Elena
6 VI
Notas iniciais
Aquele devia ser o ano das decisões ruins, Elena pensou. Concordar em se encontrar com Luís Filipe, ainda por cima recebê-lo em sua casa. Será que estava ficando maluca ou algo assim? Nem sequer tivera tempo de arrumar o cabelo. Passou a mão pelo coque desalinhado, com desânimo. Mas também, não era como se precisasse ficar bonita para recebê-lo. Chegara tarde do trabalho, devido aos dias que faltara porque Davi estava doente, precisava fazer pelo menos uma hora extra por dia. Tudo estava bagunçado, havia brinquedos de Davi espalhados pela sala e quando a campainha tocou ela havia acabado de colocar a roupa na máquina. Olhou para a roupa que estava usando: uma camiseta baby-look branca com desenho de gatinhos e um short curto. Pensou em correr no quarto e meter um vestido por cima, mas... Qual era o sentido em tentar montar uma personagem? Ela era daquele jeito mesmo, mãe e dona de casa, não havia como estar arrumada vinte e quatro horas por dia...
— Davi, não já pedi pra você juntar os brinquedos, meu amorzinho? — Falou com o filho enquanto se dirigia à porta. Respirou fundo antes de levar a mão à maçaneta. — Oi.
Luís sorriu. Usava uma roupa casual, jeans e camiseta polo, e tinha um princípio de barba que o deixava ainda mais bonito. Será que ele não se cansava de ser bonito? Elena teve que piscar várias vezes e afastar o pensamento.
— Entra.
— Obrigado por me receber, Elena — ele foi dizendo, enquanto se aproximava para cumprimentá-la com dois beijinhos no rosto. Logo depois entregou-lhe um buquê de flores e mostrou a sacola que tinha na mão. — Você gosta de comida chinesa?
No começo foi difícil. Elena parecia não saber o que fazer, era como se estivesse diante de um completo estranho. De certa forma, era isso. Mal tivera tempo de conhecê-lo direito, afinal de contas. Davi entrou na sala correndo e parou, surpreso quando viu Luís.
— Não tô doente — disse o garoto, olhando para Luís com olhos arregalados.
— Eu sei, Davi, vim conversar com a sua mãe.
— Mamãe, você tá doente?
— Não, o doutor Luís não é só médico, meu amor, ele também é... hm... amigo da mamãe.
— Ah. — Davi deu de ombros, depois se virou e saiu correndo.
— Ei, arrumar os brinquedos, garoto. Sente-se, Luís, se você conseguir achar um lugar.
Luís balançou a cabeça e riu, achando graça no jeito exagerado de Elena. Ela apanhou um boneco do homem aranha, enquanto ele se sentava no sofá de dois lugares, onde encontrou um saco de peças de lego.
— Então eu sou um amigo?
Apesar de reconhecer o tom de brincadeira na pergunta, Elena não evitou olhar meio torto para ele.
— É uma maneira de não deixá-lo confuso.
— Bom, a gente devia comer antes que esfrie. — Ele sugeriu, como se quisesse ganhar tempo ali. Elena, mesmo percebendo as intenções dele, concordou e o chamou para se sentar à mesa, depois gritou por Davi, que veio correndo. Luís quase não o reconhecia daquele jeito tão agitado.
— Ele fica tímido com quem não conhece — ela disse após o comentário de Luís. — Mas é um furacão em casa.
Com a presença de Davi, o jantar foi bastante agradável. Luís se ocupou a maior parte do tempo em conversar com o menino. Mais uma vez, Elena pôde notar o quanto ele levava jeito com crianças. No final, ele e Davi já eram amigos e até combinavam de jogar futebol juntos.
— Tudo bem, Davi, agora você vai dizer boa noite ao Luís e correr pra escovar os dentes, então, cama, ok?
— Posso jogar um pouco de videogame?
— Você já jogou hoje.
— Só um pouco, mãe, por favor, cinco minutos — Davi usou as duas mãos abertas para enfatizar seu pedido, o que fez a mãe dar uma risada.
— Ok, ok, mas só cinco mesmo — Elena mostrou os cinco dedos. — Primeiro escova os dentes, tudo bem?
— Tudo bem. — Davi já ia sair correndo de novo quando Elena o chamou de volta.
— Ei, não tá esquecendo de nada? — Davi arqueou a sobrancelha, confuso, depois se lembrou e sorriu.
— Boa noite, doutor Luís.
— Boa noite, Davi.
Assim que ficou sozinha com Luís, Elena parecia não saber mais o que dizer. Estava se sentido estranha, com aquele short e aquela camiseta ridícula. Não se sentia nem um pouco uma mulher desejável e essa sensação causava um looping de pensamentos ruins.
— Desculpe interromper seus pensamentos — Luís falou, notando-a dispersa.
— Desculpe, eu... Você disse que queria conversar...?
— Sim. — Ele se virou, cruzou a perna, depois descruzou, inclinou o corpo para a direita, apoiando-se no sofá. — Eu ainda não consegui entender por que você me dispensou, sem mais nem menos.
— Luís...
— Eu sei, é muito chato ficar insistindo e, como eu prometi, vou te deixar em paz, mas, meu Deus do céu, Elena, eu só queria entender por quê?
— Sinceramente, não sei como explicar sem parecer... É estranho... Eu... Eu gosto de você, Luís, mas não posso... Bem, eu não quero criar expectativas com um relacionamento.
— Por que a ideia de um relacionamento é tão assustadora?
— Não é bem isso. Você não entende, é difícil conciliar a vida de mãe e solteira. Eu não quero abrir mão de ser jovem e sair com alguém de vez em quando, mas também preciso ter cuidado pra não tomar decisões que possam impactar a vida do meu filho. Não posso deixar de viver por causa dele, mas não posso ignorar que ele existe e pensar só em mim. Entende?
Luís não podia compreendê-la cem por cento, pensava que só alguém que vivesse a experiência de ter um filho poderia saber como era ter que tomar decisões pensando no impacto que elas teriam na vida de outra pessoa. Ainda assim, conseguia entendê-la em partes. Elena não queria uma aventura, ela não queria ter que lidar com todas as questões que envolviam um relacionamento, lidar com expectativas, suas e de Davi.
— Entendo que você tenha medo de se envolver. — Ela não diria medo, mas dessa vez, deixou que ele continuasse. — Talvez você tenha sido magoada antes, abandonada, ou algo assim, mas... Eu nunca faria...
— Nada pra me magoar? Esse é o problema, Luís, todo os homens dizem isso. Todos.
— Acho que você está me julgando de uma maneira muito severa. Você não me conheceu o suficiente e já decidiu que eu não quero nada sério com você, que eu sou um cafajeste que vai te abandonar na primeira dificuldade.
— Não, eu não acho que você seja um cafajeste, eu só não quero criar expectativas.
— Você não quer aceitar que um homem possa se interessar de verdade por você?
— Não um homem como você.
— E lá vamos nós de novo! — Ele tentou soar descontraído, mas não evitou um toque de irritação na voz. Era estranho ser dispensado por ser “bom demais para o cargo”. — Elena, você não é inferior a mim em nada, de nenhuma maneira. Olha pra você! Você é uma mulher bonita, inteligente, independente, você tem um filho encantador, uma carreira, você é engraçada e gentil. Eu não posso prometer que nunca vou te magoar, ou que nunca vou fazer nada que te faça sofrer, a única coisa que eu posso assegurar é que eu não tô procurando uma aventura. Sei que você tem um filho. Quando a gente se conheceu, você passou mais da metade da noite falando do Davi. Eu não fingi que estava escutando apenas pra te levar pra cama no final, eu ouvi cada palavra que você disse e o jeito como você fala do seu filho, o jeito como você é sincera, foi isso, muito mais do que o seu corpo que me atraiu. Gosto de você, sei que você é mãe em tempo integral e não quero ignorar isso ou ignorar qualquer aspecto da sua vida. Eu gostaria muito que você me desse uma chance.
Ninguém acredita quando o próprio príncipe encantado bate à porta, Elena pensou. Uma parte de si ainda estava relutante, certa de que era um caminho direto para a perdição, que ela não deveria se deixar levar por palavras bonitas. Mas outra parte simplesmente não sabia mais como ficar indiferente àquele homem. Sim, porque aceitar que ele poderia estar ali, à sua frente, se declarando daquela maneira tão persuasiva, era difícil.
— Eu... Preciso ir colocar o Davi na cama — disse, a fim de ganhar um pouco de tempo e consciente de que era a melhor maneira de quebrar o clima. Bem, talvez, ele se desse conta de que teoria e prática eram duas coisas diferentes. Uma coisa era dizer que estava cem por cento disposto a ter um relacionamento com uma mãe solteira, outra era assumir esse relacionamento pra valer. — Volto logo.
Luís sorriu e se acomodou melhor no sofá. Será que estava sendo ridículo demais? Bom, agora não tinha mais volta, tinha jogado todas as suas cartas, só podiam esperar que Elena o julgasse merecedor. Ficou mexendo no celular enquanto a aguardava.
Elena demorou uns quinze minutos entre colocar Davi na cama, esperar que ele fechasse os olhos e começasse a cochilar, e ir ao banheiro para escovar os próprios dentes (se acontecesse de beijar Luís não queria estar com restos de comida chinesa na boca, em todo caso).
— Ah, você ainda está aí — disse ela ao retornar para a sala e se sentar novamente ao lado dele; sentou-se com a perna dobrada, tentando ficar à vontade, embora estivesse com as mãos suadas e tremendo um pouco, como se fosse uma adolescente. — Pensei que, de repente, você pudesse ter desistido.
— Você quer que eu desista? — perguntou ele, primeiro de um jeito sensual-tosco, depois mais sério. — Eu não tô brincando, Elena, se você disser que prefere que eu vá embora e te deixe em paz, é o que farei, não é e nunca foi minha intenção ser um desses caras pé no saco que fica assediando a mulher.
Elena respirou fundo.
— Sabe, parte de mim quer que você vá embora, porque... bom, acho que seria tão mais fácil não ter que lidar com nada disso. Mas isso não quer dizer que eu não gosto de você. Caramba, eu acho que gosto até demais! — Ela mordeu o lábio e ficou batendo com os dedos na coxa, depois balançou a cabeça, como se estivesse discutindo sozinha. O tempo parecia se arrastar. — Eu realmente sou uma mãe em tempo integral e o Davi é minha prioridade, nada é mais importante do que ele.
— Eu sei disso.
— Não, você sabe teoricamente. Na prática, isso quer dizer que eu não saio de casa quase nunca, estou sempre cansada, e mal tenho tempo de depilar as pernas — ela olhou para as próprias pernas nessa hora, que não estavam num estado tão ruim, mas também não estavam tão lisinhas, pra falar a verdade. — Quando a gente se conheceu, aquele dia foi a exceção, não a regra.
Fazia menos de três meses. Ainda se lembrava de como tinha acontecido. Davi estava na casa da avó paterna para passar o final de semana e Stephanie a convencera a ir a uma festa numa boate, porque era seu aniversário e seria horrível da parte de Elena se ela não fosse. Era verdade que desde o nascimento de Davi, saía muito pouco de casa, e as únicas festas que costumava ir nos últimos cinco anos, praticamente se resumiam aos aniversários dos colegas do filho. Não que não gostasse, gostava de dançar, de ficar com os amigos, contudo, não gostava de deixar o filho com ninguém apenas para sair à noite. Apenas para sair à noite. Stephanie revirava os olhos toda vez que ela usava essa frase. Não se tratava de apenas sair, era uma questão de se divertir, era algo que fazia bem para a saúde, inclusive. Sua amiga sempre argumentava que, um dia, Elena olharia para trás e se sentiria frustrada por ter deixado de aproveitar a juventude e, o pior de tudo, culparia o filho por isso, o que resultaria no abalo de sua relação com ele e, consequentemente, Davi se tornando um adolescente problemático. Mas ela não se sentia frustrada. Nunca tinha se sentido. Era verdade que havia aberto mão de muita coisa para conseguir cuidar sozinha de uma criança, até mesmo sua carreira poderia ser mais bem-sucedida se não tivesse um filho, poderia ter sido promovida antes, ou ter ido morar no exterior — era horrível e errado, mas mulheres com filhos ainda sofriam preconceito nas empresas. Porém, amava Davi mais que tudo na vida e não abriria mão dele por nada no mundo. Sacrificar algumas noites na balada e viagens do tipo mochilão não era nada comparado ao que aquele menininho tão doce significava em sua vida.
Em todo caso, aceitou ir à tal festa com Stephanie. Todos os colegas do escritório foram também e ela estava se sentindo bem. Sempre ficava pensando em Davi, mas daquela vez, se segurou para não ligar e perguntar como ele estava, se já havia escovado os dentes e todas as perguntas que as mães se fazem quando estavam longe dos seus filhos. Então, quando já era quase uma hora da manhã e ela já começava a pensar em ir embora — Stephanie estava enroscada com um amigo que ela não conhecia, mas que parecia bastante íntimo, ocupada demais para notar sua ausência —, Luís Filipe apareceu.
Ele estivera sentado perto do bar, com um grupo de amigos. Elena havia reparado nele, mas não dera muita importância. A princípio, era um homem bonito numa boate onde havia muitos homens bonitos — nisso, tinha que tirar o chapéu para Stephanie, que tinha escolhido um bom lugar para comemorar seus trinta e dois anos. Em um momento, ele sorriu e Elena olhou para os lados, para se certificar de que não havia ninguém e que o sorriso fora direcionado a ela mesmo. Depois de mais algumas trocas de olhares, ele se aproximou e perguntou se ela aceitava tomar um drinque. Então começaram a conversar. Sim, Elena gostava de conversar na balada. A ideia de transar com uma pessoa aleatória não era totalmente ruim, até porque não tinha muito tempo para passar por todo o processo de conhecer e confiar antes do sexo, e nem queria passar o resto da vida sem transar; mas não fazia mal nenhum haver alguma interação antes. No momento que Luís Filipe se aproximou, sorrindo com a confiança de alguém que sabia que era sexy, Elena soube que terminaria na cama com ele (a menos que ele se mostrasse um tremendo babaca, aí ela se contentaria com um vibrador mesmo).
— Então, você vem sempre aqui? — ele perguntou e, por um instante, Elena não percebeu que era uma piada; ela o encarou séria, de sobrancelha arqueada. Ele sustentou o olhar por alguns segundos, depois explodiu numa risada. — Desculpe, eu só estava brincando, não imaginei que você fosse levar a pergunta a sério. — Ele ainda estava rindo e aquele som era uma das coisas mais sensuais que ela já ouvira na vida. Ou talvez só estivesse um pouco bêbada, pensou melhor, ao mesmo tempo que tomava mais um gole da bebida.
— Boa piada — disse ela, embora não estivesse rindo.
— Ah, poxa, você deve estar me achando um babaca, não é?
— Sinceramente? Já ouvi piadas mais criativas.
— Ainda posso me redimir.
— Pode tentar. — Nesse ponto, ela já estava jogando o jogo do flerte, sem nem se importar com o que ele dizia, apenas pensando no momento em que beijaria aquela boca.
— Você é muito bonita — ele disse e estirou a mão para tocar a dela, que estava sobre a mesa. O toque fez Elena se arrepiar. — E o que você faz?
— Oi? — Ela piscou, confusa. O próximo passo não deveria ser ele arrastando aquela cadeira para o seu lado, passando a mão por seu ombro e sussurrando alguma coisa brega e bem safada em seu ouvido?
— O que você faz da vida? Além de ser bonita.
Dessa vez ela riu de verdade. Estava virando uma comédia.
— Advogada? — respondeu, apesar de achar a pergunta ridícula e sem noção àquela altura. Em todo caso, ele não iria pedir a carteirinha da OAB dela para poder transar. — E você, faz o que, além de ser bonito? — alfinetou, tentando soar o mais sexy possível.
— Eu sou bonito em tempo integral — ele devolveu, voltando a sorrir. A tarefa de parecer sexy para ele era bem mais natural. — Falando sério, sou médico.
— Ah, sim? Tão novinho assim? — Ele nem era tão novo assim, não devia ter menos de trinta anos, mas ela gostou da provocação.
— Ah, sim, tão novinho assim. — Caramba, ele sabe brincar.
— Ah, eu também tenho um filho — Elena disse, de repente. Era a hora da verdade, se ele quisesse realmente transar, iria ignorar aquela frase e continuar com o jogo da sedução.
— Um filho? Tão novinha assim? Você está falando sério? — ele quis saber, e Elena assentiu. — Uau! Qual a idade dele?
Aquela simples pergunta podia ter vários significados. Qual a idade dele? Nossa, você está tão bem para ter tido um filho há tão pouco tempo. Ou nossa, você teve um filho tão jovem, o que deu na sua cabeça, não sabe usar camisinha? Ou ainda, o que você está fazendo aqui em vez de estar em casa cuidando do seu filho?
Mas no final, Elena não se apegou ao significado oculto, apenas à pergunta pura e simples.
— Cinco anos — ela respondeu e, de repente, estava falando sobre Davi, sobre como ele era inteligente e curioso, fazia perguntas sobre tudo e, apesar de ser teimoso, também era obediente e não dava trabalho, exceto o trabalho normal que era esperado de uma criança. O mais estranho era que Luís Filipe não parecia entediado, ele continuava mostrando interesse e ria das coisas que ela contava.
Elena tinha esquecido a ideia de ir embora, e com certeza já havia bebido mais do que era recomendável para uma mãe de família; ainda não estava completamente bêbada, mas estava bem “feliz”. Já passava de três horas da madrugada quando Luís Filipe, finalmente, arrastou a cadeira para perto da sua, passou o braço por seus ombros, encostou os lábios à sua orelha e sussurrou algo brega e muito safado. Elena deu uma risada, jogando a cabeça para trás, deixou o pescoço livre para que ele a beijasse; e não afastou a mão dele que estava sobre sua coxa, subindo lentamente sob sua saia.
Terminaram a noite num quarto de motel. Não um desses motéis baratos, mas um daqueles bem chiques que devia custar uma pequena fortuna. Ela nem se preocupou em saber o preço porque, bem, havia momentos que não se incomodava em deixar o cara pagar tudo, ainda mais quando ele visivelmente tinha mais grana que ela — o que dava para notar pelas roupas de grifes, o relógio que devia custar mais que seu salário e o cartão Mastercard Black com o qual ele pagou a conta na boate. Mas não estava interessada na conta bancária dele, naquele momento, tudo que lhe importava era saber o que havia dentro daquelas calças Calvin Klein.
Não foi uma visão nem um pouco decepcionante. Não seria exagero dizer que Elena não via nada tão impressionante há um bom tempo. Mas não foi apenas o tamanho do órgão sexual dele que a deixou contente. Toda a postura de Luís Filipe era algo encantador. Não havia uma palavra melhor para defini-lo. Ele era gentil, doce até, nem parecia que eram totalmente estranhos um ao outro porque ele a olhava nos olhos, e a beijava com tanta ternura, ao mesmo tempo que sabia tocá-la da maneira mais excitante que podia existir. Ele é médico, os conhecimentos de anatomia devem fazer alguma diferença, Elena pensava, totalmente inebriada.
Ele não se ofereceu para levá-la em casa porque não estava de carro, afinal, tinha saído para beber e não era nenhum irresponsável, mas fez questão de deixá-la num táxi e antes de se despedir, pediu o telefone dela.
Ao deixá-lo, Elena estava certa de que não voltaria a vê-lo tão cedo. Contudo, não demorou nem um dia para ele mandar uma mensagem. Queria saber se ela havia chegado em casa bem, se estava tudo bem e o que ela achava de saírem de novo.
Não achava que fosse uma boa ideia, pensou em dizer. Davi voltaria para casa no dia seguinte, então a sua vida voltaria ao normal e ela não podia lidar com um caso passageiro ao mesmo tempo em que ajudava o filho com a lição de casa. No entanto, se viu respondendo que sim à mensagem de Luís e naquela mesma noite, foi encontrá-lo em um restaurante chiquérrimo, e novamente, foram para o mesmo motel onde tiveram mais uma sessão de sexo de primeira qualidade.
Talvez devesse ter parado ali mesmo, talvez não devesse ter deixado que as coisas se alongassem mais do que uma transa casual, ok, talvez a melhor transa causal de sua vida, mas ainda assim. Esperava que Luís perdesse o interesse logo que percebesse que ela fazia parte de uma parcela menos favorecida da população, uma parte das pessoas assalariadas que não tinham condições de gastar seiscentos reais ou mais com um jantar. Porém, ele continuou ligando e mandando mensagens na semana seguinte. E não eram mensagens pedindo ou mandando nudes. Ele queria saber como ela estava, como tinha sido o dia, etc., como alguém que realmente se importa com outra pessoa. E isso deixou Elena muito confusa. Aquilo era para ter sido um caso de uma noite, ela não devia estar sorrindo abobalhadamente cada vez que recebia uma mensagem dele.
Ainda o encontrou algumas vezes antes de resolver colocar um ponto final na história. Às vezes, ele a buscava no escritório e a lavava a algum restaurante caro nas redondezas; outras, iam direto para o motel para uma rapidinha, e Elena tinha que tomar um banho rápido e comprar uma salada numa loja de conveniência antes de retornar ao trabalho. Não podia negar que era bom ficar com ele, o sexo era como uma coisa de outro mundo, e tudo era agradável, mas não poderia se deixar levar por esse encantamento. Luís Filipe estava se divertindo e ele tinha todo direito de fazer isso, era solteiro, livre e desimpedido, mas ela tinha um filho para criar e usar o intervalo de almoço para transar não deveria ser sua prioridade.
De volta ao presente, Elena o encarou, quase com pesar e respirou fundo.
— Eu não quero ter um relacionamento resumido a rapidinhas num motel, sabe?
— Em minha defesa, eu apenas tentei me adequar aos seus horários — ele disse, soando bem divertido. Elena gostava do senso de humor, não havia nuvens pesadas quando conversavam, Luís Filipe era, provavelmente, a pessoa mais tranquila que ela já havia conhecido. — Falando sério, não é isso que eu quero pra minha vida também, Elena. Transar com você é maravilhoso, uau, seria um otário se dissesse algo diferente, mas, eu sei que você é muito mais do que isso, e quero te conhecer, quero saber do que você gosta e levar café da manhã na cama, bem, em sentido figurado porque eu detesto comer na cama... E...
— E lidar com uma criança de cinco anos que requer cuidados quase que permanentes? Sim, porque ele está crescendo, mas ainda depende de mim pra tudo.
— Se eu não gostasse de criança teria escolhido outra especialidade pra trabalhar.
— Por que você sempre tenta fazer as coisas parecem tão simples?
— Por que você sempre tenta fazer com que pareçam mais complicadas? — Ele se ajeitou no sofá, dobrando a perna e se sentando sobre ela. — Olha, eu sei que não é fácil, não vou dizer que entendo completamente o que você sente porque não é verdade, você é a mãe solteira, eu sou só um filhinho de papai mimado.
— Eu nunca disse que você era um filhinho de papai mimado! — ela se defendeu, embora pudesse ver o meio sorriso dele.
— Playboy deve ter sido uma das palavras que você usou. — Elena deu de ombros, realmente não tinha como negar que já pensara aquilo. — Enfim, o fato de você ter um filho não diminui meu interesse por você, e, já disse, eu também não quero ignorar o Davi. Eu quero que você seja minha namorada, de verdade, e se isso significa lidar com uma criança de cinco anos, eu estou pronto. Não sou um moleque, Elena, e nem estaria aqui perdendo meu tempo se não sentisse algo verdadeiro por você.
Tudo bem, talvez ela se arrependesse no futuro. Um dia, talvez nem demorasse muito, ela descobriria que Luís Filipe era um mentiroso de marca maior, que o passatempo preferido dele era seduzir jovens mães e depois abandoná-las, ele até usava o fato de ser médico pediatra para se aproximar delas, usava aquele sorriso charmoso e o jaleco branco como armas de sedução e inúmeras já haviam caído nos truques dele. Foda-se. Tudo isso poderia acontecer, mas também havia uma probabilidade de tudo que ele estava dizendo ser verdade e Elena seria idiota de perdê-lo. Nunca tinha acreditado, e continuava não acreditando, que sua felicidade dependesse de um homem. A ideia de um “príncipe encantado” sempre lhe parecera ótima nos livros e filmes, tinha um gosto particular — e meio brega — por romances clichês e comédias românticas na sessão da tarde (os volumes de Nicholas Sparks escondidos na sua estante a denunciavam), mas não baseava sua vida na busca pelo amor verdadeiro. De certa forma, os eventos de sua vida tinham reforçado a ideia de que não era muito saudável se apegar demais a alguém, amar intensamente, ainda que não fosse uma decisão totalmente consciente, era perigoso e causava muito sofrimento, às vezes mais sofrimento do que felicidade. Tinha aprendido isso da maneira mais difícil. Não tinha medo de passar a vida inteira sozinha, pois tinha seu filho, seu amor verdadeiro per se.
Mas será que tentar evitar era a melhor solução? Fugir e continuar dizendo a si mesma que ficaria melhor sozinha. Não depender de um homem para ser feliz não significava necessariamente que seria infeliz se estivesse com um. Nem poderia usar para sempre a desculpa de ter um filho. Todas as vezes que se perguntara sobre as probabilidades de conhecer um cara legal, que gostasse de criança e não se incomodasse com o fato de ela ter um filho, tinha sido muito cética. Preferia acreditar que não existia alguém assim. No entanto, ali estava Luís Filipe disposto a provar que ela estava errada.
— Às vezes eu fico muito irritada e não sou uma pessoa muito legal quando isso acontece — ela disse finalmente. Esperou que ele a acusasse de continuar procurando desculpas para dispensá-lo, mas Luís apenas sorriu.
— Eu vou aprender a lidar com seus dias ruins também.
— Você é bom demais pra ser verdade, cara.
— Espero que você ainda queira ficar comigo quando perceber que eu não sou tão bom assim.
— É, você deve ter algum defeito horrível escondido, muito bem escondido. Não é possível, ninguém pode ser tão maravilhoso.
Antes de terminar de falar, Elena já havia eliminado a distância entre eles, passado as mãos em volta do pescoço dele e aproximado o rosto para beijá-lo. Existem inúmeras metáforas para falar de um beijo, algo sobre o tempo parando, ouvir sinos, o cantarolar dos anjos, algo que faz a pele se arrepiar como se uma corrente elétrica percorresse seu corpo... Elena poderia usar todas, ou não usar nenhuma. Beijá-lo naquele instante não foi diferente das outras vezes e foi completamente diferente. Ela sabia que as coisas seriam diferentes, sabia que ele era diferente, ao mesmo tempo em que não sabia de nada. E o não saber, ao menos naquela fração de tempo que durou o beijo, não a deixou inquieta, ou assustada ou com a sensação de estar cometendo um enorme erro. Ela se sentia calma, em paz. Paradoxalmente, ela também sentia o corpo em brasas.
— Desculpe, não vai rolar, aqui, hoje, agora... o Davi pode acordar, e eu... não... — De repente, ela se sentiu tão sem graça que só conseguia ficar de cabeça baixa; mas os olhos virados exatamente na direção da calça de Luís e do volume evidente ali, não ajudou em nada a melhorar a situação.
— Isso quer dizer que você vai me dar uma chance? — ele perguntou, bem menos constrangido, apesar de estar consciente de seu estado e do conhecimento de Elena acerca dele.
— Você é uma pessoa bastante, hm, persuasiva.
— Na verdade, minha irmã disse que eu sou bem o contrário de persuasivo, mas você é uma causa pela qual vale a pena lutar.
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