Elementium - Volume 1 - A Ascensão
18 Demônios
Notas iniciais
"Olhe nos meus olhos
É onde meus demônios se escondem
É onde meus demônios se escondem
Não se aproxime muito
É escuro aqui dentro"
Frio. Não, essa palavra não chega as pés do que eu estou sentindo agora. É como se minha alma estivesse sendo retirada do meu corpo aos poucos. Não consigo abrir os olhos, não consigo me mexer, meu corpo parou de responder aos meus comandos e meu próprio cérebro parece estar cansado de resistir.
Tudo o que vejo é o vermelho em minhas pálpebras, é como se eu tivesse ficado muito tempo de ponta cabeça e meu sangue tivesse ido todo para o meu cérebro, tapando minha visão e causando uma dor de cabeça excruciante. Um turbilhão de pensamentos me atinge e percebo que estou a beira da inconsciência.
Um grito. Ou talvez não seja um grito. Se bem que pode ser e eu esteja escutando abafado. Também pode ser meu subconsciente me pregando peças ou até mesmo eu esteja gritando sem perceber. Não sei ao certo, mas escuto um grito ou qualquer barulho parecido com um que me desperta momentaneamente do estado de paralisia.
Sinto uma aproximação e meu sangue se agita, pelo menos o que ainda está circulando. Ouço vozes, ou talvez não sejam vozes e eu esteja apenas escutando o som da minha própria agonia.
Os barulhos semelhantes a vozes são indecifráveis, pois todos os meus sentidos estão bloqueados pela dor. Ah... claro, como pude esquece-la. A dor? Acho que eu e ela nos tornamos muito amigas enquanto estou morrendo lentamente. Estamos batendo um papo muito interessante a caminho do meu ultimo suspiro e devo dizer que ela não é nada gentil.
Primeiro, senti como se meus músculos estivessem sendo rasgados, pedacinho por pedacinho e por um momento era como se eu pudesse escutar o som da carne sendo separada. Depois, meu sangue, que acredito a esse ponto ser apenas um turista em minhas veias, a dor não foi nem de longe amigável enquanto o gelo o consumia vagarosamente. Quando atingiu minha cabeça, já não era mais tão difícil de saber meu destino.
E o coração? Ah sim, esse pobre coitado ainda está lutando fielmente ao lado do comandante cérebro, mas é uma questão de tempo até ser empalado pelas espadas gélidas que acabaram de derrubar as muralhas dos pulmões. Falando neles, acho que acabam de perder a batalha.
Me engasgo com a saliva. Ou sangue. Talvez com o próprio ar. Não tenho certeza. Meus pulmões ardem e clamam por oxigênio, mas minha boca nega esse favor. Maldita seja!
Tenho a impressão que meu nariz a muito foi arrancado do meu rosto, já que não consigo senti-lo mais. Porém, se eu for pensar por esse lado, estou sem todos os membros do meu corpo.
Ao meu redor é como se o tempo tivesse desacelerado e consigo sentir cada célula do meu corpo morrer.
“Pois é cérebro, parece que seus soldados morreram, talvez seja melhor se render de uma vez, você fez o possível.”
“Espere, o que é isso?” – responde meu querido comandante.
“Eu não sei. Talvez não tenha percebido, mas meus olhos pararam de funcionar a um tempo.”
“Cale a boca e preste atenção!” – quanta educação.
“Desde quando você manda em mim?”
“Desde que nasceu. São passos!” – muito bem, acho que estou loca por falar com meu cérebro.
“O que?”
“Se concentre na sua audição.” – que audição? Eu ainda tenho audição?
Faço o que meu cérebro manda e me concentro em escutar as coisas ao meu redor. Parece que ele está certo, realmente são passos. Também ouço alguns murmúrios e faço um esforço para conseguir entender.
– Ainda tem batimentos cardíacos, mas estão fracos. A parte Shark está morrendo. – é uma voz diferente, não consigo reconhece-la.
– Mas ela também tem sangue Fênix! – exclama uma voz parecendo desesperado e essa eu conheço: Austin.
– A parte Fênix? – a voz desconhecida da uma risada irônica – O garoto está com todo o calor, não sobrou nada no corpo dela.
Garoto? Como assim garoto?
“Sua anta, se esqueceu de como chegou a essa situação?” – cérebro intrometido.
“Fique quieto! Me lembrei.”
Como pude esquecer do garoto? É claro! Doando minha proteção para ele, o sangue Shark ficou desprotegido e agora estou morrendo por causa disso.
– Que tal vocês fazerem alguma coisa em vez de ficarem ai parados como estátuas? Ela está morrendo! – Marian. Essa é fácil de reconhecer.
– E o que sugere Mccain? – indaga o desconhecido.
– Sai da minha frente. Francamente, como pode ser um vice líder se nem sabe lidar com essas situações? – Marian parece indignada enquanto fala – Austin venha aqui. Preciso de uma faca.
Sinto algo quente tocar minhas costas, ou pelo menos acho que são minhas costas. Como disse antes, meus sentidos já largaram os betes.
– Não essa idiota! Quer matar ela de uma vez? – Marian diz com raiva – preciso da faca normal.
Não sei o que estão fazendo ou que ela pretende fazer, até porque não sinto parte alguma do meu corpo. Meu coração está mais lento que uma tartaruga e o ar mais escasso que água no deserto.
– O que você está fazendo? Ela não pode perder o resto de sangue que tem! – Austin fala novamente desesperado.
– Ela não vai. Você vai doar para ela. – Marian explica tentando parecer calma, mas o pânico em sua voz a entrega – Vamos Clark, me de sua mão, ela não tem muito tempo.
Escuto um rápido som de algo afiado, mas minha tentativa de compreensão é interrompida por um grito agudo que sai da minha garganta, levando consigo o resto de ar que eu tinha. Algo está em contato com uma das minhas mãos e a minha vontade é de arrancá-la.
– Por que ela está gritando? – Austin parece estar muito além do desespero.
– O que você queria? Praticamente todo o sangue dela foi congelado, estamos forçando poder para dentro dela e você quer que ela não sinta dor? – Marian diz irônica, mas apavorada – Flint, equilibre a parte Fênix pelo menos um pouco.
A dor sobe pelo que acredito ser meu braço e desliza pelo meu corpo. A ardência é tão intensa que não consigo aguentar. Minhas forças se esvaem por completo e meu coração finalmente aceita a derrota.
***
Certo, escuridão. Outra vez.
Bip......... Bip.......... Bip........
Que barulho é esse? Realmente está me incomodando. De onde essa porcaria está vindo?
Bip...... Bip....... Bip......
Meus olhos ardem. Por que estão ardendo tanto? Por que meu corpo parece estar entrando em combustão?
Bip... Bip... Bip... Biiiiiiiiiii....
– Ela está tendo mais uma parada cardíaca! – ouço um grito antes de voltar a inconsciência.
Silêncio. Ele cansa as vezes. A solidão que o acompanha não deixa nada melhor, assim como a escuridão. Tudo é sem sentido aqui. Mas onde é aqui? É quente, quase insuportável. Será que estou no inferno? Eu realmente morri?
– Diminua o calor. Ela ainda é uma Shark. – diz uma voz distante.
“Quem é você?”— quero perguntar, mas minha voz deixou de existir.
***
— Para papai! – dizia a garotinha em meio as risadas – eu preciso respirar!
– Deixe-a em paz Alequen. – diz a mulher, mas seus olhos brilham diante a cena.
O homem encara a esposa com os olhos verdes divertidos e apanha a garotinha da grama, colocando-a sobre seus ombros.
– O que acha de fazermos cosquinhas na mamãe? – pergunta para a menina.
– Cosquias. – responde a pequena jogando os braços pra cima, o pai sorri com a pronuncia errada.
– Ah não... Nem pense nisso Windchest! – exclama a mulher dando alguns passos para trás.
– Tudo bem. – ele diz fazendo um gesto de rendição e depois sorri maroto – Pequena Windchest...
A menininha da uma gargalhada e corre até a mãe quando se desvencilha dos braços do pai.
***
Vozes. Elas rasgam o silêncio de forma dolorosa.
Quero gritar para que parem de falar. A dor de cabeça é insuportável e o frio voltou. Ele me envolve de uma maneira quase surreal. A dor veio de companhia e se instala mais uma vez no meu corpo.
– A temperatura está abaixando! Rápido! Chame os médicos!
Mais um grito e novamente a escuridão volta. Acho que estou mais próxima dela agora.
***
“Não abra a porta, eles estão do lado de fora, te esperando.”— diz ela mais uma vez.
– Não! Mande eles embora! – a garota grita desesperado.
“Você os chamou, não me culpe.”
– Eu n-não chamei nin-guém. – a menina contesta tentando conter as lágrimas.
“Sua covardia os chamou. Você é fraca, eles gostam disso.”
– Eu não sou fraca! – tenta gritar, mas sua voz falha.
“ Tem razão, você é pior que isso.”
– Para! Vai embora! – pede em meio as lágrimas.
“Eles questão vindo. São tantos.”
– Não, não, não! – sua voz está trêmula.
“Sim... eles estão bravos sabia? Você não quer deixa-los entrar, isso os irrita”
– Vão embora! – a pequena grita tomada pelo pânico.
“Eles estão vindo... Estão vindo Thais...Eles querem você... Cuidado com a porta.”
– Não! Vão embora! – grita a garotinha aos prantos.
A porta se abre e os pais entram correndo desesperados. A menina se contorce sob os cobertores e grita apavorada.
– Lia! – o homem encara a esposa enquanto esta tenta desesperadamente ajudar a filha.
– Parem! Não me toquem! – grita a pequena.
– Filha! – a mulher segura a garota pelos ombros, mas ela a empurra para longe chorando – Thais! Filha se acalme!
– Se afastem! – grita a menina com medo – Socorro! Vão embora!
O homem fica estático ao lado da cama, sem saber o que fazer. As lágrimas no rosto da filha o apavoram, ele quer poder destruir o que está a assustando, mas não pode fazer nada. Se sente impotente.
– Filha, por favor, acorde! – pede a mulher.
Alequen olha para a esposa e vê seu rosto tomado pelas lágrimas. As duas pessoas mais importantes de sua vida sofrendo. Ele vai em direção a garotinha que continua a se contorcer e a abraça.
– Não! – ela grita e finalmente acorda fugindo dos braços do pai e se encolhendo.
– Querida. – Lia tenta tocá-la, mas a garota se esquiva assustada – Thais... filha, é a mamãe.
A pequena levanta a cabeça com a menção da palavra e encara a mulher por alguns segundos antes de se grudar no pescoço da mãe.
– Mamãe.- choraminga a menina enterrando o rosto no pescoço de Lia.
– O que aconteceu meu amor? – pergunta a mulher preocupada com o estado da filha.
A pequena não responde, apenas aperta mais o abraço e chora. Lia segura a garota mais forte, como se tivesse medo de perdê-la e acaricia os cabelos ruivos tão parecidos com os seus. Enquanto a menina de acalma, os pais trocam olhares preocupados em ralação ao acidente, que eles nem imaginam que virá a ser parte de sua rotina.
***
Bip........ Bip....... Bip........
Ótimo, essa droga voltou. Não basta toda essa falação? Por que diabos eu não consigo me mexer? Vai ser assim pela eternidade?
Espera... o que é isso? Por que minha mão está formigando? Fala sério corpo! Se decida! Não dá pra ter mil reações ao mesmo tempo!
– Os sentidos estão voltando, ela está começando a responder aos estímulos. – diz aquela voz novamente, sei que é um homem, mas não faço ideia de quem seja – É melhor que ela continue dormindo por enquanto, vai ser doloroso demais se ela acordar agora.
Sinto algo pinicar meu braço direito e sou tomada pela inconsciência mais uma vez.
***
– Estou com frio papai. – fala a garota se encolhendo no banco de trás.
– Aqui, pegue meu casaco. – diz o homem lhe entregando o agasalho – Sua mãe falou para pegar uma jaqueta.
– Eu esqueci. – ela responde se afundando no casaco quentinho.
– O que acha de irmos buscar a senhora-amo-trabalhar-e-esqueço-que-tenho-família? – o pai pergunta fazendo a pequena rir.
– Vamos. – responde alegre.
– Beleza, mas entra e pega um casaco primeiro. – diz ele estacionando em frente ao portão.
A menina assente e desce do carro. Corre até a porta e pega as chaves. Assim que coloca a mão da maçaneta se lembra das palavras tão temidas: “Eles estão atrás da porta... cuidado com a porta.” Ela se afasta em um sobressalto e perde o equilíbrio caindo sentada na calçada. Encara a porta a sua frente e vê apenas a escuridão através do vidro.
“Abra a porta Thais... pare de ser tão fraca!”
Escuta a voz detestável em sua cabeça e as lágrimas começam a tomar conta de seus olhos.
“Abra!”
A menina se afasta ainda sentada no chão e abraça os joelhos trazendo-os de encontro ao peito. As lágrimas escorrem e ela treme levemente se lembrando dos pesadelos.
Alequen está distraído conversando com a esposa no celular e não percebe as ações da filha.
– Daqui a pouco estamos ai. – fala o homem e sorri com a resposta de Lia – Claro, comida Italiana... Sim, ela está bem, foi pegar uma...
Ele se interrompe ao olhar na direção da casa e perceber a pequena figura sentada na calçada em posição fetal.
“ – Alequen?”
– Lia, eu preciso ir, te vejo daqui a pouco. – responde quase arrebentando o cinto de segurança – Lia, por favor, eu preciso desligar... Tchau.
Joga o celular no banco do passageiro e sai correndo do carro, sem se importar de ter deixado a chave, a carteira e tudo o resto, só o que consegue ver é sua filha encolhida e tremendo.
Atravessa o jardim em uma velocidade tremenda e chega até a menina, tomando-a nos braços. Ela se assusta com a aproximação, mas se agarra nele ao reconhece-lo. Ele percebe que ela está chorando e parece desesperada.
– Filha? – ele fica assustado com a reação dela – Thais o que foi?
Ele não recebe resposta, a pequena apenas enterra mais o rosto em seu peito e o segura como se quisesse ter certeza que ele é real.
– Minha filha... Por favor, me diga o que aconteceu. – ele pede.
– Estou com medo papai. – ela sussurra e sua voz está trêmula – Não me solta.
Ele não entende o que está causando o pânico da filha, mas ao olhar nos pequenos olhos verdes, escuros devido ao medo, apenas consegue apertá-la mais forte para confirmar sua promessa.
– Jamais pequena.
***
Por que seres humanos são tão detestáveis?
O que leva uma pessoa decente a abrir o olho da outra e enfiar a porcaria de um luz nele? Eu não sei a resposta, mas quero matar o individuo.
Estou começando a sentir falta da solidão. Ela era quieta e sossegada, sem todas essas vozes infernais ao meu redor. Sem esse maldito “Bip”, afinal, que diabos é isso? E com toda a certeza, sem essa luz demoníaca nos meus olhos.
– Ela está reagindo a luz. – diz o mesmo homem de sempre – Não falta muito para ela acordar, vamos deixa-la dormir mais um pouco.
Dormir? Como posso estar dormindo se consigo sentir e ouvir tudo ao meu redor? Será que estou sonhando?
***
– Pare de fingir que está tudo bem, Alequen. – fala a mulher exasperada.
– Então pare de falar desse assunto. – retruca o homem – ela não vai e ponto final.
A pequena ruiva se encolhe no degrau da escada onde está sentada enquanto escuta os pais discutirem. Ela sabe que os dois estão estressados e cansados por terem que acordar de madrugado por causa de seus gritos. Ela nunca tinha os visto discutir e seu coração se aperta.
– Ela não está bem! Como pode negar isso a ela? – pergunta Lia indignada com a atitude do marido.
– Porque ela não precisa de um médico! – o homem responde tomado pelo desespero, não quer discutir com ela – Pare de enfrentar isso com um problema médico! Ela é sua filha e não sua paciente! Por acaso acha que ela é louca?
– É claro que não! Estou preocupada! Eu nunca, em toda a minha carreira ouvi alguém dizer que uma criança sofrr desse jeito por causa de pesadelos Alequen! – argumenta a esposa em pânico – Isso não é normal, não é um medo de bicho papão em baixo da cama ou medo do escuro! Ela está sofrendo!
– Acha que eu não sei? – ele pergunta, agora em um tom baixo, reparando no medo escondido nas íris castanhas da mulher – Lia, ela não precisa de um psiquiatra, eu não sei o que ela tem, mas isso só vai piorar as coisas. Se ela tem medo de falar disso conosco, acha que ela tocará no assunto com outra pessoa?
– Eu não sei, mas não aguento mais vê-la chorando daquela forma ou gritando por socorro. – algumas lágrimas escapam de seus olhos e o marido a abraça – Eu não sei mais o que fazer.
A pequena escuta os soluços da mãe e segura os próprios. Ela nunca quis deixar os pais infelizes. As lágrimas escorrem por suas bochechas enquanto escuta o choro da mãe.
– Vamos ficar bem. Todos nós. – Alequen abraça mais forte o corpo da esposa.
– Vou ver se está tudo bem com ela. – Lia limpa o rosto e sai a passos lentos da cozinha.
A garotinha corre para o quarto e se senta encolhida debaixo dos cobertores, tentando rapidamente secar os olhos. Escuta os passos da mãe na escada e logo a porta se abre, revelando os cabelos ruivos da mulher.
– Filha? – Lia encara o montinho de coberta e segue em sua direção encontrando os olhos da menina – ainda está acordada meu amor.
A pequena não responde, apenas abraça a mãe o mais forte que consegue. Lia retribui o abraço, já está acostumada a não perguntar o motivo, só fornece a segurança que a garota precisa.
– Está na hora de dormir filha, amanhã você... – começa a falar depois de alguns minutos, mas é interrompida.
– Eu sou louca mamãe? – escuta a voz tristonha e abafada da menina.
– O que? – pergunta com a voz falhando.
A resposta não vem, mas sente lagrimas molharem seu pescoço e aperta mais a pequena. Seus próprios olhos ardem. Devia ter imaginado que a filha tinha escutado toda a conversa de poucos minutos atrás.
– Thais... Por que você está me perguntando isso? – novamente espera pela resposta que vem sussurrada.
– Você acha que eu sou. – a menina responde com um soluço.
Lia fecha os olhos com força. Mas o que ela enfiou na cabeça da filha? As lágrimas da garotinha escorrem com velocidade no rosto pequeno.
– Eu não acho e nunca vou achar que você é louca meu amor. – ela escuta outro soluço e as pequenas mãos se apertam em sua blusa – Em momento algum pense que eu acho isso de você. Entendeu?
A pequena assente levemente com a cabeça abraçando mais forte ainda a mãe. Mas sem a mulher saber, já tinha alimentado mais um pesadelo da menina e a voz detestável já começava a incomodá-la.
“Não acredite em tudo que sua mãe diz. Você é louca.”
***
Um gatilho. Sim, o grito funciona como um gatilho fazendo meu corpo finalmente despertar por completo. Antes que eu possa pensar, meus olhos abrem alarmados e me sento rapidamente, mas me inclino demais para a esquerda e caio da beira do que penso ser uma cama.
Encaro o chão esperando o impacto, mas braços rodeiam minha cintura me puxando para cima. Uma onda de frio percorre minha coluna e me encolho.
– Desculpe. – uma voz fala ao meu lado e a reconheço quase de imediato – Finalmente você acordou! Como se sente?
Observo os olhos castanhos que perecem cansados. Seus cabelos parecem um ninho de rato e alguns curativos enfeitam seu rosto. Olho em volta e reconheço o quarto de hospital, mas agora ele está surpreendente quente. As persianas estão fechadas e o único som presente é do monitor cardíaco.
“Então é daí que estão vindo os ‘Bips’.”
Foco novamente em Austin e ele ainda espera uma resposta. De repente tudo atinge minha mente como um tiro de canhão. A excursão, a marca no gelo, o sinal de luz, a voz fraca, o garoto e a dor. Mas o que aconteceu depois?
Meu cérebro procura desesperadamente por resposta, estas que não existem em minha memória. Só me lembro de dor, dor e mais dor. Depois tudo parece ter sido um sonho. E lembranças, dolorosas lembranças. Um desespero toma conta de mim quando não encontro a principal resposta.
– Cadê o garoto?! – praticamente grito.
Minha garganta arde quando falo, me fazendo forçar as palavras para fora. Austin se assusta e me encara incrédulo. Quando não desvio o olhar, ele suspira e revira os olhos.
– Não acredito que está me perguntando isso depois de três dias apagada. – resmunga e sua voz demonstra irritação.
– Como não perguntaria? – indago confusa – Onde está o garoto?
– Ele está bem. Internado, mas fora de risco, acordou ontem. – responde ainda bravo.
– O que foi Austin? Por que está bravo? – pergunto incomodada com seu tom de voz.
Ele me encara, mas desvia o olhar quando encontra o meu. Sua reação me deixa confusa e estra confusa me deixa irritada. Porque ele esta agindo como se eu o tivesse ofendido?
– Responda! – peço impaciente.
– Você... Por que você tinha que... – ele não termina a frase e isso não contribui para o meu humor.
– Se você puder dar uma resposta decente eu agradeço. – minha paciência está no limite, não gosto de enrolação.
Ele me olha e novamente desvia ao encontrar meus olhos. Vaga o olhar pelo cômodo todo, mas me evita. Leva a mão até os cabelos, bagunçando-os ainda mais, se for possível.
– Austin! – elevo um pouco minha voz e o ar passa raspando em minha garganta.
– Por que você tinha que fazer aquilo? – sua voz é baixa, quase um sussurro e demoro alguns segundos para entender.
– O que queria que eu fizesse? – indago confusa – Eu não podia deixar o garoto morrer.
– Você podia ter morrido! – ele me encara com intensidade, não consigo decifrar o que está em seus olhos.
– Era eu ou ele, eu apenas escolhi. – retruco sentindo a raiva novamente.
Por que diabos ele está tentando me dar um sermão?
– Podia ter feito uma escolha mais inteligente. – rebate irritado.
– Como o que? Deixar uma criança morrer? Não, obrigado, prefiro que eu morra. – digo incrédula com suas palavras.
– Por que não tenta proteger a própria vida? – sua voz se eleva.
– Por que se importa? – grito exasperada.
– Porque... Porque eu... – se interrompe, sua voz está baixa agora – Existem pessoas que se preocupam com você.
– Não consigo pensar em ninguém. – falo franzindo a testa – Queira me lembrar, a quem se refere?
Ele se cala e novamente passa as mãos pelo cabelo. Parece estar nervoso e pela primeira vez me ocorre que, talvez, ele tenha mesmo se importado com o acontecido. Afinal que estava me esperando acordar (eu acho), era ele. Quando finalmente parece encontrar uma resposta é interrompido pelo barulho da porta.
– Eu vou te matar! – Lilian entra quase trazendo a porta junto e me envolve em um abraço de urso – Como ousa quase nos abandonar?!
Ela me aperta mais forte e uma dor aguda sobe pela minha espinha, me fazendo soltar um grunhido. Meus olhos lacrimejam e meus pulmões protestam.
– Lilian, ela não está cem por cento, vai machuca-la! – escuto Marian alertar a amiga alarmada.
Lili se afasta imediatamente e os infelizes dos meus músculos não reagem bem ao afastamento, perco o equilíbrio por estar de joelhos e novamente sou segurada.
– Não. Dessa vez você não vou te deixar ir de novo. – Marian diz com a voz trêmula, sinto algo pinicar meu braço e um calor toma conta do meu corpo – Não me assuste assim de novo.
Ela me abraça e só quando se afasta percebo a agulha em minha veia. Um líquido laranja está sendo injetado, fazendo minhas veias ficarem avermelhadas.
– Isso é...
– Sim, “essência” Fênix. – Mari responde antes que eu complete a frase – Foi usada no seu tratamento.
Encaro-a e só então as lembranças voltam. Ela, Austin e outro garoto me acharam. Ela pediu uma faca, mas por que?
Observo a mão direita de Austin e meus olhos fixam na faixa que a circula. Olho para minha própria mão e encontro o mesmo curativo.
– Vocês dois me encontraram, certo? – pergunto apontando para Marian e Austin, eles assentem – O que exatamente aconteceu?
Austin me encarou por alguns segundos com uma expressão triste, depois voltou a encarar o chão. Mari, ao perceber o silêncio dele responde:
– O garoto que você encontrou, não era um garoto qualquer. Ele é um Shark, o que estava fazendo lá? Ótima pergunta não? Acontece que não fazemos ideia. Bem, quando você o abraçou, automaticamente o corpo dele começou roubar calor, desiquilibrando seu poder. – ela respira antes de continuar – Quando se é um Crondrow, uma parte precisa da outra para sobreviver. Assim que sua metade Fênix sumiu, a Shark ficou perdida e vulnerável ao gelo...
– Seu sangue foi congelado. – Austin diz extremamente baixo.
– Isso. – Mari concorda olhando-o com pena – Seus órgãos foram parando aos poucos e quando te encontramos, suas batimentos cardíacos estavam quase parando. Você se lembra de alguma coisa?
– Dor. – respondo de imediato – Apenas dor.
Marian assente e anda até mim, retirando a agulha da minha veia.
– Você estava quase morta. O que restava de Shark no seu corpo seriam facilmente drenadas. – Mari conta – Por segundos não chegamos tarde demais.
Eu apenas escuto, me lembrando de todas as sensações de se estar morrendo. Um calafrio percorre meu corpo ao me lembrar dos efeitos do gelo.
– Você teve cinco paradas cardíacas ao todo. – Austin fala ainda encarando o chão — Uma lá e quatro aqui.
– Quando seu corpo não reagiu a nada, eles pensaram em te transformar em humana de novo. – a voz de Lilian sai baixa e hesitante – Ficamos com medo que o como fosse irreversível.
Durante o relato, apenas assinto tentando imaginar tudo. Coma... Eu estava em coma. Ao ver as expressões deles, morrer me parece egoísta, eles se importam.
– Por que precisou de uma faca Mari? – pergunto me lembrando desse detalhe.
– Precisávamos tirar o gelo do seu sangue, mas também não podíamos deixar a parte Shark morrer por completo. Eu fiz uma transfusão. – ela responde e indica Austin com a cabeça – Sangue Shark com sangue Shark, mas isso foi arriscado e não sabemos quais podem ser as consequências.
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