Eles Não se Importam
6 Uma Guerra Infindável
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 11:20 hrs
— Tchau, mãe!
Jota pegou sua bolsa e saiu apressadamente, novamente teria escola, contudo havia ido por dois dias seguidos, faltar um dia não faria diferença na sua cabeça inocente, sequer dariam por falta dele. Pensando nisso, foi exatamente o que fez.
Seguiu animadamente até a casinha com a macieira bonita, queria agradecer o presente e conversar sobre a pequena carta. Jota seguiu o caminho sob o sol, como de costume, e, à medida que ia se aproximando, notou uns e outros carros escuros que não pareciam ser daquela região. Bairro pacato, periférico, carros pretos como aqueles, de pintura reluzente e grande porte, dificilmente pertenceriam à realidade daqueles residentes. Intimidado, o menino apertou as alças da bolsa que envolviam os seus braços e apressou o passo apenas para confirmar os seus anseios: um daqueles grandes carros estava estacionado defronte da casa do homem.
Ele largou a bolsa e correu com todas as forças que suas pernas suportavam. O primeiro portão estava aberto, o segundo também, e havia homens estranhos de terno pela casa. Jota entrou sem ser impedido em um primeiro momento; sentiu a mão de um daqueles homens tentar conter sua adrenalina, mas o garoto foi mais ágil e se dissipou daquele pequeno grupo, correndo para o quintal do adulto até encontrá-lo não muito distante da porta, conversando com uma pessoa.
— Michael!
O homem se virou rapidamente ao ouvir a criança. Jota parou perto dele para respirar.
— Respire…
— O-o que… o que aconteceu?
Jota indagou concomitante ao movimento de sua cabeça, que virou-se na direção da mulher que estava perto. Era uma ruiva de cabelos ondulados, tinha lábios vermelhos assustadoramente encantadores e olhos profundos, vestia um vestido preto de mangas longas e sem decote que delineava o seu corpo e ia até os joelhos, além de sapatos de bico fino e salto. Jota não foi muito com a cara dela, ainda preferia Luna, que soava mais simpática e menos arrogante na sua opinião, mas Michael parecia ter algum envolvimento com aquela garota.
— Jota, hoje eu não vou poder ficar com você, vá pra escola.
— Mas o que é tudo isso??
— Isso não é coisa de criança, Jota! Volte ou eu irei chamar a sua mãe!
— Eu não vou embora!
O adulto suspirou forte, aborrecido. A mulher olhou para ele uma vez e se aproximou.
— Deixe ele aí, não vai atrapalhar.
— Como se não bastasse esses carros na frente de casa!
— Você sabe o risco de manter essa comunidade longe dos olhos do Estado, Michael! Eles vão vir aqui, vão tomar essas terras, vão realocar essas pessoas em alojamentos…
— Você quer dizer "favelas", não é? Eles não podem fazer isso, eu comprei essas terras.
— Você comprou algumas casas, não é a mesma coisa. Aqui não tem fiscalização, os impostos não são pagos, essas famílias não estão cadastradas no CAF…
A cada palavra que aquela mulher proferia, mais confuso o garotinho ficava. O olhar tenso e o brilho que se apagava das íris escuras do adulto deixavam Jota cada vez mais preocupado com o que iria acontecer com aquele lugar. Ele se sentia impotente, ele não conseguia pensar em nada para aquele momento.
— Lisa, você precisa fazer alguma coisa, você precisa…
— Eu fiz tudo que pude, Michael. Você não pode ficar aqui. Eu estou enrolando eles, mas eles virão. Se descobrirem que te ajudei, posso ser exonerada, processada ou presa, mas eu realmente não me importo, você sabe que eu faria tudo pra te ajudar.
Ele suspirou novamente, cansado.
— Oh, Deus…
— Michael…
Aquela ruiva se aproximou, levando uma mão ao rosto do moreno e o puxando para um selinho lento, mais na intenção de apascentar que sugerir algo. Michael revidou, lágrimas silenciosas saíam dos seus olhos. Jota pôs a língua pra fora, achando aquilo nojento.
— Obrigado por tudo o que você fez — ele sussurrou.
Ela mordeu os lábios. Seu olhar incisivo parecia sereno e melancólico quando aquele beijo teve o seu fim. Lisa se afastou, seus olhos se voltaram para o garotinho uma última vez antes de deixá-lo a sós com o adulto. Michael, ainda de olhar vago, lentamente se sentou ao chão e virou o rosto na direção do horizonte, nas lindas plantações de uva.
Jota se aproximou e se sentou ao seu lado.
— Quem era ela…?
— Uma amiga… — ele murmurou, com o olhar vago e vazio.
O garoto engoliu seco.
— Eles… eles vão destruir tudo?
Ainda em silêncio, o homem movimentou discretamente a cabeça, era imperceptível saber se positiva ou negativamente. Seu pomo-de-adão tremulou, ele estava segurando suas emoções mais fortes. Pela primeira vez Michael parecia perdido, pela primeira vez ele parecia não saber o que fazer. No fim das contas, Jota percebeu, ali, que ele não era como os super-heróis dos desenhos… ele era mais humano que isso.
— A lei que os beneficia é mais importante que a nossa fome…
Jota escondeu uma expressão assustada e voltou os olhos para a plantação adiante, a mesma visão que a do homem.
— Você disse isso pra mim naquele dia que a gente se conheceu…
— Disse, não é…? De lá pra cá, as coisas continuam as mesmas…
— Não, não continuam, não — o menino se levantou e invadiu o seu campo de visão. — Você mudou a minha vida. Eu vejo as coisas de um jeito diferente, eu vejo como tudo isso é importante. A gente não pode desistir de tudo isso, esse é o seu sonho! É o sonho de todos eles! Da Luna, da tia Nena, do seu Joel!
Michael, pela primeira vez, olhou para aquele menino com um olhar que exalava um misto de tristeza e esperança. Parte de sua alma estava cansada de lutar e de dar toda sua vida em uma guerra infindável, mas a luz nos olhos daquela criança acendia a outra parte da alma do adulto que ainda queria brigar por aquilo, por aquelas pessoas.
— Muita gente depende de você. Eu acho você incrível! Eu tenho vontade de ser como você quando crescer, eu quero fazer a mesma coisa. Eu quero lutar pelas pessoas que precisam, quero fazer as leis certas agirem do jeito certo, quero entender todas essas coisas complicadas. Por favor, não desiste, não desiste, Michael…
De repente Jota viu um sorriso tímido surgir no rosto do homem. Com os olhos brilhantes e as lágrimas a rolar, silenciosas, Michael assentiu discretamente e suspirou para tomar fôlego e se levantar.
— Obrigado, Jota… — ele murmurou, enquanto limpava o rosto discretamente — Bom… você tem que ir à escola. Eu realmente não vou poder caminhar com você hoje.
O garoto assentiu.
— Eu sei… Quando posso voltar pra cá?
— Eu não sei, vamos deixar essa poeira baixar. Se acontecer alguma coisa… não sei… se eu tiver que me mudar, eu te avisarei de alguma forma. Não deixe de passar por aqui de vez em quando. Agora vá…
Jota aquiesceu e fez um aceno com a cabeça antes de se retirar da casa. Uma vez que lhe deu as costas, Michael o chamou novamente.
— Jota…
O garoto virou o rosto mais uma vez. Michael o encarou em silêncio e, de punhos cerrados, prosseguiu.
— Vão nos espancar… nos odiar… mas nunca vão nos machucar. Vão obrigar, aterrorizar, mas nunca vão nos matar.
Ao ouvir aquelas palavras, Jota deixou escapar um sorriso muito fraco que logo se desfez. Um sorriso fraco, mas esperançoso, tinha fé de que aquela poeira densa um dia teria o seu fim. Talvez ainda fosse criança demais para entender toda a perversidade do mundo, mas tinha fé. Eles poderiam fazer o que fossem, a luta nunca terminaria.
Acenou novamente e correu para dentro da casa. Teve que passar, mais uma vez, por aquele tanto de homens engravatados. Boa parte deles já havia se retirado, mas um ou outro permaneceu enquanto a ruiva de preto ainda se encontrava por lá. Jota não olhou nos olhos de nenhum deles, simplesmente seguiu para fora de casa. Seus pensamentos estavam atordoados, estava torcendo para que as aulas acabassem mais cedo naquele dia.
Todavia, assim que se retirou, viu uma mulher em pé, próxima à bolsa que ele havia deixado cair quando adentrou à casa com pressa. Era sua mãe, e não estava sozinha.
— Jota! Venha cá, agora!
O garoto correu até ela, completamente confuso. Assim que voltou para os braços da mulher, policiais civis se aproximaram do primeiro portão da casa e seguiram em frente.
— O-o que tá acontecendo??
— Em casa eu explico, vamos embora agora…
— Não!! Eles vão prender o Michael!!
A mulher segurou o garoto pelo pulso e tentou conter sua agitação.
— Calma, Jota, fique quieto! Eles estão investigando, ninguém vai prender ninguém! Esse seu amigo tem mais problemas do que você pensa, eu bem que desconfiei! Você andou faltando aulas, faltou tanto que o Conselho Tutelar precisou me notificar! Eu vi logo que foi esse homem colocando bobagem na sua cabeça.
— Não é bobagem, ele é mais inteligente que você!!
— Jota!!
Ao gritar essas palavras, o garoto correu apressadamente em direção à sua casa. A adulta, precisando conter as lágrimas, agarrou a bolsa que ele deixou no chão e a levou pelo caminho de terra até à própria residência, percorrendo o mesmo percurso do garoto. Ao chegarem, não falaram um com o outro. Tati, como era conhecida, sabia que o seu filho precisava de um tempo para digerir que o seu “amigo” não era bem visto entre as autoridades e nem era a melhor pessoa do mundo entre os vizinhos. Já o Jota, agarrado com os lençóis da cama, chorou copiosamente. Não sabia o que aconteceria depois de toda aquela confusão, mas fechou os olhos e torceu para que tudo aquilo não passasse de um mísero pesadelo.
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