Eles
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Notas iniciais
1
Dia: 22 de março de 2047, às 11:32. Ilha.
Joana tinha descoberto algo recentemente. Ela estava num lugar no litoral. Bem, claro, poderia haver outras explicações para o terreno que era o mar, como, possivelmente, uma ilha ou algum tipo de mar artificial – ninguém sabia de como a ciência poderia já estar avançada. Por isso, era bem provável que eles já conseguissem projetar algo tão estritamente igual ao real –. E este local, segundo Joana, também tinha muitas plantas e verde. Sim, verde em todos os lugares. Era até enjoativo aquele tanto de cor. Algo colorido seria bem melhor.
Ela não se lembrava de muita coisa, mas sabia que tinha sido levada para ali e que, agora, ela olhava um garoto. Aparentemente, ele estava na mesma situação em que ela estava: pensamentos confusos, lembranças embaralhadas. Ele massageava a têmpora, coisa que ela fez logo depois que acordou. Era um jovem. E bem bonito por sinal. Joana poderia estar com medo, mas, claro, não teria de alguém lindo como aquele garoto era.
– Ei – chamou –, está precisando de ajuda? – perguntou, levantando sutilmente sua saia – Talvez eu esteja.
Ele pareceu não notar o assédio da garota; estava mais preocupado em saber onde estava.
– Onde estamos? – perguntou inocentemente, como se, num mundo desses, não existisse pessoas vis.
– Bem... – começou – Sinceramente? Eu não sei te responder. Eu também quero saber essa resposta.
Joana estremeceu. O que poderia ter acontecido a seu pai? Será que aquele maluco psicótico teria voltado para matá-lo? O que estava acontecendo em Lago das Montanhas? Por que ela estava ali, numa espécie de floresta, junta de um garoto bonito e que, igual a ela, não sabia sobre nada do que tinha acontecido?
Era muitas perguntas para poucas respostas.
– Onde você estava antes de, você sabe, vir parar aqui?
Gustavo normalmente não era tão falante assim, mas, nesse momento, ele precisava coletar informações. Ele, numa situação comum, estaria fechado, lendo algo ou projetando algo ligado ao seu futuro. Não costumava em pensar em bobeiras e coisas fúteis. Toda essa personalidade ainda estava exacerbada, mas, bem no fundo, ele ainda tinha seu carisma como de antigamente.
– Bem, eu estava lá em casa. – ela tentou se lembrar com mais firmeza – Depois, se eu não me engano, fui algemada por uns policiais que colocaram uma pulseira em mim.
– E você, bem, é um, sabe, um deles? – a última palavra saiu num sussurro.
Joana demorou para responder, mas não via segundas intenções no olhar daquele garoto. Tudo que ele parecia fazer devia ser para o bem dele e isso deveria estar intrinsecamente ligado ao que tinha acontecido com ela.
Que ele descobrisse que ela era uma aberração.
– Sim. – um som ríspido e pingando aspereza.
Foi quando Gustavo começou a juntar os fatos.
2
Dia: 22 de março de 2047, às 12:32. Ilha; arredores do mar.
Alexei estava andando na direção do mar. Ele não sabia a princípio, mas, com o passar do tempo, ele começou a ouvir barulhos típicos de oceano: o vai e vem das ondas, o quebrar das mesmas, o som de pássaros e o vento tépido que roçava nas folhas. Ele estava com calor e quando sentiu a areia escaldante, correu para a imensidão azul, retirando sua blusa e deixando mostrar um físico invejável.
Mas fazer inveja em quem se estou sozinho nessa merda?
Ele mergulhou na água gelada e nadou. Estava precisando se exercitar; já estava a algum tempo sem ir na academia, e ele não queria perder seu corpo. Porém, com o balançar das ondas, ele foi sendo arrastado para um lugar do qual esse distanciava de onde tinha saído da floresta. Estava nadando sem se preocupar com nada. Mas a fome atacou de novo. Ele tinha comido algumas frutas. Mas ela não tinha matado a fome.
Decidiu sair da água e procurar por comida. Mas o que encontrou foi outra coisa.
Dois corpos na areia da praia.
Duas pessoas. Um homem e uma mulher.
A mulher ele reconheceu.
Era Patrícia, a ainda dona do coração de Alexei.
Mas ela estava morta.
Alguém tinha feito isso a ela. Alexei não sabia quem era. Mas tinha uma garota ali. Ele não sabia quem era, mas com certeza era a autora dos dois crimes. E ela iria pagar por isso.
3
Dia: 22 de março de 2047, às 10:29. Ilha; arredores do mar.
Cassie tinha derrotado aquele homem. Ele estava em sua frente, um poço de sangue lacerado e horrendo. Ela estava cheia de sangue. Como a Carrie, pensou ela, lembrando-se do último filme que tinha assistido. Era antigo. Talvez fosse de 2012 ou 2013, mas ainda assm fora muito bom. Agora Cassie sentia como era ter o corpo coberto de plasma. Não era algo agradável. Não mesmo.
Ela continuou a andar. Não era muito religiosa, mas, mesmo assim, sabia que matar era errado. Mas o que ela poderia fazer? O cara iria estuprá-la e, se ela desse sorte, ela poderia ser morta, mas, no melhor dos casos – observe a ironia –, ela seria mantida para sempre como refém de um estuprador gordo e nojento. Cassie não tivera escolha. Por isso tinha feito aquilo. Por isso tinha o matado. Por isso estava com o corpo vermelho e pingando viscoso.
Ela sabia que estava perto do mar. Iria se lavar. Mas o que iria fazer poderia demorar um pouquinho. Outro homem – de aparência lindamente hedionda, diga-se de passagem – avançava como um touro na direção de uma garota negra. Ela era muito bonita, notou Cassie, espiando a futura luta.
O homem continuou correndo na direção da jovem. Ela estava paralisada. Motivo? Cassie não sabia, mas antevia uma investida dolorosa. Porém, num impasse de segundo, o homem escorregou na areia e caiu próximo a ela. Agora era possível ver o que o fazia tão rápido. Ele era dotado de algum tipo de propulsor nos calcanhares. Devia ser como uma turbina ou qualquer coisa do tipo.
A garota de curvas acentuadas, Patrícia, sentiu pena pela queda do homem, mas lembrou-se de que ele iria atacá-la; de que ele poderia tê-la matada se não fosse essa queda engraçada. Ela poderia encostar seus dedos na nuca do homem – que se debatia e xingava de dor ; afinal, um nariz quebrado não era nada legal – e matá-lo. Mas ela não era esse tipo de pessoa. Tinha matado animais e coisas menores, mas nunca uma pessoa.
Nunca um ser humano.
Mas ele se levantou numa fúria súbita, relampejando palavrões e com os olhos e rosto sujos de areia. Do nada, ele se jogou contra Patrícia, derrubando-a longe. Ela ralou as costas nos grãos de areia. Ela se levantou, gemendo. Sua visão estava turva, mas já tinha o necessário para conseguir vislumbrar a centelha de velocidade vinda do alto. O homem estava voando e, agora, descia num borrão brusco. Mas ele não iria morrer se caísse direto na terra? Mas Patrícia percebeu que ele era um mutante e que isso estaria fora de cogitação no kit destroir-garotas-songas.
Ela tinha que sair dali. Tinha que se levantar ou fazer qualquer coisa. Mas suas costas doíam e os músculos estavam entorpecidos. Ela iria receber uma cabeçada mortal e, como o nome diz, iria morrer. Que ótimo, pensou ela, morrer de um jeito nada esquisito.
E a queda aconteceu. Um jorro de areia, poeira e vento aconteceu. A visão de Cassie fitava debilmente o local devastado. Tinha uma cratera no lugar onde o homem havia descido. Ou se jogado. A garota ainda estava lá. Mas a diferença entre segundos atrás era alarmante. Ela estava esmagada. Sangue cobria sua roupa que, agora, parecia muito com a de Cassie. Ela parecia estar com diversos ossos quebrados, pois era possível ver uma fagulha branca saindo do corpo de ângulos impossíveis da garota.
Cassie sentiu-e enjoada com aquilo. Era uma cena tétrica. Ela costumava assistir filmes de terror, mas na vida real tudo era pior. Aquilo não se parecia nada ao que tinha acontecido com os personagens em Jogos Mortais. Claro. Jogos Mortais. Será que as pessoas daquele lugar não estariam em algo parecido? Podia ser, reparou a garota de roupas vermelhas, observando também a outra morte: o assassino da garota.
Sim, ele também tinha morrido; mas estava longe para Cassie enxergar. Ela era curiosa ao ponto de sair de seu esconderijo atrás de folhas e arbustos para ir verificá-lo. Andou, tomando cuidado para não pisar em gotas de sangue ou em alguns órgãos que tinham sido atirados da garota. O homem estava lá. Bem perto de seu assassinato. Estava com o pescoço quebrado. A visão era nauseante, mas, mesmo assim, Cassie continuou lá, fitando as duas aberrações mortas que, agora sim, faziam jus ao nome “aberração”.
Mesmo com toda aquela cena, Cassie permaneceu nos arredores dali por mais de duas horas. Era bom saber que tinha duas pessoas com quem pudesse conversar.
Mesmo que essas pessoas estivessem mortas.
4
Dia: 22 de março de 2047, às 23:15. Ilha.
Daniel, Luke e Anne estavam juntos. Tinham sido “rebocados” em locais separados. Sim, na ilha. Mas eles logo tinham se encontrado. Segundo Daniel, o governo era burro e preguiçoso o suficiente para fazer algo assim. Não que ele achasse isso ruim, mas não era decisão mais coerente para pessoas que não querem nada do tipo.
– No mínimo, o governo quer tentar reprimir as ações mutantes. – disse Daniel, fitando a noite, o sono tomando conta de seus pensamentos.
– Mas por quê? – perguntou Anne, de baixo de uma cabana e ao redor da fogueira impotente.
Eles tinham montado uma espécie de acampamento, pois sabiam que aquilo iria durar um bom tempo.
– Os mutantes podem trazer mais empecilhos do que pessoas comuns. – concluiu o inteligente – E estava claro que algum tipo de rebelião estava prestes a acontecer; as aberrações assumidas já estavam se organizando.
– É, eu fiquei sabendo – contou Luke, voltando com mais lenha –. Parece que eles não estavam gostando de como estavam sendo tratados. Deviam estar se organizando pela Warrisa.
Warrisa. A rede social mais usada em todo mundo. Ninguém sabia quem a criara, mas ela já havia se tornado algo essencial para a comunicação humana. Era como um membro da família, ou a linha de telefone. Todas as coisas que aconteciam passavam por lá. Propagandas, notícias, informações. Tinha de tudo lá. Desde pessoas procurando empregos até o mais comum: pedófilos e pessoas querendo usá-la para algum tipo de coisa ruim.
– O governo se beneficiará diss de alguma forma. – expôs Daniel, que já estava pegando no sono. Ele percebeu que sua fala já estava letárgica. – Gente, vou dormir. Estou morrendo de sono.
– Pode ir. – informou Luke – Você também, Anne, se quiser. Eu vou ficar de guarda essa noite. Já estou acostumado com esse tipo de trabalho.
Daniel dormiu numa velocidade incrível. Mas não era para menos. O garoto tinha se esforçado muito tentando contrapor contra o governo e tentando negociar com os homens que o levaram para ali. Anne estava do seu lado, fingindo dormir. Ela conseguia vislumbrar os sonhos ou pesadelos de qualquer pessoa que estivesse tendo algum. E, nesse caso, estava. Daniel sonhava com livros e com números, palavras. Ele parecia estar com raiva das coisas. Com raiva das pessoas por elas não os dar ouvidos. Anne achou isso entediante. Mas o de Luke parecia ser melhor.
Anne via os sonhos como numa tela de cinema. Grande. Tudo passava em imagens em cima da cabeça da pessoa. Ela não precisava estar com os olhos abertos, propriamente dito; bastava ela somente sentir a presença dos componentes e deixar sua mente fluir. E foi assim com Luke. Ele devia estar entre o sono e sobriedade, mas o primeiro parecia prevalecer. O sonho estava entrecortado; motivado pelo não completo sono. Mas ainda era possível discernir algumas cenas da cabeça dele.
Era um sonho erótico dele. Anne não contaria em detalhes explícitos o que vira, mas ela poderia mencionar que, de todo o modo, o sonho trazia muita excitação. E ela estava desse modo. Luke era um cara muito bonito para deixar uma dessas simplesmente passar. Ela se levantou com cautela para não acordar Daniel e retirá-lo do seu sonho/pesadelo enfadado. Ela só queria um momento a sós com o rapaz.
– Anne? O que faz acordada? – perguntou, enquanto desenhava com um pedaço de galho para passar o tempo.
– Sabe... Eu te achei tão lindo quando te vi... E, bem, eu queria...
Ela não precisou terminar de falar. Luke era conhecido pela sua atitude intimorata. Um beijo quente, úmido e deleitoso nasceu entre os dois. Nem Luke nem Joana queriam retirar a boca daquele ato perfeito. Mas era preciso. O oxigênio permitia aos dois a respiração; logo, a vida. O ósculo cessou. Os dois estavam frente a frente, Luke deitado e Anne com as pernas ao lado do tronco do rapaz. Ambos sentiam a respiração do outro. Era quente. Era bom.
– Você sabe onde isso vai parar, não sabe? – perguntou Luke, acariciando os cabelos da garota.
– Sei. – informou ela, se aproximando – E não vejo a hora dessa parte chegar.
5
Dia: 22 de março de 2047, às 10:02. Casa de Martinho.
Enquanto Marina ouvia o canto dos pássaros, Maria ouvia o som dos próprios urros e gemidos. Claro, eram baixos. Principalmente quando há duas mãos forçando o pescoço da garota e pedindo para que ela morresse. Martinho não queria ter que fazer isso. Para começo de conversa, ele nem queria ter estuprado a pequena garota. Ele não precisava disso. Já bastava sua filha. Isso na verdade já era um vício seu. Como o da maconha e de outras drogas que usava. Ele não queria ter que forçar crianças pequenas para sentir prazer. Mas ele necessitava disso. Ele gostava e estava disposto a tudo pelo bem do si próprio.
– Me desculpa, Maria... Eu não queria fazer isso... – ele disse. O gosto de sal causado pelas lágrimas não era tão bom quanto a sensação que ele tivera enquanto sentia seu membro penetrando fortemente a garota.
Maria parecia estar convicta da sua morte. Ela queria morrer logo. Sua vida não era lá essas coisas. Talvez isso acabasse de vez com seu sofrimento. Mas ela ainda estava tolerando a dor. Tinha que forçar um esgar puro para não dar um gostinho para o homem. Tinha que fingir que tudo estava bem. Que aquilo não fora nada. Mas Maria não queria que isso acontecesse. Tudo que ela queria era ver o mar. Ver como ele era de verdade. Com certeza ele seria bem mais bonito do que em fotos ou quando ele era descrito por pessoas.
Marina virou sua cabeça quando captou um grito infantil no ar. Vinha de dentro. Seria algo acontecendo com Maria? Marina foi verificar. Passou pelos cômodos tomando cuidado para não fazer barulho para que, assim, sua presença ainda permanecesse sigilosa. Ela viu uma porta fechada. Barulhos surdos e abafados vinham de lá. Era como alguém sofrendo. Alguém engasgado e que não conseguia respirar. Olhou pela fechadura.
Maria estava sendo estrangulada por aquele homem.
Merda, ela demorou demais.
Martinho percebeu que Maria estava morta e pensou no que iria fazer. Poderia, claro, jogá-la no matagal que tinha ali perto, como já tinha feito outras vezes. Mas ele precisava de algo mais secreto; a família de Maria era bem conhecida, de uma classe social razoavelmente boa se comparada com os demais. Isso poderia implicar coisas ruins. E ele não queria ser preso. Não com um monte de crime que ele já havia cometido. Estupro, tráfico de drogas, pedofilia, homicídio, desacato a autoridade, vandalismo. Mas os crimes sempre eram pequenos. Ou não tinham uma repercussão muito grande. Nem mesmo sua filha sabia que ele já tinha assassinado duas mulheres.
Martinho olhava para a porta quando percebeu uma distorção na luz. Fora como uma imagem num espelho velho e sujo. Uma garota apareceu. Ele não entendeu nada. Até que ela começou a chorar e correu para abraçar a garotinha morta. Ela tinha um semblante dotado de uma fúria nítida. Martinho estava paralisado devido aos acontecimentos. Ela era uma mutante. Isso com certeza. Mas será que ela iria conseguir fazer algum tipo de retrato falado para a polícia? Será que ele seria preso?
– Velho imundo. – cuspiu as palavras.
Martinho olhou-a de relance.
Outra distorção na luz. Ela desapareceu.
A garota iria contar para a polícia. Martinho seria preso.
Não, não, não. Ele não podia ser preso.
A sorte de Martinho era que a preocupação da polícia agora era outra.
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