Elo Milenar
1 Milenar, como a escuridão do céu e o brilho da lua
— Está uma bagunça — diz Sieghart, a voz quebrada e sufocada — Minha cabeça, quero dizer.
— Eu sei — Edel sussurra e coloca a caneca fumegante em frente ao companheiro de equipe; ao seu amigo.
O vapor da bebida enevoa suavemente a visão de ambos. O silêncio se instala entre eles e o único som presente é o vento batendo contra o vidro da janela e a respiração tremula do gladiador.
— Você já sentiu isso? — ele perguntou baixinho, como se o som da própria voz pudesse fazer tudo ao seu redor desmoronar — Todo esse caos. Você já esteve no olho do furacão?
— Já — ela cantarola em resposta, a lembrança de tudo o que aconteceu com sua família e nos anos seguintes que se estenderam passando como um fantasma pelos seus olhos — Não é um lugar agradável.
— Sério? — o gladiador ri, mas não há humor.
Segurando uma das mãos de Sieghart nas suas, Edel esfrega pequenos círculos calmantes com os polegares. O movimento é suave, quente e reconfortante. Sieghart sorri involuntariamente. Às vezes, Edel o lembra uma criança. Há algo na maneira como ela conforta as pessoas ao seu redor, com olhos compreensivos e palavras gentis, sendo quase natural demais para uma menina de apenas vinte anos.
Por um momento Sieghart se perde na tranquilidade que transborda desse pequeno ato e esquece te toda a guerra e sofrimento que viveu. Que ainda vive.
— Você sabe — ela começa, e ele ouve, ouve com toda a sua atenção, pois sabe que precisa disso; dessas palavras, das palavras dela — Um dia, não será mais tão ruim assim.
Ele torce o nariz. Por uma fração de segundos ele sente vontade de discutir; a sentença parece boa demais para ser verdadeira. Mas quem está na sua frente é Edel Frost e ela não diz palavras mentirosas.
— Acha mesmo que é possível? — ele retorna, sua voz tão pessimista, cansada, assustada e, queridas deusas, ele só queria que tudo acabasse — Como posso me livrar disso? Dessas vozes. Dessas memórias.
Edel suspira, suave e calmo.
— É simples, você não se livra — um som confuso escapa da garganta de Sieghart, e antes que ele tenha a chance de entrar em pânico, Edel continua — Aprende a viver com eles.
— Como?
— Isso — ela estende sua mão, e a ponta de seu dedo indicador toca suavemente a testa do imortal — faz parte de você. Como você pensa, como confia, como se preocupa. E essas vozes, elas também fazem parte de você, e elas vão gritar nos piores momentos possíveis. Vão fazer com que você sinta que deve morrer.
Ela faz uma pausa, não querendo sobrecarrega-lo com tantas palavras. Se levantando e dando a volta na pequena mesa que os separava, ela se senta ao lado dele e coloca a caneca, agora já morna, em ambas as mãos do imortal. Ele toma um gole e deixa o gosto doce tomar dominar seus sentidos, apreciando o pequeno momento que ela lhe deu para absorver as palavras com cuidado.
— Eles não te controlam, Sieghart — ela continua, a voz suave, mas firme — Você é mais forte que isso. E para poder domá-los, você precisa entendê-los primeiro. Um por um, devagar. É difícil, mas como eu disse, é parte de você. Ninguém conhece os seus demônios internos melhor do que você mesmo. E pode levar um longo tempo, mas quando você finalmente conseguir, quando finalmente chegar lá, prometo que tudo vai fazer sentido. Tudo valerá a pena eventualmente.
— Ainda vou me odiar quando chegar lá? — ele olha para longe enquanto faz a pergunta, hesitação em sua voz.
Ela o encara enquanto pensa por um momento.
— Não tanto quanto faz agora. Você pode se odiar um pouco mais quando algo der errado, mas você nunca vai se amar menos.
— E se eu fizer?
— Então terei que lembrar todos os dias o quão importante você é para nós. Para todos nós — Edel sorri, paciente e compreensiva.
— Você vai se cansar — ele zomba.
Uma risada enche o cômodo.
— Sou sua amiga, é contra as regras desistir de você.
— Que infortúnio — resmunga baixinho.
— Foi exatamente o que eu pensei — ela sorri e seus olhos brilham.
Sieghart sorri, um bufo fraco e divertido. As vozes gritando em sua cabeça ainda estão lá, assim como os fantasmas de seus mentores e irmãos de armas que ainda o assombram; assim como o peso da culpa — o peso do mundo — em seus ombros. Mas ele vê uma luz e, apesar de distante, não é inacessível.
Uma vez ele ouviu seus irmãos comentarem que a lua é o único conforto que os imortais possuem, e olhando para sua companheira de equipe — sua amiga, sua irmã — ele chegou à conclusão de que eles estavam certos.
Deixando sua cabeça repousar no ombro da pessoa que tanto confia, ele solta um suspiro tremulo e deixa as finas lágrimas quentes transbordarem junto com toda a tristeza e agonia que o preenchem.
Ele vai aprender a lidar com isso.
Fale com o autor