Elesa

2 Epílogo


Notas iniciais
A parte final da história. Espero que sirva para explicar parte da história original.

– Isso aqui ficou uma bagunça — reclamou a sacerdotisa. "E eu não tenho muito tempo a perder."

Correu pelas escadas até a lavanderia para buscar alguns panos, um balde de água, algum sabonete e vários sacos enormes de couro; de certa forma, ela já se preparava para esconder corpos.

Apressava-se mentalmente a cada minuto, e limpar toda aquela sujeira lhe custou uns dez. Quanto aos corpos, foram todos devidamente guardados. Foi fácil manejar os membros para entrarem direito nos sacos, já que não teve tempo o suficiente para o endurecimento dos músculos; mais fácil ainda quando um deles se tratava de um anão e ao levar em conta que, com exceção ao guerreiro, todos foram cortados ao meio. Invocou um dos seus bichinhos de estimação: uma Succubus, tão alta e sedutora quanto a dona.

– Ajude-me a arrastar esses sacos pro porão — pediu, e assim foi feito, obedientemente. Enquanto os sacos eram levados, trancou a porta — não que isso fosse adiantar de algo -, fechou todas as janelas, pegou uma mochila em seu quarto — aproveitou para guardar todos as anotações jogadas no chão — e foi até a cozinha.
O livro estava intacto e fechado no chão; os dois pisos, ainda removidos. A placa de vidro estava fechada. Todos os outros pisos estavam intactos. "Aparentemente, aquele foi o único livro a ser descoberto. Excelente." Apressadamente, removeu cerca de vinte pisos, cada um com a sua respectiva placa de vidro, guardando mais um livro cada. Após retirar todos os livros — mais dez minutos, aproximadamente -, guardou-os todos na mochila e, finalmente, dirigiu-se até o porão.

Terminava a sua prece à sua constelação quando ouviu um grito distante e desesperado.

– General Sutherland — Virou-se para a escadaria e descobriu um guerreiro ruivo, a ponto de cuspir o pulmão, correndo e cambaleando escada abaixo. Só parou quando estava bem em frente ao General.

– Major Oak — cumprimentou-o, mantendo certa calma na voz. — Suponho que tenha bastante a falar sobre a sua missão. Venha comigo — abriu a porta atrás dele e permitiu que o guerreiro entrasse primeiro. "Minhas preces respondem", pensou o General. "Veremos se ao meu favor."

Dentro de seu local de trabalho, depararam-se com uma jovem, de aproximadamente treze anos, lendo um livro. Seus cabelos eram castanhos; seus olhos, verdes escuros. Seu corpo ainda estava se modificando, mas parecia dar forma a uma bela mulher. Quando ouviu a porta abrir, imediatamente enfiou uma pena entre uma página e outra de seu livro e o fechou.

– Vovô — cumprimentou, alegremente, o General. Ouvir aquela palavra deixou o Major perplexo. Observá-la, mais ainda, ao lembrar dos quadros. Decidiu que ficaria quieto. — Esse é aquele homem que você mandou?

– Sim, ele está aqui para reportar a sua missão — "e, se os Deuses forem bons, me dará boas notícias." — Importa-se em ir ler no seu quarto?

– De maneira alguma — olhou para o Major por um breve momento. Então, pegou o seu livro e seguiu por um corredor à esquerda.

O General, enfim, permitiu que o Major descansasse sobre o mesmo sofá enquanto espremia alguns limões. Colocou três quartos de um copo de água para ferver enquanto despejava uma xícara de leite e outra de açúcar em uma bacia grande de mistura. Quando apenas dois quartos da água restavam, despejou-a fervendo e começou a bater com maestria, sem derramar uma gota pra fora da bacia. Quando finalmente conseguiu uma certa consistência, colocou um pouco desse leite condensado, um pouco mais de água e o suco de um limão inteiro. Guardou o restante do leite condensado num pote para armazenar e voltou para aonde o homem estava, bem mais calmo.

– Não espero que isto aqui resolva o que te atormenta, mas peço que beba um pouco deste suco e, calmamente, reporte a sua missão — entregou o copo e sentou-se em um sofá do lado oposto.

Com o copo pela metade, reportou ao General tudo o que descobriu: sobre a existência de um porão maior do que o próprio terreno, os equipamentos e quadros — incluindo o inacabado — e o diário. O rosto do General permaneceu intacto, mesmo quando o Major explicava como mal escapou vivo. Alguns momentos de silêncio seguiram-se após o final do relato.

– Então é isso — declarou, finalmente, o General. — Ela também se foi.

– O que quer dizer com isso, senhor? — indagou um guerreiro surpreso "Se isso continuar assim, a minha cabeça vai explodir."

– Antes do rapto da minha irmã, três colunas mantinham-me em pé. Com a sua morte, uma se foi. Com o seu relato, apenas um resta. O único pilar que me sustenta agora é o que me diz para acabar com o mal da Storm Legion de uma vez por todas, e eu temo que o dia da batalha final está se aproximando cada vez mais. — Ao final de sua confissão, tentou manter a voz firme. — Perdoe-me por isso, Major Oak, mas peço que deixe-me sozinho por um tempo. Preciso colocar a mente em ordem.

Era a primeira vez que o guerreiro viu o general triste daquele jeito; aliás, era a primeira vez que o via triste. Mesmo quando sua irmã foi raptada e morta, o General manteve-se forte por fora, triste por dentro. Agora, era como se ele quase não fizesse questão de mostrar o seu desapontamento. "Por que ele não ficou triste desde quando mandou-nos até sua residência para procurar por vestígios de uma mulher sob crimes de chacina? Por que agora? Quem é essa mulher, afinal de contas?"

– Peço desculpas pela falha em minha missão, senhor. Com a sua licença — foi tudo o que conseguiu dizer; nenhuma resposta foi ouvida. Silenciosamente, levantou-se e dirigiu-se até a porta... mas ele precisava encontrar uma resposta. Precisaria andar firme, no entanto; não queria piorar a situação de seu General, nem a sua.

Nos subsolos de Freedom Harbor, uma mulher espreitava-se em túneis com uma Succubus logo atrás.

Alguns corpos também estavam sendo arrastados pelas duas. Foram longos minutos até encontrarem a saída daquele inferno, mas agora não era tempo para pensar nisso. O que tivesse que fazer logo depois, era para ser feito rápido.

Na boca do túnel, empilhou as duas sacolas de couro que arrastava e levantou-as até a altura do peito com as duas mãos. Cautelosamente, pulou de lá até uma pedra, dez metros abaixo; de lá, até outra pedra, e mais outras duas, até alcançar o solo, com a Succubus logo atrás, carregando a terceira sacola.

– Lembro-me de como se fosse ontem quando derrotei a Manifestação da Chacina aqui, preso neste inferno de prisão. No final de tudo, ainda consegui dois pergaminhos avançados para as minhas habilidades e um cajado raríssimo — disse, com a voz elevada, para o nada.

– Tudo isso foi marcante, não acha? — respondeu uma voz misteriosa, seguida de um riso abafado que ecoou pelo antigo salão aonde Kluer fora um dia acorrentado. A sacerdotisa virou-se para a direção da voz.

– Aqui estão os três corpos de Lionhearts que você pediu — colocou os sacos no chão. — Martelei durante uma semana a minha cabeça um plano para matar três Lionhearts sem levantar suspeitas... e, hoje de tarde, tenho essa surpresa. Parece-me que o destino sorriu para mim — ironizou.

– Mas isso foi obra do destino mesmo, senhorita. Com algumas alterações, é claro — e deu sequência a outra risada abafada.

– Se eu precisava de apenas três, por que mandou quatro atás de mim?

– Para que um sobrevivesse e avisasse o General, oras.

– Por quê? — perguntou, confusa. — Por que deixá-lo saber de seus planos dessa maneira?

– Por que o Deus do Desastre também aprecia um pouco de diversão — outra risada abafada sucedeu-se.

– Achei que uma Manifestação do Desastre vestida de sacerdotisa fosse o suficiente para uma era — desta vez, os dois riram arduamente. A Succubus ficou apenas parada, escutando a conversa e os ecos, no mínimo, aterrorizantes.

– Mais irônico do que isso será o fato de você ser mais forte do que uma Manifestação vestida de guerreira. Oh, muito mais forte. Mas, sendo do sangue de um general, isso é natural. Muita gente teria desistido da vida depois de vivenciar situações assim, mas não ele. E é isso que torna tudo mais interessante. — Uma nova risada abafada, mais longa e maligna, ecoou pelas paredes. — Já está na hora da sua transformação. Vamos?

Já sabendo a resposta, a voz misteriosa teleportou a sacerdotisa, a sua Succubus e as sacolas de couro, certamente para longe dali.

Com a porta à sua frente, virou-se mais uma vez.

– Desculpe-me se estou perguntando mais do que deveria, senhor — disse, procurando manter a calma -, mas... quem é essa mulher?

Para isso, o general apenas levantou a cabeça, ainda sentado.

– Todos os crimes que eu disse sobre ela eram mentiras. Eu mandei vocês até lá porque estava suspeito de que a maldição ainda perpetuasse sobre a minha família; temo estar correto. — Parou de falar por alguns segundos para organizar o que viria depois do que seria dito. — Ela é a minha filha, Major Oak, mas isso não importa mais... ela também caiu nas desgraças do Deus do Desastre.

– Sua filha — repetiu o homem, completamente abismado com a notícia que recebia. "Primeiro a irmã; depois, a filha. Eu já teria cometido suicídio na menor suspeita de que a minha filha também estivesse indo pelo mesmo caminho." — Nunca soube de uma filha sua, senhor.

– Poucos sabem — respondeu calmamente. — Tive uma paixão quando ainda era novo, antes de me tornar general. Uma mulher linda, chamava-se Elesa. Foi um baque para mim quando descobri que ela estava grávida, mas sabia que precisava cumprir o meu dever. A mulher não resistiu ao parto, porém. Tive que cuidar da criança junto da minha irmã. Nomeei-a com o nome de sua mãe, jurando amá-la da mesma maneira. A minha pequena filha sempre considerou a minha irmã como uma mãe, e ela cresceu às sombras da minha ex-paixão, dos cabelos aos olhos, dos detalhes do rosto até as curvas de seu corpo. Pela graça de Vyda, até a altura era igual. Não pense que o meu amor por ela foi além de uma relação entre pai e filha, porém. — Um momento de silêncio fez o General concluir que o seu Major compreendia. — O que eu te contei aqui, permanece aqui. Sempre evitei que soubessem da minha filha para que ela não passasse por eventos traumatizantes, como sequestros ou perseguições. Agora, se descobrirem que ela também foi possuída, não vai demorar muito até que achem que eu também serei.

– Você não acha?

– Não é óbvio? Esse Deus do Desastre está brincando comigo. Se ele quisesse acabar comigo, já teria me possuído, mas então algum outro general apareceria. Portanto, ele preferiu me enfraquecer. Destruiu dois dos pilares que me sustentavam; agora, eu aposto como ele deve estar planejando com Dyos o próximo passo para declarar guerra ao resto de Eyrda. Contra um general enfraquecido, não há o que temer.

Sabia que o General estava fazendo um esforço extremo para não desabar, mas ainda precisava fazer mais uma pergunta.

– Aquela moça que te chamou de vovô... ela foi fruto de sua filha?

– Foi fruto dos cuidados dela, mas não de seu ventre — explicou. — Enquanto sã, encontrou uma garota de três anos num dos becos do Ninth District. Foi abandonada pelos pais, depois que um mercador recusou trocá-la por dez quilos de carne de veado, declarada como "inútil". Como uma sacerdotisa, ela ficou abismada com o que ouvia. Mas, mais do que isso, ela decidiu cuidar daquela criança. Mesmo solteira e com os afazeres de sua guilda e de sua classe, ela criou-a como uma verdadeira mãe.

– Impressionante — foi tudo o que o Major teve em mente, mas o fez de maneira sincera. — Qual é o nome dela?

– Ela não tinha, antes de conhecer a minha filha. Decidiu chamá-la July, um nome que a garota também aprovou. — Após alguns segundos, decidiu que não faria sentido esconder isso. — Na última semana, a minha filha — ou melhor, ex-filha — deixou-a aqui, alegando ter que se preparar para uma nova batalha contra o Koubo Bear, na Sleeping Jungle. Não entendi muito bem na hora, já que não era nada que fosse perpetuar por dias... agora, eu entendo.

Não havia nada mais que o ruivo pudesse perguntar, mas também não sabia como acabaria com aquele silêncio mórbido que perpetuava. Percebendo isso, o General decidiu concluir.

– Não se preocupe comigo, filho. Hoje, não tenho condições para mais nada, mas sei que vou me recuperar dessa apunhalada nas minhas costas. Mesmo isso não será o suficiente para me derrotar.

"Ele definitivamente merece o cargo de General", concluiu. "Eu já teria me suicidado até na pós-morte, se tal coisa existir."

– Seu segredo estará guardado comigo, senhor. Peço permissão para sair.

– Permissão concedida. Mantenha a sua lâmina afiada e o seu espírito forte.

– Por Freedom Harbor — respondeu. Virou as costas e, finalmente, retirou-se da residência do General.

O General, por sua vez, terminou o que restava do copo de limonada com leite condensado apenas para descobrir que, assim como não resolveria os tormentos do Major, também não afastaria a sua dor.

Um pouco depois, a sua neta apareceu correndo de seu quarto, como se tivesse ouvido a porta fechar, até um espaço ao seu lado, no mesmo sofá.

– Como foi, vovô? Descobriu alguma coisa sobre a mamãe?

– Descobri sim, querida. — "Amarga-me até a alma ter que contar a verdade para uma moça tão doce e inocente, mas eu não tenho escolha", refletiu. "Se um dia eu colocar as mãos naquele Deus filho de cem puta, ah, como terei prazer em cortá-lo em pedaços." — A sua mãe... foi possuída.

– Possuída? — perguntou, confusa. — Da mesma forma que aconteceu com a tia Charlotte?

– Sim — respondeu, amargurado. — Da mesma forma.

– Por quê? Por que estão fazendo isso com a gente? — percebeu que a sua voz já estava ficando gradualmente triste. — A mamãe não vai mais voltar?

"Muitas perguntas duras de uma só vez", pensou. "Muitas respostas amargas, também."

– Temo que não, minha querida — estava dando o seu melhor para não cair em prantos ali, na frente dela.

– Não — murmurou com uma voz chorosa. — Não, não, não, eu quero a minha mãe, você tem que fazer alguma coisa, vovô, por favor — a esse ponto, os olhos da moça já estavam marejados.

"Existe algo pior do que dizer a uma pessoa que não há nada que possa ser feito?", refletiu. "Esse Deus está tentando me destruir pela alma, definitivamente."

– Desculpe, minha querida... eu não posso fazer nada.

A cena de sua neta chorando foi demais para que ele pudesse aguentar. "Como eu posso dizer que pretendo defender uma nação inteira, se mal consigo defender a minha família?"

– Venha aqui, minha pequena — levou-a até o seu colo. — Chore, pode chorar, eu estou aqui.

Desta vez, apenas desta vez, permitiu-se lavar um pouco da sua dor. Sentiu uma lágrima rolar pelo seu rosto; e, então, outra, e mais uma. Momentos depois, descobriu-se afogado em lágrimas, enquanto tentava proteger a sua neta com um abraço.

Notas finais
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!