Notas iniciais
ESTOU DE VOLTA! Queria avisar que a história está completa e terminada e já tenho alguns capítulos adiantados, mas vou publicar aos pouquinhos! Obrigada por não desistirem da minha história :)

Hugo

Hugo Aubert sabia reconhecer quando estava enrascado. Se manter em alerta era algo que o garoto aprendera desde cedo e frequentemente era uma habilidade útil em sua vida. Por isso, toda vez que Hugo fazia algo que sabia que era errado, ele se certificava de encontrar uma forma de controlar a reação de quem fosse repreendê-lo. Claro, que o garoto também não fazia coisas erradas por vontade própria o tempo todo. Ele apenas tirava vantagem de algumas situações, como todo mundo ao seu redor fazia. Como, inclusive, fizeram com ele várias vezes.

Interferir no comportamento dos outros, no entanto, era algo pelo qual Hugo não se sentia culpado. Aquela era a forma que ele tinha para se proteger, já que quando falava a verdade dificilmente era escutado ou entendido. Ele também entendera cedo que quando alguém quer brigar com você por ter feito qualquer coisa, isso vai acontecer. O problema é que sempre pegaram pesado com Hugo na hora de brigar com ele. Nesse caso, o melhor era escapar disso.

Felizmente, Hugo era bom em atuar. Seu contato com o teatro aconteceu antes do jovem sequer ir para o Edifício, e desde então, aquilo se tornara sua coisa favorita. A liberdade de poder ser qualquer pessoa dava a Hugo um sentimento de controle e segurança, o que fez com ele aproveitasse toda e qualquer oportunidade para ser um ator, mesmo que por poucos minutos. Por conta do projeto Logus, aquela ocupação ainda não seria possível enquanto ele não completasse a Cerimônia. O que sobrava para o jovem era encenar personagens toda vez que estivesse enrascado.

E foi assim que tudo se desenrolou naquela manhã. Na noite anterior, Hugo sabia que havia feito algo que o deixaria em problemas, então se preparou para quando Emerson fosse atacá-lo. Escolheu ficar no corredor, local de transição dos aprendizes, e negar qualquer sinal de desonestidade. Assim, Hugo pareceria apenas alguém sendo intimidado por uma pessoa que não sabia perder. Teria sido assim se os aprendizes do Edifício já não soubessem da sua fama de viciado.

Tentou agir com confiança também quando encontrou suas irmãs. Por dentro, ele estava morrendo de medo de tomar uma surra, mas tentou demonstrar a tranquilidade de alguém que estava manejando bem a situação. Celeste era pragmática demais para reparar, já que sua principal preocupação seria que aquilo não atrapalhasse a harmonia da família para apresentação. Quanto à Sara, Hugo acreditava que ela provavelmente percebeu sua fachada, como sempre.

Isso não o preocupava, afinal, Sara era a mais compreensiva de todos. Por mais que nos últimos tempos, ela estivesse mais reclusa que o normal, ainda era sua melhor amiga e o conhecia melhor do que ninguém. Mesmo assim, ela nunca confrontava Hugo do porquê ele escondia certas coisas. Era como se sua irmã mais nova apenas concordasse em acobertá-lo em silêncio, porque no fundo, ele tinha seus motivos para tomar aquelas escolhas. Ela não estava ali para julgá-lo.

Porém, no momento em que Levi lhe agarrou pelo cotovelo e o levou até o canto do Laboratório 33, Hugo sabia a encrenca na qual havia se metido. Levi Aubert era o irmão mais velho, o primogênito da Dra Beatriz, mesmo que adotado, uma posição que ele fazia questão de honrar. Era ele quem cuidava dos irmãos mais novos e cuidou de toda a burocracia após a morte da tutora dos Aubert. Se dependesse da diretoria do Logus, um novo cientista já estaria dando assistência para a família, mas Levi argumentou contra por dias.

A perspectiva dele foi acatada, pois além da família ser composta por um grande número de aprendizes (a maioria dos tutores se responsabilizava por no máximo três), a Cerimônia, e portanto, a formatura de todos estava próxima. Desde então, Levi tinha todos os esforços para manter uma boa imagem dos irmãos para os cientistas sêniores. E era exatamente por isso, que Hugo sabia o que o aguardava, e principalmente, sabia que não podia evitar.

Não importava o quanto o garoto tentasse omitir ou persuadir Levi, simplesmente não funcionaria. Havia algo no irmão mais velho que o deixava desconcertado a ponto de não conseguir se concentrar em um personagem qualquer para interpretar.

A caminhada até o canto do laboratório pareceu eterna pela quantidade de pensamentos que se passaram pela cabeça de Hugo. Assim que Levi parou, soltou o braço do irmão mais novo e lhe lançou um olhar gelado enquanto cruzava os braços. Hugo suspirou e murmurou, desviando o olhar para os lados:

— Certo, não precisamos alongar isso…

— Hugo, cala a boca. — Levi respondeu num tom furioso. Normalmente, Hugo teria se incomodado com a expressão desrespeitosa, mas fora tão pego de surpresa com ela ter vindo de Levi que ficou sem resposta. Os Aubert, no geral, haviam sido educados para jamais ofenderem uns aos outros. O mais velho seguia essa regra à risca. — Eu podia te questionar do porquê você ter mentido quando disse que tinha parado com as apostas, ou sobre desde quando você está oferecendo indicações de jogo aqui dentro, e talvez até sobre como você pretenderia jogar num cassino sendo que você não toca mais no nosso dinheiro. Mas a única coisa que eu vou perguntar é: Você consegue por pelo menos um único dia, fazer o que sua família pede pra você?

A interrogação acusatória magoou Hugo levemente. Seu irmão mais velho o encarava com seu olhar franzido típico. Levi tinha a pele parda e usava um jaleco branco parecido com o de Celeste, sua confidente entre os Aubert, da mesma forma que Sara era a de Hugo. Os cabelos castanhos estavam bem aparados e penteados com gel, o que reforçava a ansiedade dele com a Cerimônia, já que o garoto não tinha muitos rituais com a aparência no dia a dia como aprendiz empenhado.

Ele havia sim ofertado indicações de jogos de apostas digitais para outros aprendizes havia pouco mais de duas semanas, talvez até três. Mas havia sido numa época em que ele precisava muito ir a um cassino. Já havia meses desde a última vez que ele não frequentava um, quando seus irmãos bloquearam totalmente seu acesso ao dinheiro. Os cassinos tinham uma entrada paga e se você fosse um usuário assíduo, recebia um link programado com seu nome e identidade.

A ideia do link era encaminhar para plataformas com inúmeros jogos digitais diferentes, e quanto mais se compartilha o link para conseguir novos jogadores para plataformas, novos pontos eram conquistados no sistema de cada cassino. Depois de uma pontuação mínima, era possível obter uma entrada gratuita no estabelecimento — mais de uma, dependendo da quantidade de pontos que você fizesse.

Hugo estava desesperado para ir em um, e somente por isso, ele havia escolhido essa tática. Ele sabia que era muito errado provocar vício em outras pessoas para conseguir sustentar o seu próprio, mas no momento, era a melhor alternativa que ele havia encontrado.

— Hugo! — Levi chamou o irmão mais novo em um tom irritado. O garoto não havia percebido que tinha ficado em silêncio diante da resposta do mais velho, uma dificuldade rara com outras pessoas, porém comum quando era com ele.

Vou me comportar — suspirou Hugo. — Sério, a situação com o Emerson foi ontem, ele me procurou hoje mas eu juro que não fiz divulgação nenhuma pra ninguém hoje. Estava ocupado com o projeto igual a todos os outros. — O rapaz cutucava a ponta dos dedos enquanto falava com o irmão. Era um sintoma do seu nervosismo sempre que precisava sair do personagem.

O olhar de Levi ainda era duro, mas era perceptível o cansaço. Ele tinha círculos fundos embaixo dos olhos e os ombros tensos. O Aubert mais velho não só coordenou o projeto por quase ano, como precisou conciliar isso com a tutoria dos irmãos e a burocracia da família. Levi quando não estava até mais tarde no laboratório estudando, estava em reuniões com o Conselho ou até ajudando outros aprendizes. Hugo nunca iria entender porque uma pessoa com tantos compromissos insistia em bancar a babá com alguém dependente e esgotado como ele. Então, Levi suspirou:

— Depois de hoje, Hugo, as coisas vão ficar diferentes. Você vai ter muita mais liberdade, não vamos poder te monitorar o tempo todo.

— Mal posso esperar por isso. — respondeu o mais novo friamente. Levi o encarou, erguendo as sobrancelhas surpreso. Hugo sabia que as palavras poderiam magoar o irmão, só que já era irritante o suficiente para ele não conseguir se mascarar para falar com Levi. Ele tinha que ter alguma postura para não ficar totalmente por baixo. — inclusive, por que não aproveita que seus dias de pai estou chegando ao fim e tira uma folga por hoje? — o rapaz deu um leve sorriso de canto de boca, após dizer isso.

Levi Aubert mudou sua expressão de surpresa para a de alguém ofendido. Os olhos do rapaz percorreram um ponto atrás de Hugo, e assim, se retirou da sua frente sem dizer mais nada. Ao se virar, viu o irmão se juntar ao restante da família que estava saindo do Laboratório 33 com o carrinho do projeto.

Isso o confundiu por um segundo. Pelas suas contas, eles ainda teriam no mínimo meia hora ainda antes da apresentação. Teriam adiado? Sem se questionar muito mais, Hugo foi atrás dos outros Aubert. Conforme estavam se aproximando do palco, Celeste contextualizou-o sobre o nervosismo de Sara, enquanto Miru e Levi estavam à frente conversando sobre o projeto e ignorando a existência de Hugo. Já Jake parecia entusiasmado, mas recluso em um mundo próprio, sorrindo sozinho e sem dizer nada.

Após Celeste ir em direção à Levi, Hugo se aproveitou para chegar perto de Sara. Sua irmãzinha estava pálida, esfregava as mãos nos braços ansiosamente e olhava de um lado para o outro como se uma ameaça estivesse a caminho. Aquela aparência assustada cortou o coração de Hugo. Gentilmente, o rapaz se aproximou dela e encostou uma mão em suas costas, sussurrando:

— Ei… vai dar tudo certo, ok? — A garota voltou o olhar para ele e assentiu, trêmula. — Se tiver algo para me contar, pode contar.

Os irmãos já estavam no corredor amplo que dava para os bastidores do auditório. A iluminação do ambiente era pouca, por isso o rosto de Sara estava menos visível. No entanto, Hugo tinha quase certeza que os olhos da garota brilhavam de lágrimas.

— Pessoal, vamos! — a voz de Celeste surgiu, fazendo os dois se virarem para frente. Levi, Jake e Miru já haviam entrado no palco, e provavelmente estavam ajeitando o projeto no palco — As luzes já vão acender, precisamos estar todos juntos.

— Já vamos, só estava conferindo se a Sara estava pronta — afirmou Hugo com um tom de voz protetor, e imediatamente segurou a mão da irmã.

— Podemos ir? — perguntou Celeste suavemente para a mais nova. Ela se aproximou de Sara e ajustou seu gorro preto sob os cabelos de mechas verdes. Apesar de toda a imagem de angústia que a rodeava nos últimos tempos, a garota ainda tinha uma beleza notória.

— Sim, vamos — disse a jovem Aubert, corajosamente. Celeste sorriu e Hugo também não conseguiu evitar. Os três saíram pelas cortinas, entrelaçados.

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Assim que houve o primeiro tiro, Hugo sentiu como se o coração tivesse ido parar no estômago. Seus irmãos estavam todos jogados no chão, tentando se arrastar para fora do palco. No auditório as pessoas estavam amontoadas, tentando escapar pelas saídas, enquanto os tutores gritavam instruções. Hugo havia caído ajoelhado no chão e o som em seus ouvidos estava completamente abafado.

O instinto de sobrevivência do garoto ativou o trabalho de seu cérebro:ele sabia que havia um alçapão mais à direita do palco. Girou o corpo para a direção que sua memória havia avisado e se deparou com uma porta aberta vindo do chão. Seus irmãos não estavam ao redor, o que significava que eles deveriam ter entrado ali.

Ainda em meio aos gritos abafados perturbando seus ouvidos, Hugo se atirou para dentro do alçapão. A queda havia sido pequena, pois a distância era curta. Levantou-se alisando o corpo para aliviar a dor do impacto, até que começou a ouvir gritos.

Era a voz de Sara.

Hugo queria correr, mas o escuro do local bagunçava sua orientação. Não sabia se voltava para cima e pedia ajuda, porque tinha medo de dar de cara com o atirador. Seu coração estava acelerado e sua mente era uma enxurrada de perguntas sobre onde poderiam estar seus outros irmãos. O medo fez com que ele não gritasse, e se odiou totalmente por isso.

Uma luz provocou sua atenção. Ela estava à poucos passos dele e não era como fogo, tampouco como eletricidade. Parecia algo reluzente. Havia um corpo na frente, virado de costas para Hugo. O garoto se aproximou lentamente. A figura era um pouco mais alta do que ele e também mais magra. As vestes brancas e a calça escura lhe traziam suspeitas de ser um aprendiz. Assim que percebeu os cabelos tingidos de branco, Hugo engoliu toda a sua respiração de uma vez pelo alívio.

Era Jake Aubert.

Hugo teria corrido para abraçar o irmão. Entretanto, o sentimento de horror tomou lugar rapidamente. Em uma das mãos do garoto à sua frente, segurada firmemente pelo pescoço estava Sara. Ela estava ajoelhada e não fazia nenhum esforço em sair daquela posição. A cena era tão aterrorizante e sem sentido para Hugo que, por um segundo, pensou que devia estar delirando.

Sentiu uma picada aguda em seu braço, e aquilo foi suficiente para perceber que estava muito bem acordado. Sua visão ficou turva e suas pernas perderam a força. Caiu com as mãos apoiadas no chão e com grande esforço para não ficar enjoado, olhou para frente buscando novamente pelos seus irmãos.

— Ele vai dormir agora, podemos continuar. — a voz de Miru ressoou dentro do alçapão e Hugo sentiu a garota passar por ele. Ele enxergava cada vez menos, mas conseguia vê-la se ajoelhando ao lado de Sara que ainda parecia imóvel. A imagem do irmão na frente das duas era tão perturbadora, os barulhos de tiro acima eram tão estridentes e o medo de que seus outros irmãos estivessem mortos tão sufocante, que Hugo sentiu um pouco de conforto ao notar a perda gradual dos sentidos. Em segundos depois, tudo ao seu redor havia desaparecido.

Notas finais
Quem diria que o capítulo iria passar o limite de caracteres kkk