Elos- O Início

2 Capítulo 2


Parei em frente à máquina em posição rígida, eu a fitava, a batata, e como essa situação parecia ridícula. Aproximei-me, ergui levemente a batata com a mão esquerda e rapidamente tentei enfiá-la no lugar onde deveria entrar o dinheiro, e não tubérculos tirados da terra.

Parecia fácil a primeira vista, porém eu me surpreendi com a dificuldade que eu estava tendo em colocar a maldita batata na boca da máquina. Sua forma batatal não era compatível com a boca quadrada do dito cujo buraco. Todos me olhavam de passagem com certa dúvida, que eu particularmente entendia. E então quando pensei que não iria conseguir, a batata entrou com um súbito puxão, como se de repente a máquina pensasse que o tubérculo seria uma ótima refeição noturna, e todos que estavam olhando pararam, como se nada tivesse acontecido, desviaram seus olhares para qualquer outra coisa, não havia mais nenhuma importância em olhar um idiota enfiando uma batata numa máquina de refrigerante.

Como antes, uma passagem deu lugar à máquina num piscar de olhos, e a escuridão daquele lugar me gelou a espinha como antes. “Vamos lá”- pensei. Caminhei em direção ao breu infinito novamente. Comecei a sentir novamente o que havia sentido antes, mas desta vez, eu já sabia o que estava por vir, e logo, não doía tanto quanto antes. Quando estava começando a me apavorar naquele lugar vastamente negro, me vi no banco de praça em meio à neblina novamente, tão espessa que era difícil respirar com calma.

Olhei para mim mesmo, estava diferente, minhas roupas normais haviam dado lugar em meu corpo a um sobretudo preto e uma cartola em minha cabeça. Estranhei, mas como aquele lugar estava fazendo muito frio, até que caiu muito bem. Encarei o infinito branco e comecei a andar com passos largos, passei quase dez minutos andando. Até que finalmente vi algo. Uma porta, e ao seu lado um quadro que se movimentava como a rua de minha casa, pessoas na calçada apressadas e carros cortando as ruas. Aquele deveria ser o local de volta, “Mas cheguei até aqui, e não vou voltar”. Aproximei-me da porta, era de madeira trabalhada, como uma porta de um antigo castelo, tinha a cabeça de um cachorro talhada na parte superior central, e uma maçaneta de ouro em forma de uma pata. Olhei para o lado da porta, queria checar o que sustentava aquela porta, e olhe que normal, não havia nada como uma parede sustentando a porta, ela simplesmente flutuava no espaço branco de neblina.

Dei uma longa e pensada inspirada- o melhor que eu poderia fazer com tanta umidade naquele ar- e segurei a maçaneta decididamente, estava fria como um pedaço de metal num freezer. Comecei a abrir. Com certa dificuldade, pois a porta estava emperrada, e rangia como os joelhos de meu vô ao correr. Abri o bastante para conseguir espiar com o olho direito o outro lado. Não era o resto de um caminho de neblina, era um cômodo inteiro, gigante, e escuro. Era iluminado apenas pela fraca e pálida luz de um candelabro dependurado a vinte metros do chão de madeira que se estendia pelo salão à minha frente, bem no meio dele, havia um piano de cauda majestoso, eu me deleitei com aquilo, pois desde pequeno tocara piano, sempre amei a música, de vários estilos. Logo no fim do salão, uma grande escadaria em curvada levava a um segundo andar que aparentava ter três quartos, e na parede gigante ao lado esquerdo ao piano, havia uma janela desnecessariamente grande, porém estava coberta com um pano.

Abri por completo a porta quando conclui que não havia ninguém no recinto. Pude sentir o cheiro da madeira exalado por coisas velhas, aquele que lembrava a casa de um senhor feudal durante uma chuva densa. Por falar em chuva, estava escutando o som de uma que parecia acontecer naquele momento, uma chuva devastadora, furiosa, que arrancaria o telhado de várias casas e amassaria com suas pesadas gotas o capô de vários carros.

Fechei a porta com cuidado para não fazer muito barulho- praticamente impossível com aqueles rangidos do inferno- e contemplei novamente a sala com o barulho de chuva ao fundo. Cheguei à beira do piano e passei a mão por cima de sua cauda, quando tirei, meus dedos estavam cobertos de poeira.

–Parece que não te usam a tempos, camarada. –disse ao piano.

Corri escadaria à cima para ver o que havia nos quartos. Tentei abrir o primeiro. Trancado. O segundo. Trancado. O terceiro. Novamente trancado. Desapontado, desci as escadas e me sentei no banquinho do piano e abri-o, suas teclas estavam em perfeito estado, e sua afinação não estava nada mal também. Posicionei minhas mãos com leveza sobre as teclas, com se sentisse suas vibrações, seus pensamentos. Fechei os olhos e comecei a tocar a Sonata ao luar, de Beethoven, uma música que me envolvia com uma incrível paixão. Feita para mostrar como era uma noite de uma lua cheia limpa um céu estrelado, com a paz do silêncio monótono da noite, para uma cega, que nunca teria a chance de fato, de contemplar tamanha beleza. Toquei até o final, quase.

Ouvi passos vindos do andar de cima calmamente. Lentos e curtos. Meu sangue ferveu, a serenidade de outrora havia dado lugar ao medo de ser descoberto por qualquer coisa que pudesse existir neste mundo estranho. Arrumei o piano mais rápido do que imaginava poder fazer algo silenciosamente. Corri em direção à porta com o cachorro e puxei, estava emperrada. Desesperadamente comecei a tentar abrir a droga da porta. Olhei para trás e vi o que estava a fazer os passos, uma menina de mais ou menos minha idade, 16. Ela vinha com cabelos loiros enrolados que caíam nos seus ombros suavemente, seus olhos eram como a grama com o orvalho da manhã, e, seus traços, eram suaves como a brisa de uma tarde quente. Ela vestia um vestido preto com rosas vermelhas e pequenas de estampa, e uma meia-calça rasgada.

Ela parou no meio da escada, olhou para mim fixamente, abriu um sorriso mostrando seus dentes pontiagudos e cheios de algo vermelho, disse:

–Adorei a música.

Virei-me rapidamente e escancarei a porta. Corri para fora daquele lugar sem olhar para trás em nenhum momento. A paisagem de branco começava a reinar novamente, comecei a escutar sussurros vindos de todo o lugar, diziam: “Mentiroso! Traidor! Ladrão!”. Tropecei em alguma coisa, e quando me sentei novamente para continuar correndo, me vi sentado em minha cama em minha casa. Nada de névoa, nem de vozes, nem de garota esquisita. Apenas meu escuro quarto com meu irmão dormindo na cama de cima silenciosamente. Com o coração acelerado, esfreguei o rosto agoniado e suspirei profundamente. Deitei-me pensando “Não podia ser apenas um sonho...”.