uva e Cabelinho conversando ao lado da porta da nossa sala, a 19-A.
–E aí? -disse eu sem muito entusiasmo, porque geralmente não respondem.
–Pringles, -disse Fanta entusiasmado com algo que me era desconhecido por enquanto- você ficou sabendo da novata transferida pra cá?
–Não... Não fiquei sabendo de nada.
–O Fanta não parou de falar desde que soube que ela era uma gata. Eu sinceramente não consigo ver isso... – Cabelinho disse.
–Cala a boca seu “viadinho”, ninguém pediu sua opinião homossexual. –Fanta disse brincando.
Nesse momento o sinal bateu nos alertando que era hora de entrar na sala de aula e deixar a tortura começar já muito cruel, com física nos primeiros dois horários, não que eu não gostasse, era só que eu não conseguia mesmo tirar mais de três pontos na prova.
Sentei-me no fundo de acordo com o mapeamento de sala, pois um gigante cabeludo não pode sentar-se na frente, ele atrapalharia todos os seus coleguinhas que não tem miopia como ele a enxergar o quadro. Mas antes que o professor pudesse fechar a porta, um aluno adentrou a sala com passos firmes e cautelosos, seus olhos procuravam por algo entre as carteiras freneticamente, ele tinha um jeito bobo, com os ombros caídos e costas curvadas, seu cabelo era longo e liso e seus dentes eram brancos demais para o gosto do Sol, que no momento em que o aluno transferido abriu um sorriso saudoso, sentiu por um segundo ter sido ofuscado.
–Ah. –disse o professor gordo de física- esse é o seu novo colega turma. Apresente-se jovem.
–Olá. Sou Mordread, um pequeno pedaço do céu que veio para lhes apaziguar os corações. –ele havia dito isso como se fosse algo completamente normal.
Silêncio na sala.
–Muito bem Mordread, -disse o professor segurando o riso- vá sentar-se em algum lugar vago.
Ele percorreu a sala lentamente e em meio a tantos lugares, olhou para o que estava ao meu lado, olhou para mim, sorriu, e foi lá sentar-se. “Não era uma menina?!”, pensei.
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Terminada a primeira seção de tortura, levantei-me da carteira que mal cabia minhas pernas, para falar com Fanta.
–Você não disse que era uma menina gata e ”tals” cara?
Ele levantou a cabeça da mesa. Tinha remela no olho esquerdo...
–Por que duvida de mim, jovem gafanhoto? –ele disse em transe com a soneca que a pouco tirava.
–Porque o que eu vi passando pela porta da sala era um menino estranho que aparenta ser narcisista, que tem o nome de algum personagem tosco de anime e usa muito clareador dental.
–Cara, eu disse que ela foi transferida pra nossa escola, mas não disse especificamente que foi para nossa sala. –disse ele e voltou a dormir.
Assim, fui beber um pouco de água. Andando pelo corredor, vi o tal Mordread falando com uma menina nova. Ela tinha cabelos loiros, enrolados e longos. Olhos verdes, e uma pele bem cuidada. E em seu braço havia uma pulseira com uma rosa bem vermelha de enfeite. Lembrava muito... Lembrava a menina do salão da noite passada!
Empalideci até perder minha cor morena para ficar igual a parede branca ao meu lado. A menina conversava com Mordread seriamente, pareciam falar de algo muito importante.
Virei-me rapidamente de volta para a sala antes que o sinal batesse, mas ao olhar por cima do ombro, vi que os dois me encaravam friamente.
As aulas passaram em um tempo quase eterno, as perguntas não saíam de minha cabeça. “Por que a menina-do-salão está na minha escola? E quem é aquele Mordread, como ela o conhece? O que vieram fazer aqui?”. Mas então o sino de saída bateu. E eu finalmente poderia procurar por respostas, ou simplesmente ir para casa com medo. A segunda opção foi a que mais me veio a calhar.
Quando já ia sair da escola, escuto alguém gritar me chamando. Quem poderia ser? Olho para trás em meio à multidão e vejo o menino-estranho levantando o braço com um sorriso estampado no rosto e olhando para mim de alguns metros de distância. Arregalo os olhos e começo a correr disparadamente para o caminho de casa sem olhar para trás. “O que ele quer comigo?”. Na hora de atravessar a avenida assassina, quase fui atropelado por um carro qualquer. Então, faltando uma quadra para chegar a minha casa, parei um pouco para tomar fôlego. Meu peito doía com falta de ar, e eu suava como um pedreiro em dia de sol.
Apoiei-me em um poste para me descansar e limpei o suor da testa, de repente escuto um “e aí?” de trás do poste.
–Puta que...!! –reajo completamente surpreendido.
–Como você corre em Sr. Intrometido.
Era o desgraçado do menino. Eu havia caído no chão com o susto. Então não pude correr de imediato. Ainda no chão perguntei:
–O que você quer afinal?!
Ele então sorriu levemente e me ofereceu a mão para me levantar. Eu não agarrarei.
–Só quero falar um pouco com você Dave. Você viu coisas que não devia e agora já deve saber que haverá consequências.
–Como assim? Eu não fiz nada de mais. Apenas segui alguém e me perdi em algum lugar estranho.
Ele vendo que eu me levantei sozinho, recolheu a mão com certo desgosto.
–Bom... De qualquer forma, eu tenho a tarefa de te levar comigo até o Q.G.
–Como assi...
Mas antes que eu tivesse tempo de protestar, Mordread pegou um anel do bolso de seu casaco e enfiou-o em seu dedo anelar, pegou meu braço com força e de repente tenho uma ânsia de vômito muito grande. Sinto o espaço ao meu redor desaparecer em um instante e depois aparecer novamente em uma distorção de vácuo.
Tonto ainda, me curvo para frente e sinto que vou vomitar. De fato, vomito. Ergo-me novamente e esfrego os olhos. O que diabos havia acontecido!? Estávamos, eu e Mordread, no salão com o piano, mas desta vez, as cortinas da janela gigante estavam abertas, podia-se ver por elas uma cidade toda vazia durante a noite, nela chovia sem parar uma chuva violenta até mesmo de pensar, no centro da cidade havia uma praça com postes a gás acesos.
Mordread solta meu braço, tira o anel e enfia-o novamente no bolso do casaco que eu agora entendia o porquê dele estar usando-o, fazia muito frio naquele lugar.
–Como você?... –antes de terminar de perguntar o que minha cara descrevia, ele me cortou.
–Anel de transporte. Ele te manda para lugares já marcados em sua memória anteriormente te desfragmentando e reconstruindo-o em seguida. Funciona melhor quando o comando é de uma parte de um mundo para outra do que de um mundo ao outro, por isso você está se sentindo um pouco tonto, mas relaxa, vai passar.
Encaro ele estupefato por um tempo. Nada que viesse de algo assim poderia ser bom, eu devia ter ido embora antes mesmo de seguir o cara com o chapéu.
–Droga. Olha só oque você fez, vomitou bem no meio do salão principal. Aamári e Abadone não ficaram felizes com isso...
Ele então ergueu a cabeça subitamente em atenção.
–Espere aqui. Volto já, já.
Dito isso, ele subiu as escadas até o segundo andar com um pouco de pressa.
Quem eram Aamári e Aamone? Eu já ouvira esses nomes antes, acho que da tia Rosana, ela era muito religiosa. Olhei para a janela fixamente, minhas mãos tremiam, em parte pelo frio, em outra pelo medo do que aconteceria a seguir. Olho para a porta com a cabeça de cachorro entalhada e penso em fugir, será que eu conseguiria? Não custava nada tentar. Aproximei-me lentamente da porta, sempre olhando se alguém vinha, e pé-ante-pé avancei. Estava a meio metro da porta, quando vejo os olhos da cabeça de cachorro brilharem em vivo magenta, a estrutura começou a tremer muito e ranger. Comecei a recuar assustado. Será que haviam descoberto minha tentativa de fuga? Seria eu castigado? A porta então parara de se mexer e os olhos do cão começaram a perder a cor. Já recuado a três metros da porta e suando frio, vejo a maçaneta girar e ouço o “click” da tranca. A porta começa a ser aberta lentamente com rangidos altos demais, porém ela para repentinamente de ser aberta e os rangidos dão lugar a protestos.
–Mas que droga de porta! Tá tão velha que não abre nem três centímetros e começa a parar!
A porta começou a ser empurrada e em seguida chutada cada vez mais forte, até que finalmente cedeu às pancadas brutas e impacientes. Era a menina! Ela agora arrumava o cabelo que fora bagunçado pelas pancadas e olhava espantada para mim.
–Ah, oi... – ela disse meio sem jeito.
Falava comigo, eu deveria estar muito surpreso para responder, optei por ficar quieto por enquanto. Ela ia falar alguma coisa, porém antes de emitir algum som, Mordread aparece descendo as escadas com um menino alto e sombrio com uma cartola engraçado ao seu lado. O menino da cartola!
–Aamári, delicada como sempre. –disse Mordread à menina na minha frente que aparentava chamar-se Aamári. Qual era o problema com os seus nomes?
–Precisamos dar um jeito nessa porta Ab-Tá. –disse Aam à Mordread? Por que ele era chamado assim por ela?
–Esse aí é o tal menino intrometido? –disse o menino-da-cartola que provavelmente chamava-se Aamone.
–É sim Aamone. –confirmou Ab-Tá.
Pois é, dedução bem sucedida.
–O que foi que eu fiz afinal? –pergunto completamente confuso às três pessoas do salão.
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