Eles Não se Importam
1 Todo Poder Emana do Povo
Notas iniciais
Essa história não é pra levantar bandeira nenhuma kkkkk fiz porque me deu vontade, refletir sobre as coisas é legal. Me digam o que acharam ♥
Ultimamente eu tô escrevendo bastante, mas vou precisar dar um tempo por conta dos estudos. De qualquer forma, aqui não vai parar! Vou continuar atualizando essa história e a Diário de 83 (vão lá visitar *u*)!
Beijooos ♥
Salvador, Bahia – 10:25 hrs
— Nós vivemos sob um teto de uma falsa democracia. O governo não destina os recursos do povo para o povo, as creches estão precarizadas, o ensino é de rebanho, sob um modelo datado e fadado ao fracasso, os jovens não são ensinados a pensar! Nós não brigamos pela anarquia, nós não queremos bagunça, queremos os nossos direitos! Não estamos espalhando pobreza, a pobreza já está espalhada! Nós queremos direitos iguais, na prática, para todos…
Antes que aquele homem pudesse falar mais alguma coisa, a repórter tomou o microfone e tornou a falar. Atrás dela, contrastando com sua bela aparência e porte formal, um grupo incontável e multifacetado de pessoas, cada uma com sua história, com seus motivos para estar ali, todos gritando e fazendo barulho, com suas frases de guerra e gritos por justiça. Mascarados, com cartazes que não saíam completos na câmera, as pessoas protestaram quando aquela mulher se afastou do que parecia ser o líder deles, um homem magro de pele clara, cabelos escuros como a noite e coberto com uma máscara vermelha que cobria sua boca e nariz. Ela prosseguiu.
— Nós acabamos de ouvir o discurso sobre a motivação desse protesto, Marcos. Quem discursou agora foi apontado pela polícia como o líder responsável por mobilizar os manifestantes. Ele já teve a ficha levantada e se trata de Michael Joseph Jackson, trinta e seis anos, responsável também por outros protestos no início do ano. Michael já havia sido detido algumas vezes, porém, no último ocorrido, ele foi liberado após uma audiência de custódia. Esse é o terceiro maior protesto no Pelourinho desde a mobilização em março, quando mais de cinquenta pessoas ficaram feridas, com pelo menos cinco em estado grave, após o confronto com a polícia. Por enquanto o cenário é de instabilidade. Se não houver acordo, a polícia irá avançar mais uma vez para conter os grupos mais violentos. É com você, Marcos.
O menino olhava para aquela TV como se a moça fosse sair a qualquer momento. Seus olhos estavam atentos, seus ouvidos estavam antenados. Sua mãe, que observava tudo de longe enquanto arrumava a casa, tomou o controle em mãos e diminuiu o som do aparelho.
— Hunf, por causa desse desocupado, as ruas estão todas obstruídas. Vou ter que sair duas horas mais cedo, senão não chego no trabalho.
O menino continuou em silêncio. Seu olhar desceu até o colo, tinha nas mãos o prato com algumas bolachas secas e suco.
— Jota, eu vou sair cedo, vou terminar o almoço quando voltar. Coma melhor na escola, tudo bem?
Ele não respondeu, mas ela sabia que ele havia ouvido. Se aproximou do seu menino, beijou sua fronte e terminou os seus afazeres, ou pelo menos o que deu para adiantar naquele momento, até poder colher o seu casaco e sair para mais um dia de trabalho. Tinha 11 anos, já ficava só em casa, Jota era um garoto independente que sabia muito bem seguir uma rotina de responsabilidade: às 12h trancaria a casa toda, iria até a escola, não falaria com estranhos, voltaria para casa e esperaria pela sua mãe, não abriria a porta para mais ninguém. Ele comeu o seu lanche até que nada sobrasse no prato, mesmo um mísero farelo sequer, contudo ainda sentia fome. Se levantou, buscou alguma coisa nos armários e na geladeira, porém não encontrou nada; tudo o que tinha eram ingredientes, nenhum lanchinho pronto ou algo que ele soubesse fazer, e esperar o horário do lanche da escola seria um sofrimento…
Mas ele não podia fazer nada.
Preparou sua mochila, todos aqueles livros pesados, o caderninho e as canetinhas, e deu uma última olhada no espelho velho da sala antes de sair. Era um menininho alto para a sua idade, mas com lindas bochechas e olhar meigo que o fazia parecer mais novo. Pele escura, olhos pretos, crespo curto e bem cortado, Jota nunca foi de se importar com a própria aparência, não quando havia outros problemas que já assolavam a sua mente infantil como, por exemplo, o medo de não ter o que comer no dia seguinte. Sua mãe trabalhava e, cada dia mais, parecia estar mais tempo fora de casa, contudo suas condições não mudavam. Ele começou a pensar se as palavras daquele homem estranho da TV eram realmente indignas de atenção, se ele era realmente um desocupado como sua mãe acusou.
Jogou a mochila nas costas e saiu mais cedo, talvez ainda pudesse pegar as sobras do lanche da turma da manhã. Os livros pesados castigavam suas costas, mas já estava acostumado, fazia aquele percurso quase todos os dias. Era um caminho pouco asfaltado, com terra alta e só melhorava depois de uma boa caminhada. Jota prosseguiu pelo percurso, em silêncio e sem questionar, olhando para sua volta e pensando nas palavras do noticiário. Se os policiais são bons, então os manifestantes são maus? Protestar é algo ruim? Por que isso é tratado com tanta hostilidade? Se não muda nada na vida das pessoas, por que ainda insistem nisso? Quem está certo e quem está errado, no fim das contas? Adultos eram complicados… quanto menos os entendesse, talvez menos se machucaria.
Caminhou por mais um tempo, mas sua barriga ainda estava roncando. Jota suspirou, jogou a mochila em um cantinho próximo a uma árvore e pensou no que poderia fazer. Havia uma casa por perto… talvez se pedisse? Não, muito humilhante. Ele olhou para o alto e viu que a árvore não era qualquer uma, e sim uma macieira carregada; aquilo não podia ser mais conveniente. Ele tentou escalar a árvore, mas os seus frutos estavam no topo, o que seria uma missão complicada. Ele desceu e tentou uma abordagem diferente… talvez se jogasse algumas pedrinhas. Jota colheu algumas pedras e atirou-as longe, acertando, em poucos instantes, uma maçã que caiu no terraço desta casa. O menino suspirou… era um terraço aberto, com um muro muito ridículo, ele conseguiria correr e pegar a fruta sem ser percebido.
Olhou para o lado, para o outro, tentou uma aproximação, mas paralisou ao ver uma movimentação do outro lado do terreno. Um homem saiu de dentro da casa; usava calças escuras, sapatos brilhantes, uma camisa vermelha de mangas longas e óculos escuros. O sol forte explicava os óculos, mas definitivamente contrariava a camisa comprida. Ele foi até a maçã que havia caído em seu terraço e, ali mesmo, protegido do sol sob a copa de outra árvore, colheu a fruta e limpou-a na camisa, em seguida mordeu um pedaço, o que fez o menino engolir seco e sentir, com mais força, a barriga roncar.
— O que você veio fazer aqui?
Ele não respondeu, tinha medo. Se afastou em passos lentos, procurou sua mochila com o olhar. Quando estava para jogá-la nas costas mais uma vez, o homem falou novamente.
— Você quer?
Jota virou-se e o contemplou. Após alguns minutos em silêncio, aquiesceu. Aquele homem olhou para a fruta agora mordida, em seguida jogou-a no ar com tranquilidade e pegou-a novamente.
— Você acha justo que eu te dê a minha fruta, que caiu da minha árvore, no meu terreno?
Novamente o menino não tinha o que dizer. Suspirou… como se não bastasse ter falhado, ainda seria completamente humilhado por aquele desconhecido.
— Desculpe…
— Por que está pedindo desculpa?
Ele se aproximou lentamente. Jota deu alguns passos para trás, olhou para um lado, para o outro, buscou testemunhas próximas, alguma coisa ruim poderia acontecer naquele momento. O estranho atravessou o muro pela pequena porta, sem desviar o olhar do garoto que à essa altura já estava se sentindo bem intimidado. Ele acomodou as costas no muro e deu outra mordida na fruta.
— Eu não plantei essa árvore. Eu não vi essa árvore crescer. Eu comprei a casa e ela já estava aí — ele caminhou até a beira da estrada e arrastou aquele sapato brilhante do início da calçada até o centro. — A lei diz que a calçada é pública, mas que é definida pela largura estabelecida no Plano Diretor da cidade. O valor posto lá são dois metros, o que significa que o seu lado termina aqui — ele arrastou o sapato novamente, formando uma linha imaginária. Jota ouviu tudo aquilo, sem entender nada. — Essa árvore está na calçada, mas ainda é minha. Eu não comprei a árvore, eu comprei a casa, mas tem uma lei que diz que é minha. Tem uma lei que diz que o que cair no meu terreno também é meu. A lei que me beneficia é mais importante que a sua fome. Você acha isso justo…?
O menino encolheu-se em sua mochila e não falou nada, tudo o que ele mais queria era só ir embora dali. O homem deu mais uma mordida na fruta.
— Se quer saber o que eu acho, acho que essa árvore é pública — ele adentrou ao terraço novamente, de lá colheu uma maçã que do outro lado estava em galhos mais fáceis de alcançar, em seguida jogou ao menino uma fruta novinha.
Jota deixou a mochila cair para poder pegar a maçã. Ele a olhou por alguns instantes, tão brilhosa, e não pensou duas vezes: a devorou em poucos instantes. O homem ficou observando a cena em silêncio.
— O-obrigado…
— Não agradeça. Ela é sua — ele sorriu fraco. — Se ainda estiver com fome, você pode entrar…
— Eu não posso falar com estranhos.
Ele aquiesceu.
— Você está certo. Vá para a escola. Mas, se precisar de ajuda, eu estou por aqui…
Dito isso, pouco antes de adentrar a casa, aquele homem removeu os óculos de sol. Os olhos do menino acentuaram, pois enfim conseguiu reconhecer quem era aquele homem estranho através dos seus olhos negros, as únicas partes do seu rosto que não estavam cobertas no noticiário.
— E-espera aí!
O homem olhou para ele. Jota pigarreou.
— Você… não vai me matar, né? Jura?
Ele sorriu de canto.
— Eu seria o primeiro que desconfiariam.
O menino engoliu seco, sabia o que sua mãe diria disso, mas alguma coisa no discurso daquele homem havia lhe despertado para muitas perguntas.
— Eu só quero perguntar umas coisas… Eu vi você na TV.
— Mesmo? Quando?
— Hoje.
— Ontem — ele corrigiu, voltando sua atenção ao garoto —, senão, eu não estaria aqui, não é?
— Oh, então… o centro da cidade ainda tá movimentado?
— Sim, com ou sem mim, a luta continua, garotinho. Eu não preciso estar lá.
Jota arqueou a sobrancelha.
— Pensei que você fosse o líder…
Ele sorriu novamente, dessa vez não conseguiu disfarçar. Lentamente tornou a se aproximar do garoto, que já não parecia ter medo.
— Sabe quem é o líder do movimento? Sou eu… é você… é a sua família, os seus vizinhos… O líder é o povo.
O menino refletiu sobre aquelas palavras. O homem, vendo que ele não falava, resolveu prosseguir.
— Não parece que você tomou café da manhã. Vou te preparar alguma coisa…
— Espera… — ele murmurou. Fechou os punhos, parecia nervoso, mas tomou a decisão na mesma velocidade que se puxa um curativo. — Eu… posso entrar?
O homem não protestou. Em silêncio, concordou e abriu a porta para que ele viesse.
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11:30 hrs
Jota fez uma refeição reforçada e teve direito a repetir mais uma vez. Enquanto ele comia, aquele homem arrebitava as mangas e lavava alguns pratos com bastante tranquilidade, não muito distante.
— Qual o seu nome?
— Jota. O seu é Michael… não é?
Ele assentiu. O menino tomou o resto do suco e prosseguiu.
— Hum… isso não é suco em pó, é?
— Eu tenho um pomar.
— Você é diferente… — ele murmurou, com medo de soar rude — Digo… você não é daqui, é?
Ele ouviu quando o homem fechou a torneira, e aquilo o deixou em alerta. Michael enxugou as mãos e jogou o pano que usou em um canto ao lado da pia, em seguida se aproximou do menino e se sentou de frente pra ele.
— Você está cheio de perguntas… não é? — depois de dizer isso, ele reclinou e relaxou as costas — Pergunte.
Jota ficou em silêncio, pensando sobre qual seria a primeira.
— Tudo o que você disse na TV… é verdade?
Michael aquiesceu.
— Você não precisa acreditar em mim. Você só precisa olhar à sua volta — disse ele, repousando um dos braços na mesa. — Este país está cheio de leis, e parece que não adianta nada… Por que nós sentimos que não são suficientes? Por que nós estamos sempre atrás de aprovar mais outras?
— Tem uma lei contra a pobreza?
— Claro. A Constituição Federal de oitenta e oito tem umas… quinhentas páginas… todas com direitos e deveres. Constituem objetivos fundamentais da República: erradicar a pobreza… reduzir as desigualdades… Vemos isso na nossa realidade?
O menino negou em silêncio.
— Minha mãe trabalha muito, e ganha muito pouco.
— Sua mãe e a maioria da nossa população — ele suspirou. Seu olhar divagou ao redor e acabou recaindo na bolsa pesada do garoto. — Dizem que mudar a nossa realidade só depende de nós mesmos. Se quisermos dinheiro, devemos estudar muito e nos esforçar.
O garoto olhou para a direção dele e viu que contemplava sua bolsa.
— Todos esses livros pesados… Eles dizem que podemos mudar a nossa realidade por nossos próprios esforços, mas não há nenhum suporte para que isso aconteça. Eu, na sua idade, estudava em casa com os melhores professores do país. Você não tem esse direito, você precisa aceitar essa educação pública de rebanho, feita para te manter na mesma linha social. Feita apenas para que você possa sobreviver, quando a Constituição fala em erradicar a pobreza, em desenvolvimento nacional, em dignidade da pessoa humana…
— Como isso pode ser mudado? Quer dizer… esses protestos vão realmente mudar alguma coisa? Minha mãe disse que isso é coisa de desocupado.
Ele deixou uma risada curta escapar.
— Sua mãe não tem culpa. Ela não vê mudanças e por isso não acredita mais. Mas, me deixe te dizer uma coisa… — ele inclinou para frente — Todo poder emana do povo. Nós vamos fazer barulho até que nos ouçam, e vamos, pelos nossos esforços, como tanto nos mandam fazer, cuidar do futuro do nosso país. Não estamos apenas exigindo, estamos agindo. Você faz parte desse futuro, e, se essas palavras significam alguma coisa para você, eu fiz a minha parte com sucesso.
Jota pensou nelas por alguns instantes. Era tudo tão complicado, mas ele havia entendido algumas coisas.
— Um dia eu vou poder mudar a minha vida?
— Você já está mudando. Quando busca entender essas coisas, você diz a si mesmo e a todos que não quer mais permanecer na caverna da ignorância.
— E o que mais eu posso fazer?
Michael ponderou sobre aquela questão.
— Quer fazer parte do movimento…?
O menino desviou o olhar para as próprias mãos e pôs-se a pensar.
— Eu… eu preciso falar com a minha mãe.
— Você não precisa tomar essa decisão agora. Quando fizer dezoito anos, pense nessas palavras — ele olhou para o relógio que estava pendurado na parede. — Sua escola começa às doze?
O menino rapidamente se levantou e olhou para o mesmo objeto.
— Sim! Preciso ir! — Jota pegou a mochila e a jogou nas costas — Obrigado pelo almoço! Posso vir aqui mais vezes?
— Claro.Você será sempre bem-vindo.
O garoto sorriu e se retirou rapidamente. Seguiu pelo caminho da escola, completamente absorto em pensamentos. Aquele cara era estranho… falava umas coisas que ele nunca havia ouvido antes, coisas que pareciam muito distantes de sua realidade, mas que faziam algum sentido no fim das contas. E se ele pudesse mudar a realidade de sua mãe? Jota, como toda criança, tinha essa inocência de querer mudar as coisas, e, agora que ele iniciou essa jornada, não iria parar.
Notas finais
Depois das coisas que ouviu do homem, aos poucos estava o considerando alguém digno de atenção… ele não era um desocupado como sua mãe o havia marcado.
Enquanto pensava sobre essas coisas, passou de frente à sua casa e pensou nas suas últimas palavras. Michael disse que ele seria sempre bem-vindo, e sua mãe só chegaria à noite…
?” Acho que não vai ter problema…
Jota mudou seu percurso e bateu palmas para chamar o homem. Michael demorou um pouco, mas apareceu.
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