Eles Não se Importam
5 As Damas Pratas
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 19:20 hrs
Era noite, o céu ostentava uma chuva de estrelas em contraste com a sinistra escuridão das ruas naquele pequeno e pacato bairro de estrada de terra.
Jota e sua mãe perambulavam pela estrada, de mãos dadas e pouco acanhados, afinal de contas não havia medo que inundasse seus corações após tantos anos vivendo sob aquele teto de insegurança; eles já estavam plenamente acostumados, embora fosse algo deplorável de se imaginar: acostumar-se com a insegurança porque os responsáveis não trabalhavam para amenizar aquele problema. De qualquer forma, não era isso que preocupava a mulher, e sim que tipo de amizades eram aquelas que o seu filho havia feito, e por que motivo convidaram o garoto em um horário tão pouco acessível. Jota tentava segurar o suor por debaixo da roupa, mas sua testa brilhante, embora o frio da noite não fosse lá tão agradável, evidenciava que algo não parecia certo com ele.
— Jota, que amigos seus são esses?
— Eu já disse, mãe… Eu tava indo pra escola, quando fiquei com fome e quase passei mal. Eles me deram comida e eu segui viagem depois. Tinha crianças por lá, era um lugar com creche e tudo, não fiquei sozinho com gente estranha.
— Hum… e você nem me conta nada, fiquei preocupada. Onde eles moram?
— Ali!
Ele apontou para a típica casinha com a macieira, porém, ao chamar o Michael com duas palmas, quem atendeu foi a morena dos olhos claros.
— Luna…?
— Ei! Sejam bem-vindos! Eu vou abrir o portão, um momentinho!
O garoto não entendeu a princípio, mas não comentou nada. Adentraram à casa, atravessaram o corredor e, novamente, Jota estava no lugar onde gostava de estar. Dessa vez o palco foi montado mais perto dos territórios do Michael, para que eles não precisassem andar muito. Já havia pessoas por lá e um grupo de crianças estava por perto. Todos os pequenos vieram parabenizar o Jota, cada um com um presentinho singelo. A mãe do garoto sorriu e acariciou o ombro do seu filho, o incentivando a aceitá-los, sabia como ele era introvertido.
— Você é a mãe do Jota, não é? Prazer! Eu sou a Luna, eu cuido da creche.
— É uma creche do Estado?
— Comunitária. Aqui, nós cuidamos de tudo! Seu filho se tornou muito querido por aqui, as crianças adoram ele! Ele está sempre perguntando e querendo entender as coisas, isso é muito legal.
— Jota veio aqui mais vezes?
O menino mordeu os lábios e resolveu, ele mesmo, responder essa pergunta.
— Er… sim. Era caminho, não é? E eu gostei daqui, aqui é muito legal, mãe — ele enfim se virou para a outra mulher e fez a pergunta que estava entalada na sua garganta: — Onde ele tá?
De repente, um fundo harmônico mágico e suave entoou, reverberando pelo entorno de uma plateia tímida que se ajuntou quando notou as luzes do palco se concentrarem na pessoa no centro. As estrelas brilhantes no céu compunham uma decoração cintilante, branca e azul, simbolizando aquela noite especial, e no centro do palco, única e timidamente, estava Michael. Com seus cabelos curtos, agora um pouco ondulados por terem sido molhados, camisa branca, calças pretas e sapatos brilhantes, ele estava lá. Não olhou para a dupla de convidados, concentrou-se na sua performance.
— “Vou fazer uma mudança
De uma vez na minha vida
Vai ser muito bom…
Vou fazer a diferença,
Vou fazer isso direito
Enquanto dobro a gola do meu casaco de inverno favorito
Este vento faz eu me perder em pensamentos
Vejo as crianças nas ruas sem o suficiente pra comer…
Quem sou eu pra me fazer de cego?
Fingindo que não vejo suas necessidades”
Jota novamente se perdeu naquela melodia, naquela letra, entoando palavras que o adulto já havia trocado consigo. Lembrava-se de sua última conversa séria, quando estavam sozinhos, quando Michael se comportava como um pai seu, quando ele lhe contava segredos de sua vida pregressa. Uma mudança brusca, Michael vendeu sua fama pela sua causa, ele estava decidido a fazer do mundo um lugar melhor, mesmo que isso custasse a sua carreira, e ele foi até o fim com isso. Michael estava sempre por perto, incentivando os outros a prosseguir, dizendo que ninguém era melhor que ninguém, ele fazia tudo para que os holofotes não caíssem unicamente sobre sua cabeça. Mas o que ele talvez não sabia, e o que não podiam tirar dele, é que naquela noite as estrelas vieram para assisti-lo e ninguém ousaria contrariá-las. Michael tinha uma magia que encantava as pessoas à sua volta, e isso ele jamais conseguiria desassociar de si próprio. Jota olhou para sua mãe por alguns segundos e a viu estagnada, exatamente como ele reagiu na primeira vez.
Seria impossível tirar o foco das estrelas agora.
— “Um verão negligenciado, uma tampa de garrafa quebrada…
E a alma de um homem
Eles seguem uns aos outros no vento, você sabe…
Porque eles não têm para onde ir
É por isso que eu quero que você saiba!
Estou começando com o homem no espelho!
Estou pedindo para que ele mude suas atitudes!
E nenhuma mensagem poderia ser mais clara
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor,
Olhe para você mesmo e depois faça uma… mudança!”
Seus joelhos foram ao chão, sua performance expressava a dor de suas palavras e a esperança de um mundo melhor. Jota pensou, por um instante, em toda a luta que aquela comunidade tinha, e como aquilo já estava muito arraigado em seu coração. Ele não conseguia mais se ver fora daquele lugar, não conseguia mais se ver perdido novamente no mundo, sem compreender a sua importância e o seu papel na sociedade, iludido consigo no centro de seu próprio mundo. Agora ele fazia parte de um todo, era disso que ele queria fazer parte, era daquele lugar.
Após aquela emocionante apresentação, as pessoas voltaram a socializar. Jota adorou a mesa com todo tipo de alimentos frescos e saborosos, e sua mãe se surpreendeu que aquelas pessoas quiseram realmente parar o que estavam fazendo para montar uma festa de aniversário para o seu filho. Aquilo a fez questionar-se se ele realmente havia lhe contado tudo.
No auge da festa, com o palco já vazio e as pessoas a conversar, Jota se afastou para ver a plantação do seu Joel no morrinho, era o seu cantinho de paz. Sua mãe obviamente o seguiu, não iria deixá-lo sozinho naquele lugar à noite.
— O que achou da festa, meu bebê?
— Para, mãe, não me chama disso…
— Ah, deixa de reclamar. Você sabe que é o meu bebê.
Ele suspirou e levou as mãos aos bolsos.
— Eu gostei da festa. E a senhora?
— Eu também. Parece que eles se dedicaram bastante pra dar isso a você. Falando nisso… — ela olhou para ele — Parece que eles gostam muito mesmo de você.
— Isso é bom, não é?
— Claro que é, qualquer lugar em que você é bem-vindo, eu também sou, meu amor. Só… não sei… quero conhecer essas pessoas todas ainda. Nem sei que lugar é esse, cantinho bem grande para um quintal.
— É que isso não é um quintal, mãe, são várias casas que compartilham um terreno. Eu também demorei a entender…
Ela arqueou a sobrancelha. Jota estava se comportando diferente… Antes ele era mais introvertido, agora quase parecia um adulto, conversava como um e tinha observações bem pertinentes. Talvez ela nunca tenha reparado nisso antes, ela sempre estava trabalhando, não tinha muito tempo para ter aqueles momentos com o garoto.
— Hum… você é bem tratado aqui mesmo, não é?
— Sim, eu…
— Com licença…
Ambos se viraram ao mesmo tempo ao ouvir a voz inegável daquele cantor que, instantes atrás, encantou a todos com a sua performance. Jota, muito sorridente, se aproximou dele e lhe deu um abraço, deixando a sua mãe intrigada.
— Mãe, esse é o…
Por um segundo, hesitou em dizer o seu nome, não sabia se devia, Michael não era uma pessoa muito bem falada, mas o homem, sem medo de carregar suas lutas no nome, prosseguiu.
— Michael. Você é a mãe do Jota, presumo. Prazer em conhecê-la.
— Michael…? Você é… — ela apertou os olhos, tentando lembrar de onde havia ouvido esse nome, porém não recusou o seu aperto de mão — Bom, o prazer é meu. Se me permite, você tem um sotaque diferente…
— Sou estrangeiro — ele sorriu com cordialidade, em seguida, afastando as mãos das costas, o adulto revelou um presente de embalagem prata laminada muito bonita. Os olhos do Jota se iluminaram. — Vim deixar um presente — seus olhos voltaram para o garoto. Contente e sereno, sussurrou —, feliz doze anos, Jota. Abra em casa.
O menino sorriu e pegou o pacote, em seguida olhou para o moreno e assentiu. A mulher se aproximou, ainda muito desconfiada.
— Há quanto tempo Jota o conhece?
— Desde que veio aqui. Estou sempre por perto, eu costumo ajudar em pequenas atividades da comunidade.
— Ah, sim. Vocês são muito unidos nesse lugar, é tudo muito bonito.
— Somos independentes das ações externas, mas dependemos da cooperação de todos aqui dentro.
A mulher aquiesceu em silêncio. Michael piscou aqueles olhinhos pretos algumas vezes, um pouco envergonhado pelo silêncio que surgiu entre eles, e pigarreou.
— B-bom… vocês sempre serão bem-vindos aqui! Se precisarem, nós estaremos aqui. Estamos nesta vida para ajudar.
— Eu vi. Muito obrigada pela festa do Jota, não tenho condições de fazer uma como essas, com muita comida e apresentações. Com certeza foi a melhor festa até agora — ela encarou o filho e acariciou suas costas —, não foi, Jota?
O menino aquiesceu em silêncio. Os adultos, após um pouco mais daquela conversa casual e completamente desconfortável para o garoto, seguiram em direção à saída da comunidade. Dessa vez Michael os levou para fora, e se despediu com um aceno discreto.
No meio do caminho, sua mãe não comentou nada. Ela estava mais para perguntar as coisas a dar suas opiniões, e Jota inocentemente deixou esse pequeno detalhe passar.
— Quem era esse cara, Jota?
Ele manteve os olhos na estrada.
— Michael. Ele se apresentou…
— Eu sei. Ele tem algum papel importante por lá? Ele já te ajudou com alguma coisa? É que vocês parecem tão…
— Eu não tenho pai, lembra? Isso faz falta às vezes…
Ela o encarou com certo espanto, mas fez o possível para disfarçar. Jota estava mesmo crescido, estava entendendo coisas que, até então, eram confusas para ele. A ausência de uma figura masculina, a apatia pela socialização, a solitude, aos poucos ele entendia de onde vinham os seus problemas, e essa rápida evolução surpreendeu a adulta.
— Nós já conversamos sobre isso, Jota.
— Eu sei, eu não quero falar sobre isso de novo — ele suspirou —, eu gosto do senhor Michael, mãe. Ele conversa comigo como se fosse da minha família.
A mulher pensou em opinar sobre aquilo, mas havia entendido que seria inútil interferir naquele laço, afinal de contas não era culpa do filho o homem que deveria cuidar dele ter ido embora, não era culpa dele o seu coração estar procurando pessoas para preencher esse pedaço. Aquilo mais doía nela que a preocupava.
Foram para casa em silêncio. Ao chegar, Jota animadamente correu até o seu quarto, se jogou na cama e tirou os sapatos para abrir o presente que havia ganhado. A adulta o acompanhou de longe, manteve a sua porta fechada e o observou pelas brechas, sabia que toda aquela animosidade era para o presente daquele homem estranho.
O menino desatou os laços e, no pacotinho, encontrou um tabuleiro de damas nas cores prata e vermelho. Junto dele, um cartão escrito a punho, de letras legíveis e expressivas.
"'As damas pratas combatem as vermelhas, como se estas também não fossem feitas de madeira.'
Feliz aniversário. Feliz o dia em que você escolheu ser uma peça vermelha."
O menino leu em silêncio. Sua mãe, ainda baseando-se pelas expressões pensativas dele, não conseguiu entender do que se tratava, mas viu o pequeno tabuleiro em seu colo e resolveu deixá-lo em paz com o seu brinquedo, aparentemente aquele homem estranho não era algo com que se preocupar, ela sentia que podia relaxar os seus ombros pelo menos por enquanto.
Mas foi ainda naquela noite, conversando com algumas vizinhas na frente de casa, que o sinal de alerta da mulher acendeu.
— Um pessoal aí do conselho tutelar apareceu na sua casa hoje, Tati.
— Apareceu? — ela tomou um gole de café com leite — Oxe. O que foi que o Jota fez dessa vez?
— Sei não, mas se eu fosse você, tirava um dia pra ir lá na escola.
Era o que ela faria. Sem dizer mais uma palavra, tomou o resto do seu café e voltou para casa, ela já estava perdendo a paciência justamente porque, no meio dessa bagunça, sentia que aquele homem tinha sua parcela de culpa.
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