Ellohen - A Origem do Mal
3 Capítulo 2 - A partida para o sonho
Tamanha era sua alegria e a ânsia de partir, que Hytanör conseguiu fazer sua mala mais rápido do que se pudesse dizer "rapidamente". O dia estava belo e o sol brilhava como nunca. Tudo parecia diferente, até mesmo os comerciantes chatos e falantes no centro de Andher pareciam pessoas legais e convidativas. Hytanör trajava roupas novas, presenteadas por seu avô. Eram camisas e calças de uma família real, parte do pagamento recebido por seu avô pela cadeira feita há alguns dias. Hytanör estava pronto e de pé próximo à porta. O sorriso estampado no rosto revelava o quanto estava feliz por este dia finalmente ter chegado.
— Hytanör, saiba que estou muito orgulhoso de você. Quero que se cuide e me mantenha informado de tudo o que acontecer em Sant Sovhen. Quero ficar a par de tudo. – disse Adonis com os olhos marejados.
— Não se preocupe vô. – acalmou Hytanör, estava tão feliz quanto sonhara um dia ser. – Escreverei para o senhor sempre que puder. – Seus olhos estavam marejados pela emoção da despedida que o contagiava.
— Vá Hytanör, não vá atrasar mais ainda a tripulação. – Adonis escancarou um largo sorriso enquanto dizia estas palavras. – Você é um bom garoto Hytanör, tenho certeza que se sairá bem lá. – disse enquanto bagunçava levemente os cabelos de Hytanör com as mãos, como sempre fazia quando ficava sem jeito.
— Sim, senhor. – exclamou prontamente enquanto pendurava uma mochila em suas costas e fazia uma certa força para erguer a mala de viagem de couro preto de tamanho médio.
— Mas antes de você ir Hytanör. Gostaria que ficasse com algo. – revelou Adônis enquanto passava as mãos pelo pescoço parecendo retirar um cordão. Era engraçado como Hytanör nunca tinha visto aquele cordão. Ele sempre o deixava encoberto por debaixo de suas roupas. O cordão era belíssimo, feito do mais puro ouro branco, cintilava mais do que o brilho das estrelas junto com a noite mais espetacular da lua que banhava as noites e os mares de ellohen. Tinha como seu pingente uma cruz extremamente preciosa, pois tinha uma pequena pedra preciosa amarelada no seu centro. Hytanör não sabia ao certo que pedra era aquela, mas pelo brilho que refletia em seus olhos, sabia que era especial. Sentia uma paz reconfortante quando olhava diretamente para ela. Seu tamanho era aproximadamente de 8cm de comprimento por 0,5cm de largura. Esse era o grande tesouro de Adonis, ou parecia ser, pois escondia e protegia-o como tal.
— Este colar pertenceu a mim e depois a seu pai, antes dele... é... você sabe... – Adonis pareceu realmente desconfortável com a situação. – Queria que você ficasse com ele, é quase como um membro da família. Digamos que ele dá muita sorte. – sorriu o bom homem que ainda estava emocionado pela partida de seu neto.
— Obrigado vô, mas ele deve ser muito valioso. Tem certeza disso? Pode ser perigoso isso ficar comigo. – revelou o pequeno Hytanör receoso da grande responsabilidade que seria carregar um objeto tão valioso, sentimentalmente e financeiramente falando, para a família. Ainda mais agora que ia sair da cidade e poderia encontrar muitas aventuras e viver situações perigosas pela frente.
— Não meu neto, ele teria muito mais utilidade estando com você do que com um velho no fim de sua vida. – falou com um tom irônico na voz e esboçou um sorriso em seu rosto. – Vá meu neto. Siga seu caminho e seja feliz.
— Obrigado vô. – um forte abraço a seguir selou a despedida entre neto e avô. Talvez não fossem ser ver por meses, por anos, ou quem sabe, talvez nunca mais voltassem a se encontrar novamente.
A caminhada pela cidade em que sempre morou para o porto onde todos se encontrariam rumo à Sant Sovhen durou mais do que Hytanör imaginara, o tempo parecia se rastejar como num dia de sol escaldante no deserto da perdição de Danaara. Hytanör mal podia acreditar que seu sonho estava se tornando real. Os passos tornavam-se cada vez mais apressados e o som das águas indo e vindo de encontro com as pedras era reconfortante para os ouvidos de Hytanör. O navio estava lá, ancorado ao porto da cidade. Era belo, imponente e majestoso. Maior que qualquer outra embarcação já vista em Andher, os dizeres no casco do barco "Negrume Núncio", dava a entender que esse era seu nome. O barco parecia ser bem firme, confeccionado da melhor e mais resistente madeira de Ellohen, retirada das árvores sagradas de Ni'ya dos Campos Carmos. Na proa existia um grande símbolo de uma criatura que mais parecia uma grande ave dourada, – era Niravitta – ficava à frente da embarcação como se fosse o condutor do navio. Parecia que ia sair voando a qualquer momento. Pelo lado de fora já se podia ver a grandeza do grande navio, pelo menos seis andares podiam ser vistos e centenas de janelas que davam a impressão que caberiam toda a população de Andher no navio. Muitos futuros alunos já estavam no barco aguardando a partida enquanto que outros tinham dificuldades em arrastar suas malas gigantescas e pesadas para o convés. Quando aproximou-se da grande rampa onde todos seguiam para a entrada do barco, Hytanör notou Ellos que vinha de dentro do convés e estava agora descendo a rampa. Mas ele não estava sozinho, tinha uma garota com ele.
— Ei! Hytanör! – disse Ellos gritando praticamente descendo correndo a rampa, sendo seguido pela garota logo depois.
— Oi Ellos, como vai? – respondeu com um largo sorriso para depois darem um forte abraço de amigos. Hytanör agora se deparava com a menina parada ao lado. Ela era bonita, tinha cabelos compridos e negros, olhos escuros que faziam par com suas madeixas. Usava os cabelos parcialmente presos deixando a franja solta. Era bem bonita.
— Ah sim, Hytanör essa é Cléo Azamara. Cléo esse é Hytanör. Meu amigo o qual a gente conversou. – apresentou os dois ao tempo em que ajudava Hytanör com a mala.
Hytanör fez um aceno com a cabeça e Cléo retribuiu. Era tímido demais para arriscar um beijo no rosto.
— Como assim? O que estavam falando de mim? – perguntou Hytanör curioso.
— Ah, é que Cléo era aluna nova em nossa academia, tinha se mudado para cá há apenas dois meses e viu sua luta no Gran Marid. Ela achou muito boa. Ela quis te conhecer e... – quando foi interrompido.
— Eu quis te conhecer porque inimigo do meu inimigo é meu amigo. Eu simplesmente adorei quando você acabou com o Lukka e creio que não só eu fiquei feliz. Acho que você deve ter feito muitos fãs agora sabia? – disse Cléo interrompendo Ellos. – Bom, e então? Vamos ficar parado aqui enquanto o barco zarpa sem nós?
No mesmo instante Hytanör saiu do transe, pois passara de um total estranho e excluído da classe para um popular que agora tinha até fãs. Era estranho demais. Só agora Hytanör pôde perceber o quanto as pessoas olhavam para ele de forma diferente, alguns sorriam, outros acenavam e bem... outros continuavam olhando torto para ele. Vai ver eram amigos de Lukka.
— Não mesmo, vamos embarcar logo. Onde ficaremos alojados? – perguntou Hytanör.
— Vocês podem ficar na minha cabine, fica no sexto andar. Tem muito espaço para nós quatro. – revelou Cléo.
— Quatro? – questionou Ellos enquanto contava nos dedos. – mas somos só três.
— Jura? Não tinha notado. – disse Cléo com um sorrisinho sarcástico.
Ellos se sentiu ofendido, pois fez uma cara que lhe era de praxe quando zombavam às custas dele.
— Estou brincando. Minha irmã. Aquela chata vai dividir com a gente. Culpa da minha mãe que insiste em colocar nós duas juntas em tudo que é lugar, não desistem de tentar fazer nós duas nos darmos bem. Ela é muito nojenta! Vocês vão saber do que estou falando. – disse enquanto rumava às pressas para as escadarias que levariam aos andares acima.
— Fãs? Agora tenho fãs? – falou baixinho consigo mesmo. – Só podem estar me gozando. Era só o que faltava. – disse Hytanör enquanto ria sozinho de si mesmo. Agora ele estava ao encalço de Ellos e Cléo, o navio já ia zarpar e a ansiedade era tamanha que parecia que o peito de Hytanör ia explodir.
Fora alguns contratempos como a alça da mala de Hytanör arrebentar, e alguns tropeços de Ellos nas escadas, os três conseguiram chegar ao sexto – e último – andar bem e exaustos. Era um andar de luxo, para quem tinha realmente riqueza, e a família de Cléo com certeza devia ter muitos dotes. Tinham muitas lamparinas instaladas nos corredores, e um carpete vermelho extremamente confortável que dava a impressão de ser muito melhor do que muitas camas, como a de Hytanör por exemplo. Tinham alguns quadros de alguns grupos de pessoas nas paredes do corredor como se fossem membros de Sant Sovhen que estiveram neste navio em tempos outroras. Ao final do corredor estava o quarto.
Era muito espaçoso e aconchegante o quarto. Tinha sofá, mesa, banheiro e uma imensa cama repleta de bonecas e ursinhos de pelúcia. O chão igualmente ao corredor era coberto por um carpete tão acolchoado que nem precisaria arrumar uma cama para dormir, só de pisá-lo já dava uma pontinha de sono. Ao lado tinha uma porta que dava para uma outra suíte da mesma cabine, era onde a irmã de Cléo dormia. A irmã de Cléo chamava-se Dora Azamara. Ela era, segundo sua irmã, chata, arrogante, metida e mimada. Queria sempre tudo do bom e do melhor. Apesar de ser a irmã mais nova, Cléo é a que tinha mais cabeça, era mais pé no chão e não brigava com a irmã por coisas fúteis.
— Bom, caso queiram tirar uma soneca, vocês podem dormir em qualquer parte do cômodo, menos é claro no quarto da minha irmã. – disse Cléo com cara de deboche. – Fora isso, podem deitar no sofá ou no chão, tanto faz. Se quiserem podem pegar travesseiros, colchas, colchões e etc.
— Tudo bem Cléo, está tudo bem. – disse Hytanör. – quanto tempo vai durar essa viagem?
— Provavelmente ao anoitecer chegaremos lá. – disse Cléo com muita certeza.
— Bom, então acho que vou tirar uma soneca. – disse Ellos caminhando para o sofá no momento em que o barulho da porta se abrindo assustou os três. Era Dora. Ela havia entrado no quarto e estava junta de mais três amigas. Todas impecavelmente vestidas, mas uma estava mais bela como sempre e essa era Lorihenne.
— Ora, ora irmãzinha, vejo que fez amizades. Finalmente né. Se bem que entre não ter amigos e ter esses dois aí não tem diferença, estou certa? – gargalharam as meninas aos berros, enquanto que Lorihenne permanecia séria.
— Nossa! Minha irmã fútil é tão engraçada. Você não tem mais o que fazer não? Tipo estudar um pouco para não precisar colar. No ateneu os professores não vão ser tão bonzinhos como os daqui não. Melhor ir se acostumando. – revelou Cléo com uma cara de deboche que irritaria qualquer um. Ela era boa em irritar as pessoas, principalmente sua irmã.
— Arrgh garota, cale a boca! Você vai ver só! Vou contar para os nossos pais que trouxe desconhecidos para nossa cabine. – esperneou Dora enquanto dava chiliques e suas amigas a seguravam.
— Já chega Dora, deixa de ser chata com a sua irmã. Vamos. – interrompeu Lorihenne para a surpresa de todos.
As garotas saíram pela porta, Hytanör ainda pôde ver em um último instante um olhar discreto de Lorihenne, e então a porta se fechou.
— Aff! – sentou-se bruscamente à cama. – desculpem gente, mas minha irmã é isso aí, um nojo. É por isso que me excluí nas academias por onde passei, prefiro não ser amiga de ninguém a ter de conviver no mesmo círculo de amizades que ela.
— Eu entendo. – disse Hytanör.
— Gente, quando é que será que o navio vai partir? – questionou Ellos quando no instante seguinte ouviu-se um som alarmante e quase ensurdecedor.
— Eita! Que boca hein! – disse Cléo espertamente, ao tempo em que todos caíram as gargalhadas com a piada.
Já fazia algumas horas que o navio partira, o sol estava começando a se retirar lentamente do horizonte. Cléo e Ellos adormeceram em seus respectivos lugares, ou seja, cama e sofá. Hytanör cansado de tentar dormir saiu para ver o mar. Havia uma sacada, uma pequenina varanda, que todas as cabines do sexto andar tinham. Ao sair para a sacada notou uma presença ao seu lado, era Lorihenne na sacada ao lado, do quarto da irmã de Cléo. Ela estava vestindo um manto que cobria suas roupas de dormir, ela olhava para o nada, talvez o sol se pondo, não havia como saber. Seu olhar estava perdido no horizonte até que Lorihenne percebeu a presença de Hytanör e direcionou seu olhar para ele, e pela primeira vez, ela sorriu. Hytanör ficou constrangido, mal soube reagir, não sabia se acenava com a mão ou a cabeça. Lorihenne pareceu rir ainda mais.
— Não consegue dormir? – as palavras custaram a sair, mas Hytanör conseguiu.
— Não, estou ansiosa demais para isso. – disse voltando a olhar para o horizonte. – Espero que o ateneu seja isso tudo mesmo que todos falam.
— Tenho certeza que sim, sinto que nossas vidas nunca mais serão as mesmas depois que botarmos nossos pés lá. – refletiu Hytanör, agora também olhando para o horizonte majestoso.
— Desculpe pela Dora, ela é muito infantil às vezes. – disse Lorihenne.
— Mas é compreensível, adolescentes são assim. – disse Hytanör sorrindo.
— Sim, eu sei. Mas é que ela extrapola. – retrucou com um belo sorriso.
— Tudo bem. Não tem problema, estou acostumado com essas hostilidades. – falou Hytanör mostrando-se seguro de suas palavras. Como se nada o abatesse.
— Queria saber uma coisa... – disse Lorihenne. — ...o que aconteceu com... – foi quando o navio estremeceu e um grande clarão dourado ocorreu no céu, mais precisamente à frente do navio, o que quer que tivesse acontecido, ocorreu na proa. Os dois tiveram que se segurar no que estivesse mais próximo. O Negrume Núncio estava empinando, levantando a proa, como se estivesse subindo uma ladeira íngreme invisível. Mas não havia nada em baixo, a não ser o mar. Foi então que um som de uma ave estremeceu os céus e acordou todos os que já não tivessem despertado com o navio levantando vôo. Por que era isso que estava acontecendo. O navio estava levantando vôo!
Após algum tempo, e com o navio estabilizado horizontalmente nos céus de Ellohen, todos os estudantes correram para a proa do navio e puderam ver a grande ave que mais cedo parecia apenas uma estátua, um adereço do navio, ganhara vida agora e seu tamanho era duas vezes maior, devia ter uns 4 metros e 8 de envergadura – tamanho de uma ponta da asa até a outra. A vista também era incrível, os pássaros pareciam acompanhar o navio voador como se fosse uma grande mãe para eles. Ao fim do horizonte o sol estava com mais da metade seu "corpo submerso" nas águas calmas e coloridas pelos raios flamejantes. Era uma vista única, a brisa reconfortava a todos e inspirava novos tempos. Talvez tempos de paz, se assim fosse a vontade dos selünes.
Hytanör estava na proa junto de seus amigos Ellos e Cléo e começava a ver agora a grande ilha que surgia por entre as nuvens, quase imperceptível. Uma gigantesca ilha flutuante. Os pássaros que acompanhavam o navio partiram em disparada para a ilha, podiam-se ver as águas dos rios que ao final da ilha caiam como cachoeiras sem fim, e que deixavam a grande ilha mais esplendorosa.
— É linda! – disse Ellos simplesmente hipnotizado.
— É! – foi o que Hytanör conseguiu dizer diante de tamanha beleza.
Cléo não falou nada, e não precisava. Seus olhos brilhavam intensamente com tamanha emoção. Todos à bordo da proa estavam emocionados, mas era quase impossível não ficar ao menos extasiado de ver um local como esse. Hytanör sentiu seu coração pulsar e quase pôde sentir o cordão que seu avô lhe dera pulsar também. Lembrara de tantos momentos de dificuldades que haviam passado para chegar até aqui, e tinha valido cada gota de suor derramado, cada noite mal dormida às avessas com os estudos. Estava diante de seu maior sonho, e seu avô de algum modo estava ali, Hytanör sentia-se confortável, o amuleto da cruz em ouro branco reluzia diante da pequena fração do sol que se escondia ao horizonte e brilhava ainda mais diante da lua colossal que agora surgia por entre as nuvens para se postar diante do barco flutuante. Hytanör segurou forte o pingente e desejou que tudo desse certo, que as suas dúvidas virassem certezas e seus objetivos o levassem a grande verdade que tanto buscara durante sua vida. Seus pais. O que acontecera de verdade? Será que ficaria feliz e orgulhoso em saber que seu filho estava prestes pôr os pés em Sant Sovhen? Adônis nunca fora muito de falar de Iccarus, seu filho. Hytanör somente sabe que seu pai Iccarus e sua mãe Marinah morreram como punição de acusações de traição à coroa. Mas qualquer assunto mais aprofundado sobre esse assunto deixava Adônis surpreendentemente irritado. E Hytanör sabia muito bem disso.
Já era noite quando o Negrume Núncio entrou em contato com as águas límpidas de um imenso lago de águas cristalinas, que era a grande mãe de todos os rios, de lá saiam os pequenos rios para outros locais de natureza abundante da ilha. O navio ancorou em um porto que tinha uma placa onde estava escrito "Lar dos Heróis: Bem vindos à Sant Sovhen". Haviam algumas dezenas de carruagens construídas da mesma madeira feita do barco, os cavalos negros e robustos se mantinham inquietos como se estivessem tão ansiosos quanto os novos alunos. Foi uma grande confusão quando começaram a descarregar as malas, era um tal de "Cadê minha mala?", "Onde foi que guardei?" e "Alguma alma caridosa pode me ajudar?" que perderam quase uma hora nessa confusão. Desde quando o navio ancorou Hytanör não viu mais Lorihenne, era tanta gente correndo para todos os cantos que perdera o foco e agora já estava de mala de cuia, junto de Cléo e Ellos descendo a grande rampa em direção as carruagens que em terra firme aguardavam os novos estudantes. As carruagens eram muito bem produzidas com cortinas vermelhas e as madeiras, embora bem escuras, estavam repletas de adornos dourados. Enquanto descia vagarosamente, os soldados de Sant Sovhen aguardavam pacientemente os alunos. Eles trajavam armaduras leves, que mais pareciam roupas pretas acolchoadas e uma faixa verde no braço esquerdo que podia indicar algo, mas que no momento era indecifrável. Eles formavam um corredor até as carruagens por onde os alunos passavam. Alguns alunos tentavam em vão cumprimentá-los. Eles eram imóveis como estátuas, davam medo e ao mesmo tempo uma sensação de segurança, pois todos estavam armados de longas espadas de um aço bem diferente de tudo o que Hytanör já tinha visto antes. Havia um homem que parecia ser o líder do esquadrão, pois dava ordens para que os outros ajudassem os alunos com as malas. Além disso, ele se encarregava de informar a todos os alunos suas respectivas carruagens, que iriam levá-los ao encontro do ateneu.
O caminho percorrido pelas carruagens passava por uma densa floresta repleta de pontos de luzes flutuantes, o que dava um clima de nostalgia ao local. Pareciam ser fadas rondando o local e que estavam dando as boas-vindas aos novos moradores. Foi o que pensou Hytanör. Mais alguns minutos adiante a floresta já ficara para trás e um grande monumento pôde-se ver. Era a grande entrada para o ateneu. O monumento retratava a grande selüne da paz e justiça, Alürenn, de pé apoiando-se em seu escudo fincado ao chão, seu rosto estava olhando para o céu como se estivesse admirando-o. O portão era colossal e extremamente pesado, se não fosse pela mágyka teriam que abri-lo manualmente e isso iria requerer pelo menos uns 10 homens. Pelo lado de fora já dava para se ter uma noção da grandiosidade do ateneu, podia-se ver bem longe luzes que seguiam-se por uma subida e no ponto mais alto do ateneu uma fortaleza, um castelo central com muitas torres que fariam Andher se sentir minúscula. As portas se abriram lentamente e a frota das carruagens adentrou ao que mais parecia um imenso complexo de gigantescas casas, torres e pequenas fortalezas, as ruas eram feitas de pequenos paralelepípedos cuidadosamente instalados, e a principal estrada levava, mesmo que bem distante, ao imenso e imponente castelo de Sant Sovhen que Hytanör avistara de fora. As carruagens passaram pelas imensas torres de onde se podia sentir o amital percorrendo por elas, luzes e explosões podiam ser vistas pelas janelas, pareciam locais de experimentos ou mesmo treinamentos para a prática de mágyka. Outros lugares que poderiam ser armazéns de armas e equipamentos em geral devido a símbolos incrustados nas paredes que lhes faziam pensar isso.
— Esses lugares o qual passamos são torres de experimentos e treinamentos avançados do uso do amital. Os armazéns fechados são os nossos arsenais de armas, armaduras e afins... – disse uma voz que vinha de fora da carruagem, antes de soltar um largo bocejo. Só poderia ser o condutor pensou Hytanör, enquanto punha a cabeça do lado de fora para se certificar.
— Sou o condutor e também um guia. Trabalho para Sant Sovhen há anos... – dizia enquanto virava para ver o jovem Hytanör olhá-lo pela janela. — ...rapazinho fique dentro da carruagem pode ser perigoso, você pode cair. Hytanör prontamente obedeceu e viu seus amigos rirem da "bronca" que acabara de levar.
— Aqui temos muitos campos verdejantes e tranquilos, árvores que dão de tudo o que vocês imaginarem, é muito tranquilo viver aqui. A única coisa que é expressamente proibido é cruzar os limites do ateneu. Embora esta seja uma ilha mágica, não podemos controlar a natureza e os monstros que já habitavam esta ilha muito antes de nós existirmos. – continuou explicando.
A carruagem continuou passando agora por campos que não pareciam tão verdes agora, talvez por causa da noite. Talvez amanhã dê para conhecer o lugar melhor – pensou Hytanör. Tinham até montanhas ao leste, o local era tão grande que não se podia ver os limites do ateneu, apenas sabia-se que os muros eram altamente protegidos por mágykas poderosíssimas para que nada de mal entrasse. Ao lado esquerdo podia-se ver um grande monumento que parecia ser uma grande arena de batalha, aquilo inspirou Hytanör, fez-se sentir muito empolgado. Agora, a subida era grande, estavam entrando nos domínios do castelo Sant Sovhen. Cercado de flores, assim era a estrada até os portões monstruosos, o grande pátio externo estava repleto de membros de Sant Sovhen aguardando as carruagens. O pátio também era chamativo. Um chafariz ao centro chamava toda a atenção para si, trazia uma estátua de um cavaleiro duelando com um ser mítico de outras eras, parecia uma grande serpente com asas e garras, enquanto que da boca do ser saía a água, era simplesmente fascinante. Quando as carruagens chegaram, Hytanör pôde ver um homem que aguardava pacientemente a chegada da frota de novos alunos. Este era Agnis, o velho das barbas trançadas. O pátio era tão grande que couberam todas as carruagens para que todos pudessem descer com suas malas e seguirem as instruções dadas por Agnis.
— Boa noite a todos, novos alunos! Sou Agnis Nortilus, Conselheiro Primordial da Millora Regente. – disse numa voz rouca e alta. – E dou-lhes as boas-vindas à Sant Sovhen, os nossos camareiros e acólitos irão ajudá-los com as malas e lhes levarão para seus quartos provisórios. Mais tarde vocês terão todas as dúvidas esclarecidas, todas as regras, e como funcionam as coisas em Sant Sovhen. Será um cerimonial de boas-vindas para vocês. Onde todos poderão conhecer os professores e colegas de outros anos escolares. Venham! Vamos entrando. – Agnis deu a ordem para que abrissem os portões e então todos puderam ver e admirar o quão belo era a entrada principal, um salão nobre gigantesco que parecia um imenso pátio interno, – ainda maior que o externo – era belo em todos os aspectos, o chão era forrado por um carpete vermelho luxuoso e confortável. O teto era repleto de lustres abastecidos de inúmeras velas mágykas, ali naquele pátio tinha pelo menos três andares circulares onde alguns alunos caminhavam para seus destinos, enquanto outros paravam para ver os novos residentes que chegavam. Algumas estátuas e sofás enfeitavam o local, logo a frente um imenso corredor levava a uma escadaria principal. Era uma escadaria em espiral que levava aos níveis mais elevados do castelo.
Todos seguiram adiante levando suas malas com a ajuda dos acólitos. Era notório a apreensão de todos, era tudo muito belo e a proximidade da cerimônia estava deixando a todos ansiosos para conhecer como seriam suas vidas daqui em diante.
Os acólitos deixaram Hytanör e seus amigos no 2º andar, que era um corredor bastante extenso e bem iluminado, centenas de portas, umas de frente para as outras. Cléo logo se prontificou a perguntar.
— Onde ficaremos, senhor?
— Vocês ficarão provisoriamente no quarto 252. – respondeu o homem que ajudava a levar as malas. Ele era alto, magro e muito branco, quase pálido. Vestia uma roupa toda preta e uma camisa branca por baixo.
— Como assim "provisoriamente"? Não entendi essa parte. – retrucou Cléo interessada.
— Vocês não dormirão aqui. No cerimonial irão saber em qual morada irão se instalar, de acordo com o Narish. Vocês saberão de tudo na cerimônia que será no salão nobre principal. Não posso lhes dizer muita coisa, mas fiquem tranquilos, não tem nada com o que temer. Apenas peço para que deixem suas coisas guardadas e se arrumem, e vistam-se porque essa noite será de gala para vocês.
— Gala? – resmungou Cléo. – Mas não trouxe nenhuma roupa de festa!
— Calma Cléo. – disse Hytanör tentando acalmar. – Eu também não tenho, não deve ser nada demais. Acho que isso será um tipo de confraternização, apenas para conhecermos nossos professores e nos familiarizarmos com o lugar.
— Sim, sim. – agora com um sorriso no rosto, mas ainda preocupada.
— E só mais uma coisa, se eu fosse vocês eu aproveitaria a festa porque aqui não é muito comum termos essas festas, somente em ocasiões especiais mesmo. – disse baixinho o homem com um leve sorriso nos lábios.
Hytanör e seus amigos entraram no quarto 252 e se depararam com um grande quarto com quatro camas, um armário e dois banheiros. O quarto era bem simples, mas mesmo assim maior do que a casa de Hytanör em Andher.
— Até que enfim, já estava ficando cansado de tanto andar e subir escadas. Minhas pernas já estavam doendo. – bufou Ellos enquanto se jogava na cama fofa.
— É verdade. Como é grande esse lugar. – exclamou Hytanör, sentando-se em uma das camas ao lado.
— É, mas tenho a impressão de que não vimos nem metade. – falou Cléo enquanto rumava para o banheiro com as malas.
— Onde você vai Cléo? – indagou Hytanör.
— Aonde mais? Me trocar, oras. Não ouviu o que o homem falou? Temos que nos arrumar para o cerimonial. Estão esperando por nós. – ouviu-se apenas o batido da porta quando Cléo terminou de falar.
Hytanör estava nervoso já que não gostava de festas, era tímido e por isso, festas não eram o seu forte. Sempre fugia das festas em Andher, preferia ficar só em algum canto imaginando como seria estar em um ateneu e agora que estava em um não tinha do que e como fugir. Teria que encarar esta festa e saber comportar-se em uma. Não poderia fugir para sempre e muito menos de Agnis que com certeza daria falta dele. Hytanör respirou fundo e levantou-se em direção ao outro banheiro, no caminho passou por Ellos.
— Vamos Ellos. Vamos botar para quebrar nessa festa!
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