Eles Não se Importam
8 Eu Sou o Povo
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 20:45 hrs
Ele levou mais um tapa, um que silenciou suas palavras. Sua cabeça pendeu para baixo, mas o seu corpo preso à cadeira pelas algemas não permitiu que ele tombasse para o chão. A pele brilhava em suor e sangue, os fios escuros e úmidos colavam em sua fronte, e o seu peito arfava em cansaço excessivo. Dois homens ao seu lado, armados até os dentes, e um engravatado defronte. Sala clara, ambiente fechado. Ele sequer sabia se era dia ou noite.
— Gosto de ouvir você…
— Eu sei… — ele murmurou, fraco, mas capaz. Lentamente ergueu a cabeça, seu olhar era indiferente, como se toda aquela tortura não significasse nada — você gosta de ouvir pessoas que pensam. Você tem medo delas.
— Medo…? Vocês são insignificantes — ele caminhou lentamente até sua cadeira e se acomodou. — Você não faz ideia de quantas ligações eu recebo por causa dos seus joguinhos. As pessoas ficam agitadas com esses seus discursos, isso está tirando a paz do Pelourinho, mas isso você já sabe.
— Que irônico você dizer isso… — ele murmurou, mantendo uma sarcástica sobrancelha arqueada e um olhar que sibilava revolta — Pelourinho nunca foi sinônimo de paz. Os meus ancestrais foram castigados neste lugar, em plena praça pública. Pelourinho quer dizer racismo… e ódio. Não me admira que você seja o líder desse lug…
Ele levou outro tapa, dessa vez desferido pelo próprio homem que, com indiferença, manteve sua expressão apática.
— A minha promoção depende de calar essa sua conversa fiada de uma vez por todas. Uma coisa que você precisa colocar nessa sua cabecinha de revolucionário é que quem paga o meu salário gosta de pessoas que sabem e aceitam qual é o lugar delas na sociedade. Você está correndo atrás de uma utopia… deveria ter voltado ao seu país, feito o seu sucesso e doado pra um ou outro centro de caridade pra deixar o seu nome bonito na TV. Você é um idiota.
— E-eu sei… sou um idiota por estar fazendo o seu trabalho…
O homem suspirou e se levantou novamente.
— Você está me cansando. Escute… não vou mais perder meu tempo. Aquelas pessoas lá fora, quebrando vidraças e fazendo bagunça, perderam a noção por sua causa. Ou você dá um jeito nelas, ou eu dou um jeito em você.
— E o que você quer que eu faça, seu imbecil?! — ele usou o resto de suas forças para proferir sua raiva. Michael estava furioso — As pessoas estão carentes! Elas querem alguém que as ouça! Elas são o seu povo, cuide do seu povo!
— Dá “uma corda” nele… — disse o homem, encarando um dos guardas ali perto.
O seu subordinado puxou um lençol usado para forrar os colchões dos prisioneiros e enrolou no pescoço do moreno, apertando com um nó extremamente desconfortável, mas não forte o bastante para matá-lo ali. Faltava pouco para a tortura de verdade começar.
— Acredite ou não, você não é o primeiro a passar por isso — disse o homem, arrebitando as mangas com tranquilidade. — Você pode fazer um discurso e amenizar os nervos dessas pessoas, não sei, se vire, o problema é seu. Ou você pode dar o dedo do meio pra isso e morrer como um doente mental.
— Eu daria o dedo do meio se não estivesse algemado… — Michael engasgou ao sentir aquela corda improvisada apertar o seu pescoço novamente, o que o impediu de prosseguir.
— Você perdeu completamente a noção. Tão novo, rico, podia estar longe desse país. Vai mesmo jogar tudo fora para morrer desse jeito? Mesmo que não seja de imediato, as pessoas vão te esquecer, você irá morrer como um doente e esquisito que se matou de tanta loucura. Você só está me dando uma opção mais rápida para acabar com isso, eu bem que estou tentando te poupar desse sofrimento desnecessário.
Michael olhou em seus olhos e manteve o silêncio. Sua decisão estava tomada, não trocaria sua luta pelo medo e pela covardia. O homem de terno suspirou e cruzou os braços.
— Essa é a sua escolha? Não tem mais nada pra falar? Vamos… uma coisa bonitinha para colocar na sua lápide de indigente.
Seu olhar se fechou, os seus olhos escuros cintilaram. Michael engoliu seco uma última vez, sabia que aquele homem não hesitaria, mas havia preparado a própria casa para a sua provável morte. Aqueles homens saberiam, da pior forma, que o povo não depende de suas ações.
— Você nunca, nunca vai me matar. Eu vou voltar… e eu vou te aterrorizar… porque eu… eu sou… o povo…
O homem estalou os dedos e deu sinal para que o guarda puxasse a corda.
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