Elevador

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Apague as luzes, e boa leitura!

7... 6... 5... E assim sucessivamente, andar por andar, o elevador desceu ao térreo do prédio residencial. Suas portas abriram-se e do seu interior saiu um dos seguranças, que já ia começar seu turno da noite. Em frente ao transporte vertical, quatro pessoas permaneciam sérias. Tinham acabado de chegar de seus empregos, exaustas e estressadas, precisavam dormir para livrar-se das olheiras que manchavam a parte inferior de seus olhos cansados.

Entre elas estava um velho de sessenta e sete anos de idade, que carregava consigo uma pequena bolsa, perceptivelmente muito pesada. Mary remexeu sua cara bolsa de couro, e de dentro dela tirou um celular, que guardou ligeiramente após responder a uma mensagem. Ela vinha acompanhada de Júnior, seu segurança, que tinha a obrigação de levá-la até a porta de casa. A outra pessoa era um homem. Tom parou de chacoalhar suas pernas, que demonstravam insatisfação pela demora do elevador. Ao mesmo tempo lembrava-se dos tempos de presidiário. Fora condenado a dez anos de cadeia por tráfico de drogas e outros crimes, porém conseguiu sair cumprindo apenas seis anos de sua pena.

O segurança os cumprimentou com um sério “boa-noite”. A resposta veio de alguns, em um baixo som quase incompreensível. E saiu com a cabeça erguida e uma expressão não muito boa.

O pequeno grupo entrou de uma vez no elevador. 17, 28 e 23 foram os botões pressionados. O todos permaneciam em silêncio enquanto a caixa de metal era erguida.

– O que foi isso? – repentinamente falou Mary ao olhar para trás e não ver nada.

Todos continuaram calados e olharam para ela com suas pálpebras apertadas. Júnior focou sua visão em sua patroa, vigiando-a sorrateiramente. Estava apenas cumprindo com suas obrigações de segurança.

Já no terceiro andar, Tom tentou mais uma vez roubar algo de valor da bolsa da mulher. Tentativa essa que fora percebida pelo guarda-costas.

– Ei, mantenha-se longe dela! – vociferou Júnior depois de mover-se bruscamente até a frente do ex-presidiário.

– Mas, do que você está falando? – respondeu como se não estivesse entendendo a situação.

– Eu vi quando você tentou furtar algo de dentro da bolsa da Sra. Mary.

– Então foi você? Eu vou te denunciar para a polícia! – com raiva, Mary entrou na conversa.

O velho permanecia calado e fora da discussão, mas assustado. Tom se decepcionou com ele mesmo por causa de sua ação falha. Seus lábios encontraram-se, mas suas sobrancelhas, por mais que tentavam, só conseguiam se aproximar uma da outra. Permaneceu com a mesma expressão agressiva por alguns segundos. Até que resolveu confessar, já que alguma câmera poderia tê-lo filmado. Não tinha como escapar.

– Tenteimesmo! E isso não é da sua conta! – gritou referindo-se a Júnior.

– Ah, seu... – O guarda-costas partiu para agressão dando-lhe um soco – Eu vou quebrar a tua cara!

Mary, com suas mãos em suas orelhas, gritava implorando que parassem, mas socos e sangue eram só o que saia da briga. Encolhido em um canto, o velho mantinha-se calado e trêmulo. Os dois estavam praticamente matando-se.

Repentinamente todas as lâmpadas do elevador começaram a piscar, mas nem por isso os dois param de trocar punhadas. Até que o elevador abalou-se e parou de subir. Suas luzes apagaram-se de vez e a briga finalmente cessou. Um grito entoou perante escuridão, a última coisa que se ouviu. Aflitos, ninguém sabia o que fazer mediante aquela situação.

A energia voltou ao prédio, o elevador continuou seu trajeto e as luzes tornaram-se acesas novamente, iluminando o corpo de Tom, que caído ao chão, não parava de evacuar sangue.

Ao ver a trágica cena, todos ficaram surpresos, cientes de que havia um assassino entre eles. Mary, em desespero, pôs-se a chorar. O guarda-costas aproximou-se do corpo, ajoelhou, e pôs a sua mão sobre o pulso do cadáver. Com a notícia da morte do ex-presidiário, Mary atirou-se de vez ao chão aos prantos.

O elevador chegou ao décimo terceiro andar, onde uma mulher distraída o aguardava. Quando as portas abriram-se, viu o sangue espalhado pela cabine e pelas roupas das três pessoas, tomou um susto e correu em direção as escadas.

Todos saíram do elevador, tinham medo do que poderia acontecer depois. As portas do elevador fecharam, e o transporte subiu ainda com o corpo dentro. Mary socava a parede, seu choro havia diminuído, mas tinha raiva.

– Por quê? Por que você fez isso, Júnior? – disse ela apoiando-se na parede. – Você não precisava ter matado ele!

– Eu... Eu... – respondeu tapando o nariz que ainda sangrava.

– Você é quem estava brigando com ele. – interrompeu o velho – Você não pensa nas consequências? Agora todos nós vamos para a cadeia...

– Você não tinha motivos, Júnior. Você tinha que me proteger, não precisava ter chegado a esse ponto. Está demitido...

No momento em que ia falar, a atenção que todos prestavam a Júnior foi desviada pelo barulho de passos vindos da escada. Três policiais subiram e vinham andando em direção aos três que, de mãos levantadas, recebiam ordens para ficarem onde estavam. Logo quando avistaram suas roupas manchadas, os policiais pediram reforços. Ouviu-se o ressoar de uma sirene vindo do lado de fora. Era uma ambulância que tinha vindo socorrer o corpo sem vida.

Os suspeitos foram interrogados ali mesmo, não contaram mentiras. A câmera do elevador, cujas filmagens também foram investigadas, confirmou todos os depoimentos e entregou aos policiais a certeza de que o autor do assassinato fora o guarda-costas.

Os olhos de Mary e do velho os tranquilizaram ao verem Júnior, algemado, saindo do prédio direto para uma viatura. Foi conduzido até a delegacia mais próxima, onde tudo o que disse em sua defesa não foi páreo para as acusações que tinham contra ele. Acabou sendo preso.

Naquele mesmo instante, em um apartamento do vigésimo terceiro andar de um prédio qualquer, um velho de sessenta e sete anos repousava em sua poltrona com a sensação de finalmente ter dado a pena que Tom merecia. Seis anos não foram suficientes. O velho tirou de sua pequena bolsa uma faca suja de sangue, e a pôs sobre a mesa da sala. Olhou para a escuridão do horizonte, e pensou consigo mesmo: não poderia ter havido oportunidade melhor. Desviou o olhar para o retrato de sua falecida filha. Sentia-se vingado.

Notas finais
Obrigado por ler! (Não olhe para trás agora!)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!