Elementium - Volume 1 - A Ascensão
8 Ganhamos um Show de Raios
Notas iniciais
Mitons. Essa pequena palavrinha de seis letras, que parece inofensiva aos olhos de um leigo (vulgo eu mesma), aparentemente se trata de alguma coisa apocalíptica a julgar pelo silêncio monstruoso que Austin aderiu após saber das novidades.
Como eu mencionei antes, a palavra não tem exatamente muito efeito sobre mim, além, é claro, de criar mais confusão, mas isso não é exclusivo dela, já que metade do que aconteceu durante o dia me deixou confusa. De qualquer forma, não posso deixar de pensar nos possíveis significados do termo, coisas horríveis eu imagino, capazes de assustar ninguém mais ninguém menos que o diretor do colégio e, nesse caso, o também recente descoberto governador da cidade.
Agora pare e pense comigo, é uma palavra meio idiota, não? Mitons. M-I-T-O-N-S. Não parece lá grande coisa. Mas eu não vou subestimar nada que faça Austin Lee Clarck entrar em um estranho e desconcertante voto de silêncio durante dois períodos inteiros de aula.
Bem, agora, sentada em minha cadeira na sala de História da Sociedade (I e II), não me restam muitas opções a não ser prestar atenção no professor, tarefa que se tornou desafiadora no momento em que Austin decidiu que bufar é melhor do que voto de silêncio.
Ele está me irritando.
Idem.
Faça ele parar.
Hum... Como exatemente?
Sei lá, da seu jeito.
Observo o garoto pelo canto do olho por mais alguns segundos tentando identificar o motivo de ele ter decidido imitar um boi, mas, a menos que a razão seja a longa explicação do professor Mitchell sobre a criação das cidades mães (ou algo parecido, não consigo me lembrar o termo que ele utilizou), não consigo achar explicação.
Sem muita paciência, cutuco o braço de Austin. Ele se sobressalta e me encara irritado.
— Por que fez isso?
— Por que está imitando um boi? — retruco com um sorriso irônico e ele parece mais confuso. — Você está bufando, Austin. Se puder parar, eu agradeço.
— Desculpe.
Assinto e volto a minha tarefa anterior: prestar atenção na explicação sobre cidades que eu não conheço, fundadas por pessoas que eu não conheço, sedes principais de um mundo muito louco ao qual acabei de ser integrada.
O professor Robs, Mitchell Robs, com seus cabelos negros perfeitamente arrumados e olhos dourados incrivelmente intensos, é um homem bonito, sem contar que também é estiloso, vestido com uma calça preta de sarja e camiseta cinza. Com isso você pode pensar "É só uma roupa normal, Thais", mas posso te dizer que está enganado meu caro. Mitchell Robs consegue fazer com que roupas normais pareçam muito estilosas. Ele é de fato interessante. Adjetivo que ainda não consigo usar para descrever sua aula.
— Como todos sabem, ou pelo menos deviam saber, os oito primeiros: Zeth Anacleto, Robert Ficher, Joseph Lecomte, Fuyuki Ogawa, Nicolal Rizzo, Suzanne Marquez, Jahi Mourad, e Miguel Rodrigues foram os fundadores das cidades e também da nossa sociedade. — enquanto ele fala, mexe em um aparelho nas mãos, que parece estar conectado com o quadro porque várias informações vão surgindo por ali. — Suzanne, a Grande Aire e a única mulher, como podem perceber, é a fundadora de Apálange, a segunda cidade mais antiga, ficando atrás apenas de Blackmornan. A política de governantes de Apálange segue até hoje a linhagem de mulheres, um ponto muito importante que obviamente será cobrado em prova — ele lança um sorriso debochado para alguns alunos que reclamam na primeira fileira de carteiras. — Já a nossa cidade, Wirdgewt, é a sede fundada por Robert Ficher, o primeiro Fênix...
Eu vou morder ele!
Por um momento tenho certeza que a voz veio de alguém ao meu lado e não me contenho a procurar o dono dela. Ou dona no caso, mas não tem ninguém próxima o bastante para ter falado no meu ouvido. E ninguém teria motivos (nem permissão) para cochichar no meu ouvido.
Eu tenho.
Você é louca? Por que quer morder o professor? Ou melhor, por que você quer morder alguém?
Não seja dramática, não estou falando do professor.
Então quem?
Esse palhaço que não para de fazer barulho.
Palhaço? Certo.
Encaro Austin ao meu lado e, não, ele não está bufando novamente, agora ele decidiu que ser baterista é mais interessante.
— Você pode parar com isso, por favor? — indago baixo para evitar chamar atenção, mas seus dedos continuam batucando e ele não da sinais de que me ouviu. — Austin, para!
Seguro suas mãos firmemente e ele novamente se assusta, mas dessa vez parece entender qual é o problema.
— Desculpe. — suas bochechas são tingidas de vermelho enquanto solto suas mãos, me voltando para o meu caderno.
— Hum.
Certo. Certo. Vamos tentar entender essa coisa agora. Oito grandes, fundadores de oito cidades. São oito porque existem oito elementos. As oito sedes são os epicentros de poder do mundo elementista. Por isso...
Ele está te encarando.
O que?
O Barulhento.
Levanto os olhos surpresa percebendo que de fato Austin está com os olhos fixos em mim. Ele não parece se tocar que isso é um pouco assustador e desconcertante. Reviro os olhos, mas não me dou ao trabalho de desviar minha atenção das linhas do caderno, por mais que não esteja escrevendo nada útil a uns bons minutos.
— O que foi? — pergunto desconfortável.
— O que foi o que?
— Por que está me encarando?
— Nada — responde desviando o olhos para frente, onde o professor Mitchell está desenhando o que parece ser uma bandeira. — Sobre o que ele estava falando?
— Cidades e pessoas grandes — suspiro frustrada ao encarar as anotações inúteis e sem nexo no meu caderno. — Afinal, eles eram grandes de verdade ou sei lá?
— Definitivamente sei lá — ele ri quando o encaro irritada. — Eles eram poderosos, por isso o nome. Você não está prestando atenção?
— Estou! — respondo ofendida. — Ou estava pelo menos, até seu solo de bateria me interromper.
— OK, desculpe.
Ele se recosta na cadeira e parece finalmente prestar atenção na aula. Queria muito dizer que eu fiz a mesma coisa, e que comecei a fazer anotações úteis cheias de conteúdo organizado capaz de me fazer entender a bendita sociedade elementista. Mas não, eu não tive essa alegria. Meu cérebro simplesmente se nega a prestar atenção no conteúdo da aula. Realmente é desgastante quando você não tem toda a base de seis meses de matéria.
Frustrada por não ter as informações necessárias para de fato fazer parte dessa turma, me limito a observar o restante dos alunos. Marian, Já recuperada do incidente de mais cedo, está escorada em Jack em um canto e eu não sei dizer se ainda estão acordados. Milena e Bryan estão imersos em uma conversa entre sussurros mais a frente e lançam alguns olhares brincalhões na direção de James, o qual se encontra conversando com uma garota Lamp que não parece está feliz com a situação. Poucos alunos prestam atenção no professor enquanto a maioria ou está tentando não dormir, ou está conversando aos cochichos.
Para o meu desânimo, o relógio sobre o quadro informa que ainda faltam trinta minutos para o fim da aula. Trinta minutos para eu tentar entender pelo menos um pouquinho dessa coisa toda.
Quando volto para minhas anotações mais uma vez, percebo que, sem a intenção, acabei escrevendo a palavra Mitons no canto da folha. Circulo a palavra algumas vezes me lembrando da expressão assombrada de Lílian e do silêncio desconcertante de Austin.
— O que são Mitons?
Austin se sobressalta mais uma vez ao meu lado e me encara assustado. Em um primeiro momento não entendo o que provocou sua reação (espalhafatosa), mas então percebo que devo ter pronunciado a palavra em voz alta.
Ele encara o ponto do caderno onde minha caneta está pousada e seus olhos se arregalam ainda mais, se isso for possível. Não sabia que alguém poderia abrir tanto os olhos sem que os globos saltassem pra fora, mas ele está fazendo isso.
— Eu... — antes que eu possa terminar a frase, ele fecha o caderno pesadamente, quase prendendo meus dedos. Mesmo sabendo que ele está assustado, não posso me impedir de encará-lo indignada. — Austin!
— Shh! — Ele olha ao redor como se para se certificar que ninguém está prestando atenção em nós. — Nunca mais fale essa palavra em voz alta, entendeu? Nunca mais! — Me encara intensamente e recuo um pouco na cadeira. Ele parece um lunático. — Entendeu?
— Ok! Agora sai — afasto suas mãos do meu caderno e o empurro para o seu lugar. Garoto esquisito. Aparentemente nunca ouviu falar sobre espaço pessoal. — Eu posso perguntar por que o assunto deixa vocês assustados ou isso também é proibido?
— Você pode perguntar, é só evitar falar o nome deles. O nome causa pânico nas pessoas e é um mau presságio — ele olha em volta mais uma vez como se esperasse encontrar alguma coisa ruim.
Ótimo! Além de invasor de espaços pessoais, Austin Lee Clarck também é supersticioso.
— Certo — reviro os olhos entediada. — O que é isso?
— O que é não, quem são é o termo certo. Não podemos falar deles porque é uma raça que causava pânico nos elementistas a muitos anos atrás.
— Você disse que eu podia perguntar!
— Sim, mas não disse que eu poderia responder.
— Idiota.
— Ei, calma lá! Não sou eu que faço as regras — encaro-o irritada e ele suspira cansado. — Tudo bem, é um assunto meio tabu porque eles foram uma das poucas espécies de monstros que causaram tragédia no mundo elementista.
Me pergunto como ele sabe dessas coisas, já que não parece o tipo de cara que presta atenção nas aulas. Mas quem sou eu para julgar?
Ninguém.
Obrigada.
— Mas o que eles fizeram de tão ruim?
— Ah, um monte de coisas — ele olha mais uma vez ao redor apreensivo e fala tão baixo que preciso me inclinar para conseguir ouvir. O cheiro de canela domina meus sentidos pela segunda vez no dia. Lá se vai meu ponto sobre espaço pessoal. — O nome deles é esse porque no começo eram considerados mitos. Histórias de terror contadas para crianças não saírem a noite e até mesmo usados em pegadinhas, mas a lenda ganhou crença quando crianças começaram a desaparecer.
— Como assim desaparecer? O que acontecia com elas? — indago sem paciência, ele me encara irritado pedindo para eu falar mais baixo.
Vamos deixar claro que eu estou sussurrando aqui e me recuso a ficar mais próxima ainda. Minha curiosidade não é tão grande a ponto de eu cruzar esse limite.
Ele me olha indeciso, talvez decidindo se deve continuar contando a história e acho que meu olhar furioso em sua direção deixa bem claro que ele não tem escolha, porque suspira pesadamente antes de continuar o que, só para constar, me deixa com mais raiva. Jesus Cristo! Pra que tanta enrolação?
— Muitos achavam que elas simplesmente desapareciam, porém, os Grandes, preocupados com a situação, resolveram investigar mais a fundo. Não conhecíamos tão bem este mundo naquela época, eles supuseram que talvez pudessem ser animais selvagens ou algo do tipo. As crianças tem a imortalidade mais instável, ficam mais suscetíveis a essas coisas — ele respira fundo e encara a mesa melancolicamente. — Infelizmente não eram animais selvagens.
— E? — pergunto impaciente quando ele solta um suspiro triste e para de falar. — O que eles descobriram?
— Eles encontraram o rastro de um dos monstros. Era uma espécie que ainda não tinha sido documentada, não se tratava daquelas que permaneciam na Terra e se alimentavam de poluição. Esses eram furtivos e viviam em cabanas quase subterrâneas, fedorentas e mal iluminadas — ele não me encara, mas, se seus olhos estiverem combinando com o tom da sua voz, estão cheios de angústia. — Acharam algumas das crianças que tinham sumido, elas estavam em um tipo de cativeiro debaixo da terra.
— Elas estavam bem?
— Sim, mas o que os monstros faziam era perturbador e a espécie era bem mais perigosa do que as que conhecíamos. A princípio pensaram que eles comiam crianças, o que por si só já é muito perturbador — ele faz uma expressão de nojo que não posso deixar de retribuir. — Bem, eles de alguma forma usavam a força vital e os poderes delas, canalizando a essência, praticamente se fundindo a alma da criança. Muitas delas, é claro, morreram no processo e aquelas que sobreviviam ficavam "dentro" deles. Parados no tempo, sendo usadas por eles.
— Por que crianças? — é a única coisa que consigo pensar enquanto tento assimilar toda a informação.
— Porque elas não tem controle dos poderes, eles ainda estão em sua natureza primordial, sem alterações. Isso as deixa poderosas — enquanto explica consigo perceber a ruga que se formou no meio das sobrancelhas. Está irritado. — É claro que isso dificulta um pouco na hora de canalizar os poderes e também é a causa da morte de muitas delas, já que são jovens demais para desencadear tudo de uma vez. Além de, obviamente, os bastardos serem covardes demais para encarar um adulto treinado.
— Isso é... — começo, mas a verdade é que não sei exatamente o que pensar disso tudo.
— Eu sei, terrível.
— Sim, é repugnante! — mais uma vez ele precisa me lembrar de falar baixo. Ele não percebe que é meio impossível quando se está nesse nível de indignação? — O que aconteceu depois?
— Demorou anos até que toda a raça fosse erradicada e desde então o assunto só é abordado em Cimex, no quinto ano.
— Como você...
— O Sr. Robs ali, adora contar coisas a mais do que ele deveria em aula — ele encara o professor, mas este permanece alheio à nossa conversa. — Acho que até faz parte da história da sociedade, mas não deveria ser o foco. De qualquer forma, você pode encontrar livros na biblioteca sobre o assunto.
— Bem, não parece o tipo coisa que se deva usar para assustar crianças.
— Ah, eles não fazem mais isso. Eu te disse, o assunto é tabu agora — ele volta a se recostar na cadeira e suspira melancólico. — Se eles voltaram mesmo, a coisa pode ficar feia de novo.
— Martin disse que vai mandar uma excursão até o Alasca para verificar — comento desviando do olhar preocupado do garoto. De repente estou começando a me dar conta do que realmente significa a conversa na sala de estar.
— O quê? — ele demora alguns segundos para processar a informação e, quando o faz, sua expressão se contorce em confusão. — Quando ele disse isso?
— Na sala quando fomos buscar o livro da Lílian e quase fomos pegas.
Ele me encara intensamente, mas tenho quase certeza que não está exatamente me encarando, sua mente parece estar perdida em algum lugar muito distante dessa sala de aula.
— Se isso for verdade... — ele começa após vários minutos de divagação, mas para quando o encaro irritada. — Não estou dizendo que está mentindo, apenas que é incomum. Parece uma atitude desesperada.
— Ele disse que não quer causar pânico.
— Sim, mas isso...
Ele é interrompido por uma batida na porta. Alguns alunos se sobressaltam com o barulho repentino que corta o tom monótono da aula, mas o professor apenas anda calmamente até a porta e, ao abrí-la, cumprimenta alguém do lado de fora.
— Com licença, professor Robs — o homem se inclina para dentro da sala, nos encarando por alguns segundos antes de se voltar para o professor. — O senhor está sendo chamado na sala de reuniões.
Sua voz é grave e reverbera por todo o cômodo, os alunos permanecem em um silêncio colossal. É interessante como os eventos de mais cedo ainda parecem afetar a turma, eles continuam se assustando com qualquer barulho e qualquer visitante inesperado.
Não conheço esse visitante em questão, mas isso não é muito relevante, visto que não devo conhecer nem um terço dos residentes do colégio. Ele parece todo pomposo com seu terno azul escuro e os cabelos grisalhos, apesar da jovialidade, bem arrumados.
— Tudo bem — professor Mitchell desvia os olhos rapidamente para nós indeciso. — O que devo fazer com a turma?
— A turma... — o homem se inclina novamente, a expressão severa, nos encarando com olhos azuis intensos. — Eles estão dispensados por hoje, terão dois períodos livres — ele encara irritado alguns alunos que fazem gestos de comemoração. Eles se calam imediatamente. — Sr. Robs, esteja na sala de reuniões o mais rápido possível, por favor.
O homem se retira depois de lançar mais um olhar desgostoso para a sala, como se de alguma forma não estivesse muito contente com a nossa presença.
Você não pode culpá-lo. Adolescentes são irritantes.
Você é adolescente!
Não exatamente.
— Muito bem, vocês escutaram, estão dispensados — o professor diz organizando suas coisas com rapidez. — Mas quero que leiam o capítulo sobre essa aula e façam uma redação sobre o assunto. Para a próxima aula, é claro.
Danou-se.
Perfeito!
Apanho meus materiais já pensando o quão horrível será escrever sobre algo que eu não sei. Ignorando os resmungos mal-humorados de Austin, saio lentamente da sala.
— Até amanhã, senhor Robs — Marian se despede quando ele passa por nós no corredor.
— Até amanhã crianças — o professor acena e sobe as escadarias apressado.
Pera lá! A redação é pra amanhã?
Como eu disse: Danou-se.
Droga!
Enquanto o desânimo vai aos poucos se apossando de mim, acompanho meus novos colegas pelos corredores lotados. Quando nos encaminhamos para os armários dos shadows, encontramos Lílian e Max, ambos em uma discussão acalorada. Bem, não exatamente uma discussão, Max é o único que está cuidando da parte de falar e, nesse caso, da parte acalorada também. Ele parece exaltado com alguma coisa enquanto a garota guarda os materiais com uma expressão entediada. Não que isso o faça interromper seu monólogo.
— Isso não faz o menor sentido e ainda por cima é muito injusto. Por que...
— O que é injusto? — Jack interrompe o shark que se vira para nós assustado. Suas bochechas estão rosadas, mas não sei dizer se por causa do susto ou da indignação.
— Isso de nos liberarem duas aulas antes. Esse colégio é integral o que significa que temos aula durante a manhã e a tarde — ele parece realmente escandalizado. — Por que não marcaram essa reunião para amanhã?
— Encontramos vários professores no caminho, eles parecem bem preocupados — Marian comenta com uma expressão séria. — Não parece ser um assunto que possa esperar até amanhã, Max.
— Bem, então deveriam dar um jeito de ter algum substituto para os professores e...
Ele e Marian entram em uma nova, e mais acalorada, discussão sobre o porque alguns assuntos são mais importantes do que nossos períodos de aula. Mas, levando em consideração que Marian tem mais informações sobre a possível pauta da reunião, não é exatamente uma discussão justa.
— Ele está mesmo reclamando por não termos aula? — me inclino na direção de Austin para que ele possa escutar e um sorriso divertido se espalha pelo seu rosto.
— Apenas Max sendo Max.
— Do que vocês estão rindo? — Max chama nossa atenção ainda mais indignado o que, claro, só provoca mais risadas. — Isso não é divertido! Agora vou perder a prova de Toxicologia que esperei semanas pra fazer. Isso é muita palhaçada!
— Santo Nicolal! — Marian seca algumas lágrimas tentando conter a risada. — Sem argumentos, Max. Estou sem argumentos.
— Eu sei! Isso é horrível! — ele concorda sem se dar conta da intenção da amiga. Essa, por sua vez, precisa novamente conter a risada.
— Certo. Horrível — ela respira fundo, mais uma vez secando os olhos. — Então, o que vocês vão fazer agora?
Respiro fundo, me recuperando do ataque de riso e encaro o chão pensando em como será permanecer em meu quarto até o jantar. É realmente interessante descobrir que a ideia de ficar lá por todo esse tempo, apenas com meus pensamentos como companhia, não é nada tentador. Pela manhã a única coisa que eu queria fazer era ficar lá para sempre, mas agora, depois de tudo o que conheci hoje, apesar da frustração de me sentir perdida em praticamente todas as aulas, quero permanecer aqui fora. Quero conhecer os segredos que ainda não sei. Quero entender esse mundo maluco e incrível.
Eles estão levantando ideias como ficar esparramados no jardim, competição de videogame, ficar esparramados nos sofás, jogos de tabuleiro, ficar esparramados no chão da sala. São coisas simples e comuns, mas, por algum motivo, e mais uma vez completamente diferente de mais cedo, quero participar de qualquer um dos seus programas, mesmo que seja apenas ficar esparramados em algum lugar estranho. Quero ser incluída.
Você está incluída.
Não tenho certeza disso.
Porque você fica ai tendo autopiedade. Por favor, se inclua.
Bem, se eles não estiverem me incluindo, tenho certeza que o quarto é meu destino. Não acho que posso fazer planos em um lugar por onde não sei andar. Me perderia em minutos e provavelmente não encontraria o caminho facilmente.
— Eu não sei o que vão decidir fazer, mas eu vou tirar esse uniforme — Jack diz puxando um pouco a gravata preta. — Já está me incomodando.
— Se não gosta de gravatas, então por que usa? — pergunta Max entediado.
Jack sorri abertamente e desvia os olhos para Marian em uma óbvia conversa interna. Ela retribui o sorriso e responde o shark.
— Porque eu gosto.
Max olha de um para o outro com a testa franzida, claramente confuso, o que, é claro, nos faz rir mais uma vez.
— E você faz isso só por que ela gosta?
— Sim — Jack responde dando de ombros.
— Isso não faz sentido, se você não gosta, não preci...
— O.k. Max, deixe o Jack com as gravatas dele — Lílian interrompe antes que Max possa terminar seu protesto. — Eu realmente não tenho ideia do que fazer.
— Tudo bem então, vamos trocar de roupa e depois resolvemos o que fazer — Marian diz já se adiantando pelo corredor.
Sem ter muita certeza se devo me considerar parte do grupo, sigo atrás das duas até o dormitório, tentando me familiarizar com o caminho.
Como antes, o quarto está exatamente do jeito que deixei mais cedo. O sol atravessa o vidro das portas da sacada e parece estar bem mais quente do que o dia anterior. Nunca fui exatamente uma amante do verão, particularmente prefiro a primavera, quando há flores por todos os lados e as chuvas tomam conta de muitos dias. Em Curitiba pelo menos. O outono sempre me encantou também, com todas aquelas folhas coloridas e as ventanias intensas.
Já sabendo que, independente das roupas que eu escolha, provavelmente estarei desconfortável com o calor, opto por algumas roupas frescas.
Depois de pronta me encaro no espelho, como fiz mais cedo. O shorts jeans não é curto o bastante para me deixar desconfortável tampouco longo o bastante para piorar o calor. A camiseta branca com mangas azuis é uma velha conhecida e me da um sentimento gostoso de familiaridade. Mais cedo os cabelos soltos me pareceram uma boa ideia, mas agora, sentindo o suor se acumular no pescoço, decido prendê-los em um coque. Sei muito bem que o "penteado" não vai durar muito tempo, o cabelo é volumoso demais, mas vai servir até eu ter outra ideia.
Quando termino me ponho a arrumar a cama e me concentrar em outra coisa qualquer que não seja a dúvida sobre o que devo fazer a partir de agora. No entanto quando o quarto está em perfeita ordem, não encontro outra tarefa para me distrair. Me sento na cadeira da escrivaninha sem muita certeza se devo ou não descer até a sala de estar. Quero estar lá fora, mas ao mesmo tempo tenho receio de ter que participar de conversas que não quero.
Minutos se passam até que meus olhos são atraídos pela luz piscante do notebook branco. O símbolo dos sharks emite um pequeno brilho azul que eu não dei atenção antes.
Sem muita hesitação, afinal o aparelho é meu, levanto a tampa encontrando o mesmo símbolo na tela.
— Por favor, identifique-se.
Olho para as paredes surpresa, mas o som não volta a se repetir e o quarto permanece exatamente como estava a um segundo atrás.
— Hum... — olho para o computador incerta — Thais Windchest.
— Por favor, identifique-se.
A voz repete, igual a primeira vez, então percebo que não vem das paredes como eu tinha pensado, mas sim do próprio aparelho.
Lenta.
Shh!
— Eu já me identifiquei — protesto irritada.
Não posso deixar de revirar os olhos ao perceber o quão idiota é discutir com uma máquina.
— Por favor identifique-se.
O que diabos ele quer que eu faça?
Identifique-se.
Não me diga! E pare de imitá-lo.
Então identifique-se.
Você é bem inútil as vezes, sabia?
Vai com calma com as ofensas. Compartilho da sua sabedoria, caso não saiba.
Reviro os olhos mais uma vez encarando o notebook com raiva. Quando estou pronta para desligá-lo, uma nova luz se acende no teclado. Ao lado do teclado na verdade. É semelhante aos aparelhos de digital, portanto, sem pensar muito na questão, pressiono o indicador no local.
O símbolo some e a tela se apaga. Quando volta a acender, no centro da tela se encontra um bonequinho de cartola. Ele não tem rosto, mas tenho certeza que é quem está falando comigo.
— Seja bem-vinda senhorita Windchest, a Guesrun tem o prazer de fornecer seus serviços — ele tira a cartola como em um cumprimento e então a coloca novamente na cabecinha. — Por favor contate a empresa se houver alguma dúvida sobre o sistema operacional de seu aparelho eletrônico — ele diz e levanta uma bengalinha, aparentemente apertando um botão que não consigo ver. Depois levanta novamente a cartola em uma despedida. — Tenha uma boa tarde e um bom uso de seu computador.
Ao terminar, a tela se apaga novamente e após alguns segundos volta a exibir o símbolo dos Sharks, mas dessa vez com seis pastas no canto esquerdo da tela e vários aplicativos que eu nunca vi antes. Estou prestes a clicar em um quando sou interrompida por batidas na porta.
— Os meninos tiveram uma ideia e estão nos esperando na sala, eu já vou descer, você pode ir na frente. A Mari já está lá — Lílian me bombardeia com as informações assim que abro a porta.
— Tudo bem.
Ela sai em disparada pelo corredor antes que eu possa perguntar qual é a tal ideia.
Ainda confusa por de repente ter um programa promissor a qual me concentrar, volto ao quarto em busca de sapatos. Não penso duas vezes antes de agarrar meus all star surrados. Minha mãe queria se livrar deles a muito tempo, convicta de que já estavam velhos demais, mas sempre que ela os colocava em alguma sacola ou caixa na garagem eu dava um jeito de me apossar deles novamente. É uma questão de apego, eles são valiosos para mim e, enquanto meus dedos não estivem para fora por causa de rasgos, não vou me livrar deles.
As solas dos tênis fazem barulho em contato com a madeira da escadaria quando chego a sala e chamam a atenção de Austin. Ele está esperando encostado no corrimão com uma toalha pendendo do ombro. Os cabelos o mesmo caos de antes, o uniforme substituído por uma bermuda branca e uma camiseta azul clara.
— Os outros já foram.
— Lílian disse que estariam aqui.
— E estavam, mas falei para irem na frente enquanto eu pegava uma toalha e esperava vocês duas — ele me observa por uns segundos e então levanta as sobrancelhas. — Onde está a sua toalha?
— Eu não sabia que precisava de uma.
— Nós estamos indo para piscina e não podemos voltar molhando todo o corredor — ele sorri com a ideia como se estivesse se lembrando de algo engraçado. — Então eu te aconselho a pegar uma toalha.
— Certo — me viro para voltar ao quarto, mas paro quando percebo que, se ele não estiver aqui quando eu voltar, não vou saber o caminho da piscina. Encaro-o hesitante. — Você...
— Vou estar esperando aqui — ele afirma sorrindo e não posso deixar de retribuir.
Volto para o quarto com uma onda de entusiasmo crescendo dentro de mim. Desde que mudei de escola no fim do ano passado, não entrei em nenhuma piscina e isso é uma das coisas que mais sinto falta. A antiga academia que eu frequentava também era ponto de natação de outras pessoas da minha antiga escola e não queria correr o risco de encontrar nenhuma dessas pessoas. Sem contar que, depois do fenômeno "veias brilhantes" ter começado, eu já estava receosa de continuar nadando, mas depois das explosões não queria correr o risco de destruir a academia porque estava nervosa. Então, parei de nadar por um tempo, mas é como se eu tivesse acabado de largar um droga.
A natação sempre me ajudou em momentos de estresse e deixá-la de lado foi horrível. Pelo menos agora vou ter a chance de retomar o costume.
Entro no quarto e ando rapidamente até o armário porque, se eu vou entrar em uma piscina, não posso estar usando jeans. Procuro no meio das roupas até encontrar o biquíni azul que eu tinha certeza que estaria aqui. Ao vesti-lo, coloco a roupa de novo, apanho uma toalha da prateleira e saio apressada do quarto. Quando viro corredor vejo Lílian descendo as escadas do segundo andar.
— Por que a toalha? — pergunta.
— Eles vão para a piscina.
— Claro! A ideia foi do Austin. Como não previ isso? — fala revirando os olhos. — Pode ir na frente, é melhor eu trocar de roupa. De novo.
— O.k.
Desço novamente as escadas e encontro Austin ainda encostado no corrimão. Agora seus dedos se mexem freneticamente sobre a tela do celular e ele parece concentrado. Novamente seus olhos são desviados na minha direção quando alcanço a escada maior.
— Lílian disse para irmos na frente.
Ele concorda com um aceno de cabeça e caminha para fora da sala e, pouco tempo depois, eu já não faço ideia de onde estamos. O sigo por vários corredores e tenho a vaga noção que nos dirigimos para a parte de trás do prédio letivo, levando em conta que acabamos de passar pelo que imagino ser a escadaria que leva ao primeiro andar. De alguma forma alcançamos uma porta com a placa de Enfermaria, mas Austin vira a direita e entramos em um corredor pelo qual ainda não andei. Ele anda rápido e não paro para tentar entender a rota sabendo do risco real de me perder. Em um dado momento, atravessamos uma porta e adentramos um enorme jardim.
— Fala sério! — resmungo.
— O que foi? Normalmente as pessoas gostam desse jardim.
— Não é o jardim — respondo irritada e ele levanta uma sobrancelha confuso. — Estou cansada de me sentir perdida. Esse lugar parece um labirinto.
— Ah... — ele olha em volta como se avaliasse a questão. Sorri como se tivesse se lembrado de uma piada. — Parece mesmo. Não se preocupe. Tenho certeza que vai conseguir andar sozinha por aqui em breve.
— Hum.
Continuamos andando pelo extenso jardim. Para descrevê-lo não consigo pensar em nada menos que perfeito. A grama extremamente verde parece ter sido recém cortada, flores de variadas cores e espécies se espalham pelo chão e arbustos, todo o terreno que meus olhos veem está lotado de árvores, tão bem cuidadas quanto o restante do jardim. É simplesmente lindo.
— O jardineiro deve ter um trabalhão para cuidar disso tudo — comento observando maravilhada o aspecto impecável das plantas.
— Eles não tem tanto trabalho assim, considerando que a terra e as plantas obedecem suas ordens.
— Dominadores de terra?
— Sim — ele concorda e exibe um sorriso brincalhão. — Lutuns.
Sinto minhas bochechas ficarem quentes, mas ele não parece notar ou, se faz, não comenta.
Após mais alguns poucos minutos de caminhada, começo a ouvir vozes e barulho de água. Quando finalmente meus olhos encontram a piscina, assim que viramos em uma clareira, paro, estática pela surpresa. É simplesmente enorme. E quando digo enorme, quero dizer no completo sentido da palavra. Se você já foi a um parque aquático e já desceu por tobogãs até piscinas enormes e fundas, vai saber do que eu estou falando. Se não, peço que use sua imaginação.
Até onde posso ver, o lugar é cheio de trampolins, espreguiçadeiras e guarda-sóis. Os alunos ocupam quase todos os lugares, aproveitando o que resta do dia ensolarado.
— Você vai acabar engolindo uma mosca.
— O quê? — pergunto confusa e só então percebo que estou com a boca escancarada. Mais uma vez sinto o calor tomar os lados do meu rosto. — É muito grande.
— Precisa ser. São muitos alunos — ele fala olhando para a piscina e posso ver claramente o brilho de empolgação tomar conta de seus olhos. — Vamos lá.
Encontramos Marian sentada em uma toalha com Jack. A cabeça do garoto tranquilamente depositada sobre o colo dela e tenho quase certeza que está dormindo. Ambos estão usando óculos escuros e compartilham fones de ouvido. Os dois guarda-sóis sobre eles os escondem completamente da luz excessivamente quente.
— Onde está o Max? — pergunto procurando pelo shark que está fora de vista, mas não recebo resposta.
— Ei! — Austin chama e também é deixado no vácuo.
Ele se inclina para alcançar o fone de Marian. Tenta, pelo menos, porque ela, em um reflexo perfeito, segura seu braço antes que ele tenha a chance de tocar o objeto. A shadow abaixa os óculos encarando o garoto, vira a mão do amigo e o empurra para trás. Seus movimentos rápidos parecem incrivelmente leves e em momento algum perturbam Jack que permanece exatamente na mesma posição.
— Por que demoraram? — pergunta voltando a mexer no cabelo do namorado.
— Thais voltou pra pegar uma toalha e fazer sei lá mais o que — Austin responde encarando o pulso com uma careta.
— Onde está a Líli?
Me viro ao som da sua voz e encontro-o parado com um sorriso radiante. Max está vestindo apenas um calção azul e encharcado da cabeça aos pés.
— Ela foi trocar de roupa. Já deve estar vindo — tranquilizo-o sem conter um sorriso divertido.
— Então, nós vamos ficar aqui? Porque tem uma piscina incrível bem ali — Austin fala já se livrando da camiseta e dos chinelos.
— Nós vamos ficar aqui — Marian afirma enrugando o nariz. — Muito sol.
— Claro — Austin revira os olhos. — Você vem?
Demoro alguns segundos para perceber que ele está falando comigo. Seus olhos brilhantes fixos em mim.
— Sim.
Ele sorri e corre para a piscina antes que eu possa dizer qualquer outra coisa. Observo-o afundar na água e voltar a superfície com um sorriso satisfeito, como se esse momento compensasse tudo de ruim que aconteceu no dia. Ali, submerso, ele não parece o cara preocupado e mal-humorado de antes. Parece simplesmente feliz. Ou alegre.
Em uma das vezes que volta a superfície, ele acena na minha direção como se perguntasse o que eu ainda estou fazendo plantada aqui. Bem, não posso deixar de me perguntar a mesma coisa, levando em consideração que a dois segundos o que eu mais queria fazer era estar em um piscina.
Mas o mistério da minha hesitação não é de todo um mistério. Sei porque ainda não sucumbi a minha imensa vontade de estar submersa na água.
Meus olhos vagam da piscina para as pessoas ao redor. Muitas pessoas. Muitos garotos. Muitas garotas. Muitas pessoas que eu não conheço.
É como ir à praia. Está tudo bem.
Eu não gosto de ir a praia.
Eu sei.
Como?
Já disse. Eu te conheço tanto quanto você. Ou até mais.
Eu amo a ideia do mar, mas...
Não suporta plateia. Eu sei.
Suspiro irritada comigo mesma. Preciso parar de me privar das coisas que eu gosto por causa de inseguranças idiotas. Isso é um fato muito claro na minha cabeça. É algo que minha mãe repete para mim desde que eu era criança. Mas a ideia de ficar tão... assim na frente de tantas pessoas é incrivelmente desconfortável.
— Sabe, você não precisa ir se não quiser — Marian comenta parando o meu lado com um olhar solidário.
Ela segura os óculos firmemente nas mãos e percebo que enruga um pouco a testa. Sua expressão entrega que está desconfortável. Analiso a situação por alguns segundos e não demoro muito para perceber que a sombra do guarda-sol, agora afastada dela, lhe faz falta.
— O sol está quente — falo um pouco preocupada e ela apenas concorda incomodada. — Você devia voltar para a sombra.
— Eu vou — responde, mas continua me encarando. — Você não precisa fazer isso.
— O que? Estou falando sério, sei que os shadows são sensíveis a luz intensa e...
— Thais. — Ela levanta uma sobrancelha, a expressão completamente séria.
— Certo. — Suspiro revirando os olhos. Volto a olhar para a água brilhando sob a luz do sol. — Eu quero entrar.
— Eu sei, está estampado na sua cara — Marian diz sorrindo. — Você só não quer ficar... exposta.
Assinto e voltamos ao silêncio. Ela não volta para a sombra, permanece ao meu lado e percebo que está esperando para ver se precisa intervir de outra forma. Não sei como me sinto sabendo que ela consegue entender as situações tão facilmente ou, nesse caso, que me entendeu tão facilmente. É estranho alguém que eu acabei de conhecer demonstrar certa preocupação quanto a inseguranças bobas da minha cabeça.
Talvez as pessoas daqui sejam muito gentis. Ou as pessoas da Terra sejam indiferentes demais.
Seja como for, não vou perder a oportunidade — mais uma vez — de nadar. Dou um sorriso em agradecimento a shadow que retribui e, finalmente, volta para sua zona de conforto, se escondendo da luz do sol.
Deixo minhas roupas dobradas em um montinho próximo de Marian e Jack, esses que voltaram as suas posições de antes, e ando rapidamente para a beira da piscina ignorando completamente o rubor nas minhas bochechas e o sentimento de vergonha crescente no estômago.
Esse lado da piscina não está muito lotada o que me permite mergulhar facilmente. A sensação de prazer é instantânea. Cada membro, cada poro, cada célula do meu corpo parece suspirar em deleite. Não sei exatamente por quanto tempo permaneço submersa e também não me importo. É tão bom que o resto simplesmente parece insignificante.
A água fria alivia o calor intenso e me sinto grata por não estar mais suando. Só volto a superfície quando todo o meu corpo reduziu a temperatura em resposta ao novo ambiente. Respiro fundo esperando que meus pulmões estejam precisando e só então noto que em momento algum eles pediram por ar.
Encaro a água confusa e volto a submergir. Conto mentalmente, ciente que o máximo que já consegui ficar sem respirar foi um minuto e meio e, mesmo nesse dia, foi difícil chegar a marca. Quando atinjo dois minutos estou convencida de que algo está muito errado. Como posso não precisar de ar?
Você está respirando.
O que?
Preste atenção. Você está respirando.
Paro de contar e me foco no movimento do meu peito e na expansão dos meus pulmões. Eles realmente não queimam ou pedem por ar, apenas expandem como sempre e nada parece ter mudado.
Eu posso respirar debaixo da água?
Achei que fosse óbvio.
Volto a superfície rindo como uma criança no natal. A recém descoberta "habilidade" trazendo uma onda de felicidade tão grande que, por alguns minutos, me esqueço dos motivos de ter estado tão infeliz.
— Finalmente! Achei que ia ficar lá o dia todo — diz Austin se aproximando a largas braçadas. — Você está bem? Por que está sorrindo desse jeito?
— Eu posso respirar embaixo da água?
— Claro. Todos os sharks podem — ele responde como se fosse óbvio. — Você não sabia?
— Bem, não fazem nem vinte e quatro horas que eu sou uma shark e ninguém me contou sobre isso.
— Verdade — ele concorda rindo. Seus cabelos estão pingando e apontando para todas as direções.
Austin se apoia na beira da piscina ao meu lado e observa o arredor relaxado. É interessante como, mesmo tendo mergulhado várias vezes, o aroma de canela ainda está forte e tomando meus sentidos. Não sei se é perfume ou se de algum jeito esse é seu cheiro natural. De qualquer forma, não vou perguntar.
Olhando-o assim de perto, consigo ver todo o caminho da barba rala e também algumas pequenas espinhas perdidas pelo rosto.
— Você sabe nadar?
Ele se volta para mim animado e sinto minhas bochechas ficarem quentes por ter sido pega no flagra, mas ele não parece realmente se importar que eu estivesse encarando-o como uma maluca.
— Sou uma shark, não? — pergunto irônica.
— Sim, mas nem todos sabem nadar antes de chegar aqui.
— Eu sei.
— Que tal uma aposta? — ele pergunta ainda mais animado do que antes. Levanto um sobrancelha confusa. — Eu aposto que nado mais rápido que você.
— Claro que sim. — Reviro os olhos com um sorriso desafiador. — O primeiro a chegar do outro lado vence.
— Fechado.
Subimos de volta para o piso de azulejo e nos preparamos para pular. Coloco as duas mãos na borda e flexiono os joelhos como aprendi anos atrás.
— Um. Dois. Três... Já!
Assim que ele termina de falar, sinto a água entrar em contato com o meu corpo novamente. Depois do impulso dado pelo pulo, automaticamente meus braços começam a se mover para nadar no modo livre. Consigo perceber os movimentos de Austin ao meu lado, ele nada um pouco mais lento que eu me dando tempo de conseguir vantagem. Perto da outra extremidade da piscina, acelero um pouco até tocar a parede e levanto a cabeça seguida por Austin segundos depois.
— Uau — diz ele recuperando o fôlego. — Você nada bem. Natação?
— Desde os sete anos.
Ele sorri e se levanta sentando na borda. Eu permaneço dentro da água. Minha respiração está acelerada por causa do esforço físico, mas é interessante nadar sem meus pulmões ficarem pedindo por ar.
Quando estou pronta para mergulhar de novo, já com a respiração regulada, um estrondo interrompe as risadas e conversas. Por um momento o lugar é tomado por silêncio e então o chão começa a tremer. A água forma pequenas ondas em resposta ao tremor e os guarda-sóis balançam.
— Thais.
Olho para Austin, agora de pé, e seguro a mão que está me estendendo. Ele parece preocupado e assustado, como a maioria dos alunos ao nosso redor. Ele me joga uma toalha que eu não faço ideia de onde veio e começamos a andar na direção em que Marian e Jack estão. Por algum motivo a água não parece uma boa opção agora.
Não andamos nem metade do caminho quando algo irrompe do meio da piscina. A água se espalha para os lados e as pessoas se afastam as pressas. Demoro alguns segundos para notar que se trata de um globo. Ele sai da água e gira várias vezes sobre a superfície. Após alguns giros, raios começam a surgir a sua volta.
Estou estática encarando a coisa e tenho consciência de Austin às minhas costas, tão estupefato quanto eu. De repente minha visão é tomada por um clarão e só percebo que se trata de um raio quando Austin o desvia. Ele para na minha frente e me encara aterrorizado.
— Você está bem?!
Preciso fazer leitura labial para entender, porque meus ouvidos estão tomados por um barulho alto semelhante a estática.
— Como você...
— Metade elétrick, lembra? Você está bem? — ele insiste na pergunta preocupado e assinto voltando meus olhos para o que está acontecendo na piscina.
Os raios pararam, o que é bom, mas no lugar do globo agora existe uma coisa enorme e grotesca. Mais uma vez o silêncio reina, como se qualquer ruído fosse capaz de tornar toda a situação pior do que já é.
O que é essa coisa?
Não faço ideia.
Não sei se é por causa do meu conhecimento quase nulo sobre o mundo elementista ou pela estranheza da criatura, mas não consigo entender completamente do que se trata a situação. Veja bem, eu cheguei nesse lugar ontem e hoje coisas estão irrompendo de piscinas, quero dizer, como saber se isso é mesmo algo que inusitado e não uma coisa que acontece todos os dias?
Eles não parecem acostumados com isso.
Bem, seja como for, o... Visitante não é nem de longe algo que se vê por ai. Pelo menos na Terra não. Mas não estamos na Terra então... Nunca se sabe, não é mesmo?
O que posso dizer sobre a estranha criatura é que ela é grande. Tipo bem grande. Uns seis metros talvez. Lembra vagamente a forma humana se levarmos em conta os braços e pernas, mas o restante do corpo é simplesmente uma mistura de coisas que não dá exatamente para definir. O que se pode chamar de rosto, é totalmente deformado. Possui três olhos (grandes buracos negros), a boca desprovida de lábios parece apenas uma abertura em ângulo estranho, o nariz é achatado e está farejando como se não houvesse amanhã.
No entanto, tudo o que disse até agora não é nem de longe o mais estranho. O fato da sua pele parecer barro, ou lama, é bem mais perturbador. A criatura parece ser feita de terra, mas não só isso, algo brilhante está presente em todo o seu corpo.
— Santo Zeth! — Austin diz assustado.
— O que é essa coisa?
— Acho que você sabe a resposta — ele sussurra com um olhar aflito.
A julgar pelo seu olhar assustado, posso deduzir do que se trata a criatura. Ele esteve com a mesma expressão desde que Lílian lhe contou sobre as novidades. Sem dúvida sei o que está a nossa frente.
Max, no entanto, não parece ter tanta certeza. Observo com olhos arregalados enquanto o shark se aproxima do monstro com os olhos vidrados. A criatura permanece imóvel, mas posso jurar que acompanha o garoto com os olhos grotescos.
— Max! O que você está fazendo?! — Jack grita do outra lado da piscina.
Ele e Marian agora estão em pé, os óculos fora de vista, e tão assustados quanto o restante de nós.
Max parece não escutá-lo e continua seu caminho errante até o monstro. Um grito fica preso na minha garganta quando acompanho o movimento repentino do animal. Ele levanta a "mão" e atinge o garoto tão forte que ele voa sobre toda a área de espreguiçadeiras e atinge um trampolim com força o bastante para quebrá-lo ao meio. Ele não está se mexendo.
E você não está respirando.
Solto o ar pesadamente com o olhar ainda fixo em Max jogado no chão. Movimentos por parte do monstro chamam minha atenção. Ele está andando na direção de um grupo de alunos. A água que o circula agora está quase escura demais para se ver o fundo da piscina e todos os alunos estão do lado de fora.
O pequeno grupo que aparentemente é seu alvo, é formado por alunos mais novos que estão sendo protegidos por mais velhos. Ele não parece se importar com a "resistência". Sua boca se curva em um sorriso bizarro, então levanta a mão como fez antes, mas, dessa vez, ela se enche de raios formando um globo brilhante.
Ninguém tem tempo de reagir, ou talvez não saibam como reagir, antes de ele arremessar toda a carga sobre o grupo. Os alunos se encolhem esperando o ataque, mas este não acontece. Demoro vários segundos para perceber que pessoas estão invadindo a área da piscina. Professores!
— Saiam daqui! Vão para um lugar seguro! — grita o homem que conteve o ataque do monstro.
E então tudo se torna um caos. Consigo ver alguns dos professores que conheci mais cedo. Todos com semblantes preocupados e furiosos. Eles investem contra o monstro fazendo um cerco para que os alunos possam fugir. E é o que fazem. Bem, o que fazemos.
Austin agarra meu braço e me puxa na direção em que Max caiu. Jack e Marian se juntaram a nós em segundos. Jack joga o garoto inconsciente sobre o ombro e estende a mão para mim. Levando em conta minhas recentes experiências com shadows, tenho uma boa noção do que vão fazer, então não hesito. Assim que seguro sua mão, sombras nos envolvem e a sala de estar entra em meu campo de visão. Marian perde o equilíbrio novamente, mas dessa vez estou preparada e a seguro antes que caia.
Austin tira Max, ainda desacordado, do ombro de Jack e o coloca sentado em uma cadeira. Jack passa a mão na testa e parece cansado.
— Aquilo era... — começa Marian com a voz arrastada.
— Sim — responde Jack parecendo perturbado.
— Gente — Austin chama. Sua voz tem certa urgência e a expressão mais preocupada do que antes. — Temos que levá-lo para enfermaria. Agora.
A aparência de Max é horrível. A pele parece ter perdido a cor, está completamente imóvel e não tenho certeza se está respirando.
— Nós dois levamos ele. Você... — Jack aponta para Marian — Senta um pouco e descansa, usou poder demais hoje.
— Eu não sou criança Jack — ela reclama, mas a exaustão em sua voz deixa claro que ela não está em posição de discutir.
— Thais, se você puder...
— Não se preocupe, vou garantir que ela descanse — o tranquilizo.
— Obrigado — ele agradece com um pequeno sorriso. — Avisem a Líli e depois nos encontrem na enfermaria.
Marian anda até Max e parece checar os sinais vitais, que não parecem nada bons, a julgar pela sua expressão.
— Sejam rápidos. Ele precisa de ajuda.
— Vejo você mais tarde — Jack se despede e desaparece levando os outros dois.
— Ele não vai desmaiar por... Sabe, usar muito poder?
— Ele vai ficar cansado, mas não desmaiar. Ele é mais forte que eu quando o assunto é teletransporte — ela responde já subindo as escadas. — Vamos. É melhor que Líli saiba por nós duas.
Sigo-a de perto preparada caso ela volte a desmaiar. Enquanto andamos para o segundo andar, onde fica o quarto de Lílian, flashes dos momentos na piscina inundam minha mente. Não consigo apagar a visão do monstro atingindo Max e da imagem doentia dele deitado sob os destroços do trampolim.
Tudo serviu como um choque de realidade. A ficha parece ter caído. Pela primeira vez me dou conta que esse lugar, esse mundo, é muito mais perigoso do que imaginei. Sei que isso não deveria ser surpresa, já que o acidente que me enviou para cá foi causado por criaturas daqui, mas ver ao vivo é muito diferente de fazer parte da batalha indiretamente.
Aquilo foi real. Monstros existem e eu não sou nada perto daquela coisa. Seria morta em segundos se os professores não tivessem intervido. Finalmente entendo a tensão a cerca da conversa que presenciei mais cedo. O medo é muito real e proporcional a situação.
Mas, mesmo conhecendo pouco e de só ter começado a entender a ponta do iceberg, sei que o que acabou de acontecer torna tudo muito pior do que estava antes. Não se trata apenas de um relato de batalha em um lugar distante. Não se trata de um conversa confidencial que escutamos clandestinamente. Não. Agora fomos atacados em "casa". Agora, um Miton entrou em Wirdgewt.
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