Notas iniciais
Foi muito divertido escrever esse capítulo!! Foi ele o primeiro que eu elaborei pra história e me dá um prazer imenso ver ele finalmente prontinho

Capítulo 7

Calebe

A entrada pelo jardim havia sido a parte mais fácil. O segurança já estava de sobreaviso como Mari havia informado, e permitiu a entrada de Calebe assim que o oficial mostrou o distintivo. Encontrar o cômodo onde seria feito o flagrante também não foi difícil. Conforme Davi dava as coordenadas para que o detetive se movesse silenciosamente em direção ao local, Calebe se lembrou do treinamento que os dois tiveram que envolvia orientar outro oficial caso um deles estivesse cego. A química entre os gêmeos facilitava muito a tarefa, além de ser uma dinâmica comum na infância dos dois. Quando crianças, eles zeraram as brincadeiras feitas com duas pessoas e uma de suas favoritas era cabra-cega.

O policial conseguia se lembrar das tardes no quintal, com uma venda nos olhos, enquanto Davi gritava para que ele se aproximasse de um alvo específico. Naquela época, seu irmão era o pior no jogo porque seu senso de direção era bem ruim. Até que Calebe percebeu que descrever detalhes do ambiente ajudava mais Davi a se localizar.

— Ótimo, agora você segue por esse corredor, olhando pra frente até que consiga ver as cores laranja e azul do ginásio — o detetive escutou a voz do irmão comandando pela escuta.

A infância de Calebe Amaral frequentemente repercutia na sua vida atual. Pessoalmente, o rapaz odiava quando essas memórias vinham em operações. Devido a sua criação católica interiorana, seria praticamente impossível que não fosse o caso daquela. O ar no Colégio de São Tomás de Aquino carregava o cheiro de incenso frio e sufocava o policial.

Enquanto atravessava abaixo do teto abobadado do corredor, se sentia vigiado por meio das órbitas vazias dos santos pintados nas paredes. O sentimento de estar sendo vigiado era uma constante toda vez que ia na igreja quando criança. Ele tinha certeza que era uma pressão local, porque agora adulto, suas idas nas missas eram leves e rápidas. Mas ali, naquela escola gigante e silenciosa voltada para crianças, Calebe lidava com o mesmo tipo de arrepio.

— Aí mesmo, você chegou. Após o aviso do irmão, o policial parou ao lado de uma escada caracol feita de madeira em que os degraus se fechavam um no outro. Deu a volta e se deparou com o fundo da escada que deveria ter a entrada::

— Acredito que a passagem esteja escondida — informou Calebe pela escuta. A parede continha um quadro vertical com uma pintura de São Domingos Sávio. O detetive procurou com cuidado os pregos e conseguiu destravar o quadro para colocá-lo cuidadosamente no chão.

— Assim que o alvo chegar ele vai perceber que o quadro dele não está como ele havia deixado. — observou Calebe.

— Pode intimar ele na mesma hora — aconselhou Mari. — Contanto que faça com que ele abra o quarto, acredito que seja melhor ainda.

Para a sorte deles, Mari ainda não estava com o diretor então ela poderia orientá-los com a operação por enquanto. No fundo, o rapaz sentia que a validação dela estava se tornando importante demais pra ele, e logo em seguida, se repreendeu pelo pensamento intrusivo. Empurrando a porta, Calebe conseguiu abrir o quarto, que por algum motivo estranho, não estava trancado:

— Entrando. — informou na escuta. O detetive desceu três degraus de escada em um escuro bastante desconfortável e retirou uma lanterna quadrada de aproximadamente cinco centímetros de um dos seus bolsos para clarear o ambiente. O cômodo não devia ser maior do que um armário de vassouras e continha um aroma de poeira e mofo que fez seus olhos lacrimejarem.

— Encontrou algum lugar para a microcâmera? — perguntou Davi.

— É estranho, não tem nada aqui dentro. Acho que o canto de uma das paredes vai ser a melhor opção. — observou o policial. Depois de vasculhar o quarto com a lanterna, reparou em um armário de metal no canto que não era mais alto do que sua cintura. Calebe elevou a luz da lanterna um pouco acima do objeto e localizou um ponto interessante para a microcâmera, no qual o maior ponto cego seria próximo à entrada. Assim como Mari havia dito, o dispositivo era simples de ser fixado.

— Agora pode esperar lá fora — respondeu Davi depois que o irmão atualizou mais uma parte da missão. — O provável é que o alvo apareça antes das seis da manhã com alguma criança. Não esquece de colocar o quadro de volta no lugar.

Antes de sair, Calebe desviou o olhar mais uma vez para o armário pequeno. Não havia mencionado isso na escuta e algo naquilo continuava lhe chamando. Decidiu ignorar e subiu os degraus em direção a saída. Por algum motivo, sua respiração tinha se tornado mais pesada do que o normal, mas devia ser consequência da atmosfera prejudicial do cômodo. Desligou a lanterna e fechou a porta com delicadeza, enquanto sentia que o ar ia sendo puxado de dentro dos seus pulmões mais e mais. De repente, o campo de visão de Calebe se fixou no chão, como sempre acontecia quando a ansiedade aparecia sem aviso.

Por mais descomplicada que fosse aquela parte da tarefa, havia algo movimentando um peso emocional no detetive. O ambiente era muito similar aqueles que ele era obrigado a visitar na infância e saber que Mari havia lhe dado a função principal na operação ainda o incomodava. Seu estômago parecia diminuir conforme tentava visualizar as crianças sendo levadas naquele quarto para serem machucadas. Elas não teriam como escapar nem pedir ajuda. Relembrar o quanto adultos eram capazes de torturar indivíduos indefesos quando estavam em posição de poder, fazia Calebe borbulhar de raiva.

Acima de tudo, lhe deixava com medo. O policial se deu conta de que esse estava sendo o problema. Estar ali havia lhe deixado assustado, mas sem muitas razões lógicas, do tipo de terror que se sente quando está num pesadelo. Com o pescoço ainda muito pesado, conseguiu levantar a cabeça e olhar para a porta fechada em sua frente. Sua respiração estava cada vez mais ofegante, e então se lembrou que tinha algo que ele estava esquecendo. Precisava saber o que era e precisava sair dali, do contrário, o alvo iria aparecer com a criança e ele não ia ver. O monitor já poderia chegar machucando o aluno, e Mari havia dito que não poderiam esperar que ninguém se ferisse para concretizar o flagrante.

Mesmo assim, Calebe não conseguia se mexer. Se sentia paralisado, como se seus músculos não estivessem obedecendo seu cérebro. Lutava a todo custo recuperar o que ele estava esquecendo, mas o sentimento de pânico era crescente. Fez um esforço para repassar devagar cada um dos acontecimentos desde que entrara no Tomás de Aquino. Até que, de uma só vez, sua cabeça o alertou do que devia fazer.

Coloque o quadro no lugar.

Aquelas palavras ressoaram dentro dele como se um ovo tivesse se quebrado dentro da sua mente e o conteúdo dele fosse aquele alerta. Focado em obedecer àquela ordem, Calebe se virou para o lado a fim de pegar o quadro vertical e posicioná-lo na parede para esconder de novo a passagem do quarto.

Mas não havia quadro em lugar nenhum. Deu alguns passos para trás e rodou pelo espaço tentando visualizar a pintura. Seus olhos estavam se readaptando com a claridade, ele só não devia estar enxergando direito. Foi quando aquele sentimento voltou. O arrepio nas costas de que estava observado. O rapaz se virou e estremeceu com o susto: a poucos passos na sua frente, havia uma garotinha. Pela primeira vez, como se tivesse retornado a sua realidade de policial, pensou em avisar a equipe na escuta. O quão grande não foi sua surpresa, quando percebeu que o objeto havia sumido. Desesperou-se por alguns segundos e bateu nas vestes à procura do dispositivo. Olhou mais uma vez para os lados, ainda com esperança de ver o quadro, mas não teve sucesso em ambas as tentativas.

A garotinha estava na sua frente. Ela não dizia nada, apenas o encarava. Devia ter no máximo oito anos, tinha cabelos crespos e pele escura. O que mais surpreendeu Calebe foram suas roupas. A menina usava um vestido de tecido branco adornado com delicados laços rosa e babados rendados. O policial tinha certeza que ela devia ter escapado de algum batizado, do contrário, eram roupas totalmente antiquadas.

— Você não é daqui. — ela disse, quase como uma acusação. A paralisia de Calebe parecia ter sumido, e sua preocupação central tornou-se a presença daquela criança, ainda sem poder entrar em contato com sua equipe.

— Foi você que tirou o quadro dali? — ele perguntou suavemente.

— Que quadro? — a menina parecia confusa. — Você não devia estar aqui.

O coração do policial começou a acelerar. Havia sido pego e não tinha como avisar nem Mari nem Davi. Não podia permitir que aquela garota entregasse a operação.

— Ok — ele manteve seu tom gentil — Eu estou aqui pra te ajudar. Ninguém precisa saber que eu estou aqui.

De repente, os olhos da menina se arregalaram, como se não acreditasse no que tinha acabado de escutar. Ela se aproximou devagar do detetive e perguntou baixinho:

— Você vai mesmo me ajudar? — a garotinha era tão pequena que precisava esticar a cabeça para trás para conseguir enxergar o olhar de Calebe.

— Com certeza — se ele seguisse naquela linha, ela iria ganhar a confiança dele — Você só precisa vir comigo e fazer silêncio. Vai me ajudar em algo muito importante.

— Mas… mas assim vão te ver — uma expressão de angústia atingiu o rosto da menina.

— Não, nós só vamos ficar de olho caso algum homem entre naquela porta, está vendo? — Calebe apontou para o quartinho.

— Mas o homem não entra aí — a garotinha parecia cada vez mais nervosa, e então, abaixou o rosto. — Ele está no banheiro.

— O quê ? — perguntou o detetive confuso.

— Lá em cima — a menina se virou para a escada e o policial precisou se segurar para não abrir a boca em choque. No lugar da escada de madeira, havia uma escada de ferro preta, coberta de pó. Alguma coisa muito errada estava acontecendo ali.

— O homem está no nosso banheiro. — afirmou a menina, agora olhando o detetive nos olhos. Calebe se sentia sem escolha. Não sabia como dar segmento aquela missão. Seria irresponsável deixar seu posto, mas se o que aquela garota amedrontada dizia fosse verdade, havia mais crianças precisando da sua ajuda. Ainda por cima, não poderia arriscar deixá-la sozinha depois dela tê-lo visto.

— Tudo bem — ele respondeu em um tom controlado e que passasse calma para sua protegida. Colocou a mão ao lado do corpo, e sentiu gratidão ao confirmar que pelo menos sua arma ainda estava ali. — Nós vamos subir, e preciso que você venha na minha frente, sem fazer barulho.

Ele enunciou essa última frase esticando o braço para que a menina segurasse sua mão. Ela a pegou, após assentir com a cabeça passivamente. Com a outra mão firme na arma, os dois subiram lentamente a escada de ferro e conforme Calebe olhava para o andar debaixo, mas diferente o Tomás Aquino parecia. As paredes estavam vazias e o teto luxuoso agora era de telha.

— Como você se chama? — ele perguntou para a garotinha.

— Cecília — ela respondeu. O humor dela parecia mais tranquilo, quase que animado. Os dois estavam no topo da escada diante de um corredor que continuava pela esquerda. O teto tinha uma barra de luz fosforescente que piscava e o chão estava com algumas manchas. — O banheiro é nessa primeira porta, sussurrou Cecília.

Calebe segurou o ombro dela delicadamente e a puxou para trás de sua perna.

— Não sai de trás de mim, tá bom? — ele ordenou. Com Cecília em seu encalço, o detetive caminhou lentamente até o banheiro, com os ouvidos atentos para localizar algum barulho. Mas tudo estava silencioso. Ao chegar na beirada da porta, segurou sua arma, preparado para sacá-la se fosse necessário.

Então Calebe adentrou o banheiro.

E estava vazio. Não havia ninguém ali.

Cabines com portas, mas sem privadas dentro. Uma enorme pia com três ou quatro torneiras e um espelho. O policial sentiu uma raiva imensa. Havia deixado seu posto na operação para nada. Até que Cecília sussurrou:

— Você precisa olhar no espelho, Calebe.

Por mais estranho que parecesse, ele atendeu ao que a menina disse, mesmo se sentindo estúpido e frustrado. No entanto, quando seu olhar entrou em contato com o vidro embaçado, não foi sua imagem que o policial visualizou. Na verdade, era sua imagem, mas não naquele banheiro. Virou a cabeça rapidamente para conferir se o ambiente era o mesmo, e nada havia mudado. Porém, quando encarou o espelho novamente, a cena atrás de si era outra. Era um lugar familiar, uma cozinha de paredes revestidas por azulejos claros. No centro, uma mesa de jantar coberta com uma toalha xadrez e corações estava repleta de pratos de vidro, uma garrafa térmica e uma leiteira. Os armários brancos estavam ao lado de um fogão quatro bocas.

Mesmo sem a continuação do espaço, Calebe conseguia enxergar perfeitamente a bancada de granito, a geladeira baixa e as janelas estreitas quase no topo das paredes. Aquela era a casa onde ele vivia no interior. Quando ainda era somente uma criança, igual aquela que estava do seu lado.

— Cecília… — ele perguntou enquanto desviava aos poucos seu olhar do espelho. — Eu não te disse que eu me chamava Calebe.

A pergunta havia sido em vão. Ao se virar para onde antes estava a menina, se deparou com uma cena pavorosa: Cecília estava com o rosto mergulhado na pia, imóvel, como se estivesse desacordada. Seus cabelos estavam encharcados mas não havia sinal de água na pia. Imediatamente, as pernas de Calebe o traíram e ele caiu no chão. Seu coração agora palpitava sem parar e sentia o peito arder de dor. Sua mente havia se tornado em um feed de vídeos sendo passados rápido demais. Um, dois, três, contou enquanto inspirava e expirava. Haviam gritos em sua cabeça. A ajuda vai chegar. As palavras ecoaram na voz de sua mãe. Com os braços dormentes foi arrastando o corpo para trás lentamente, até que estivesse dentro de uma das cabines. Reunindo forças que não sabia de onde vinham, se levantou e trancou a perna, murmurando uma oração.

O policial fechou os olhos e tentou identificar qualquer som, mas só havia um silêncio absoluto que era um vácuo perfeito para a proliferação da perturbação em sua cabeça. Até que ouviu três batidas na porta.

— Calebe? — era a voz de Cecília. — Muito obrigada.

Ele se manteve em silêncio, o corpo trêmulo e a garganta sufocando um grito.

— Você precisa pegar algo ainda, tá bom? — ela continuou. — Abre a porta, por favor.

Mais batidas.

O peito do detetive ainda doía e suas mãos estavam paralisadas. Não conseguia elaborar uma resposta. Cecília continuou batendo na porta e pedindo em um tom amigável para que ele abrisse.

— Calebe — a mudança repentina na voz silenciou a mente do rapaz. De tudo que havia acontecido com ele até aquele momento, nada era mais assustador do que ouvir aquela voz novamente. Ele reconheceria aquela voz em qualquer outro lugar e que, de vez em quando, atormentava sua cabeça sempre que passava por uma situação de ansiedade ou pânico. A voz de seu pai.

— Calebe, abre a porra dessa porta, agora.

As memórias na sua mente estressada finalmente tomaram uma cronologia. Lembrou-se de um dia que ele, seu irmão e sua mãe estavam tomando café da manhã. Seu pai havia entrado na cozinha, gritando para que Davi se levantasse e colocasse suco para ele. O menino havia pego a jarra mas antes que pudesse pegar o copo na pia, ela escorregou da sua mão e quebrou. Calebe na mesma hora soube o que fazer, então correu para o banheiro e se trancou. Era assim que funcionava na sua casa. Quando um errava, ele ia atrás do outro. Como se estivesse acordando de um pesadelo, Calebe relaxou os ombros. Era como se tivesse seis anos novamente. Trancado em um banheiro, apavorado, com a voz ameaçadora de seu pai exigindo que ele abrisse a porta. Se naquela realidade, o rapaz era um policial, e não uma criança indefesa, faria bem uso disso.

Calebe sacou a arma, destrancou a porta e mirou para frente assim que saiu da cabine, completamente cego de ódio.

Não havia mais ninguém.

O banheiro continuava no lugar, mas não havia mais sinal de Cecília nem de qualquer outra pessoa. Ainda com o corpo pulsando adrenalina, sentiu que aquele seria o momento perfeito para correr. Entretanto, uma imagem no chão roubou sua atenção. Havia um pequeno boneco de cerâmica em pé no chão. Não devia ter mais do que cinco centímetros. Calebe tinha certeza absoluta que não deveria tocar naquilo, mas era irresistível. O boneco tinha feições e roupas pintadas. Iguais às dele.

Por alguma razão, não queria aquilo naquele lugar. Uma cópia dele naquele ambiente onde ele não devia estar, como se estivesse mantendo-o ali. Calebe nunca seria mantido em lugar nenhum, da mesma forma que não fora em sua cidade natal. Da mesma maneira que não fora em sua própria casa. Guardou o boneco em um dos seus bolsos e correu em direção a porta.

Assim, que ele atravessou-a caiu no chão. Tentou se levantar, ignorando a dor do impacto, mas tudo o que sua visão enxergava era escuridão. Ajoelhado e sentindo mais frustração do que nunca, o detetive finalmente deixou escapar seu grito.

— Calebe — de repente, a voz de Davi estava em seu ouvido. — Que merda foi essa, você enlouqueceu?

Desesperadamente, o policial tocou a orelha e percebeu que a escuta estava ali novamente.

— Davi??!! — ele exclamou assombrado. — Você consegue me ouvir? Você tá aí???

— Calebe, por que você voltou pro quarto? Precisa sair daí, você tem que esperar lá fora. — o tom de Davi era totalmente ríspido e estava confundindo o detetive. Seu irmão não havia percebido que ele havia ficado… minutos, talvez uma hora fora de sinal? Ele não havia visto pelo rastreador o caminho estranho que estava fazendo esse tempo todo? Tateou o corpo novamente e encontrou sua lanterna. Assim que a acendeu e olhou ao redor, notou que estava no cômodo novamente. Se levantou e iluminou a parede onde havia instalado a microcâmera. Estava ali.

— Calebe — agora era a voz de Mari na escuta. O que aconteceu? Despistei o diretor por uns dez segundos, tá tudo bem?

Antes que o policial pudesse responder, a porta do quarto se abriu. Joaquim de Melo agarrava um garoto de no máximo onze anos pelo pescoço e gritou quando se deparou com a figura de Calebe parada no meio do quarto. O detetive desligou a lanterna, mas a luz do corredor vinda de fora ainda o iluminava.

— O que significa isso? — berrou Joaquim, sacudindo o menino enquanto gesticulava. Quase que instantaneamente, um ódio similar que Calebe havia sentido minutos atrás se instaurou em seu peito novamente.

— Solta o garoto. — ele ameaçou, apontando a arma para o pescoço de Joaquim. O rosto do velho perdeu a cor de uma vez só e o menino soltou um gritinho apavorado.

— Irmão… por favor… — a voz do alvo era trêmula e assustada.

— Você vai soltar esse garoto e vai entrar aqui — continuou Calebe quase vociferando. Quase que engolindo a seco, Joaquim obedeceu e parou na frente de Calebe, com as mãos levantadas para cima. O policial desviou o olhar para a parede e se lembrou da microcâmera. Eu lembrei de colocar na visão noturna?, a dúvida surgiu em sua mente, praticamente tarde demais. Porém, não havia chegado até ali para sair sem provas.

— O que tem naquele armário? — perguntou o detetive para o velho que se manteve quieto.

— O gato mordeu sua língua, Vossa Santidade? -Calebe gritou, o que fez o menino choramingar no canto da porta. — Você vai abrir essa merda de armário, agora. — ordenou diante do silêncio insistente. O velho tentou se justificar, atropelando as palavras, mas a paciência do detetive estava esgotada. Mirou no armário velho de alumínio e atirou, causando um estrondo que fez o menino gritar de terror e começar a chorar.

O velho caiu no chão com o susto, os braços na cabeça, gritando repetidamente que iria abrir. Suas mãos trêmulas apanharam uma chave no bolso e Joaquim destrancou o armário lentamente.

— Já pode vir, Mari — avisou na escuta. Ligando a lanterna, pediu para que o alvo retirasse cada um dos objetos do armário, um por um. Primeiro, haviam sido as correntes. Depois, os cintos de couro e os fios de extensão. Ver o desespero dele era quase um conforto para Calebe depois do que havia acabado de vivenciar e das memórias que precisou reviver.

— Flagrante feito, equipe — comunicou a voz de Davi, encerrando aquela missão.

Notas finais
O próximo capítulo vai ter uma mudança DE ÚLTIMA HORA dos meus planos, estejam preparados!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.