Eles Não se Importam
7 Eles Não Ligam Pra Gente
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 09:15 hrs
Acordar naquela manhã caótica foi como levar um tiro e ir diretamente pro inferno.
Jota despertou cedo. Na noite anterior, havia chorado até adormecer, não foi difícil passar a madrugada toda em sono profundo. Todavia, quando despertou, viu o céu cair sobre sua cabeça quando, ao se levantar e em passos preguiçosos perambular pelo estreito corredor de sua casinha, ouviu o som do noticiário em volume alto. Defronte da TV estava sua mãe, atônita e aflita.
— Mãe…?
— Jota, fique em casa hoje.
O garoto, ainda muito sonolento, esfregou os olhos e se acomodou ao lado dela para ver a TV. No noticiário passavam-se as últimas notícias ao vivo de uma confusão generalizada no centro da cidade: um protesto instável e aparentemente mais perigoso, pois o reforço policial já não estava mais utilizando as armas de efeito moral, e os feridos eram filmados sem nenhum tipo de censura. Jota arregalou os olhos e foi protegido pela sua mãe, que tentou poupá-lo daquela visão, porém ele afastou as mãos dela de seu rosto, já havia visto o suficiente.
— O que é isso??
— O que seria? Coisa do seu “amigo”! Ele juntou todas aquelas pessoas e foi enfrentar a polícia. Você não vai sair de casa hoje!
— Ele não faz isso, Michael não é violento!
— Tá, e o que é esse tanto de gente fazendo baderna, Jota? Infiltrado?
O garoto pensou em protestar, mas estava sem opções. As imagens contrariavam as suas palavras, não era possível que o homem que havia cantado para que ele mudasse o mundo e fizesse a diferença jogou vidas inocentes em um confronto generalizado e arriscado, como aquele, sem nenhum tipo de prudência. Desolado e desiludido, porém recusando-se a acreditar, o menino correu sem dizer nada, voltando ao seu quarto para chorar de raiva. Tati suspirou, ver o seu filho daquele jeito doía seu coração, e tudo que ela podia fazer era apenas culpar aquele que marcou a vida do garoto.
— Eu espero que você leve uma boa sova da polícia, seu desgraçado… — murmurou para a TV, por fim a desligando.
Ela resolveu arejar a cabeça, então deixou que o tempo fizesse o seu papel como cicatrizador de feridas e seguiu assim com sua vida. Levantou-se para fazer o almoço; distraiu sua mente nos temperos, nas comidas que prepararia para aquele dia, cuidar do seu filho era no fim das contas a obrigação que ela mais gostava de fazer. Também lavou alguns pratos da noite anterior, costumava dar essa tarefa a ele, porém permitiu que sua mente também descansasse daqueles assuntos, sabia que ele precisava desse tempo sozinho. As horas se passaram… Perto de sua ida ao trabalho, ela foi se despedir do seu menininho.
— Jota, eu vou trabalhar. Deixei o almoço pronto, coma direitinho e fique em casa, vou falar com a escola sobre iss…
Ao abrir a porta do quarto dele, as palavras sumiram da sua boca.
Assim como a presença do garoto.
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13:03 hrs
Tati havia criado o seu menino para ser independente. Ensinou responsabilidades, ensinou a ligar para a emergência, ensinou a sair pelas ruas: tudo isso se voltou contra suas palavras.
Com o pouco dinheiro que tinha, Jota pagou a passagem e seguiu de ônibus até o centro da cidade. Durante o trajeto, olhando pela janela, ele se concentrou em arejar os pensamentos, queria entender as motivações de Michael, queria ver uma guerra de perto. Tão imaturo, tão ingênuo, Jota não refletiu sobre as consequências dessa sua ação imprudente e sequer tinha um plano para quando chegasse lá: ele iria simplesmente se jogar no fogo cruzado e procurar pelo adulto. De qualquer forma, esperava ter a ajuda dos repórteres que estavam por lá, Michael era o favoritinho deles.
O engarrafamento era tenebroso. Jota pediu parada e precisou descer duas quadras antes para poder se aproximar do confronto. Os policiais haviam cercado a área, mas ele, já ciente disso, havia vestido uma camisa vermelha para se disfarçar entre os manifestantes. Tirou um lenço do bolso e cobriu o seu nariz e boca, em seguida se esgueirou pelas esquinas em busca de qualquer resquício de alguém conhecido. Felizmente, naquele ponto, o conflito estava controlado, o que significava menos policiais atirando para o alto e menos manifestantes lançando pedras ao vento. Os repórteres, não muito distantes, foram os guias que o menino precisava para tentar entender a forma como a comunidade havia se organizado.
— Os manifestantes seguiram para o lado sul da cidade. O protesto começou às sete e meia da manhã, e já dava sinais de que não seria pacífico. Os manifestantes estavam muito agitados e pediam o retorno às terras que foram obtidas, ontem, pela prefeitura do Estado. O líder do movimento, pelas suspeitas da polícia, é Michael Joseph Jackson, que já havia liderado outras manifestações violentas.
Jota se esgueirou por outro repórter e tentou ouvir também o que ele tinha pra dizer.
— Michael foi visto apenas no início do protesto, e fez um rápido discurso antes de tomar a avenida. A polícia suspeita de que ele esteja fornecendo as bombas caseiras e outros equipamentos para os manifestantes. Até o momento, não se sabe onde ele possa estar.
O menino suspirou, sem esperanças. Cansado e com calor, ele entrou na lanchonete mais próxima e se acomodou em um dos bancos, mas foi tratado com hostilidade pelo proprietário.
— Você é um desses marginais aí fora, não é?! É bom sair daqui agora, ou eu chamo a polícia!
Assustado, o menino saiu sem pensar duas vezes. Um pequeno grupo, do outro lado da rua, viu o que aconteceu. Uma das mulheres resolveu atravessar a estrada e abordar o menino.
— Ei…
Jota estava pronto para correr, quando ela se pôs de frente para ele.
— Ei, fica calmo! Você é do movimento, né? A gente também… Você tá com fome?
Jota negou veementemente. A mulher era alta, de pele escura, cachos escorridos e aparentava ter uns 30 anos de idade. Usava roupas curtas e refrescantes, ideais para os movimentos caso precisasse lutar ou se defender, e tinha um boné vermelho. Ela se inclinou e passou a mão nos cachinhos curtos dele.
— Todo poder emana do povo — sussurrou.
Jota ficou em silêncio. A primeira vez que ele ouviu aquelas palavras, e também a última até então, foi pelos lábios de Michael que havia o ensinado a lutar por uma causa que também era sua. Um pouco mais calmo, ele conseguiu proferir algumas palavras.
— Você… sabe onde ele tá?
— Sei. Mas você vai precisar vir com a gente.
Ele sabia o que sua mãe diria naquele momento, porém sua mente inocente já não tinha mais nenhuma outra ideia. Aquiesceu e seguiu aquele grupo de pessoas desconhecidas que, para sua felicidade, o levaram realmente ao que parecia ser um refúgio improvisado. Longe dos conflitos, em uma casa simples e pequena no subúrbio, eles entraram pelos fundos e seguiram até o único quarto do local, onde havia um maior movimento. Algumas pessoas estavam do lado de fora e a porta estava aberta, com mais pessoas do lado de dentro. Era um alto contraste entre o soar pacato da frente de casa para aquela agitação do lado de dentro, mas Jota sabia que eles não podiam mais arriscar estar na mira da polícia, qualquer disfarce era bem-vindo.
— Michael…
Aquela mulher o chamou. O moreno estava lá, sentado de frente para uma mesa com alguns papéis que fugiam da compreensão do garoto. Ao ver Jota diante de si, os olhos escuros do adulto se iluminaram em um misto de surpresa e preocupação. Ele rapidamente se levantou e foi em direção ao menor, que correu para os seus braços e o abraçou forte.
— O que você está fazendo aqui? Sua mãe sabe disso?
— Não, não sabe. Eu quero entender por que isso tá acontecendo, eu quero lutar também!
— Tudo isso começou por causa desse menino, foi a mãe dele que denunciou a gente! — exclamou um dos homens que estava no local.
— Michael, esse menino vai atrair a polícia!
— Chega! — ele elevou a voz, em seguida voltou as mãos para os ombros do garoto e falou a todos enquanto olhava para ele — Jota pertence ao povo, pertence ao movimento. Do mesmo jeito que vocês foram aceitos, ele também deve ser. Não vamos segregar nosso povo como nossos inimigos fazem.
Após essas palavras, ele se levantou.
— Preciso falar com Jota a sós.
Michael não disse mais nada, apenas aquelas palavras foram suficientes para que as pessoas ali se retirassem, uma a uma. Com todos para fora do quarto, o moreno o fechou e voltou sua atenção ao garoto.
— Sabe que o que está fazendo é uma sentença de morte.
O garoto negou com um balançar de cabeça.
— Já é tarde demais pra mim. Eu escolhi te ouvir, você mesmo disse isso.
Michael suspirou.
— Não queria te contar certas coisas, não é conversa pra criança… mas você está crescendo tão rápido. Você se envolveu tanto… está começando a pensar como um adulto, a tomar decisões de adulto. Isso me fascina e me preocupa, eu não queria que sua infância passasse tão rápido…
— Michael… eu não sou criança desde os meus seis anos. Minha mãe me ensinou um monte de coisa de adulto, eu tinha que cuidar da casa quando ela tava fora. Não foi você que fez isso comigo, eu já tinha ideia de que o mundo não era aquelas coisas todas… Por isso eu quero lutar, você me mostrou que tem motivos pra gente lutar. Eu sei que a gente não consegue mudar tudo, mas a gente consegue mudar a vida de algumas pessoas, como você fez com a minha, e eu quero fazer parte disso — ele fechou os punhos e olhou para o adulto com convicção. — Eu sei que ainda não tenho idade pra escolher, mas já decidi: eu quero fazer parte do movimento.
— Oh, boy… — Michael lentamente caminhou até sua cadeira e a puxou para se sentar novamente — você é teimoso… parece comigo.
Jota sorriu fraco, um sorriso sutil que logo se desfez.
— Eu… eu também vim pra entender o que você tá fazendo. Jogar as pessoas na rua e usar violência… Que tipo de plano é esse?
— Não tem plano. Eles queriam isso. Eu já disse que não sou líder, não posso mandar nos desejos deles, mas eles confiam em mim para organizar tudo isso, então eu fiz o possível para que fosse feito da melhor maneira.
O garoto arqueou a sobrancelha.
— Espera… o pessoal da comunidade que decidiu fazer um protesto violento?
O moreno, de expressão apática, apenas moveu os ombros.
— Eles não têm mais para onde ir, não têm mais o que perder. O que eu pude fazer foi poupar as mulheres com filhos, os idosos e as crianças, os outros tiveram a liberdade de escolher participar do confronto ou não, e todos decidiram que sim. É o que eles querem, eu estou dando o que eles querem. Vamos vencer os nossos inimigos pelo cansaço até que haja uma mudança de verdade.
— E se acontecer alguma coisa com você?? Você pode ser preso! Como você vai cuidar das pessoas estando preso?
Michael sorriu e moveu discretamente a cabeça em um sinal negativo.
— Eles são independentes de mim, Jota. O líder é o povo — após essas palavras, o homem novamente se levantou. — Vou dizer uma coisa que não contei a ninguém. Uma coisa que só você saberá…
Esse alerta deixou o menino atônito, temendo pelo que pudesse ouvir. Ele prosseguiu.
— Eu irei me entregar no fim do dia. Não é de hoje que as autoridades querem a minha cabeça. Eu estou negociando novas terras, mas, para isso, eu preciso me entregar.
— M-mas… mas e se eles não cumprirem o acordo??
Michael suspirou.
— Então a luta irá continuar aqui fora, sem mim, porque eles descobrirão, da pior forma, que o povo não depende das minhas ações.
Jota não concordava com aquilo, as coisas não podiam acabar daquele jeito, mas sabia que, quando adultos colocam uma coisa na cabeça, não tem nada que os faça mudar de ideia. Ele suspirou e, segurando as lágrimas, assentiu em silêncio, respeitando a sua decisão. Michael se aproximou.
— Vou te dar uma missão: guarde esse dia no seu coração e nunca esqueça dessas pessoas. Quando atingir a maioridade, volte e retome seu posto na comunidade. Ajude o povo. Pode fazer isso?
— S-sim…
— Bom… vou mandar alguém pra acompanhar você até sua casa.
— Eu não quero. Eu vou sozinho.
Ele suspirou. Jota era teimoso, era difícil controlar um espírito tão agitado e cheio de ideias. Michael tinha razão quando disse que via semelhanças entre si próprio e o garoto.
— Você quem sabe. Volte pra casa, me prometa que voltará pra casa.
Jota negou mais uma vez.
— A gente não pode prometer mais nada agora. Desculpa, Michael… Eu vou fazer o que eu acho certo.
— E o que você acha certo, Jota?
O menino voltou até a porta do quarto, já prestes a sair. Antes de abri-la, ele olhou uma última vez para o adulto, decidido.
— Não desistir.
Dito isso, ele saiu. Sem falar com ninguém, deixou aquela casa para um rumo desconhecido.
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17:58 hrs
— Todo poder emana do povo, que o exerce por meio dos seus representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta Constituição. Estamos aqui, cara a cara, corajosamente abordando nossos representantes, exigindo, somente, que o direito à moradia digna seja mais importante que a burocracia da qual vocês tomam posse para usurpar o que foi conquistado pelo povo!
Da TV de um barzinho de rua, Jota assistia à reprise do discurso que Michael havia feito àquela manhã. Pensando sobre cada palavra, e mesmo não entendendo todos os seus significados, ele sabia que não podia contestar nenhuma vírgula, ele não havia deixado de acreditar naquele homem.
Michael se entregou ao fim do dia. Pouco antes do sol se pôr, a rua foi inundada por repórteres que avançaram sobre o homem conduzido por policiais. De cabeça erguida e os braços por trás do corpo, ele não conseguiu falar muito, embora quisesse. Uma repórter chegou ao seu lado e conseguiu lhe dar uns cinco segundos de atenção.
— O que você esperava ganhar com os protestos?
— O que você espera ganhar perguntando essas coisas pra mim? Você precisa terminar sua matéria para receber seu salário e alimentar sua família. Eu preciso cuidar de pessoas. Preciso garantir que elas não vão morar na rua…
Foi o que conseguiu comentar. Ainda em meio à truculência das autoridades e do aglomerado de pessoas, o moreno foi conduzido até a delegacia mais próxima. A reportagem terminou com a imagem do adulto desaparecendo no camburão daquele carro de polícia, e Jota, rodeado de ignorantes que só sabiam encher a cara de álcool, retirou aquela camisa vermelha e a jogou no chão. Voltou para casa somente quando a presença do sol desapareceu dos céus.
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