Elements
4 Pescotapa de Fogo
Notas iniciais
Estávamos indo em direção à quadra de treinamento a passos lentos. Um clima tenso pairava sobre nós. Drake é um cara muito chato! Não conversa, tira onda comigo, é frio. Grr... E agora somos parceiros de treinamento e dos tais jogos. Que maravilha!! Esse tipo de coisa tinha que acontecer comigo! É a minha típica sorte na vida.
Dentro de mim sentia uma pequena chama acender e esquentar todo meu corpo, assim como da primeira vez, não me sentia estranha por causa dela.
A cada passo que dávamos procurava algo a nossa frente para focar minha visão. Não havia quase ninguém no segundo andar, o que me incomodava. Estaríamos praticamente sós na quadra e isso me dava calafrios. Se eu me machucasse de verdade, quem me ajudaria?
Em certo momento avistei um garoto de cabelos cacheados totalmente negros, por vários segundos não consegui parar de olha-lo. Seus olhos eram diferentes... Seu olho direito era azul, enquanto seu esquerdo era verde. Entre todos esses segundos em que prendi meus olhos nele, ele olhou para mim, sorriu de uma maneira linda e passou ao meu lado, se esbarrando em meu ombro, talvez de propósito, talvez não. Senti minhas bochechas corarem. Perguntei-me qual seria o poder dele...
Do canto do olho pude ver que Drake me olhava de relance. Sentia seus olhos pesarem ás vezes nos meus de uma forma fria. Por mais estranho que fosse eu comecei a sentir frio perto dele. Estremeci.
– Aquele é Zack Muller. – Falou. Sua voz soou áspera e, como sempre, neutra e fria. Por puro “reflexo” me virei para olhar para trás. O tal Zack estava andando para o elevador, devagar, como se nada o preocupasse. Quando estava perto do elevador ele se virou e olhou para mim. Mesmo longe, pude ver que ele soltou um grande sorriso e piscou. Minhas bochechas que já estavam meio avermelhadas arderam mais ainda. Por que isso agora? Para que corar tanto? Ele é só outro garoto daqui.
Eu era imune ao meu fogo, mas aquele que ardia em minhas bochechas eu continuava sem saber como controlar.
– Não confie nele. – Disse Drake. Senti um choque percorrer meu corpo quando ele falou, retirando-me de meu “transe”. Achei, por um pequeno momento, que esse choque havia sido causado por causa da temperatura fria que parecia exalar de Drake. Mas, assim que olhei para meu corpo e toquei meus cabelos entendi o que havia acontecido. Ele havia me molhado.
– DRAKE! – Gritei. Dei três tapas em seu ombro e senti meu corpo aquecer mais ainda. Vapor começou a sair de todo o meu corpo.
– Ei, pare de me bater – Falou quando estava no meu terceiro tapa. Ele ria.
– Você é um idiota! – Dei mais dois tapas nele.
Já estávamos em frente a uma porta de ferro que dava entrada para a quadra de treino. Girei sua maçaneta e entrei batendo o pé. Aah! Mas Drake ia ver só! Ele estava curvado para o chão, rindo, como se tivesse visto o espetáculo de circo mais engraçado do universo.
– Mão de espuma – Falou entre vários risos.
– O que?! – Ah, ele não disse isso. Aproximei-me dele ainda batendo o pé e dei um pescotapa de fogo nele. Estava com tanta raiva que não pensei duas vezes em fazer isso. A reação dele foi à esperada. Ele deu um pulo para trás, como se tivesse tomado um choque, e colocou sua mão sobre a pequena chama que estava acesa na ponta de seu cabelo. Okay. Eu não queria isso, mas a cara dele foi muito engraçada. Ele começou a bater freneticamente na pequena chama, e quando viu que não estava conseguindo apagar ela, simplesmente “dobrou” a água de um balde e jogou sobre todo o cabelo.
– Sofia! – Ele resmungou. Entrei na quadra novamente, ainda irritada, e esperei por ele alguns metros a frente da porta de braços cruzados batendo o pé no chão.
– Você que começou – Falei. Ele resmungou algo inaudível e pôs-se a vir em minha direção, fechou a porta e parou a um metro de distancia de mim. Enfiou as mãos no bolso e eu quase dei um grito quando toda a água que ele havia jogado em seu cabelo saiu dele. Sim, ela SAIU dele. Juntou-se em uma bola a sua frente e ficou ali, parada.
Percebendo minha reação ele riu.
– Você é muito fresca – Retrucou.
– O quê?!
– Você se assusta com qualquer coisa estranha. – Um sorriso divertido brincava em seus lábios. Xinguei-o mentalmente por ser tão idiota. – Você vai ter que se acostumar, já que agora vive em meio dos estranhos. Até você é estranha, não? – Soltou um sorriso sarcástico de lado.
– O que você tem contra mim? Por acaso alguma garota te fez mal e agora você vai ficar descontando em mim? – Perguntei, por fim já extremamente irritada.
– Não lhe interessa – Não havia mais nenhum sorriso em seu rosto, nenhum traço de divertimento em seus olhos. Ele estava como no dia em que havia chegado: neutro, frio e ríspido. Parece que eu havia acertado em cheio...
– Tsc... Como assim “Não lhe interessa”?! Drake! Pare de me tratar desse jeito. O que eu fiz para você hein?! – Chamas irrompiam de minhas mãos, e toda vez que balançava meus braços uma coluna de chamas era levantada, desaparecendo em seguida, fazia isso sem ao menos notar.
– Novata, vamos treinar... – Como ele pode ser tão idiota?! Argh... Já não conseguia controlar muito minha raiva. Levantei minha mão em sua direção.
– Então vamos treinar, “veterano” – Uma coluna de chamas em espiral saiu de minha mão em direção ao rosto de Drake. Ele ficou parado, como se elas fossem simplesmente passar pelo seu lado. A bola d’água a sua frente se movimentou para cima, ele levantou sua mão e a empurrou para frente com um peteleco. Um jato d’água pressurizado foi lançado em direção a minhas chamas, desfazendo-as e atingindo meu ombro de raspão.
– Ai! – Coloquei minha mão sobre o ombro que estava latejando. Mesmo de raspão aquele jato havia rasgado minha camisa. Ele resmungou algo novamente e se direcionou ao lado esquerdo da porta, puxou uma alavanca e dois longos retângulos se abriram no chão revelando um compartimento de água. Isso não parecia nada bom. Onde estava meu compartimento de fogo, hein?
– O que você pensa que vai fazer? – Minha voz soou baixa, por um momento senti um calafrio em meu corpo.
– Vou te treinar um pouco. Não se preocupe, não vou te machucar – Novamente um sorriso divertido brotou em seus lábios.
– Você JÁ me machucou – Falei mostrando meu ombro avermelhado.
– Foi sem querer – Ele andou até a ponta de um dos retângulos e a água a sua direita começou a ficar agitada – E também, você ia me queimar vivo. – Fez uma pausa – Vamos treinar sua agilidade um pouco. Você quer se molhar?
– Não.
– Azar o seu – Um grosso jato d’água saiu do retângulo a sua direita e me molhou – Hum... Era para você desviar dele. – Falou voltando a expor um sorriso divertido. Ele amava me irritar.
– Idiota – retruquei o mais baixo possível. Agora eu estava ensopada e também com frio. Felizmente, comecei a me esquentar, de modo literal, senti a água evaporando de minha pele.
– Eu ouvi isso, viu?! – Outro jato d’água foi lançado em minha direção, dessa vez consegui desviar – É, parece que você tem reflexos. – Mais dois jatos foram lançados com um pouco mais de força e velocidade que os anteriores. Desviei com um pouco de dificuldade.
– Ora, ora, você até que é boa! – Comentou – Vamos aumentar o nível – Dessa vez quatro jatos voaram em minha direção, cada um deles se movimentando conforme eu ia para o lado.
– QUE DROGA, DRAKE! ACHEI QUE SERIA UM TREINO BÁSICO! – gritei furiosa.
– E é! Treinamento de agilidade, baby – Um largo sorriso sapeca e divertido brilhava em seu rosto. Ele devia estar amando tudo aquilo.
Bom, assim ficamos até perto de meio dia. Ele jogando jatos cada vez mais rápidos e eu desviando com a maior dificuldade do mundo, xingando-o e dando língua para ele, enquanto ele apenas ria. Um completo idiota, sem dúvidas. Qual o bendito problema de começar do BÁSICO?! Ele por acaso era algum tipo de treinador louco que gostava de ver seus “alunos” sofrendo? Se for assim, eu precisava falar com Lauren.
Meu corpo doía demais. Estava acabada, minha blusa rasgada pelo jato da água, e minha calça não saía impune, pela quantidade de vezes que cai no chão, acabei rasgando-a também. Queria ir para o quarto, mas logo, logo seria o almoço, e eu estava faminta!
Quando estava saindo da quadra de treino acompanhado por Drake, evitei ao máximo olhar para ele, o que foi bem difícil. Uma parte de seu cabelo estava meio chamuscada devido a pequena chama que causei na cabeça dele. De certa forma parecia que aquilo não o incomodava.
Durante todo o caminho ele sorria vitorioso por ter conseguido me encharcar umas quarenta vezes seguidas. Felizmente eu já estava seca, aparentemente, a usuária de fogo aqui consegue se esquentar a ponto de fazer a água evaporar de seu corpo. Nunca mais precisarei de toalhas, hahaha. Não sentia mais o frio que vinha dele antes, o que parecia um bom sinal. Ele estava de bom humor. A dúvida do por que dele me tratar daquela forma martelava na minha cabeça, o que eu tinha a ver com a sua provável decepção amorosa, pelo que parecia, oras? Não consigo entender como ele pode ser tão alegre em um momento e neutro, frio e áspero em outro. Talvez seja meio bipolar. Isso me irrita! Por fim, próximo ao elevador, não consegui segurar a pergunta e soltei de uma vez por todas.
– Drake... Por que você é tão diferente comigo? – Não o encarei como nas outras vezes, apenas segurei a ponta da manga de seu casaco e olhei para o chão. Eu sabia qual seria a reação dele, mas eu realmente tinha que saber o porquê. Eu QUERIA saber o porquê. Por um momento ele fez menção de balançar o braço e retirar minha mão de sua manga, mas logo desistiu.
Não senti seus olhos pesarem em mim, ele apertou um botão do elevador e segurou minha mão.
– Esqueça isso. – Disse, sem mais nem menos. Sua voz havia falhado por um momento.
– Não, eu não vou esquecer! – Falei – Por favor, me diga por que você me trata assim! – Segurei suas mãos com as minhas e olhei em seus olhos. Juro que vi dor neles. Ele fez menção de falar algo, mas o elevador havia chegado, e dentro dele se encontrava Zack.
– Olá. – Ele disse, olhou para mim e piscou, em seguida entrou no andar indo para uma das cabines/salas de treino individual. De certa forma, aquele garoto mexia um pouco comigo. Quem era, realmente, ele?
Drake soltou suas mãos das minhas e entrou no elevador.
– Vamos almoçar, novata – Ele disse com seu típico tom de voz frio e sem emoção. Não ia discutir mais com ele, apenas entrei no elevador e cruzei os braços.
O refeitório estava um pouco movimentado. Vários garotos e garotas interagiam um com o outro, rindo e conversando. Alguns jogavam comida no outro, o que me parecia ridículo. Outros apenas conversavam muito alto. Estavam todos animados, e isso me contagiou um pouco. Drake não estava mais ao meu lado. Não avistei Lauren ou Ryan, nem mesmo Karen e Peter. Talvez eles estivessem na tal missão que já haviam comentado antes. Só não entendia bem o que era aquilo... provavelmente depois eu iria esclarecer as dúvidas com Lauren.
Minha barriga roncou e eu andei até onde Drake se encontrava pegando comida. Botei meu prato e sentei em uma mesa isolada, que, por incrível que pareça, mesmo sem eu ter notado antes, era a mesma de Drake.
– Por acaso você está me seguindo? – Ele perguntou.
– Não, só quero ficar sentada em uma mesa distante das outras. – Retruquei.
– Tudo bem então. – Ele andou para fora do refeitório com o prato e sentou em um dos sofás. Qual o problema desse garoto?!
Devorei meu prato e o repeti. Drake não havia pegado leve no treino. Quando terminei meu segundo prato, ele se aproximou e falou que eu poderia tirar à tarde para descansar, e que de noite treinaríamos mais um pouco. Novamente um calafrio percorreu meu corpo. Treinar de noite com ele? Aff, só me faltava essa. Talvez tivessem mais pessoas lá por essa hora.
Levantei-me da mesa, devolvi o prato e fui para o elevador. Quando entrei nele pensei, por que não ir para a piscina? Aliás, o dia estava ótimo! Apertei o mesmo botão que Drake havia apertado antes e o elevador se mexeu.
O dia realmente estava lindo! As nuvens que antes cobriam o céu de cinza haviam se dissipado revelando o majestoso azul claro iluminado pelos calorosos raios de sol daquela tarde. Andei ate a beirada do prédio e apoiei meu peso sobre os cotovelos acima da cerca metálica de cor branca que impedia alguém de cair... Ou quase.
Aquele lugar, aquela vista, era completamente linda. Como o prédio encontrava-se em uma área mais alta, conseguia ver toda a cidade, ou no caso, o vilarejo.
Um forte vento soprou balançando meus cabelos. Várias coisas passaram pela minha mente naquele momento, principalmente, lembranças.
Era uma noite fria. Estava na casa de inverno de minha família com alguns parentes e meus pais. Era véspera de natal. Todos alegres, sorrindo, dançando e cantando. Encontrava-me sentada no pequeno sofá ao lado de uma janela observando a neve cair. Grandes e grossos flocos de neve pintavam a paisagem.
Meus pais estavam na cozinha fazendo a ceia de natal com minha prima, Alyss, enquanto meus tios brincavam comigo, fazendo cócegas, bagunçando meu cabelo e me chamando de baixinha. Estava muito divertido. Meus pais haviam acabado de aparecer na sala avisando que a ceia estava pronta. Fomos comer.
Além de ser uma ceia de natal, seria a comemoração de meu aniversário, mesmo que um tanto quanto atrasada. Estava fazendo treze anos. Um dos meus tios tocou no violão uma música que dizia “parabéns pra você, menina maluquinha, muitos códigos de barra, e uma vida enlatada”.
Foi a melhor noite de minha vida. Meus pais e eu viramos a madrugada conversando, jogando Banco Imobiliário, contando piadas sem sentido. Minha mãe ficava me abraçando e me beijando na bochecha, já meu pai me sufocava de cócegas. Realmente, foi a melhor noite de minha vida... O dia estava para amanhecer quando eles me levaram para o telhado da casa, onde se tinha uma vista maravilhosa da floresta. Estendendo-se ao norte dela, bem longe mesmo, estava o oceano.
– O que nós viemos fazer aqui, papai? – Perguntei. Ele e minha mãe sorriam de uma forma nostálgica. Ali havia sido o local onde meu pai a pediu em namoro quando jovens. Eles me olharam e bagunçaram meu cabelo, estenderam uma caixinha preta e colocaram sobre meu colo.
– Feliz aniversário atrasado, pequena! – Disse meu pai.
– NOSSA pequena. – Completou minha mãe. Olhei para eles com um sorriso de ponta a ponta e pulei em cima deles em uma tentativa de abraço de urso, que não funcionou, mas ainda assim, abracei-os. Depois de alguns minutos me separei deles e abri a caixinha preta revelando um colar prata com um pingente em forma de oito deitado, representando o infinito.
– Esse colar representa o nosso amor infinito por você. Saiba que sempre estaremos com você, não importa aonde formos. Sempre iremos te amar. Você mora no nosso coração, querida. – disse meu pai com um sorriso.
Sai de meus devaneios assim que senti algumas lágrimas quentes irromperem de meus olhos sem permissão. Enxuguei-as e repeti várias vezes para mim mesma “Não chorarei mais”. Queria que isso fosse realmente eficaz. Olhei novamente para o horizonte e sorri. Jamais havia visto uma paisagem tão linda e natural. Eu deveria ter ficado muito tempo parada, porque o céu já estava escurecendo e o sol se preparando para se por, deveriam ser quase cinco da tarde. Minhas pernas fraquejaram por um momento devido ao cansaço e por isso tive que me firmar em pé na grade de proteção.
– Que cansaço hein?! – Perguntou uma voz feminina atrás de mim, como se lesse minha mente.
Assustada, virei para olhar de onde vinha à origem da voz.
– Que... Karen! – um sorriso brotou em meus lábios — Você já voltou da missão?! – Ela olhou ao redor apontando o dedo para si.
– Acho que sim, né?! Se não eu não estaria aqui... – Ela me encarou por alguns segundos e depois começou a rir.
– O-o que foi? – Perguntei.
– Nada. Mas Sofia, você está um trapo! O que houve com você? Sua camisa e sua calça estão rasgadas! Quem fez isso?! – Ela perguntou se aproximando de mim.
– Hum... Foi o Drake, sabe? Assim... Ele não as rasgou de propósito. A camisa foi com um jato da água pressurizado, e a calça foi depois de algumas quedas durante o treino.
– Aaaah... Vou mata-lo depois, lembre-me disso – Karen falou de um modo tão natural que me fez rir — Bom, vamos dar um jeito nesse seu visual! – Ela segurou minha mão e me puxou até o elevador.
– Para onde você está me levando?!
– Vamos fazer compras!
Karen me levou até o térreo, onde saímos, com autorização de Lauren, com um dos carros do local, e seguimos conversando até o vilarejo. Reparei que eles não tinham só um ou dois carros, mais sim vários. E que para sustentar todos aqueles adolescentes, conta de luz, de energia, era necessário dinheiro... Eu só não sabia como o conseguiam. Será que o governo que dava?
Agora conseguia observar a cidadezinha melhor do que antes, e, realmente, era linda. Toda a cidade era feita com construções mais antigas, e até mesmo coloridas, deixando-a ainda mais graciosa. Paramos em frente a um grande prédio onde existia bastante movimentação, o que eu deduzi, corretamente, ser um shopping.
As próximas duas horas passaram de uma forma incrivelmente divertida, mas se o objetivo fosse relaxar, não teria sido atingido, já que fiquei apenas mais cansada ainda.
Na maioria das vezes, entravamos em uma loja, ela me dava inúmeras roupas, que eu ia provar uma por uma no provador, e quando saía me dizia se havia ficado boa ou não. Compramos todas que a Karen considerou “perfeitas para mim”. No começo eu estava preocupada, já que não sabia se tinha dinheiro, mas a morena insistiu para deixa-la pagar.
Enfim, tudo foi bem útil para mim, já que havia trazido pouca roupa. Apenas o necessário. Quando terminamos tudo, voltamos ao prédio.
Depois de tudo que tinha acontecido hoje, eu finalmente estava mais alegre. Mas acontece que, toda essa alegria foi temporária. Assim que pisei no elevador com Karen, lembrei de que iria treinar com Drake de novo. Estava exausta, mas com certeza ele não me daria descanso. Ao perceber meu súbito desanimo, Karen se pronunciou.
– Porque você está assim, Sofia? – Perguntou.
– Nada... – Respondi, hesitante.
– Ah, vamos lá Sofi, fala aí o que ta te incomodando. – Ela disse, dando-me um “fraco” tapa nas costas.
Soltei um longo suspiro.
– É que o Drake me destruiu com o treino hoje pela manhã, e vamos treinar de novo agora à noite e eu... – hesitei. Será que deveria dizer para ela que estava com medo do que poderia acontecer? Provavelmente Karen diria que sairia tudo bem, mas eu duvidava. Bom, ela é minha amiga, né? – Eu tenho medo de ele acabar me machucando muito... ele é totalmente estranho comigo...
– Aaaah... Bom, ele sempre foi estranho mesmo – Falou – Mas acredite, ele não vai te fazer mal algum. Caso ele faça, eu darei um jeito nele – Ela sorriu. Eu não deveria, mas acabei por ficar calma com o sorriso dela.
O elevador parou no terceiro andar onde ficava meu dormitório. Despedi-me dela e entrei em meu quarto. Estava muito suja. Liguei o chuveiro e tomei um longo e demorado banho, mas totalmente relaxante. Vesti uma roupa um pouco mais quente, pois a noite estava fria. Vesti uma camiseta simples branca por baixo de um moletom de manga comprida do Capitão América azul com o desenho do escudo no centro, uma calça jeans e uma sandália (roupa nova!). Sai de meu quarto, tranquei a porta e desci até o refeitório pela escada. O elevador tinha lotado, ainda estava parado no quinto andar.
Quando cheguei ao refeitório, a primeira pessoa que falou comigo foi Zack. Esse garoto ta me perseguindo ou o quê?
– Boa noite, Sophia. – Ele disse enquanto andava até uma das mesas.
– Boa noite, Zack... – Respondi. Em seguida Karen falou comigo e me convidou para sentar na mesma mesa dela. Coloquei meu café no prato e sentei-me. Durante todo o horário do jantar, ou até meu prato esvaziar, pois já havia repetido ele três vezes, Drake não apareceu. Todos devem ter notado, mas não comentaram nada.
– Pessoal, vocês viram o Drake? – Resolvi, enfim, perguntar.
As pessoas da mesa trocaram alguns olhares desconfortáveis.
– Não, ninguém o viu desde o último treino de vocês dois. – Falou Alfred, um garoto com um corte de cabelo no estilo militar que havia se sentado à mesa para “paquerar” Karen. Ele vestia uma camiseta amarela com “Eu amo cachorro-quente” escrito nela e uma calça de tecido verde escuro. – Você deve ter falado alguma coisa para ele.
– Hum... Não me lembro de ter dito nada... – Nesse momento comecei a buscar em minhas lembranças de alguma coisa que eu tivesse dito.
– Sofia, acho que você deveria procurá-lo – Falou Peter, visivelmente preocupado com o melhor amigo.
– Por que eu deveria? – Perguntei ficando um pouco nervosa. Eu não me lembro de ter dito algo para que ele sumisse.
– Porque ele é seu parceiro. – Respondeu Lauren – Parceiros tomam conta um do outro. Não importa como cada um aja, pense ou fale. É necessário cuidar um do outro.
Por um longo momento, sua resposta se repetiu como um eco em minha mente. “Porque ele é seu parceiro”. E desde quando tem importância se ele é meu parceiro? Ele nunca me tratou bem... Bom, nunca por um longo período de tempo. Mas mesmo assim, ele não merece minha atenção, meus cuidados, minha amizade e muito menos meu carinho. Ele não merece nada disso... Jamais vai merecer... Mas... Ele... Que droga!
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