Elementos Opostos
12 Capítulo 11
O dia seguinte ao reencontro começou como qualquer outro dos dias em que eu e Finn estávamos ali: acordei, me vesti, saí do quarto e já me assustei com o Momo voando perto de mim; depois, desci as escadas e recebi um “bom dia!” do Aang montado em bola de ar indo para o quintal... Ok, não foi um dia como qualquer outro. A casa já estava uma bagunça e toda barulhenta, especialmente por Sokka e Toph.
— Escuta aqui, Sokka, pode parar de comer toda a comida que a Katara deixou aqui na mesa. – Toph esbravejou quando entrei na cozinha.
— Eu não estou comendo tudo. – ele se defendeu de boca cheia, com um pãozinho em uma mão e uma maçã mordida em outra. – Só estou com fome.
— Não precisa se emporcalhar todo desse jeito. – Toph continuou. – E tem mais gente na casa, incluindo a mim que também quero comer. – ela pegou outro pãozinho e deu uma abocanhada nele.
— Assim você que vai comer tudo. – Sokka disse, terminou rapidinho a maçã e já pegou outra.
— Ei, ei – eu interrompi – onde vocês conseguiram esses pãezinhos?
— No mercado, onde mais? – Toph respondeu, pegando outro.
Óbvio demais.
— Mas como vocês pagaram?!
— Querida, nós estamos com o Zuko, ele tem dinheiro. Nunca passamos necessidades com ele.
Fiz bico. E eu aqui caçando e colhendo frutas esse tempo todo. Talvez eles não estivessem tão ruins como eu pensava. Pelo menos na questão de suprimentos, não.
— Eu também quero pão! – eu anunciei minha entrada na disputa me aproximando da mesa. – Não aguento mais comer banana... – eu peguei um pão e mordi. Pude ouvir o coro de aleluia.
— Kiara, — ouvi Finn me chamar – cadê aquele cacho de bananas que eu peguei ontem?
— Não sei, não ligo, só ligo pra pão. – e continuei comendo.
— O que é isso? Pão?! Me dá. – Finn aproximou-se.
— Nós compramos esses pães, vai com calma, esquentadinho. – Toph alertou.
— Vai comer suas bananas. – eu respondi já calculando se eu poderia comer mais um pão.
— Não dá – Sokka disse. – Eu comi todas as bananas mais cedo. – ele admitiu numa naturalidade incrível.
Finn parou com o pão a caminho da boca.
— Com que direito?! Você chega aqui já comendo nossa comida?
— Achei que a Katara que tinha deixado lá. – Sokka falava sempre de boca cheia.
— Tá reclamando de que? Você está comendo nossos pães. – Toph lembrou.
— Mas está na mesa, está claro que é para todos! – Finn retrucou.
Quando me dei conta, a cozinha tinha virado um campo de guerra, todos estavam gritando, discutindo e quase jogando comida uns nos outros.
— Parem! – um berro surgiu da porta de entrada da cozinha. Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para a porta. Katara tinha chegado furiosa com o que estava acontecendo. – Nós vamos morar juntos por um tempo e precisamos de paz! Toda a comida que estiver aqui é de todos, todos! Ninguém precisa enfiar tudo goela abaixo para garantir que não sintam fome. Vocês deviam se envergonhar. – ela andou até a mesa recolheu a comida. – Todos fora! – ela gritou.
Todos saíram correndo. Que vergonha... Como pude me deixar levar por comida? Por um pão? Mas era um pão tão gostosinho... Mesmo assim. Sem desculpas.
— Preciso esquecer esta cena ridícula que participamos. – confessei a Finn que andava do meu lado.
— Nunca é ridículo brigar por comida, Kiara. – Sokka disse ao meu outro lado. – Mas se você quer esquecer é melhor você ir lá fora. Zuko está treinando com Aang. Vai fazer você esquecer rapidinho. – ele piscou o olho esquerdo e me cutucou com o cotovelo.
Meu rosto corou.
Enquanto me aproximava da porta de entrada da casa, sentia meu coração acelerar mais e mais a cada passo. Quando cheguei lá, encostei-me a um dos pilares de entrada para observá-los.
Zuko demonstrava um movimento de dobra de fogo para Aang que tentava repetir. Fiquei ali um tempo só vendo como Zuko agia com o Avatar. Não me pareceu como alguém que estivesse fingindo ou coisa do tipo. Pareceu-me bem autêntico, na verdade, como se de fato quisesse ajudar o Aang a dominar a dobra de fogo.
— O que está achando? – Katara apareceu do meu lado.
— Estou gostando de ver.
— Imagino que sim. – ela riu. – Ainda é cedo para perguntar se já se convenceu?
— Bom, foi só uma manhã. Ainda tenho tempo para me decidir.
Mais tarde nos juntamos para almoçar e o clima estava um tanto quanto tenso. Ninguém estava disposto a puxar um assunto e eu ainda estava envergonhada pela guerra de comida mais cedo, então preferi ficar quietinha.
A cada dez segundos olhando para a minha comida eu passava os olhos pela mesa e, claro, sempre parava no dito cujo do Zuko. Na maioria das vezes ele estava olhando para baixo, mas quando nossos olhares se cruzavam minhas bochechas ferviam e eu desviava o olhar. Quando me dei conta, Finn, que estava ao meu lado, me olhava furiosamente. Eu respondi com um olhar de interrogação. Ele apertou os lábios e virou para Zuko que não estava prestando atenção.
Virei para Katara à minha frente em busca de socorro. Ela estava atenta ao que estava acontecendo, mas não sabia o que fazer. Voltei a minha atenção a Finn e Zuko. Este agora encarava Finn com olhar zangado. Dei um tapa em Finn para que ele parasse e quase levei uma porrada em retribuição.
Assim que Zuko se distraiu com o almoço e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Finn pegou uma colher, colocou um pouco da mistura que Katara fez e de uma forma à la estilingue acertou o braço de Zuko que o encarou indignado. Finn estufou o peito e sorriu triunfante.
Eu esperava que Zuko agisse como sua posição de futuro Senhor do Fogo exigia: com maturidade e de forma a resolver a situação. No entanto, ele retribuiu o ataque de Finn, porém a munição veio em chamas dessa vez. Antes que pudesse atingir Finn (ou a mim), a bomba foi jogada longe com um “jato de água” usado por Katara. Imediatamente, Zuko ficou ainda mais furioso e Finn contribuiu mostrando a língua.
— Gente, vamos conversar sobre isso? – Toph surgiu para intervir.
— Conversar sobre o que? – Sokka perguntou de boca cheia.
— Está havendo uma guerra aqui, até eu que sou cega percebi.
— Que guerra? – Sokka e Aang perguntaram em coro.
O que acontece com esse povo que desliga os sentidos enquanto come?!
— Toph está certa, vocês precisam conversar. É o nosso primeiro dia e já estamos nos desentendendo de novo.
— A culpa é de vocês! – Finn apontou para o Time Avatar. – Não deviam ter trazido um traidor com vocês. – e olhou para Zuko.
— O que eu tenho que fazer para provar que eu mudei de verdade? – Zuko perguntou quase gritando.
— Nada do que você fizer vai me convencer.
— Mas sabe o que é mais interessante? Não é para você que eu tenho que provar! E mesmo assim é você quem está me dando trabalho.
— Porque a Kiara não é capaz de deixar os sentimentos de menininha de lado e ter uma visão realista de você! Se não fosse por mim, ela já teria cedido aos seus encantos!
Silêncio.
— Peguem ele! – Toph gritou e todos com exceção de mim e Katara pularam em cima de Finn que começou a gritar por socorro.
Toph dobrou a terra – e estragou o lindo piso da sala de jantar – e prendeu Finn.
— Me solta agora! – Finn gritava e tentava se soltar sem sucesso.
— Finn, você precisa parar de interferir! – Katara começou a dar sua lição de moral – Nós entendemos que você quer o melhor para a Kiara e admiramos o quanto você está se esforçando, – ao fundo Toph sussurrou “eu não admiro não...” – mas não é a sua vida. Quem tem que resolver é a Kiara e o Zuko e você está atrapalhando.
— Eu sei qual será a decisão dela, mas não é a certa!
— Finn, — eu cheguei perto – nós conversamos tanto durante esses dias, não adiantou nada? Deixa que eu tomo as minhas decisões. – eu tentei dizer da forma mais terna que pude.
— Só não quero que você sofra daquele jeito de novo... – ele confessou – Para mim é burrice apostar no mesmo erro.
— Não é o mesmo erro. – Zuko entrou na conversa. – Hoje eu sou outra pessoa, não hesitarei em rejeitar minha irmã na próxima vez. – ele encarou Finn – Eu juro.
Como eu poderia pensar em não dar mais uma chance para esta perfeição?
Finn não amoleceu, mas não disse mais nada.
— Finn, você promete se comportar a partir de hoje? – eu perguntei.
Ele resmungou, mas concordou então Toph o libertou.
Eu me aproximei e o abracei. Não dissemos nada, apenas trocamos olhares. Depois olhei para Zuko que sorriu suavemente para mim. Eu sorri de volta. Estava cada vez mais difícil resistir a estes momentos.
— Ainda bem que passou. – Katara começou quando nos sentamos de volta para terminar o almoço. – Achei que teríamos outra guerra de comida. – e riu nervosamente.
— Outra? – Aang perguntou sem entender a referência.
— É, deixa pra lá. – Katara pediu e não voltamos a falar de guerra ou comida.
O resto da tarde se resumiu em Finn atentando contra Zuko. Ele prometeu não interferir, mas agiu como uma criança fazendo arte. Bombas de água, tropeços estratégicos, sumiço de pertences e coisas do tipo se tornaram comuns para Zuko a partir daquele dia.
Felizmente não houve mais guerra por ou de comida.
À noite eu estava indo ao quarto de Finn conversar quando cruzei com Zuko logo que terminei de subir as escadas. Fiquei parada com mil arrepios pelo corpo. Ele disse “oi”. Eu respondi e continuei meu caminho. Assim que passei por ele, as costas das nossas mãos se tocaram por uma fração de segundo. Como pode um simples toque desses ainda me fazer tremer as pernas? Eu não resisti e virei o rosto para olhá-lo, mas ele estava concentrado em descer as escadas. Senti uma pontada de decepção.
Cheguei ao quarto de Finn e bati na porta. Ele abriu rapidamente.
— Oi, Kiara. Entra aí. – ele deixou a porta aberta para eu entrar.
— Oi. – entrei e fechei a porta. – O que vocês está fazendo? – a cama dele estava cheia de bugiganga.
— Preparando munições e novos ataques para amanhã.
Rolei os olhos.
— Se divertiu hoje? – perguntei me referindo às investidas contra Zuko.
— Muito. Obtive 100% de sucesso. – e riu.
— Pelo menos está se sentindo melhor. Por enquanto não está interferindo.
É, mas não fica alegrinha não que eu estou de olhos em vocês. – Finn alertou. – Em segredo, mas estou.
Resmunguei um “uhum”.
— Eu só vim ver se você estava bem e estou vendo que está entretido com suas coisas, então eu vou embora.
— Por favor, vá. Preciso traçar as estratégias para amanhã. – Finn disse olhando para a cama com a mão no queixo.
— Só... Não o machuque. – pedi receosa.
— Não prometerei nada. Não se sabe o que pode sair daqui. – ele respondeu misteriosamente.
Na manhã seguinte, eu fui até o quintal esperando ver Zuko e Aang treinando novamente e foi exatamente o que vi, porém com um detalhe a mais: os dois estavam sem camisa. Pode parecer bobagem, mas eu era uma adolescente com os hormônios à flor da pele. Zuko não podia fazer isso comigo.
Tampei a boca com os dedos e fiquei observando, vidrada. Nem parecia que Aang estava ali, só tinha olhos para Zuko e seus movimentos. Podia ver seus músculos de diversas posições enquanto praticava as dobras de fogo, o que só fazia tudo ficar mais lindo.
— Kiara – Finn disse ao meu lado encostando em meu braço.
Dei um pulo de susto.
— Não me toque! Estou muito sensível neste momento.
Finn me olhou com uma sobrancelha levantada, olhou para a área de treinamento e novamente para mim com cara de desânimo.
— Eca.
— Shh. Você nem sabe o que é isso para sentir nojo, fica de boa aí.
— Humm – ele agora estava com um olhar malicioso. – Está parecendo que alguém está com desejos.
Senti meu rosto esquentar de tal forma que deveria parecer um pimentão.
Balbuciei algumas palavras antes de dizer: “Desejo de bater na sua cara, isso sim” e dei alguns tapas em seu braço.
— Ai, ai, chega. – ele pediu e eu parei, bufando. – Só estou preocupado que esses desejos afetem o seu julgamento.
Mal sabia ele que meu julgamento já estava definido.
Zuko e Aang terminaram o treinamento e eu pude me recompor. Ao se vestir, Zuko colocou uma camisa com dois furos grandes na altura do peito, um menor no centro na barriga e um corte de fora a fora em forma de meia lua embaixo. De longe parecia um rosto sorrindo.
Zuko olhou Finn com cara de tédio enquanto este gargalhava, assim como Aang.
— Eu não acredito que você perdeu tempo fazendo isso. – eu comentei indignada.
— Não foi perda de tempo. – ele respondeu entre risos. – Valeu muito a pena. – e enxugou uma lágrima do canto do olho.
Neste momento Sokka e Suki surgiram falando sobre uma peça de teatro sobre o Avatar que teria naquela noite. A maioria se interessou em ir e à noite lá estávamos nós, nos acomodando para assistir à peça.
Ficamos com duas fileiras de bancos no alto do teatro. Esperava sentar perto de Zuko, – por acaso – mas Finn também foi.
— Kiara, você senta aqui. – E apontou para o lugar ao lado de Sokka, na segunda fileira.
— Por que?! E se eu não quiser? – perguntei olhando Zuko pelo canto do olho, só observando aonde ele sentaria. Não adiantaria nada, não conseguiria ficar perto dele nunca. – Tá bom. – aceitei e me sentei.
Para minha alegria Zuko sentou bem na minha frente e eu já não estava mais brava com Finn.
— Mas que droga. Kiara, troca de lugar comigo. – Finn pediu se levantando.
— Não. – eu respondi. – Fica aí na sua agora. – cruzei os braços e não saí.
Finn resmungou, sentou novamente e começou a mexer na bolsa que trazia consigo.
— O que está fazendo?
— Me preparando para a artilharia.
— Finn! – eu exclamei pegando em seu pulso. – Para com isso, é hora de relaxar.
— Fale por você. – e começou a tirar uns objetos que eu nem queria saber o que eram. Simplesmente larguei de me preocupar.
A peça começou. Eu prestei atenção a maior parte do tempo, exceto quando Finn atacava Zuko de alguma maneira: jogando bolinhas de qualquer coisa, espetando seu pescoço com objetos pontudos...
Chegou o primeiro intervalo, mas eu e Finn não saímos do teatro. Fiquei para dar uma dura nele para parar de palhaçada e assistir a peça que estava legal. Não era o que o pessoal achava, mas eu estava achando engraçada.
Na segunda parte da peça, Finn parou de incomodar Zuko e prestou atenção também, especialmente na parte em que aparece o Jato sendo esmagado por uma pedra. Eu e Finn ficamos em choque.
— Espera aí, o Jato... Morreu? – ouvimos Zuko perguntar.
— Sabe, isso não ficou muito claro. – Sokka respondeu com descaso.
— Como não ficou muito claro? – eu perguntei ansiosa. – O que aconteceu com ele?!
— Mas não ficou mesmo, é complicado...
— Depois quero saber desta história direito. – Finn avisou Sokka.
A cena seguinte que foi perturbadora insinuando que Zuko e Katara tinham um romance. Meu rosto endureceu e eu anotei mentalmente que teria um papo reto com ela mais tarde.
No segundo intervalo, eu saí depois que todos já tinham se levantado. Quando cheguei no corredor, só encontrei Zuko e Toph encostados à parede, Zuko sentado no chão.
— Cadê todo mundo? – eu perguntei chegando perto dos dois.
— Katara foi procurar Aang, e Sokka e Suki foram nos bastidores. – Toph respondeu.
— E o Finn?
— Espero que tenha voltado para o reino da Terra. – Zuko respondeu secamente.
Eu dei uma risada nervosa.
— Me desculpe por tudo o que ele está fazendo. – eu pedi e me encostei-me à parede em pé ao lado dele. – Acho que é o jeito dele não interferir em nada.
— Já está me dando nos nervos.
— Mas está sendo engraçado, admito. – Toph riu.
— Engraçado nada! – Zuko gritou com ela. – Você não viu o que ele fez com a minha melhor camisa de treino!
— Não, mas fiquei sabendo. – Toph riu mais.
Zuko bufou.
— Vai passar. Logo, espero eu. – eu consolei.
Ele não respondeu. Depois disso, ficamos todos em silêncio. Quando percebi, vi que minha mão esquerda estava perfeitamente na altura da cabeça de Zuko. Comecei a ficar com uma vontade enorme de colocar meus dedos entre os cabelos dele e com a respiração presa eu passei de leve as pontas dos dedos em seus cabelos. Que sensação maravilhosa! Eu continuei assim até que ele encostou a cabeça na parede de olhos fechados. Eu sorri ao vê-lo e congelei quando ele abriu os olhos e me encarou. Meu coração disparou e eu senti que não podia piscar de jeito nenhum.
— Ei! – ouvimos ao longe e num impulso voltamos às posições iniciais. – Tudo bem aqui? – Finn perguntou ao chegar perto.
— Ô mané, o que pensa está fazendo? – Toph quis tirar satisfação.
— O que eu fiz agora?!
— Estava rolando uma cena aqui e eu queria saber o final, mas você chegou e estragou tudo.
Fiquei vermelha. Zuko colocou o capuz para esconder o rosto. Toph estava ali “vendo” tudo.
— Que cena? – Finn perguntou, parecia realmente confuso.
— Nenhuma. Já está na hora de voltar para dentro do teatro. — eu disse e saí rapidinho dali.
Agora eu teria que aguentar Finn encher minhas paciências. Será que Toph contaria mesmo o que aconteceu? Linguaruda do jeito que era, era bem capaz.
Depois que todos tinham voltado e a peça recomeçou, Finn sussurrou para mim:
— Já sei o que aconteceu e não farei comentários. Não vou mais interferir.
Eu sorri e agradeci. Cena rara, melhor não questionar.
No final da peça, o Senhor do Fogo derrota o Avatar e domina o mundo. Todos nós voltamos para casa reclamando porque no fim das contas, mesmo Toph que tinha gostado do seu personagem ao contrário de todo o resto, a peça em geral não foi tão boa.
Ao chegar à casa, Finn puxou Sokka para conversar, provavelmente sobre Jato. Eu gostaria de ouvir a história, mas tinha algo que eu estava mais ansiosa para fazer.
Vi Zuko subir as escadas e fui atrás dele silenciosamente. Ao chegar o topo, longe dos ouvidos dos outros da casa, chamei por ele:
— Zuko! – ele parou por um segundo e virou-se para mim. Para variar, estava nervosa. – Podemos conversar?
Ele me sorriu sutilmente e concordou com a cabeça, caminhando em minha direção.
— Mas não aqui. Não sei quando pode aparecer alguém.
— Tudo bem. Quer ir para o meu quarto?
Não era bem essa a ideia que eu tinha em mente.
— Prefiro ir para o meu, está mais perto. – eu retruquei e dei um passo em direção ao quarto.
— Mas você sabe que é o quarto da Azula, não é? – Zuko perguntou receoso. – Não quero ficar lá. – ele confessou.
Tudo bem, eu entendia a situação dele.
Então eu ia conhecer o quarto do Zuko. Mesmo estando tanto tempo na casa eu nunca tinha me aventurado para conhecer o quarto dele. Sabem-se lá quais sentimentos surgiriam...
— É por aqui. – ele disse e caminhou na direção oposta ao meu quarto. Ao acompanha-lo percebi o quanto minhas pernas estavam bambas. Tentei pensar com clareza, mas estava realmente difícil desta vez, até para me repreender.
Ao chegar lá, Zuko abriu a porta e entrou depois de mim. O quarto era muito parecido com o de Azula: uma cama de solteiro, um armário e uma poltrona. A diferença é que não tinha os frufrus de menina que tinha no de Azula.
Zuko pigarreou.
— Então... Agora podemos falar.
— É... – eu disse. Ele olhava para mim esperando que eu falasse mais alguma coisa.
— Ahn... Zuko... Você sabe que me magoou muito, não é?
— Eu sei. – ele suspirou.
— O Finn está fazendo tudo isso com você porque ele viu como eu fiquei depois de Ba Sing Se.
— Eu sei. Se serve de consolo, não houve um dia depois daquilo que eu não me arrependi do que fiz. – Zuko admitiu. – Principalmente porque nada disso precisava ter acontecido. Eu poderia ter evitado tudo se tivesse tomado outra decisão. Não consigo descrever o quanto eu me arrependo e me puno por isso. Mas eu quero me redimir com todos que sofreram por isso. E isso inclui você.
Eu senti que ia começar a chorar.
— Eu vi como você age com o Aang, o Sokka e todo mundo, além de eu ter conversado com a Katara sobre o que aconteceu para eles terem te aceitado no grupo.
Zuko apenas me olhava ansioso.
— Eu estou cansada de resistir e fingir que estou em dúvida...
Depois disso não falei mais nada. Estava tão nervosa, que não conseguia encontrar as palavras certas.
Enfim, Zuko quebrou o silêncio:
— O que isso quer dizer?
Eu respirei fundo e sorri depois de dizer:
— Eu te perdoo.
O sorriso de Zuko foi aterrador. Quando me dei conta já estava chorando e indo até ele. Eu o abracei forte, tão forte que era para compensar todo o tempo que estivemos separados.
— Eu sinto muito. – ele disse ao pé do meu ouvido.
— Tudo bem. – eu respondi com a voz tremendo e passando a mão por seus cabelos. – Eu senti muito sua falta.
— Eu também.
Nos afastamos apenas para podermos nos beijar, um beijo que eu achei que nunca sentiria novamente; um beijo que há dois dias se tornou completamente possível e que agora, finalmente, era realidade.
Fale com o autor