Eles Não se Importam
2 A Caverna da Ignorância
Notas iniciais
Salvador, Bahia – 16:10 hrs
— Copiem o texto no quadro sobre a Revolução Francesa e estudem por ele. As questões da prova sairão completamente desse texto.
Sem questionar, Jota começou a escrever. Ele escreveu a primeira parte rapidamente, mas a segunda, do outro lado da lousa, tinha interferência de luz do seu ponto de vista, o que dificultava um pouco as coisas. Ele buscou a professora com o olhar, que estava distante, em sua banca, lendo alguma coisa. O garoto engoliu seco e resolveu não interrompê-la, forçou a vista a alcançar as letras, fez o que deu pra fazer.
Outro aluno levantou a mão, mas custou a ser percebido pela mulher.
— Professora…
Ela enfim o encarou.
— O que foi?
— No que copiar esse texto vai me ajudar?
Jota mordeu os lábios, era surpreendente como alguém teve coragem de questionar isso, mas ele estava ansioso pela resposta. Ela respondeu, rispidamente:
— Vai ajudar você a passar de ano.
Aquilo o deixou refletindo.
O sinal tocou, todos foram para o pátio esperar os seus pais, a escola os liberou mais cedo. Jota não tinha esse privilégio, precisaria ir embora a pé e sozinho, jogou a mochila nas costas e partiu. Passando pelo caminho de sempre, questionou-se se o tal do Michael teria uma resposta para aquela professora, pensou se ele poderia refutá-la. Depois das coisas que ouviu do homem, aos poucos estava o considerando alguém digno de atenção… ele não era um desocupado como sua mãe o havia marcado.
Enquanto pensava sobre essas coisas, passou de frente à sua casa e pensou nas suas últimas palavras. Michael disse que ele seria sempre bem-vindo, e sua mãe só chegaria à noite…
— Acho que não vai ter problema…
Jota mudou seu percurso e bateu palmas para chamar o homem. Michael demorou um pouco, mas apareceu.
— Você voltou mesmo. Bem-vindo — disse, sorrindo.
Michael deixou o menino entrar e o pediu para jogar a mochila em qualquer canto.
— Uma coisa aconteceu na minha escola hoje, eu queria que você me desse sua opinião sobre isso.
— Okay, o que houve?
Jota parou de caminhar quando chegou na sala do moreno, em seguida se acomodou no sofá.
— Minha professora passou um texto pra gente copiar e, quando outro garoto perguntou no que isso ajudaria, ela disse que ajudaria a gente a passar de ano.
— Antes de eu dizer o que penso… o que você achou disso? Por que acha importante saber minha opinião?
Jota refletiu.
— Bom… você reclamou das escolas ontem. Eu também não acho nada útil copiar um monte de texto velho que eu vou esquecer depois da prova. É um gasto de papel e de mão.
Michael riu e assentiu.
— Você já respondeu por mim. Vem, quero te mostrar uma coisa.
Ele se levantou e, com as mãos nos bolsos, foi acompanhado por Jota. Caminharam para o que parecia ser o quintal do homem, uma parte que o menino realmente nunca havia desbravado. Atravessaram o portão de madeira simples e, quando Jota pôs o seu primeiro pé para fora, entendeu que aquilo não era um mero quintal…
Era, na verdade, uma extensa área para outro mundo.
— U-uau…
Quando seus olhos se acostumaram com o sol ameno, viu um campo aberto e extenso, com o gramado bem cortado e caminhos abertos para outros lugares. Michael pegou uma bicicleta que repousava ao lado da portinha.
— Vamos! O que eu quero mostrar está um pouco distante.
Jota sequer questionou se era tudo verdade, sua inocência estava encantada com o tamanho daquele quintal. O garoto se acomodou junto ao homem, então seguiram em direção a um caminho de terra lisa, deslumbrando-se com uma paisagem de tirar o fôlego. Haviam algumas árvores ao longe, os tais pomares que ele havia dito que tinha. Por estarem de bicicleta, logo chegaram onde o moreno queria: um pequeno refúgio repleto de um barulho característico de crianças, todas entretidas em alguma atividade.
— Onde a gente tá?
— Essa é a escola da comunidade! Aqui, nós fazemos as coisas um pouco diferentes da sua…
Dessa vez Michael parecia empolgado, falar sobre crianças e tudo o que as envolviam sempre o deixava assim, e Jota estava observando isso aos poucos. Ele riu baixinho pela primeira vez, achando aquilo divertido.
— Quem é o mocinho?
— Nena, esse é o Jota. Ele só está olhando, ele não é daqui.
— Ah, seja bem-vindo do mesmo jeito!
— Sobre o que eles estão aprendendo?
A professora adentrou à sala com os dois visitantes.
— Revolução Francesa. Jacobinos e Girondinos. A atividade é pegar os cartõezinhos com características desses representantes e colocar de quem é qual. No fim, vamos debater sobre o que cada um acha das ideias deles — ela se virou pro garotinho. — Quer participar?
— Eu… quero. Eu não aprendi nada sobre isso hoje.
— Garanto que vai aprender aqui. Vamos!
A professora parecia um pouco mais conectada com o que os alunos tinham a oferecer, e isso foi bastante observado pelo garoto que silenciosamente iniciou a atividade. Ele não interagiu com ninguém, exceto com os cartões. Vendo como estava sozinho, Michael se aproximou dele e também começou a participar.
— Professora, pode me dar uma dica pra começar? Sou meio burro.
Michael brincou. A mulher de mais ou menos 25 anos riu e se aproximou.
— Ei! Ninguém aqui é burro! — ela pegou um dos cartões — Pense que os Girondinos sentavam à direita na assembléia constituinte — ela arrastou um dos cartões à direita da carteira do Jota —, enquanto os Jacobinos se sentavam à esquerda — logo em seguida ela arrastou outro para a esquerda. — Embora lutassem por interesses parecidos, eles tinham propostas bem diferentes para se conseguir isso. Pensem em um ambiente polarizado.
Jota ouviu tudo o que ela disse, logo passou a ler os cartõezinhos e a enfileirar-los como achava correto. Michael tentou fazer os dele também, mas estava pouco imergido naquela atividade, sua ansiedade era maior para saber o que o pequeno Jota estava achando de tudo aquilo.
— Eu acho que você é a pessoa mais inteligente que eu já conheci…
Ele murmurou para o adulto, enquanto o observava organizando os cartões de maneira errada. Michael riu.
— Eu acho que está errado.
— Eu não acho que você precisa acertar isso pra ser inteligente.
Michael ficou em silêncio. Ele sorriu, ele tinha razão quando escolheu investir em Jota, algo naquele menino o fazia diferente dos demais, ele tinha uma necessidade de pensar sobre tudo à sua volta, e pensar era o que o fazia ser tão intimidador. Ele tinha um poder que as autoridades temiam, Michael queria que ele tivesse ciência disso.
— Sabe… uma vez, eu ouvi de um sábio que tudo isso que fazemos na escola são apenas ferramentas. A educação… ela não necessariamente muda as coisas à nossa volta, sabe?
— Não?
Michael sorriu.
— A educação serve pra mudar a gente. O que muda o nosso redor somos nós mesmos.
O garoto pensou sobre aquilo, em seguida olhou para os cartõezinhos espalhados na mesa.
— Como eu sei que essas coisas todas estão mesmo me mudando?
Michael olhou para os cartões, seguindo o olhar do garoto, e logo começou a organizá-los, dessa vez prestando atenção no que fazia, consertando algumas de suas combinações erradas.
— Quando você aprende algo, você não é mais a mesma pessoa. Essa é a mudança.
Após algum tempo na atividade, as crianças foram liberadas para descansar e fazer um lanche. Jota optou por não ficar com elas, quis seguir o adulto que havia saído da escola para tomar um ar. Ele se aproximou em silêncio.
— Você criou todo esse lugar?
Michael não estava esperando por ele, mas, quando viu que se tratava do garoto, ele relaxou os ombros, colocou as mãos nos bolsos e suspirou enquanto admirava o horizonte.
— Eu não criei sozinho. Uma hora, cansamos de pedir as coisas, então fizemos o que nossas autoridades não fazem.
O menino arqueou a sobrancelha.
— Se… se vocês fizeram todo esse mundo, por que não mostram às pessoas? Pra que mais gente tenha acesso.
— Eu gosto do jeito que você pensa. Partilhar com as pessoas é bom, é mandamento divino. “Dai de graça o que recebeste de graça”… — ele suspirou — mas não é tão simples. A comunidade é uma resistência. Brigamos nas ruas para que o direito de todos se faça valer, tudo o que fazemos aqui dentro era para ser acessível a todos, mas isso é tarefa do Estado… nós não temos recursos para levar isso para fora. Por isso lutamos para que o governo dê ao povo o que é de direito do povo. Atenção… assistência… educação de qualidade... Fundamentos básicos.
O menino aquiesceu.
— Isso tudo é tão complicado… eu queria poder ajudar.
— Por nos ouvir, você já está ajudando, Jota. Nós queremos ser ouvidos, ter alguém para nos ouvir é importante… — Michael encarou o menino, que sorriu com a sua resposta — Sabe… você é a pessoa mais jovem de fora do movimento a vir aqui. Isso é bom… os jovens são a maior resistência, eles são o futuro, e são eles que perpetuarão a nossa luta. Nós precisamos continuar de pé até que nos ouçam, precisamos mostrar ao Estado que nós somos importantes. Que não somos vândalos, bagunceiros ou “marginais”. Também fazemos parte do povo que eles juraram cuidar.
— Será que eles vão ouvir a gente um dia?
“A gente…”
Michael voltou a olhar o horizonte. Ele tinha uma esperança daquilo acontecer, mas sabia que, se a sua geração não conseguisse, outra faria, e ele via esse futuro em Jota que já estava começando a se incluir nos discursos do movimento. Todavia, havia uma verdade que o garoto precisava saber, uma verdade dolorosa e inaceitável…
— Eles não ligam pra gente.
Aquilo deixou o menino a pensar. Quis perguntar ao adulto, então, o motivo de tanta luta se no fim eles não seriam ouvidos, mas sentia que nem mesmo ele sabia a resposta. Michael voltou até sua bicicleta, que estava jogada em um canto no lado externo da escola, e a recompôs.
— Vamos embora, logo vai escurecer e eu não quero que sua mãe se preocupe.
Jota assentiu em silêncio e seguiu com ele até o seu quintal. No meio do caminho, voltou a conversar.
— Posso voltar aqui amanhã?
— Volte sempre que quiser, Jota.
Michael deixou o menino na frente de sua casa, para que ele pudesse fazer o caminho de volta. O garoto voltou para a própria casa e adormeceu. Acordou ao ouvir a voz da sua mãe, apreensiva.
— Jota, onde estão os seus livros? Cadê sua bolsa? Espero que não tenha perdido na escola!
Ele mordeu os lábios, ainda na cama, sem a mínima vontade de enfrentar o dragão.
— Eu… eu olho depois, eu prometo.
Ele sabia onde havia deixado, e era a desculpa perfeita para ir até lá antes do horário da escola.
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