Elementium - Volume 1 - A Ascensão
24 Sinta o Ar
Notas iniciais
– Vai em frente, pode começar.
Milena praticamente me arrastou até a torre do relógio e agora estamos sentadas no chão (acredito que ela não está bem para ficar em pé) com ela me encarando de uma forma assustadora e eu ainda acho que ela vai me bater.
– Você não devia ir para o hospital? – observo seu rosto pálido e como ela está com dificuldade para respirar.
– Não mude de assunto, eu vou voltar pra lá assim que você me contar o que tem a ver com aquele símbolo.
– Não tenho nada a ver com ele eu só tive algumas experiências com o cara de máscara. – ela arqueia uma sobrancelha, suspiro e encaro-a aborrecida – Olha a única coisa que eu sei é que esse cara está rondando o colégio a alguns dias e eu o vi no hospital também.
– O que? Quando?
– No dia que recebi alta. – não preciso me esforçar para lembrar do episodio, ele está bem vivo na minha mente – quando você estava falando com a recepcionista eu vi ele no corredor.
– Isso foi a uma semana, qual o seu problema? – seus olhos faíscam o que me assusta mais ainda e me faz tentar lembrar o porque de eu não ter contado a ela antes.
– Foi mal! Eu pensei que estava vendo coisas, mas ai quando eu vi ele no colégio e...
– Espera ai... Você viu ele dentro do colégio também e não falou nada, você sabe o que isso significa para a segurança de todos os alunos? Thais!
– Me desculpa, mas ele me assustou e eu não sabia se falava porque eu não tinha provas de que ele existia, tudo foi virando uma bola de neve, eu fiquei com medo das mensagens daí...
– Que mensagens?
Você é idiota sabia?
É eu sei sim.
– Essas mensagens têm a ver com o que aconteceu no seu quarto aquele dia, não é? – falar ou não falar, eis a questão. Ela vai ficar furiosa de qualquer jeito então...
– Sim, tenho quase certeza que foi ele que deixou aquele presentinho e eu recebi mais quase todos os dias. – abaixo minha cabeça para não ter que sustentar seu olhar, Milena inexpressiva é mil vezes pior do que quando ela está furiosa – Eu não sabia o que fazer, pedi ao Martin que protegesse o Patrick, mas não tenho certeza que adiantou muito.
– O que o garoto tem a ver com isso?
– Bem, o soldado estava no andar dele no hospital, depois o seguiu até o colégio e então invadiu meu quarto atrás do menino. – Ela me encara por alguns segundos séria e respira profundamente antes de falar.
– Ele não está atrás do Patrick. – franzo a testa, que ótimo uma das únicas coisas que eu tinha certeza acaba de ser destruída.
– De quem então?
– Thais, meu Moribus ser atacado não foi uma coincidência. – ela suspira cansada e percebo que está apertando um lado do corpo como se doesse respirar – Ele está atrás de mim.
– Mas então o que ele estava fazendo no meu quarto se... – mais uma vez quase consigo ver uma lâmpada acendendo sobre minha cabeça – o mapa, é claro!
– Mapa?
Acho que você devia calar a boca.
Concordo.
– Por que o soldado está tentando te ferir?
– Me ferir não, me matar. – novamente seus olhos faíscam, mas dessa vez de raiva – É bom você explicar muito bem como o mapa foi parar com você.
– Que mapa?
Está andando por um caminho perigoso.
Eu sei, o pior é que eu sei.
Então pare.
Não consigo.
– Me de um bom motivo para não te levar até o prédio do governo e contar com quem realmente estava o mapa.
– Eu não o roubei se é isso que está pensando, eu nem sei onde ficam os mapas. – certo, relaxa, é hora de concertar isso, mas tenho que parar de falar coisas idiotas primeiro – Eu fui conhecer a cidade alguns dias atrás e quando estava na biblioteca histórica encontrei o mapa dentro de um livro, eu não sabia o que fazer com ele e agora sei que devia ter devolvido, ele estava guardado, mas eu recebi uma mensagem com uma foto dele, só então eu soube que tinha sido roubado.
Resolvi omitir o fato de Austin estar comigo nesses momentos e também que eu queimei o mapa sem querer, não seria algo muito bom para a minha saúde contar esse detalhe a ela.
– Eu acredito em você, mas ainda está escondendo alguma coisa. – encaro-a indignada, essa menina não pode ser normal.
– Fala sério! Como você pode saber disso? – ela sorri minimamente e aperta mais o braço envolta do corpo.
– Thais, não se pode mentir para um Canis.
– Só pra constar, eu não tenho idéia do que seja um Canis. – ela sorri novamente, mas dessa vez ofega e curva o corpo para frente – Milena?
– Eu estou bem, só... Ah! – ela cai para o lado, levanto rapidamente a ajudo-a ficar de pé, está na hora dela voltar ao hospital, mas assim que toco seu lado esquerdo minha mão fica úmida.
– Isso é... sangue! – encaro minha mão manchada de vermelho – Você é muito cabeça dura sabia?
– Nossa conversa ainda não acabou, eu estou bem...
– Não está não! – sua respiração está rasa e ela parece fazer força para manter os olhos abertos – Você vai voltar para o hospital agora, depois pode me cobrar o que quiser.
Teleporto antes que ela tente alguma objeção, assim que chegamos, uma enfermeira corre até nós falando em uma língua estranha, ela dá um sermão na shadow que apenas sorri tentando acalmá-la. Ela é levada para dentro e eu volto até o colégio. Alguns políticos ainda estão na praça central, mas o que me surpreende é ver Matthew Argonel levando um belo tapa na cara de sua esposa. Acabei de ganhar meu dia.
– Como eu queria ser ela nesse momento. – Lili para ao meu lado exibindo um sorriso de orelha a orelha, mas seus olhos estão vermelhos.
– Eu também. – observo-a e mesmo com o sorriso sua expressão é triste – Como foi o encontro com seus pais?
– Foi legal, eu sinto falta deles. – ela encara o chão se balançando sobre os pés como se o assunto a deixasse nervosa.
– Mas eles não moram aqui?
– Não exatamente. – ela suspira e encara o horizonte triste – Meus pais são Trausus, o que significa viajantes em brásrra, eles tem uma casa aqui, mas o trabalho deles exige que viajem o tempo todo, fiscalizando as cidades, procurando criminosos, essas coisas. – ela abaixa a cabeça novamente aborrecida – é assim desde que eu nasci, já devia ter me acostumado.
– Com quem você ficava quando era criança?
– Eu vivo em internatos desde um ano de idade, minha mãe tirou um ano de licença para que pudesse ficar comigo até eu ter idade para ir ao primário.
– Nossa. – e eu achando que eu era quem não tinha convivido muito com os pais.
– Geralmente eles ficam dois ou três meses fora, então voltam, ficam duas semanas e partem de novo. – enquanto fala ela parece perdida em lembranças e seus olhos verdes demonstram mágoa – Passei mais tempo em colégios do que em casa, meu quarto aqui é meu lar, o outro é como se eu estivesse em um lugar totalmente desconhecido, nem parece ser meu.
– Você já disse isso para eles alguma vez? – em algum momento começamos a andar para dentro do colégio.
– Não, eles tentam ser os melhores pais da maneira deles, sempre mantendo contato comigo e tentando suprir a falta que fazem, eu os amo e sinto falta deles, mas... – ela abaixa a cabeça e parece se perder em pensamentos por um momento me fazendo pensar que está chorando, mas quando volta o olhar para mim está inexpressiva – Não posso privá-los do trabalho, é a vida deles, aquilo os mantém vivos. Meu pai foi afastado alguns anos atrás, só por alguns meses, mas ficar em casa para ele era como ser morto a cada dia, ele não tinha alegria. Não posso fazer isso com meus pais.
Assinto ainda surpresa com a história, Lili é sempre tão alegre que eu nunca imaginaria que existe essa parte triste dentro dela, é a primeira vez que vejo-a dessa forma. Sem saber o que dizer me mantenho em silêncio apenas continuando a andar em direção ao prédio dormitório. Ao que percebo todos já foram liberados para o almoço o que significa que as “aulas” acabaram por hoje e que eu tenho mais tempo para estudar. Adentramos a sala de estar que está deserta, algo compreensível já que o dia está quente. Lili para bruscamente e não tenho tempo de parar antes de minha cara ir de encontro a suas costas.
– Duas vezes no dia! É sério isso?
– Desculpe...
– Lili, eu estava te procurando, onde você se meteu a manhã toda?
Agora faz sentido. Max vem andando até nós, acompanhado da garota loira que vi na biblioteca no dia anterior. Lili se mantém parada olhando-o inexpressiva, observa a garota algumas vezes e depois me encara, não faço idéia do porque, como se eu soubesse o que fazer.
– Eu estava com a Thais. – Max parece ficar confuso com o tom de voz da amiga, até eu fico confusa, é a Lili mesmo? Não sabia que ela podia ser tão fria – E estamos ocupadas.
Estamos?
Lenta.
O que?
– Ah. É que eu queria te apresentar uma amiga, acho que vocês vão se dar bem, ela é da sala da Rachel. – Certo, o Max é um idiota — Essa é a Sandra, Sandra, essa é a Lilian.
– Eu a conheço Max. – a garota sorri bondosamente na nossa direção – Olá Lili, e você deve ser a Thais Windchest, certo? – assinto, mas que saco, será possível que todo mundo nesse lugar sabe meu nome. – Prazer, pode me chamar de Sam.
– Oi Sam. Bem Max, como ela disse, já nos conhecemos, agora se nos dão licença temos algumas coisas para fazer.
– Temos? – Lili me dá uma cotovelada no estomago e me encara séria – É temos, temos sim.
Ainda fazendo careta acompanho Lili escada acima, analisando a perfeita expressão de confusão no rosto de Max. Minha opinião sobre o assunto? Não tenho nenhuma, até porque não sei nem metade da história desses dois, então não tenho como tomar um posição.
– Certo, o que nós temos pra fazer? – analiso seu semblante irritado enquanto subimos para o segundo andar, adentrando a ala F.
– Foi apenas uma desculpa apara sairmos de lá Thais.
– Eu sei, mas que realmente estou sem nada para fazer. Pensei que tivesse alguma ideia. – ela suspira e para em frente a porta 264.
– Desculpe, não tenho nenhuma. – sua mão para na maçaneta e percebo o olhar triste que ela tenta disfarçar – Eu tenho que organizar umas coisas. Encontro você depois.
– Tudo bem. – observo-a entrar no quarto, mas antes que feche a porta completamente acrescento – Não ligue muito para que o Max faz, ele realmente é meio lerdo.
Consigo ver suas bochechas corarem enquanto acena com a cabeça. Fico um tempo encarando o azul de sua porta até finalmente decidir descer um pouco. Com a manhã totalmente perdida, não tive tempo de estudar, talvez agora eu possa fazer isso. Desço as escadas novamente me certificando que Max e a sua mais nova amiga não estão mais na sala. Sigo os corredores até o jardim, o dia está bonito e o canto dos passarinhos bem alto o que faz um arrepio atravessar minha espinha com a lembrança dos animais esquisitos que vi no armazém.
Adentro o jardim perdida em meus próprios pensamentos e só sou trazida quando tropeço em alguma coisa. Uma perna. Escuto uma exclamação indignada antes de colidir dolorosamente contra os arbustos, sinto alguns galhos arranharem meu rosto e um fincando em minha mão causando ardência.
– Meu Deus! Thais me desculpe, eu não vi você.
Sinto braços rodearem minha cintura me mantendo em pé. Eu provavelmente teria desferido um golpe na pessoa ou no mínimo a xingado se não tivesse reconhecido a voz. Os olhos azuis analisam meu rosto com preocupação e não consigo evitar o rubor em minhas bochechas quando sua mão passa por elas.
– Tudo bem, eu também não estava prestando muito atenção. – me afasto gentilmente dos seus braços – O que faz aqui? Achei que os Aires tinham treino hoje.
Seu sorriso some e ele suspira cansadamente voltando a se sentar. Sento-me ao seu lado e o observo rapidamente. Existem olheiras em seu rosto que parece muito cansado, sem dizer dos hematomas que consigo ver sob a gola da camiseta.
– Estou pensando em sair do time, então não vejo problema em faltar o treino. – seus olhos se perdem em algum ponto da vegetação a nossa frente.
– Por que? – não consigo controlar a surpresa em minha voz, ele parecia feliz por estar no time, mas parece tão... derrotado agora.
– Thais... Qual é a primeira coisa que um Shark deve saber fazer? – sou pega de surpresa novamente. Onde ele quer chegar com isso?
– Não sei... hum... Nadar? Controlar a água? Sei lá. – franzo as sobrancelhas quando ele volta suspirar – O que aconteceu?
– Eu não sei voar. – sua infelicidade é quase palpável – Quer dizer, não consigo voar muito bem.
– Eu aprendi a pouco tempo, é realmente difícil, isso não é um problema, você é novo aqui. – porque eu tenho a impressão que ele está discordando de tudo que eu estou dizendo?
Porque ele está negando freneticamente com a cabeça.
É deve ser por isso.
Gênio.
Para de ser tão irônica.
Pare de me obrigar a ser.
Sabe, você podia...
– Eu sou um Aire, voar é praticamente uma obrigação. – a tristeza em sua voz me deixa desconfortável.
Me importo com ele, mais do que eu achava que iria me importar e vê-lo triste me abala um pouco. Não é como se eu soubesse tudo sobre ser uma Shark, mas ele está certo, o dom principal dos Aires é o vôo, eles são os melhores nisso.
Por que não o ajuda?
Sério gênio? Nem pensei nisso.
Então por que ainda não fez?
Porque não sei como.
Você sabe voar, não sabe?
Sei.
Então o ensine.
Como eu vou fazer isso? Quer que eu jogue ele de um prédio?
Se for preciso.
O observo deitado na grama e demoro apenas mais um minuto para me decidir. Seguro sua mão puxando-o para cima. Ele me encara confuso, mas não impede meus movimentos. Suas bochechas ficam avermelhadas quando levo uma de suas mãos até minha cintura, confesso que não pensei muito bem nisso, mas não é hora de desistir.
– Segure-se. – Sinto o “abraço” se apertar e levando vôo.
Caio arregala os olhos, para logo depois apertá-los mais do que deve. Sem que eu perceba, um sorriso toma conta do meu rosto e também fecho os olhos aproveitando o vento contra meu rosto. Continuo subindo até considerar a altura adequada. Você deve estar pensando que eu sou louca por carregar o garoto até aqui, mas a questão é o seguinte, Austin estava certo, voar quando se está caindo é bem mais fácil do que ter que sair do chão.
– Você já pode abrir os olhos. – não consigo controlar o sorriso brincalhão se expandindo sem minha permissão.
– Ainda estamos subindo? – sinto suas mãos me apertarem mais e um calor no meu rosto.
– Não. – ele se mantém da mesma forma. Será que foi tão cômico para o Austin como está sendo pra mim? – Caio, olha pra mim.
Seu corpo treme um pouco e acabo me arrependendo de ter o forçado a fazer isso, talvez ele não esteja preparado. Agora me sinto culpada, estou fazendo com ele o que Austin fez comigo e me lembro de ter ficado apavorada. Começo a descer devagar e novamente sinto seus braços me apertarem.
– O que está fazendo? – sua voz está entrecortada por conta do vento.
– Descendo, desculpe por trazê-lo até aqui. – encaro o chão ainda longe de nós.
– Pare. – meu corpo reage ao seu pedido e o ar volta a nos segurar.
Ele respira fundo e abre os olhos, encara o chão e depois meus olhos. Um brilho diferente está presente no azul e ele me encara com um sorriso.
Para de fazer essa cara de lesada.
Não estou fazendo cara nenhuma.
Ah não? Por isso ta encarando ele assim?
Só então percebo que realmente estou olhando-o sem reação. Parabéns Thais! Prêmio do constrangimento pra você. Abaixo a cabeça envergonhada, sentindo meu rosto esquentar. O que eu faço agora? Meu plano vai só até a parte em que paramos no ar.
Solta ele.
Não vou fazer isso.
Foi assim que você prendeu.
Mas não é a coisa mais legal de se fazer!
Tudo bem, se vira ai então.
Não! Você precisa me ajudar!
Não está na constituição querida, então não, eu não preciso.
Estou começando a não gostar de você.
Uma das mãos de Caio vai até meu cabelo tirando-o dos meus olhos, de súbito meu corpo se afasta, mas me lembro que estamos a quase cem metros do chão, por sorte ele não se solta.
– O que está fazendo? – a pergunta sai da minha boca antes que eu pense direito.
– Me diga você, o que exatamente estamos fazendo aqui? – seus olhos me analisam atentamente.
– A ideia era te ensinar a voar, mas eu não sei como fazer isso. – desvio os olhos constrangida, ouvindo sua risada.
– Me ensine da maneira como aprendeu. – encaro seus olhos brincalhões e me surpreende ao encontrar ansiedade ali.
– Não vai gostar se eu fizer isso. – dei um sorriso tímido, não gosto de ficar muito próxima assim das pessoas.
Tivesse pensado nisso antes de agarrar o garoto.
Eu não agarrei ele!
Imagine se tivesse.
Para com isso! Não foi minha intenção, eu só estava tentando ajudar.
– Thais? – seus olhos brilham em divertimento. Céus preciso pensar em algo.
– Feche os olhos. – franze as sobrancelhas, mas faz o que peço – Imagine o ar a sua volta, peça a ele para te segurar.
– Não sei se...
– Confia em mim. – o interrompe e ele assente com a testa franzida – é só você imaginar que está flutuando, que o ar está te sustentando. Apenas peça a ele.
– Não tenho certeza se vai funcionar.
Sorrio com a insegurança em sua voz. Se ele soubesse a verdade não estaria tão incerto assim, mas tenho quase certeza que se ele abrir os olhos agora vai cair até morrer.
Ele é imortal.
Você entendeu.
Seguro sua mão calmamente analisando quais as possibilidades de ele se apavorar nos minutos seguintes.
100%.
Não, confie mais nele, talvez uns 90%.
Não, ele vai cair gritando igual a uma criancinha.
Você é má.
– Se você quiser abrir os olhos agora. – solto uma risada nervosa.
– Certo, mas por... – seus olhos se arregalam quando percebe onde está, então ele perde o controle e despenca me puxando junto.
Eu disse.
Calada.
– Caio! Tenha foco!
– Eu vou morrer! – seu grito é abafado pela corrente de ar que se choca contra o meu rosto.
– Você é imortal! – ele parece confuso e me pergunto se está ouvindo o que digo.
Quando estamos próximos ao chão tento sustentá-lo, mas parece que o ar só me obedece quando é para me segurar. Fecho os olhos no exato momento em que colidimos com uma árvore. Novamente sinto galhos causando cortes em minha pele e então minhas costas se chocam contra o chão me deixando sem ar momentaneamente.
Assusto-me quando tento me levantar e sinto gosto de ferro em minha boca. Uma ânsia muito forte toma meu corpo e me viro rapidamente vendo a grama ficar vermelha. Quando me recupero, junto minhas mãos em concha e faço aparecer um pouco de água (nota mental: lembrar de agradecer a Lilian por me ensinar a fazer isso). Limpo minha boca e me levanto vagarosamente com todo meu corpo protestando, consigo caminhar até outro corpo jogado na grama e me deixo cair novamente, me sentando encostada em uma árvore.
– Você está bem? – o gosto de sangue ainda é forte, mas não volto a vomitar.
Seu peito sobe e desce em movimentos rápidos. Consigo ver um pouco de sangue no lado direito da camiseta. Ele levanta uma mão, pedindo tempo e se senta devagar com uma mão nas costas. Uma linha fina vermelha escorre de seus lábios, mas ele parece bem.
– Acho que não quebrei nada. – as pálpebras finalmente revelam o azul que exibe preocupação agora – Você não parece bem.
– Devo ter quebrado uma costela e tenho quase certeza que perfurei alguma coisa. – ele tenta vir até mim, mas o paro com um sinal lembrando-me de uma das regras de combate.
Levo minhas mãos até o bolso na frente da calça e sorrio ao encontrar o vidro intacto. Tomo o líquido sentindo instantaneamente meu corpo ficar aquecido e quase livre de dor. Logo depois do incidente no Alasca, Marian passou a me obrigar a andar com um frasco de “remédio” Shark no bolso, alegando ser uma das regras de combate, mesmo que eu ainda não esteja realmente em batalha.
– Vou ficar bem agora. – ele assente tristemente e abaixa a cabeça parecendo envergonhado.
– Me desculpe. Eu...
– Está tudo bem, podemos tentar de novo...
– Não! – meu corpo se retesa com seu tom irritado e ele me encara um pouco culpado – Desculpe, eu só não quero te machucar mais. Aquela queda foi bem dura, você poderia estar pior e...
– Você voou. – o interrompo insatisfeita com toda sua insegurança – Você estava planando por conta própria.
– E ai eu cai, vergonhosamente. – reviro os olhos e me levanto fazendo uma careta – Você não está bem, da para só ficar... sentada.
– Levanta.
– O que?
– Levanta agora! – cansei de ouvi-lo duvidar de si mesmo. – Se você não levantar daí...
– To levantando, calma. – novamente um sorriso brincalhão surge em seu rosto, mas mantenho minha expressão séria.
– Levante. – cruzo os braços me apoiando em uma perna só para ver se a outra para de doer.
– Já estou em pé Thais. – levanto uma sobrancelha observando-o.
– Eu quis dizer, levante do chão. – seu sorriso some e ele olha em volta, depois se aproxima.
– Sabe, o motivo de eu ter saído do time é justamente esse. – seus olhos voltam a ficar tristes e quase me arrependo de ser rude com ele – Como quer que eu faça isso?
– Da mesma forma que fez lá em cima.
Ele suspira e se afasta, fechando os olhos, respira fundo e parece se concentrar. Alguns minutos se passam e ele volta a abaixar a cabeça. Caminho até ele e seguro suas mãos com o objetivo de acalmá-lo, me repreendendo por mais uma vez não ter pensado em meus atos, sentindo novamente meu rosto quente. Droga corpo, eu não estou fazendo nada!
– Se concentre. – falo baixo como se fosse um segredo, mesmo não tendo ninguém a nossa volta para ouvir a não ser os pássaros – Sinta o ar, chame o ar até você.
Você nem sabe o que ta fazendo.
Quieta, ele não precisa saber disso.
O fato de ser tão principiante quanto ele me deixa com medo de não conseguir ajudá-lo. Penso em correr e chamar Austin para ensiná-lo como fez comigo, mas ao me lembrar de sua constante falte de educação com o garoto, chego a conclusão de que não é a melhor ideia.
– Por que está me olhando assim?
Minha insegurança se esvai quando percebo estar a no mínimo vinte metros do chão. O braço de Caio está novamente a minha volta. Me afasto gentilmente me sustentando por conta própria. Ele nem parece se importar com minha ação, seus olhos brilham e um sorriso pleno preenche seu rosto. Reconheço essa emoção, é a mesma que senti quando voei pela primeira vez.
– Eu disse que conseguiria. – encaro-o orgulhosa tentando ignorar a dor nas minhas costas.
– Obrigado. – assinto e fecho os olhos aproveitando a sensação de estar no ar, é quase tão relaxante quanto a água – Como foi que você aprendeu?
– Austin me jogou de cima de um prédio. – sua expressão de susto me diverte.
– Deve ter sido emocionante. – sorri sarcástico e apenas dou de ombros – Acho que vou permanecer no time então.
– Tem certeza que aguenta? – pergunto debochada e ele levanta uma sobrancelha atônito.
Não tenho certeza se ele percebe que é apenas uma brincadeira, mas seu rosto fica sério.
– Agora eu posso fazer isso. – gosto de ouvir a confiança em sua voz, então decido provocar mais um pouco.
– Muito bem senhor eu sei voar, que tal uma aposta?
– Que seria? – pergunta confuso.
– Se eu chegar antes na torre do relógio, você tem que me pagar um sorvete. – sorrio ao vê-lo balançar a cabeça incrédulo.
– Isso é abuso. – gargalho com sua indignação – E se eu ganhar?
– Não sei. O que quer? – ele parece pensar antes de responder sorrindo.
– Se eu ganhar, você terá que assistir o jogo na quarta.
– Pensei que a temporada tivesse acabado. – franzo a testa vendo-o negar.
– Para os líderes sim, agora são os jogos para definir a colocação do resto da tabela.
– O.K. – impulsiono meu corpo para frente vendo a paisagem virar um borrão a minha volta – Te encontro no relógio.
Fecho os olhos novamente sentindo o vento balançar meus cabelos, curtindo a sensação de leveza em tudo meu corpo dolorido, o ar fazendo cócegas nos cortes em meu rosto. Desde que cheguei, todos os meus sentidos estão mais apurados, por isso não demoro a perceber um movimento rápido a minha direita. Com mais um impulso, corto o ar rapidamente, abro os olhos vendo o telhado conhecido. Sento-me nele, esperando que ele chegue, percebo seus movimentos meio inseguros, mas está sorrindo quando pousa ao meu lado.
– Não vou comentar sobre sua trapaça. – reviro os olhos encarando me deitando sobre as telhas sentindo meu corpo absorver a vitamina d.
– Em primeiro lugar, você já está comentando, e... – não abro os olhos, mas quase posso vê-lo sorrir – ... segundo, eu não trapaceei, só pensei mais rápido.
– Sei.
Ele está te observando.
Cala a boca.
Mas é verdade.
Eu sei. A propósito, isso é coisa sua, não é?
Sim, meus sentidos se unem com os seus, eu já disse isso.
Hum.
Sinto algo vibrar em meu bolso. Agarro o aparelho, sentindo minha mão arder, tinha me esquecido desse machucado.
“Onde você está? — A.”
“Por que? — T.”
“Preciso falar com você. — A.”
“Já está falando. — T.”
“Thais... — A.”
“O.K. Onde você está? — T.”
“Arquibancada do ginásio C. — A.”
“To indo. — T.”
Suspiro guardando o celular de volta no bolso, olho em volta, o dia está perfeito para não se fazer nada, mas tenho certeza que meu descanso está chegando ao fim. Caio me observa confuso quando me coloco de pé.
– Sabe me dizer onde fica o ginásio C? – ele franze a testa e aponta na direção de uma construção próxima ao prédio da biblioteca. – Obrigada.
– Por que está indo até o ginásio dos Shadows? – encaro-o surpresa, então existe um ginásio para cada elemento? Sorrio minimamente – Thais...
– Me deve um sorvete. – ando até a beirada e me preparo para voltar ao ar – Quem sabe no jogo.
Antes de pular, consigo ver um sorriso em seu rosto e me sinto satisfeita por tê-lo deixado feliz. Sigo o caminho na direção que ele me indicou e em poucos segundos avisto uma grande construção com telhado preto. Uma viúva negra enorme está estampada em um brasão na entrada do ginásio e me pergunto o que Austin pode estar fazendo aqui.
Caminho pela calçada que lava a dois portões de metal que estão entre abertos. Adentro um corredor decorado com uniformes do time e lotado de troféus. No fim do caminho outro brasão está presente na parede percebo um corredor horizontal se abrindo dos dois lados dela. Sigo pela direita e encontro uma arquibancada de bancos pretos. A minha frente se expandi um campo muito bem cuidado, mas me surpreendo com a cor da grama. Preta.
O lugar é incrivelmente bonito e bem arejado, mas desconfio que tenha algo a sua volta impedindo que a luz do sol entre, pois ele está pouco iluminado. Consigo ver novamente o aracnídeo no centro do campo, bem destacada pelo contorno vermelho. Observo o lugar até meu olhar ser atraído por uma silhueta sentado na última fileira. Caminha devagar até ele, sabe que estou aqui, mas mantém os olhos fixos em um ponto no gramado.
– Desde quando você invade ginásios de outros times? – ele leva uma mão até o bolso do moletom e me mostra um cartão escuro.
– Não invadi. – me sento ao seu lado e consigo ler um nome no objeto. Louis Clarck. – Era do meu pai. Ele era dos aranhas quando estudava aqui, acho que esqueceram de desativar o passe dele.
Observo atentamente sua expressão triste, a mesma que surge todas as vezes que fala do pai. As vezes não consigo deixar de sentir um pouco de inveja de Austin. Ele conheceu o pai como ele era, quer dizer, conheceu seu mundo desde criança, sabia o que ele representava, ele tem uma parte do pai que eu nunca vou ter dos meus.
Pelo menos você os teve até a adolescência, pare de se lamentar.
Eu sei.
Fico observando esperando me dizer o porque de ter me chamado aqui do nada. Ele continua encarando o campo, como se de alguma forma fosse capaz de ver uma partida em sua mente. Suspiro irritada, ele me faz vir até aqui e agora fica mudo. Qual o problema desse garoto?
– Austin, eu...
– Quero pedir sua ajuda para fazer uma coisa que provavelmente pode causar nossa expulsão do colégio e possivelmente uma morte dolorosa. – franzo as sobrancelhas, digerindo suas palavras.
– E por que quer fazer essa coisa?
– Preciso ver uma coisa em um lugar, mas não é muito seguro se eu for sozinho.
– Pelo menos vale a pena? – um sorriso tímido perambula em seus lábios.
– Talvez.
– Tudo bem. O que exatamente vamos fazer? – o sorriso travesso que ele exibe faz um arrepio subir por minha coluna.
– Quero vá comigo ao Alasca.
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