Elementium - Volume 1 - A Ascensão
27 Mente Vazia
Notas iniciais
Sabe quando sente sua cabeça tão pesada que tem aquela impressão que está carregando o peso do mundo todo e ai de repente tudo isso some deixando aquela leveza que você já estava desacostumado a sentir? É exatamente essa sensação que sinto agora. E por incrível que pareça, não é uma coisa boa.
Nos últimos dois dias eu tenho pensado sobre o que vem acontecendo com pessoas que se tornaram importantes pra mim. Mais importantes do que eu imaginava que elas se tornariam e o pior é que isso aconteceu sem eu me dar conta. Em um momento eu fazia parte disso, o mundo se tornou uma bagunça, minha vida não era o que eu imaginava e eu não era o que sempre acreditei ser.
Mas você sabe disso. Você está acompanhando isso, então deve estar se perguntando o porque de eu estar repetindo tudo. Bem, eu explico, fazem dois dias que minha mente está silenciosa.
Espere, não se exalte, não enrugue sua testa e me olhe estranho. Está pensando por que isso é um problema? Eu sei que está, eu mesma me questionei isso no momento em que considerei esse detalhe estranho. Mas a questão é, me acostumei com a voz dela na minha cabeça e se sabe de quem eu estou falando entende que para ela calar a boca estamos em uma situação séria.
Se você se perdeu na história, vamos recapitular. Eu descobri que meus poderes recém descobertos estão sendo drenados por alguém através de um pedaço de papel inútil que eu tive contato algum tempo atrás. Além de mim, mais algumas pessoas estão passando pela mesma coisa. Houve uma tentativa de assassinato e um maluco mascarado está colocando o terror em várias pessoas. E claro, não podemos esquecer-nos dos monstros pré-históricos dando início a um apocalipse.
Agora, nesse momento seria perfeito para uma certa voz entrar com um comentário sarcástico e sem graça para eu poder mandá-la calar a boca como em qualquer outra situação. Mas como dito antes, ela não se manifestou sobre nada nos últimos dois dias e eu nunca pensei que ficaria preocupada por minha mente não ter uma segunda pessoa conversando comigo.
– Você ta fazendo aquilo de novo.
– Não. – respondo com a mesma voz automática dos últimos dias, ela arqueia uma sobrancelha – Eu não estou fazendo nada.
– Exatamente. – suspiro desviando os olhos e sei que esse comportamento vem irritando-a – Você está apática.
Encaro o chão em busca de respostas como se o piso branco pudesse conter todos os segredos que ainda não conheço. Isso está ficando cada vez pior e só se passaram dois dias. Você deve estar se perguntando sobre o plano. Aquele plano de esperarmos e vê o que acontece. Bem, ele era uma merda.
Os dois últimos dias foram tranquilos como esperávamos? Não, eles foram corridos e uma porcaria total. Por quê? Eu alaguei meu quarto três vezes, Austin decidiu que deveria se esconder de tudo e de todos, sendo assim não o vejo desde segunda. Blake evita o assunto sempre que pode e quando ele vem a tona foge como se sua vida dependesse disso. Lira finge que está tudo bem e que não sabe de nada do que está acontecendo.
Milena? Voltou. Ajudou de alguma forma? Não, ela não falou com ninguém desde que chegou, é como se soubesse que tudo está desmoronando e não quer segurar os escombros conosco. Quem pode culpá-la?
Se conseguimos esconder de todos? Eu nunca fui uma boa mentirosa. Talvez porque nunca me ensinaram a ser. Por esse motivo estou sendo confrontada pela décima vez por uma shadow nada satisfeita.
Seria uma ótima hora para você me dar uma ideia de como resolver isso. O que acha?
– Olha, eu não vou mais perguntar o porque de você ficar encarando o nada com essa expressão perdida, não vou perguntar porque o Austin sumiu ou porque você está agindo como se alguém tivesse morrido. Não só você... – ela sussurra a última frase e suspira, faço menção de responder, mas ela me impede – Não precisa, sei que não quer responder por isso vai inventar uma desculpa que eu vou fingir que acredito. Não precisamos repetir isso todos os dias.
Não consigo reprimir o sorriso mínimo que ela retribui. Essa é uma das coisas mais legais de Marian McCain, ela pode estar muito brava com você, mas não vai virar as costas simplesmente porque tem medo que as coisas piorem.
– Anda, levanta daí. – é a minha vez de arquear uma sobrancelha, ela meche as mãos inquieta – Temos aula de combate.
Certo. Aquela aula. Pensou que ela já tinha passado? Pois é, não passou. Ela está bem na minha cara e não faço ideia de como me livrar dela. Talvez eu não devesse estar tão preocupada, quero dizer, em comparação a Blake ou Austin, sou uma das que menos teve sintomas até agora o que até me faz agradecer o tempo no hospital. Mas não consigo abandonar a sensação de que tudo pode dar errado hoje.
Por que está tão quieta?
– Você quer que eu faça você levantar? – o tom brincalhão em sua voz só faz com que eu me sinta pior ainda por estar mentindo sobre tudo. Ela se importa.
Levanto o corpo ainda sentindo aquela leveza estranha sobre a cabeça. É como se ela estivesse vazia, o que não faz sentido considerando todo o nervosismo dos últimos dias. Meus pés se movem para fora do refeitório de forma automática, é como se eu não estivesse vendo nada de verdade, ou ouvindo. Entorpecida. Essa palavra define bem o sentimento.
Ao adentrar o corredor C tenho a impressão de ver um vulto de roupas pretas saindo apressado do corredor. Se eu ainda estou com medo daquele cara? Não, eu só consigo sentir raiva. Se vou correr atrás para descobrir quem era como já fiz antes? Não, no momento eu realmente não me importo.
É incrível como uma roupa diferente, um penteado diferente e uma expressão feliz podem esconder uma tempestade. A imagem que estou encarando no espelho não é nem de longe o que eu imaginava ser, ou o que eu era na semana passada e o que eu sou agora. A garota que me encara de volta parece determinada e feliz. Mas dentro de mim eu sinto o caos tomar conta e todo o meu controle se esvaindo aos poucos.
Onde você está?
O uniforme de combate é uma replica da farda usada pelos soldados Shark e eu realmente não sei como me sinto encarando o fato de que, supondo que toda essa bagunça seja resolvida, eu vou ser um soldado. Talvez não seja tão ruim considerando que salvamos vidas todos os dias. Ou será pior do que eu imagino.
Eu preciso de você.
– Você já terminou de se admirar? Podemos ir? – sua voz me assusta, me arrancando dos meus pensamentos, dirijo-lhe um sorriso sem humor – O que? Você não terminou? Desculpe.
– Idiota. – sorrio seguindo-a porta a fora.
Os corredores movimentados passam depressa como se eu estivesse correndo e novamente tudo é muito automático. Não lembro do que falamos durante o caminho, nem mesmo sei se conversamos ou ficamos quietas. Cada passo na direção da porta da sala de treino meu corpo parece ficar mais pesado. Tenho medo de entrar em pânico antes de conseguir passar pela porta.
– Relaxa. – sua voz calma perece não ter efeito algum sobre meu nervosismo – Acho que vai gostar de hoje.
– Por quê? O que tem hoje? – pergunto assustada, seu sorriso se alarga.
– Algo interessante. – encaro-a com uma expressão séria recebendo apenas um sorriso brincalhão.
– Sabe o que mais é interessante? – ela arqueia as sobrancelhas ainda sorrindo – Por que você não está com o Jack? Não o vi hoje.
Seu sorriso desaparece por completo e m arrependo no mesmo instante. Eu não parei para pensar que o possível motivo de não tê-la visto com o namorado hoje possa ser algo que a esteja magoando. Desvia o olhar para o chão e resmunga algo incompreensível. Segue até aporta abrindo-a e sei que não devo perguntar mais nada.
– Temos aula. – ela indica a porta com a cabeça.
Engulo em seco sentindo todo meu corpo ficar frio. Dou passos lentos até a sala até que não tem mais como recuar, adentro o lugar quase caindo para trás no mesmo momento. Se estiver pensando que é por causa do nervosismo, está enganado, eu ainda não cheguei a esse ponto.
Veja, não importa o quanto eu esteja entorpecida ainda vou ter um ataque cardíaco se vir uma sombra gigante passando sobre a minha cabeça. Não entendeu? Eu explico. Assim que meus pés se fixam no chão da sala de treinamento, uma sombra enorme passa aparentemente voando sobre a minha cabeça e considerando que eu não bebi ou usei drogas, eu acredito não estar tendo uma ilusão.
Agora, você pode pensar que eu lidei normalmente com isso, quer dizer, foi o susto do momento, mas eu deveria estar acostumada a ver coisas estranhas por aqui, então devo ter apenas me recuperado e continuado meu caminho como se nada tivesse acontecido. Se você deduziu isso, está completamente errado. Desde o dia em que cheguei, eu nunca gritei tanto.
Isso mesmo, gritei igual uma criancinha. Mas devo dizer que a cena posterior a isso, essa que estou encarando agora, faz menos sentido ainda. A sombra pousa na minha frente, lembre-se que eu ainda estou gritando, eu devia parar, mas hoje não tem ninguém aqui para colocar bom senso na minha cabeça. Enfim, a coisa pousa na minha frente e olhos amarelos me encaram.
– Droga!
Alguém em algum lugar grita mais alto que eu e então ouço um baque surdo seguido de um gemido de dor. Lembra quando que disse que meus olhos não conseguem assimilar muito bem essa cena? Pois bem, uma cabeça muito conhecida aparece acima dos olhos amarelos me encarando de uma forma nada feliz enquanto esfrega o nariz.
– Eu te odeio.
Não sei em que momento parei de gritar, mas agora estou apenas com a boca escancarada fitando a garota e a criatura a minha frente. Sim, eu disse criatura, é um animal. Um cachorro para ser mais especifica. Um cachorro de no mínimo dez metros sendo montado por uma adolescente. Um cachorro gigante me encarando.
É hora de você aparecer e me fazer parar.
– Acha que ela vai voltar a falar hoje? – ouço a voz de Marian as minhas costas, mas ainda encaro a outra Shadow.
– Acho que sim. – ela esfrega novamente o nariz e sobrevoa o animal, pousando a minha frente, não consigo evitar recuar um passo – Qual é Windchest, eu não vou te matar.
Alterno o olhar entre ela e o cão que ainda me encara curioso me fazendo recordar memórias não muito boas. Sinto uma mão sobre o meu ombro e olha-a diretamente, o rosto avermelhado possivelmente pela queda. Lentamente ela exibe um sorriso talvez tentando me acalmar.
– O que... que... – por mais que eu tente, não consigo formular uma frase completa e eu só quero poder gritar “que merda é essa”, mas as palavras simplesmente não vêm.
– Olha, se acalma. – ela suspira provavelmente por minha expressão ainda transparecer pânico – Eu sei que isso parece loucura, mas você já sabia sobre eles.
– Eles? O que? – sabe aquele restinho de autocontrole? Estou perdendo ele.
– Os Moribus. – ela responde como se fosse óbvio, sinto minha testa enrugar e desvio os olhos rapidamente para o animal de olhos amarelos – Eu sei que o Blake te explicou.
– Mas... – ele continua me encarando, os olhos amarelos parecem confusos – É um cachorro?
– Sim. – ela gargalha e olha para o animal – Ora, vamos, não seja ranzinza, é a primeira vez que ela está tendo contato com um Moribus.
De alguma forma o cão parece entender todas as palavras e se fosse possível estaria exibindo uma expressão de deboche. Ela sorri mais uma vez e me encara novamente.
– Ele não gosta muito de ser chamado de cachorro, é muito sensível sabe. – um latido indignado corta o ar e ela solta outra gargalhada – Venha até aqui. – o cão parece ignorá-la – Vamos rapaz, posso jogar bola com você depois.
Você já viu um cachorro franzir a testa? Eu nunca, nem sabia que era possível, mas é o que ele faz parecendo extremamente ofendido.
– Santo Bush, não estou te chamando de nada. – ela suspira e o encara – Ta me envergonhando. – ele coça uma orelha com uma das patas enormes – Ah! Você não liga. Então ta, sem biscoitos hoje.
O cachorro para imediatamente e observa-a. Milena continua encarando-o aparentemente o desafiando. Segundos se passam até que ele resolve dar passos lentos até nós. Meu corpo se retrai, mas a Shadow não permite que eu me afaste. A enorme criatura deita-se na minha frente, deixando a cabeça apoiada nas patas, me olhando de perto. Sinto sua respiração quente contra meu rosto.
– Thais, esse é o Rox, meu Moribus. – Milena acaricia o cão atrás da orelha e o mesmo fecha os olhos como se estivesse pronto para uma soneca – Bem, ele já te conhece então acho que não precisa da outra parte.
– Como... Como ele me conhece? – ela sorri e aponta para a própria cabeça em reposta – Claro.
Volto a observar Rox, não consigo dizer exatamente sua raça mas acredito que seja um Labrador. O pelo negro lustroso e aparentemente macio, a calda balançando em resposta ao carinho da dona, ele parece uma grande sombra negra. Uma sombra. Era ele. Imagens do dia em que Milena foi para o hospital invadem minha mente. Como não percebi antes, ele era o animal deitado sobre o chão naquele dia.
Analisando-o de perto percebo as pequenas falhas no pelo próximo as orelhas. As patas também contêm alguns machucados, mas o que me chama atenção é um grande risco na lateral da barriga.
– Ele ainda está um pouco machucado. – desvio meu olhar para a Shadow, ela parece triste olhando-o, quase com dor – Foi um corte e tanto. –leva uma mão ao machucado passando-a levemente sobre a marca, um ganido doloroso é ouvido, ela retira a mão rapidamente encostando o rosto na orelha de Rox – Desculpe.
Observo o corte novamente. Longo e recente. Sem que eu permita, meus olhos caem para o abdome de Milena me lembrando do dia em que falei com ela após o julgamento de Lira. Volto a focar seu rosto ainda encostado no animal.
– Como você foi ferida? – não percebo que falei alto até que ela levanta rosto e me encara confusa.
– O que quer dizer?
– Você não foi atacada naquele dia. Rox foi. – o cão abre um olho quando seu nome é mencionado, mas volta a apreciar o carinho em sua orelha, Milena assente – Então como você estava sangrando no dia do julgamento?
Ela me encara por alguns segundos e não sei exatamente o que está pensando. Seu olhar parece duvidoso, mas não sei sobre o que ela tem dúvida, é quase um olhar incrédulo.
– Ele não te explicou tudo, não é?
– Tudo o que? – franzo a testa mais confusa ainda, ela suspira e resmunga alguma coisa inaudível.
– Nossa ligação com eles, a forma como nossas mentes são unidas, como se fosse algo físico. – continuo encarando-a e ela se meche impaciente – Tudo o que eles sentem, nós sentimos e vice-versa.
– Tudo?
– Tudo, desde um pequeno hematoma até... – ela encara o a barriga do cão e suspira – um corte profundo.
– Mas... – tento sair do estado de latência e formular uma pergunta decente – Você estava sangrando também, então, você não só sentiu, foi...
– Fui cortada. – ela completa a frase assentindo – Sim, o corte foi profundo o bastante para me atingir.
A princípio estou pronta para receber um sorriso me dizendo que tudo não passa de uma pegadinha, mas o ar sério com que ela fala e a expressão descontraída de Marian concordando com cada palavra me fazem cair na real.
“Estou sentindo”.
Foram essas as palavras dela naquele dia. Eu estava com dor e ela estava sentindo.
“O que eu sou?”.
Eu não sei o que você é, preciso que me diga. Por que está tão quieta? Preciso da sua ajuda. Me disse que eu poderia te pedir ajuda, mas onde está agora?
“Junte as peças”.
Você não está me dando as peças. Tudo bem, talvez eu seja lenta demais, mas se você resolver sumir até eu me dar conta das coisas não vai adiantar de nada. Quero entender quem você é, por que não me contou?
“Você não acreditaria.”
Certo, sou culpada por ser uma idiota quando se trata de coisas impossíveis, mas não desista de mim. Diga alguma coisa, não me deixe sozinha com tudo isso.
“Você não está sozinha...”
Agora entendo que não, me desculpe por ter te rejeitado desde o começo quando a única coisa que queria era me ajudar e ser aceita. Eu sinto muito.
“...Ele vai matar nós duas se não me permitir ajudá-la.”
Estou permitindo agora. Me ajude. Fale comigo, eu quero te conhecer.
Meu corpo gela quando memórias do dia no Alasca me encontram, trazendo compreensão com elas. Por que não parei para escutá-la? Estava tão na cara.
“Eu sou uma parte de você. Uma parte que ainda não conhece.”
“As escamas são um privilégio meu.”
“Então chegamos à conclusão que não sou sua consciência.”
Como eu sou idiota. Você me contou.
Sinto algo se mexer as minhas costas e só então noto que estou encostada em alguma coisa. Levo minha mão até a estranha parede e sinto escamas. É úmido e seco ao mesmo tempo. É quente. A superfície se contrai com o meu toque me fazendo perceber que se trata de uma coisa viva e grande.
Sinto muito por não ter prestado atenção.
... Sinto como se estivessem furando minha pele.
Você se machucou por mim. Me protegeu enquanto eu dormia e nem te agradeci. Eu sinto muito.
... Vejo olhos verdes me encararem. Uma respiração bate no meu rosto e sinto algo molhado encostar-se a minha pele.
... Tudo está estranhamente silencioso, com exceção de um barulho reptiliano, diferente do que o dragão faz.
Como posso não ter percebi antes?
... Uma pele gigantesca do que perece ser uma cobra muito grande.
A resposta estava bem na minha cara. Você podia ter pelo menos me dado uma luz dizendo que tinha uma forma própria. Certo, Blake me disse, mas se você tivesse confirmado talvez eu tivesse juntado as peças.
Sei quem você é. Agora sei o que você é. Podemos resolver isso de uma vez? Onde você está? Por que não está rindo da minha cara como sempre ou fazendo piadas sem graça?
– Thais? Você está me escutando? – mãos em meus ombros me trazem de volta e só então percebo que fiquei tempo demais pensando, tempo o bastante para atrair olhares preocupados – Você está bem?
– Sim. – amaldiçôo minha voz por sair falha e não transmitir nenhuma sinceridade – Eu estou bem, só... Surpresa.
– Também fiquei quando aconteceu pela primeira vez. – Marian sorri nostálgica.
– O que aconteceu?
– Você sabe, quando ouvi a voz pela primeira vez. – assinto engolindo em seco – Mas conhecê-lo foi a melhor parte.
– Ele? – ela assente ainda sorrindo.
– Não nos entendemos de primeira, então ele me deu um grande trabalho para treinarmos juntos.
– Não posso dizer que com esse ranzinza aqui foi fácil. – o cão abre um dos olhos encarando a dona de forma entediada recendo apenas mais um cafuné.
Observo a forma como as duas parecem estar completamente felizes com a ideia de ter uma segunda vida dentro delas. Ligação de Milena e Rox é, aparentemente, tão forte que posso entender o porque de ela ter ficado desesperada com a situação dele.
Por que você decidiu sumir? Eu quero te conhecer.
– E você? – McCain atrai minha atenção, sua voz ansiosa.
– Eu o que?
– Já ouviu alguma coisa? – quase engasgo com o ar quando entendo a pergunta.
– Blake me disse que é ela.
– Blake é um fofoqueiro. – resmungo mal-humorada recebendo uma gargalhada em resposta, mas logo em seguida ela fica séria me deixando confusa.
– Ele também me disse que você está rejeitando ela. – suspiro cansada, recebendo seus olhares de repreensão.
Se ao menos você estivesse aqui eu poderia concertar esse erro.
– Não mais. – aos poucos um sorriso surge no rosto de Marian, mas ela não parece estar olhando para mim e sim encarando algo as minhas costas.
– O que você quer seu curioso? – um barulho reptiliano faz meu corpo gelar, Marian sorri mais ainda e percebo uma grande sombra sobre mim – Você não devia estar com seu dono?
Seu sorriso vacila de leve ao mencionar a palavra “dono”. Em outras situações eu perguntaria o que está acontecendo com ela, mas o constante sinal de perigo ativado em minha mente me distrai. Permaneço estática até alguma coisa negra aparecer lentamente em meu campo de visão. Os olhos vermelhos curiosos me encarando como se procurasse alguma coisa. Minha respiração está alterada e sinto que vou começar a gritar a qualquer momento.
– Pare de assustá-la Black. – Mari entra em minha frente sendo observada pelo animal, estou pronta para tirá-la dali antes que seja engolida quando sou surpreendida pela enorme cobra. “Black” encosta o focinho na Shadow sendo acariciado pela mesma – Você não devia sair por ai assustando novatos.
A criatura solta outro som reptiliano, movendo sua língua para fora. Enquanto ele se mexe percebo que parte de seu corpo está atrás de mim, essa imagem faz com que minha mente vague para o Alasca mais uma vez. Balanço a cabeça tentando afastar o sentimento de culpa. Queria pelo menos que você me explicasse o motivo de ter sumido.
– Cara! Te pedi para ficar lá atrás, não sair passeando pela arena. – sua voz chega antes de eu ouvir sua aterrissagem, Mari continua virada, mas posso perceber suas costas rígidas. Escuto um suspiro desanimado – Eu sei Black, não precisa me dizer.
Jack parece constrangido e chateado com a situaçao, me fazendo questionar novamento o que... Espera. Ele disse arena? Analiso o espaço ao meu redor surpresa e assustada. Está bem maior do que me lembro. O teto sumiu dando vista pra um céu azul sem nuvens de uma manhã ensolarada. O piso branco vai apenas até certa distância dando lugar ao solo de grama que se estende até se perder de vista. O lugar é delimitado por paredes de pedra que posso ver apenas uma vaga sombra ao longe. O chão antes coberto de tatames, agora sem nenhum equipamento, só o bom e velho gramado. Como isso aconteceu? Tenho que me lembrar de perguntar mais tarde.
Um resmungo impaciente me chama atençao, volto meus olhos para frente notando que Black mantém os olhos focados no garoto atrás de mim e se for possível, ele parece raivoso. Mari acaricia mais uma vez a enorme cabeça e então se afasta indo até o outro lado da arena de treinamento.
– O que você fez agora Gareth? – Milena brinca rapidamente com a cobra e para ao meu lado, viro-me encontrando o Shadow ainda encarando Marian, ele suspira cansado antes de responder.
– Uma coisa idiota. – Black sibila zangado as minhas costas e o garoto o encara entediado – Eu vou resolver isso não se preocupe.
– Ele não parece muito feliz com você. – Milena sorri brincalhona olhando para a criatura.
– É claro que ele não está, gosta mais dela do que de mim. – o shadow responde indignado – As vezes parece que você é o Moribus dela, não meu.
Nunca vi uma cobra sorrir, mas tenho quase certeza que é exatamente o que Black está fazendo.
– Certo, pare de ser chato, eu vou resolver as coisas. – o garoto de aproxima da cobra ainda recebendo um olhar debochado (desde quando cobras podem ser debochadas?) – Temos que treinar, depois você me julga o quanto quiser.
Eles parecem entrar em um acordo mental, mas antes de acompanhar o dono, Black fixa seus olhos em mim mais uma vez. Jack para de andar e o encara confuso.
– O que quer dizer? – ele pergunta e então sua expressão se torna ainda mais confusa, seu olhar se volta para minha direção – Ele quer saber por que você não pode escutá-lo? Black isso não faz sentido, ela não pode te escutar a não ser que...
Percebo o exato momento que a compreensão o atinge. Ele sorri como uma criança que acabou de ganhar um brinquedo novo, mas logo em seguida e tomado por uma expressão séria.
– Por que não pode escutá-lo? – pergunta me encarando fixamente, sinto minhas mãos começarem a se mover inquietamente.
– Eu deveria? – tento não gaguejar, não esperava por isso. O que devo fazer?
– Ele está sentindo sinais bem específicos vindos de você e bem, agora prestando atenção, eu também. – ele anda em minha direção e sussurra – O que está errado com ela?
Meu corpo se contrai e recuo alguns passos, Milena nos encara desconfiada. Rox agora está de pé como se tivesse percebido a inquietação da Shadow. Jack tem um olhar questionador, mas ao mesmo tempo preocupado e Black apenas me encara ainda procurando algo.
– O que está errado com quem? – Milena anda até nós, insatisfeita com a falta de informações.
– Milena, você pode nos deixar conversar, por favor? – a garota desvia os olhos para ele indignada, mas algo na forma como o Shadow devolve o olhar faz com que ela se acalme, Milena assente e se afasta aos poucos levando Rox com ela – Sem usar sua audição.
Ela para e se vira para o garoto mais uma vez, agora entediada, mas por fim concorda e continua seu caminho. Tento manter minhas mãos paradas, mas a sensação de que ele irá fazer perguntas que não sei como responder me apavoram. Eu não faço ideia do que está acontecendo, então como posso explicar a ele?
– Você precisa se acalmar. – suas palavras saem lentamente e ele parece mais preocupado – Eu sei que tem algo errado, mas se você não me disser o que é não posso te ajudar.
Minha respiração ainda está desregulada e meu corpo todo tenso. Eu preciso de você agora mesmo.
– Eu sei o que ela é, ele me contou. – Jack sorri fazendo sinal rapidamente para a cobra – Mas algo está errado com a sua comunicação, não é? Isso explicaria porque não pode ouvi-lo.
– Ele é seu Moribus. – Jack assente confuso, engulo em seco tentando encontrar as palavras – Por que eu deveria escutá-lo?
– Porque eles são da mesma espécie, é estranho você não ter escutado antes. – ele suspira e olha rapidamente para Black – ele está preocupado.
– Por quê? – sinto falta de ar e só então percebo que parei de respirar momentaneamente.
– Porque ele não está conseguindo encontrá-la na sua mente, é como se... – ele franze a testa e encara o chão pensativo, voltando a me olhar incerto – Você já a conhece?
O “não” fica preso em minha garganta quando as cenas me atingem em cheio.
“... Vejo olhos verdes me encararem...”.
– Thais, isso é importante. – seus olhos agora estão aflitos e ele segura meus braços atraindo minha atenção – Não me lembro de você nas aulas de treinamento com os Moribus, então, por favor, você a conhece?
– Acho que sim. – respondo baixo, sua expressão se torna surpresa e preocupada.
– Quando foi isso? – desvio os olhos para o chão e ele suspira – Não precisa se preocupar, eu não vou contar a ninguém, só quero ajudar.
– Foi no sábado. – respondo ainda de cabeça baixa, sinto como se o peso do mundo estivesse sobre meus ombros. – O que está acontecendo?
– Eu tenho uma suposição, mas... – ele hesita me fazendo encará-lo, sinto meus olhos arderem – Você invocou ela ou...
– Estávamos em perigo e ela me disse para pedir ajuda. – ele respira fundo fechando os olhos, analiso sua expressão sentindo o desespero chegar até mim – Jack o que está havendo? Por que eu não escuto ela?
– Porque você não a invocou, ela teve que forçar a saída. Isso é uma droga! – ele parece raivoso, meche nos cabelos – Precisamos acordá-la.
– Espera, ela está dormindo? – franzo a testa confusa e ele assente.
– Provavelmente teve que usar muita energia para te ajudar e acabou apagando, mas não naturalmente por isso precisa ser acordada. – ele pega seu celular no bolso e digita descontroladamente – Sua conexão com ela está fraca, temos que concertar isso.
– Mas eu falei com ela no domingo. – minha respiração volta a ficar rasa quando me dou conta que talvez a conexão esteja fraca por outro motivo.
– Moribus também dormem, ela deve ter percebido que estava acontecendo alguma coisa, deve ter relutado em dormir, mas acabou acontecendo contra a vontade dela. – ele olha zangado para o telefone e o guarda voltando-se para Black que o observa – Você pode, por favor, buscá-la pra mim?
Ele mantém os olhos no dono por alguns segundos antes de deslizar rapidamente pelo piso branco. Agora, vendo-o inteiro, tenho certeza que atinge facilmente doze metros. Volto meus olhos para o Shadow, ele encara a enorme cobra se movendo para o outro lado da arena e então entendo quem Black foi buscar.
– Quando vocês brigaram? – pergunto hesitante, não parece um assunto que ele goste de falar.
– Ontem à noite, mas não foi bem uma briga. – ele suspira e encara o chão, seu olhar triste – Eu agi como um idiota e ela ficou magoada, não a culpo por isso.
Não faço mais perguntas e assim como ele apenas espero Marian vir até nós. Ela caminha hesitante, seu rosto está impassível, mas seus olhos demonstram que está insegura sobre se juntar a nós. Bem, se juntar a ele. Mari não parece querer brigar ou tirar satisfações, só está desconfortável com a situação, me fazendo questionar o que de tão ruim aconteceu para deixá-la assim.
Black segue-a de perto cuidadoso, ele parece extremamente carinhoso, até demais. Jack abaixa a cabeça quando ela chega e meche as mãos inquieto. A cobra permanece próxima a ela como se fosse uma barreira de segurança.
– Eu não vou fazer nada. – Jack fala baixo e então percebo o olhar de Black sobre ele – Precisamos da sua ajuda.
Ele se dirige a Mari sem olhá-la. Ela avalia a situação confusa, talvez tentando entender o porquê foi chamada.
– Pra que? – sua voz está normal, ela mantém os olhos sobre ele observando cada detalhe, mas desvia assim que ele levanta a cabeça.
– Thais está com problemas com a Moribus dela. – novamente quase engasgo com ar, por que ele tem que ser tão direto?
– Espera, como assim? – ela fixa seus olhos em mim buscando informações que eu não consigo colocar em palavras no momento.
– Ela está com conexão fraca, precisamos acordá-la, mas eu não sei fazer isso sozinho. – Jack aponta os fatos rapidamente e quase não entendo o que ele diz.
Pela primeira vez, Marian o encara, está mais confusa do que nunca. Jack sustenta seu olhar com as mãos no bolso ainda nervoso.
– E por que você acha que eu posso ajudar?
– Por que você sempre foi melhor que eu em manipulações. – ele responde calmamente e observo a expressão de Mari se tornar surpresa levemente apavorada.
– Você não quer dizer o que eu acho, certo? – ele assente cautelosamente e o pânico toma totalmente o rosto da garota – Jack, você sabe que eu não controlo isso totalmente.
Black encara o dono aparentemente bravo, Jack caminha até ela, mas para antes de se aproximar demais. Ela não parece completamente confortável, mas não posso afirmar se é pela situação dos dois ou pelo assunto que eu ainda não entendi do que se trata.
– Eu sei, mas não podemos contar ao Martin, porque a situação que levou isso acontecer foi meio... – ele olha de relance na minha direção hesitante – ilegal.
Abaixo a cabeça e sinto como se os olhos de Mari estivessem me atravessando e revelando tudo o que eu fiz no sábado. Nunca me senti tão arrependida por mentir para eles. Estou cansada de mentiras, nem ao menos sei se toda a bagunça com meus poderes têm a ver com isso.
– Tudo bem. – ela suspira e olha ao redor inquieta – Mas não podemos fazer isso aqui, o professor interromperia.
Jack assente e se direciona para Black fazendo um gesto com as mãos que não consigo ver, a cobra olha mais uma vez na nossa direção antes de circundar o dono. De inicio não entendo o que está acontecendo, mas quando a pele negra começa a ficar mais transparente e se mover como gás, percebo que a enorme criatura negra está se transformando em sombras. No centro, o Shadow se mantém de olhos fechados e os punhos cruzados em frente ao corpo, sua silhueta parece absorver toda a escuridão até restar somente o garoto de sempre.
Ele volta os punhos para os bolsos e caminha em nossa direção. Me surpreendo ao perceber que ainda está com os olhos fechados e levemente mais pálido que o normal. Mari se inquieta ao meu lado e sei que ela está preocupada, a forma como seus olhos analisam tudo nele cuidadosamente confirma isso.
– Você está bem? – a pergunta parece tirar um caminhão das costas dela, sua voz está hesitante, mas nem mesmo seu orgulho impediu-a de saber como ele está.
– Sim.
Jack abre os olhos mostrando-os completamente vermelhos e sem a parte branca dos olhos. Ele nos encara, mas é como se não fosse ele, é Black nos olhando.
– Seus olhos... – a frase morre na garganta da garota e ele suspira abaixando a cabeça.
– Ele não está facilitando hoje. – ele fecha novamente os olhos e balança a cabeça como se tentasse afastar algo.
– Black. – Mari chama hesitante, Jack levanta a cabeça rapidamente e lá estão os olhos vermelhos novamente observando a garota – Não seja teimoso.
Sua frase parece surtir efeito já que Jack respira profundamente, como se estivesse aliviado, os olhos voltando ao tom escuro de sempre, as pupilas dilatas fazendo-o piscar repetidas vezes até se acostumar com a iluminação. Ele sorri agradecido para a Shadow, ela apenas desvia o olhar voltando a expressão impassível.
– Então. – Jack pigarreia constrangido ao notar que eu ainda estou parada no local – Onde vamos?
– Acho que a enfermaria está vazia agora, pelo menos ninguém teve chances de se machucar ainda. – ela olha em volta mais uma vez e sinaliza na direção da porta, antes que eu passe por ela, sou segurada pelo braço e recebo outro olhar de atravessar a alma, ela parece decepcionada – Eu vou ajudar com isso, mas realmente espero que depois me conte tudo o que aconteceu e pare de mentir pra mim.
Assinto envergonhada. Desde que cheguei eles tem me ajudado e cuidado de mim todas as vezes que me meti em encrenca, mas mesmo assim tudo o que eu dei em troca foi mentiras, tenho que parar com isso.
Andamos apressadamente até a enfermaria, durante todo o caminho meus pensamentos se perdem nos acontecimentos que levaram a tudo isso. As cenas da minha visita mais recente ao Alasca bem vivas na minha cabeça, como se estivesse acontecendo outra vez. Analisando todos os fatos, perguntas e mais perguntas invadem minha mente. Ela sabia que isso ia acontecer? Quando ela ia me contar que se sacrificou para me salvar? Quando iria me contar o real motivo de ficar horas sem falar nada no domingo? Por que não me disse que tudo isso é culpa minha?
Sou arrancada brutalmente das minha divagações quando algo me empurra até a parede atrás de mim. Minhas costas se chocam contra a superfície fria e encaro a Shadow assustada. Ela pede silêncio e então percebo que chegamos à ampla sala de cuidados médicos. Há alguém lá dentro. Me movo cuidadosamente para frente aumentando meu campo de visão. Vejo Jane mexendo com alguns utensílios distraidamente.
– Ela devia estar tomando café. – Mari resmunga impaciente.
– Talvez ela possa ajudar. – sugiro hesitante e ela faz um gesto negando.
– Não vai querer colocar um amiga da sua mãe em uma posição complicada com o diretor. – ela responde como se fosse óbvio. Como ela sabe sobre a amizade da enfermeira com a minha mãe?
– Ela está saindo. – A voz de Jack me sobressalta, ele está escorado na parede da direita, escondido pelas sombras.
Observo a sala novamente confirmando que de fato a mulher se dirige a porta de saída de funcionários. Esperamos até que a porta se feche por completo então corremos até a parte mais afastada da enfermaria onde não podemos ser vistos do corredor, mas temos uma ampla visão da porta de entrada mais a frente. Se alguém resolver aparecer temos tempo suficiente para nos escondermos.
Agora que estamos parados e sem o risco de sermos vistos o nervosismo começa a tomar conta de Marian. Ela move as mãos inquieta, mexe nos cabelos mais que o normal e os olhos azuis estão aflitos. Só então me dou conta que eu não faço ideia do que vamos fazer para acordar a consciência na minha cabeça que supostamente está dormindo.
Sento-me em uma das cadeiras de atendimento tentando relaxar o corpo que acabei de descobrir que está extremamente rígido. Desfaço os punhos massageando os nós dos dedos. Encaro o chão tentando ignorar o andar inquieta de Mari. E se isso tudo não adiantar? E se ela não voltar? E se eu não tiver mais chance de conhecê-la? Como posso me perdoar por ter colocado-a em risco daquela forma? Por que eu fui tão egoísta?
– Isso pode dar muito errado. – Mari atrai minha atenção com seu desespero no auge.
– Não vai, você é boa nisso. – Jack tenta acalmá-la e posso perceber que ele está desconfortável com toda a distancia que ela impôs entre eles – Eu confio em você.
– E se eu não conseguir encontrá-la? Eu nem sei onde procurar. – ela aponta em pânico, suas mãos tremem levemente e seu rosto está pálido.
– Espera. – os olhares dos dois se fixam em mime tento agrupar informações para formular a pergunta correta – Como assim procurá-la?
– Mari vai manipular sua mente e tentar achar sua Moribus. – Jack responde calmamente como se estivesse falando sobre o tempo. Franzo a testa mais incerta do que nunca sobre esse plano.
– Isso se eu conseguir fazer isso direito. – ela ainda está tentando abrir um buraco no chão com os pés, as mãos se movendo mais do que deviam enquanto fala.
– Você vai conseguir. – Ele anda até ela ignorando completamente a tentativa da Shadow de se afastar, coloca as mãos em seus ombros e faz com ela o encare – Não se preocupe, você sabe fazer isso melhor do que qualquer um Shadow do primeiro ao quarto ano.
Ela suspira e retira as mãos dele gentilmente parecendo menos incomodada. Caminha até mim e sinaliza para que eu sente direito. Devo admitir que eu pareço um saco de batata jogado nessa cadeira. Engulo em seco e faço o que ela pede. Mari alinha suas mãos nos dois lados da minha cabeça, mas sem encostar, respira fundo e se concentra.
– É melhor se você fechar os olhos. – assinto mergulhando na escuridão por trás das pálpebras – Já aviso que você pode sentir ânsia, e eu não ficaria nada feliz se vomitasse em mim.
Abro a boca para responder, mas os pensamentos se perdem em uma sonolência repentina e em um segundo é como se eu estivesse dentro de um sonho. O lugar em que me encontro está escuro me impedindo de distinguir qualquer detalhe. Ao longe escuto paços. Não, não são paços é mais parecido com... Trotadas. Isso, com certeza são cascos.
Os sons ficam mais altos como se estivessem se aproximando. Meus músculos ficam tensos, meus sentidos mais aguçados que nunca. Minha pele está fria e escamosa. Eu sinto medo. Ou seria insegurança? Me sinto aprisionada ao chão, como se estivesse presa por correntes. O que está acontecendo?
Os cascos estão cada vez mais perto. O barulho é alto e me incomoda. Tento me mover para longe, pedir para que pare, mas tudo o que consigo são sibilos fracos.
De repente é como se estivessem pressionando algo quente em minhas costas, o calor invade todo meu corpo ma fazendo respirar profundamente como se o ar me tivesse sido tirado a muito tempo. Meus olhos se abrem e vejo apenas uma silhueta vermelha de, aparentemente, um animal equino. Tento agarrá-lo e ele começa a se afastar, agora todo meu corpo se mexe inquieto, tentando se desenrolar. Espera... desenrolar?
Antes que eu possa tentar entender o que está se passando, minha consciência é arrancada do sonho e quando abro os olhos vejo novamente a enfermaria iluminada. Meus pulmões se enchem de ar, a respiração desregulada. Foco a visão vendo Jack carregar nos braços uma Marian desacordada. Quero perguntar o que ouve, mas toda minha concentração agora está em fazer o mundo parar de girar e conter a ânsia que me atingiu assim que abri os olhos.
O que você pensa que está fazendo?
Arquejo quando escuto a voz zangada tomar conta da minha mente.
É você?
O que quer dizer com é você? E o que você estava pensando ao trazer outro Moribus para dentro da sua cabeça? Como não previ isso?
Um sorriso involuntário surge em meu rosto. Sua voz está a tanto tempo sem aparecer que eu tinha me esquecido como é engraçado ouvi-la com raiva.
Não teria como prever se não estava aqui.
Eu nunca sai daqui Thais.
Saiu sim. Por dois dias.
O que? O que quer dizer?
Quero dizer que você ficou calada por dois dias seguidos e me deu um baita susto.
Isso é impossível.
Mas é a verdade.
Eu não notei que estive fora. A única coisa que me lembro é de adormecer no domingo e então acordar com um maldito cavalo batendo os cascos ao meu lado.
Devo ser o Moribus da Marian.
Por que ele estava aqui com a gente?
Segundo o Jack você ficou adormecida esse tempo todo e Mari estava tentando te acordar.
Droga! Eu tentei evitar isso.
Está tudo bem. Mas eu nunca mais vou te pedir ajuda.
Não seja idiota, não foi culpa sua.
Claro que foi. Eu que te chamei de forma errada.
Você ainda não aprendeu como me invocar, então não, não foi sua culpa. Eu te disse para fazer aquilo, conhecia os riscos.
Não devia ter se arriscado assim.
Sem essa. Eu sei que nunca te expliquei, mas... Moribus significa parte da alma. Ou seja, eu sempre vou estar aqui, para o que der e vier. Se isso envolver me sacrificar para te manter viva, então é o que eu vou fazer.
Isso é errado, eu também devia te proteger.
Você está brincando, certo? Thais, eu vivo dentro de você. Você me protege todos os dias, é você quem me permite acordar todas as manhãs. Portanto, quando precisar de mim em uma luta, o mínimo que posso fazer é te proteger.
Se você morrer... Eu morro.
Supostamente.
É a verdade.
Não temos certeza.
Não ligo para confirmações. Se você vai me proteger quero estar ciente de todos os riscos que irá correr. Não me faça ter que passar por todo esse silêncio mais uma vez.
Não foi minha intenção.
Eu sei. É só que, depois de toda a bagunça com meus poderes eu fiquei com medo que isso pudesse estar te afetando e...
Engulo em seco fechando os olhos tentando afastar a ideia de tê-la matado.
Tudo bem. Vou te informar de tudo da próxima vez. Mas, me faz um favor?
Sim?
Aprenda a me invocar de uma vez. Estou cansada de ficar aqui sempre.
Certo. Mas acho que vai ter que esperar mais um pouquinho já que eu acabei de perder a aula de combate.
Se não quiser sentir dor de cabeça por um mês é melhor não faltar a aula de sexta. Fui clara?
Cristalina.
– Ela voltou? – Jack me tira da conversa interna e encaro-a surpresa – Levando em conta o seu enorme sorriso, eu acho que sim.
– Sim, deu certo. – ele sorri, mas seu semblante está preocupado me fazendo lembrar da Shadow. Desvio os olhos para a cadeira em que ele a colocou, ela ainda está desacordada e mais pálida do que antes – Ela vai ficar bem?
– Acho que sim. – ele leva uma mão aos cabelos bagunçando-os nervosamente – Ela geralmente só fica um pouco cansada, mas acho que teve que usar muita energia dessa vez. Precisa de algumas horas para se recuperar.
Antes que eu possa perguntar outra coisa, passos vindos do corredor de entrada chamam nossa atenção. Estamos prontos para encontrar um esconderijo quando Milena adentra a enfermaria com uma expressão descontente.
– Vocês estão encrencados, o professor... – ela se cala ao notar a situação de Mari – O que houve com ela?
– Tivemos que fazer um procedimento relâmpago que exigiu muita energia dela. – Jack responde aparentemente pensando em cada palavra dita.
– Não use respostas feitas comigo Jackson, não gosto quando escondem informações. – os olhos escuros brilham raivosos indicando que ela não está afim de brincadeiras.
– Você não gosta quando eu respondo a verdade sem tem contar nada. – o Shadow sorri satisfeito e recebe um rosnado em troca. Ela rosna agora?
– Vou querer saber dessa história mais tarde. – ela se volta para mim curiosa – Nós temos aula e vocês não podem faltar mais uma sem atrair a atenção do Piguino.
– A aula de combate já acabou? – Jack franze a testa olhando o relógio na parede.
– Ainda não. Eu não participei porque estou de atestado, mas o professor está muito zangado com você já que seu atestado acabou e você não compareceu a aula. – me encolho na cadeira pensando em quantos sermões de Martin essa falta vai me render.
– A aula não seria muito proveitosa para ela considerando a situação. – Jack resmunga, mas Milena aparentemente escuta cada palavra e desvia seus olhos para ele mais uma vez curiosa.
– O que quer dizer com isso? – ele sorri sarcástico fazendo-a revirar os olhos – Vocês me contam mais tarde. Temos que trocar de roupa.
– Eu vou ficar aqui. – o garoto se dirige até a cadeira ao lado de Mari sendo seguido por olhares questionadores de Milena – Vou esperar a enfermeira chegar e ter certeza que ela está bem, além disso, precisamos conversar.
– Certo, vou avisar sobre o motivo da sua falta. – ele assente rapidamente e volta sua atenção para a garota adormecida, Milena me sinaliza a porta — Vamos.
No corredor a atmosfera se torna mais pesada. Com a presença de Jack e Mari o assunto “falha de conexão” não poderia vir a tona, mas agora ele grita insistentemente nos meus pensamentos como se alguém tivesse pintado-o em um altdoor com cores fluorescentes. A cada dois segundos encaro a Shadow hesitante, não consigo controlar a pequena massa de raiva que está crescendo dentro de mim. Por que ela fugiu desde que chegou?
Não seja impulsiva.
Eu só estou confusa.
Está com raiva e tem uma grande tendência a fazer merda quando está assim.
Obrigada pela confiança.
– Eu sei que quer perguntar. – ela suspira e para de andar quando estamos próximas ao dormitório, observa o local para ter certeza que ninguém está escutando – Mas para responder todas as perguntas é melhor nos reunirmos sem correr o risco de sermos ouvidos.
– Agora você quer conversar? – não consigo conter o tom mal-humorado em minha voz, ela suspira cansada, mas não me responde – Sério? Onde você estava desde que chegou?
– Tudo bem, eu mereço isso. – encara mais um vez o corredor – Sinto muito por ter evitado vocês, eu só não sabia o que fazer.
– Você não sabia? Deixa eu te dizer uma coisa então. – respiro fundo tentando me acalmar, a massa fervente ainda maior – Nenhum de nós sabe o que fazer. Desde que Blake me contou sobre toda essa porcaria que está acontecendo com os nossos poderes eu não tenho pensado em nada além de como isso tudo pode destruir muita coisa para muitas pessoas. A Lira foi afetada e ela nem é culpada por isso. Acha que ela sabe o que tem que fazer? Não, ela só está assustada como todos nós. Blake, Austin, eu... acha que tinhamos ideia do que fazer? Você não tinha que se esconder só porque esrava perdida, bastava ter nos dito.
Melhor agora?
Talvez.
Milena respira fundo e desvia os olhos momentaneamente para o chão aparentemente envergonhada.
Eu não peguei pesado, não é?
Um pouco.
Droga.
– Me desculpe por isso. – ela suspira e volta a me encarar – Foi errado eu ter me omitido. Mas eu quero compensar isso.
– Como?
– Uma reunião, essa noite. Todos nós.
– Quando você diz todos nós se refere...
– Me refiro a todos os nossos amigos, está na hora de eles saberem. – ela responde convicta.
Assinto, uma parte de mim contente por finalmente parar de mentir e outra entrando em pânico com a possibilidade de isso piorar tudo.
– Por que não fizemos isso antes? – teria sido bem mais fácil não ter que esconder tudo de todos.
– Porque eu não tinha certeza se devíamos fazer o que temos que fazer. – ela fala rapidamente gesticulando com as mãos de forma exagerada, expondo seu nervosismo.
– Por que não?
– Porque se seguirmos mesmo o plano ao qual me refiro, estaremos quebrando pelo menos umas dez regras do colégio, tirando o risco de morte.
– Só mais um dia normal. – sorrio sarcasticamente dando de ombros.
– Bem, nos reunimos a noite então. Na sala de estar depois do toque de recolher. – assinto e ela começa a andar para os dormitórios, mas se vira mais uma vez antes de virar o corredor – Você sabe onde está o Austin?
– Não o vejo desde segunda-feira. – respondo sinceramente, ele simplesmente sumiu sem dar satisfações.
– Você consegue achá-lo?
– Acho que não. – ela assente pensativa.
– Bem, vou ter que fazer do jeito difícil. – encaro-a confusa enquanto ela segue caminho.
– Espera! – ela olha para mim, tento encontrar a pergunta correta – Quando você disse, na noite na torre do relógio, que era fácil me encontrar... Isso tem algo a ver com o fato do seu Moribus ser um cão?
– Fica mais fácil de entender agora, não é? – ela sorri brincalhona.
– Então você sai por ai farejando as pessoas? – franzo a testa com o fato de como o termo fica engraçado quando aplicado a um ser humano.
– Só quando as pessoas resolvem sumir. – devolvo seu sorriso e ela me lança mais um olhar sério antes de ir – Vá para a aula Thais, nos falamos a noite.
Com isso ela some entre os corredores. Caminho lentamente até meu quarto. Assistir aulas. Assistir aulas enquanto meus poderes são drenados a cada minuto. Ouvir um professor falar quando tudo está um caos. Simples assim, seguir para sala como se nada tivesse acontecido enquanto uma adolescente que tem um cão de dez metros como animal de estimação recruta pessoas para uma reunião clandestina. Assistir aulas enquanto...
Vou avisar só uma vez, é melhor você parar com isso.
Adentro meu quarto sem conter um sorriso satisfeito tendo a certeza de que pelo menos minha mente não está mais vazia.
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