Elementium - Volume 1 - A Ascensão
28 A Verdade Liberta... Ou Quase Isso
Notas iniciais
“Nos vemos a noite”, foi o que ela disse. Supostamente não deveria ser tão difícil esperar a boa vontade de o sol desaparecer no horizonte, mas aparentemente hoje ele está mais preguiçoso que eu. “Vá para a aula, Thais”, vá e fique sentada por sete horas sem se preocupar com o possível apocalipse que está nos rondando.
Como ela pode pensar que é fácil simplesmente ficar aqui sentada sem fazer nada sabendo que tudo pode ir por água a baixo, escutando a Sra. White citando todas as partes do corpo elementista onde pode-se encontrar reservas de poder.
Não me lembrava dos banquinhos do laboratório de anatomia serem tão duros. O lugar em si parece mais frio e macabro. Talvez pelo tempo fechado do lado de fora, a chuva chegou forte após o almoço e ainda não foi embora, deixando a impressão de ser bem mais tarde do que cinco horas. As gotas se chocando fortemente contra as janelas e os barulhos de trovão em momento algum intimidam a mulher que continua falando dos cadáveres sobre as mesas como se fossem a imagem mais bela do mundo.
Mesmo sabendo que se tratam de replicas muito bem feitas de corpos verdadeiros, não consigo me sentir confortável e junto com mais da metade da sala me mantenho afastada, sentada imóvel sobre meu banquinho gelado.
Em um dado momento minha atenção acaba recaindo toda sobre a tempestade que castiga o campus, o céu completamente cinza e escuro me trás lembranças nada agradáveis fazendo com que a sensação de frio tome meu corpo mais uma vez, assim como lá, aqui não estou mais me sentindo segura. A inquietação me distrai das aulas e sou incapaz de fingir que tudo está bem. Por que a aula não pode simplesmente acabar para eu poder ir para o quarto e encarar o relógio até ele marcar dez horas da noite?
Porque as coisas não funcionam como você quer.
Reviro os olhos diante a voz divertida em minha mente. Suspiro ainda inquieta, minhas mãos estão frias e extremamente brancas, observo os lados do jaleco confirmando a suspeita da falta de bolsos. A imagem do blazer em meu armário quase me faz grunhir de desanimo, por que esse jaleco tem que ser tão estreito?
Tento colocar ao menos os dedos para dentro das magas vagando os olhos pelo laboratório constatando que ninguém está prestando atenção em minha total falta de consideração com a professora. Não que eu não goste da aula de anatomia, eu até gosto, mas no momento não consigo olhar as mesas sem imaginar que essa pode ser a imagem do campus se algo não for feito para pará-los.
O sentimento de raiva me consome momentaneamente. Por que Martin está mentindo para todos? Por que diabos ele simplesmente não abre o jogo e diz o que está acontecendo? Se vai haver um ataque e vamos morrer, as pessoas precisam saber. Ainda mais quando alguns de nós já estão morrendo...
Você devia parar de pensar nisso um pouco.
Eu não consigo.
Tente, está uma pilha de nervos, isso não é bom pra ninguém.
Respiro fundo tentando conter a onda de pânico que pela terceira vez ameaça explodir dentro de mim. Minha vontade é de voltar no tempo e não ter aquela conversa com Blake, assim eu só estaria aqui no meu banquinho de madeira em companhia de mortos anotando fatos interessantes sobre o corpo elementista.
Mãos geladas tocam meus ombros causando um arrepio em minhas costas. Meu corpo se retrai e encaro os olhos azuis confusos e preocupados. Ela me analisa buscando algo que não sei o que é, mas nesse momento não deve ser nada bom. Imagino como deve estar minha cara já que ela parece até um pouco assustada.
Você provavelmente está com cara de acabada.
Ah! Obrigada.
É como ela acabou de dizer. Eu estou acabada, cansada fisicamente e emocionalmente, angustiada, faminta, com frio e possivelmente com o pé na cova. Mas é isso ai, aqui estamos, talvez eu possa até me juntar a esses compatriotas e só ficar deitada nessa mesa fria fingindo que nada está acontecendo até que...
– Você está estranha. – ela diz franzindo as sobrancelhas, os lábios prensados um no outro demonstrando toda sua impaciência – E eu estou farta disso.
É galera, ela está farta. Estamos todos fartos não é mesmo. Bem, pra que ficarmos calmos, vamos todos nos estressar e acabar logo com toda essa porcaria.
– Thais! – ela sussurra irritada me fazendo focar seu rosto, mas me mantenho em silêncio, o que eu tenho que dizer? – Eu estou cansada de mentiras.
Eu também estou.
Você não pode contar. Não ainda.
Quem disse isso?
Não se faça de tonta, sabe qual é o plano.
Plano? Que plano? Aquele de ficarmos quietos até alguém resolver isso? Eu estou farta dele.
Você não pode.
– Será que pode parar de fazer isso? – ela está cada vez mais irritada, mas a verdade é que concentração é a última coisa que sou capaz de ter ultimamente.
O azul está tão escuro que chego a pensar que ela consegue mudar a cor dos olhos, mas isso não é possível então...
É sim.
O que?
Você já viu isso acontecer.
Não me lembro.
Isso não importa agora, ela está te encarando.
Eu sei. Ela fez alguma pergunta?
Não.
Então o que ela quer?
A verdade que você não pode dar a ela.
Se eu vou morrer, que diferença faz?
Você não vai morrer.
Claro que não.
Pode parar com a ironia.
– Suas mãos estão tremendo.
Choque. É exatamente o que acontece comigo, é como se o tempo parasse nessa frase. Quatro palavras. Vinte e uma letras. É o bastante para o meu cérebro paralisar e meus olhos caírem para minhas mãos, ambas fora das mangas agora. Encaro os dedos confirmando sua sentença. É incontestável, elas tremem de forma incontrolável.
Você precisa respirar.
Mãos trêmulas. Sintoma. Mapa. Falha de conexão.
Thais! Respire!
Sinto o frio se espalhar pela minha espinha e não consigo deixar de imaginar meus poderes indo embora mais rápido do que eu imaginava.
Você não está respirando!
Eu estou morrendo.
Está perdendo o controle.
Meus olhos ardem. Minha garganta arde. Meus pulmões parecem estar cheios de brasas.
Meu corpo se move para frente e para trás. O que está acontecendo? Ouço meu nome ao longe, em segundo plano. Estou pronta para me perder completamente no desespero quando algo muito quente toca meu pescoço.
Meus olhos se arregalam e o ar rasga minha garganta, enchendo meus pulmões de forma dolorosa. Meus olhos estão embaçados devido as lágrimas, a respiração acelerada.
– Você está bem? – uma voz calma atrai minha atenção, tento focar minha visão sem sucesso, mãos gentis se apóiam em meus ombros – Se acalme, está tudo bem.
O que aconteceu?
Você teve um ataque de pânico.
Achei que estava livre disso.
Você se deixou levar pelo desespero.
Minhas mãos...
Eu sei. Sinto muito.
– Thais. – respiro fundo, as lágrimas desaparecendo aos poucos, encontro um par de olhos castanhos imensamente preocupados, mas tentando gentilmente me passar tranquilidade – Você pode me ouvir?
Engolindo em seco assinto lentamente. Ainda tento regular a respiração, notando só no momento que todos os alunos estão a minha volta, mas... Por que estão tão altos?
– Você está bem? – volto meus olhos para a professora encontrando-a apoiada nos joelhos, os olhos ainda preocupados.
Varro o laboratório e me dou conta que estou sentada no chão apoiada em uma das bancadas. Respiro fundo mais uma vez, encontro minhas mãos juntas e envolvidas por outro par de mãos. Encaro a Shadow, mas dessa vez não existe um pingo de raiva em seu olhar, apenas desespero.
– Thais, preciso saber se está bem.
– Eu... – sinto minha garganta arranhar, pigarreio para tentar melhorar a voz que está extremamente rouca – Eu estou bem.
– Está mesmo? – a professora de anatomia me encara receosa, dessa vez assinto olhando-a nos olhos – Tudo bem. Se precisar sair...
– Não preciso. – corto-a rapidamente, me arrependendo assim que noto o tom mal educado – Eu estou bem, consigo ficar aqui.
Seus olhos me analisam. Bem, muitos olhos me analisam e não consigo conter o calor que invade minhas bochechas. Abaixo a cabeça e me livro gentilmente das mãos de Marian, me apoio no banquinho (traidor!), voltando a posição desconfortável de antes. Tento ignorar os olhares desconfiados lançados em minha direção. Por que tinha que ter um ataque logo aqui?
Você não tem muito como controlar isso.
Não importa, eu deveria ter me acalmado.
Pare de pensar nisso.
– Muito bem, como eu ia dizendo, o que difere nosso sistema nervoso do dos humanos é a sua dependência dos poderes, ou seja, você estará bem, se seus poderes estiverem bem...
Isso é sério? Tem que ser esse assunto? Bom saber que além de tudo eu vou ficar com demência. Tem como isso piorar?
Sabe que fazer essa pergunta dá má sorte, certo?
Eu nasci com má sorte.
Tento me ajeitar, encontrar uma posição onde possa ignorar os olhares constrangedores e escrever ao mesmo tempo. Não tenho certeza de quanto tempo se passa, talvez minutos ou segundos e então o laboratório escurece. Engulo em seco e varro o lugar sem conseguir ver nada além de escuridão.
Eu estou tendo outro ataque?
Não.
Então o que é isso?
Antes que me responda, ouço o suspiro cansado as minhas costas. Um peso no meu ombro me chama atenção, a quanto tempo sua mão está aqui? Fecho os olhos tentando me acalmar. Odeio escuro.
– Por que você faz isso? – desvio os olhos rapidamente para ela, mas volto a rodar a sala ainda em completo breu – Eles não podem te ver, não se preocupe.
– O que está acontecendo? – pergunto nervosamente tendo noção das minhas mãos se mexendo descontroladamente.
– Eu estou manipulando as sombras, estamos em um mundo paralelo, para eles continuamos sentadas e prestando atenção na aula. – certo, eu não paro de me surpreender com os Shadows – O que acabou de acontecer?
– Como assim? – um sorriso nervoso se faz presente em meu rosto e ela me encara entediada.
– Vai mesmo fazer isso? Sério? – pergunta com as sobrancelhas arqueadas, ela está impaciente.
– Não podemos fazer isso depois?
– Não. – responde rispidamente, desvio os olhos, como vou fugir disso? – O que aconteceu?
– Nada demais, acho que só estou cansada. – diante a minha desculpa mais que esfarrapada, Marian me dirige um olhar tão frio que tenho a impressão de ter caído uns cinco graus na sala.
– Você desmaiou. – seus olhos estão fixos em mim, o azul tão escuro que parece o céu noturno – Isso não é nada.
– Eu não desmaiei. – respondo na maior cara de pau e antes que ela possa me bater completo – Tive um ataque de nervos.
– Todos nós já tivemos um ataque de nervos Thais e não é assim. – sua voz continua mansa o que me faz temer ainda mais – Você teve um ataque de pânico.
Arregalo os olhos e tento disfarçar com um pequeno sorriso que é imediatamente correspondido por um sorriso sarcástico e uma carranca mal humorada. Eu vou apanhar.
– O que? Achou que eu não fosse reconhecer? – sua mão em meu ombro se aperta e não ouso responder – O que está acontecendo?
Desvio os olhos para o chão vendo-o opaco, observando a sala mais uma vez percebo que agora consigo ver as pessoas, mas assim como ela disse, estamos em outro mundo, tudo se move ao nosso redor, eles continuam falando, mas não consigo escutar. As imagens estão sem cor, como naqueles filmes antigos, ninguém olha para nós, nem se quer a professora nota alguma diferença.
Apesar de ser de certa forma assustador estar e não estar em um lugar ao mesmo tempo, tenho que admitir que é um poder bem útil. Será que é isso que os shadows fazem quando estão parados olhando para o nada como se estivessem em outra realidade?
– Ainda se fosse só você. – nesse momento percebo o quão cansada ela está, não existem barreiras ou máscaras agora, ela está mostrando toda a angústia e mágoa que sente – Estão todos estranhos, escondendo coisas e fingindo que não está acontecendo nada quando eu sei que está.
É em momentos como esse que eu gostaria de ter poder sobre a terra, abrir um buraco e me esconder lá. Não posso contar a ela agora, e se isso colocar ela em perigo também? Ainda me lembro da conversa com Max a um tempo atrás. Segundo ele alguém com conhecimento sobre o nosso mundo está ajudando os Mitons. Naquele dia não tínhamos ideia da magnitude de tudo, do quanto isso ainda iria nos afetar.
Então, se alguém entre nós está contribuindo para o apocalipse, o que garante que se revelarmos a verdade a quem não está com problemas, essas pessoas não entrarão na mira desse...
– Está vendo, é disso que eu estou falando. – sua voz aborrecida atrai minha atenção liberando meus pensamentos do homem por trás da máscara negra – Vocês não conseguem prestar atenção em nada, não se concentram em nada, eu até mesmo duvido que estejam dormindo. Isso me preocupa.
Isso preocupa a todos nós Mari.
Não pode contar a ela.
Eu sei.
Espere até de noite.
– E aí está você viajando mais uma vez. – ela suspira e desvia os olhos para minhas mãos me deixando ainda mais nervosa por saber no que ela está reparando – Só me diga que eu não preciso me preocupar tanto quanto eu imagino.
Fecho os olhos e esfrego as mãos no jaleco tentando inutilmente esquentá-las. O que vou dizer a ela? Que está tudo bem e que não precisa se preocupar com nada? Eu não consigo mais mentir.
– Você está gelada. – sua mão ainda está no meu ombro, seus dedos quase nem são percebidos por mim.
– Eu estou com frio. – cruzo os braços para tentar juntar algum calor, mas meu corpo parece ficar mais gelado a cada instante.
– Você não devia estar com frio. – encaro-a, as sobrancelhas franzidas e a expressão preocupada, já estou cansada de vê-la me olhar assim.
– Qual o problema? Está frio, estão todos com frio. – não consigo conter o tom mal humorado, eu só queria que as coisas parassem de ser tão confusas o tempo todo – Esse laboratório é sempre gelado.
– Você é metade fênix. – fala com a voz incerta e analisa todo meu rosto.
– O que isso tem a ver? – reviro os olhos voltando a me concentrar em me aquecer, amaldiçoando mais uma vez esse maldito jaleco por não me permitir usar o blazer.
– O calor de fênix devia te impedir de sentir frio. – sinto sua mão apertar levemente meu ombro enquanto entendo suas palavras.
Isso é verdade?
Sim.
Por que não me disse antes?
Não queria te assustar.
Olho em volta me lembrando das vezes em que senti frio durante a noite e até mesmo o dia. Se supostamente eu não devo sentir frio, então algo de muito errado está acontecendo com a minha parte fênix. Ele me disse que isso iria acontecer. Blake estava certo.
Não se desespere.
Não vou. Só estou cansada de tudo isso. Por que ele mentiu?
Porque provavelmente estava com medo de causar pânico.
Tínhamos o direito de saber o que estava acontecendo.
Ele não sabia sobre você e o Austin. Acho que até agora não sabe.
Não importa. E quanto a Lira? Ela sabe? Ou ele também decidiu que ela não tem que saber toda a verdade?
Eu não sei.
Isso está indo de mal a pior.
Suspiro levando as mãos a cabeça, pode ser imaginação, mas tenho a impressão de estar com enxaqueca mesmo que, segundo Lilian, isso sendo impossível aqui. Temos que resolver isso.
– Precisamos ir. – a voz de Mari parece um pouco distante, mas suas duas mãos apertam gentilmente meus ombros – A aula já vai acabar, tenho que desfazer a manipulação. Você está bem para voltar?
– Sim. – ela assente e fecha os olhos se concentrando.
Aos poucos as sombras ao nosso redor, encarregadas de nos separar da realidade na sala de aula, começam a se movimentar a nossa volta, se dissipando. Observo as cores voltando lentamente para o ambiente, os rostos animados com o fim da aula, o sorriso satisfeito da professora, a algazarra no corredor.
Precisamos resolver toda essa merda.
– Thais. – o barulho da chuva ecoa alto em meus ouvidos quase encobrindo sua voz – Me desculpe perguntar outra vez, mas você está bem?
Alba White é a professora mais legal que temos até o momento, agradeço a todas as forças do universo por ser ela a dar a aula prática e não o Sr. Lynch, não sei como faria para ficar acordada no laboratório se fosse esse o caso.
– Eu estou. – tento desviar de seus olhos castanhos preocupados e ignorar o frio desconfortável que vem se intensificando. Preciso urgentemente do meu blazer. – Me desculpe por atrapalhar a aula.
– Não precisa se desculpar. – responde levando as mãos aos bolsos de seu jaleco me causando um certo sentimento de inveja, ela parece tão confortável com ele – Cuide-se, está bem?
Assinto rapidamente apanhando o restante dos meus materiais e acompanhando Mari para fora do laboratório quatorze. Não me atrevo a tirar o jaleco até chegar em meu armário, mesmo sabendo que isso é contra o regulamento, não estou com a mínima paciência de lidar com o Pinguim hoje.
Ao chegar em frente ao meu cubículo azul quase cogito a ideia de colocar o blazer por cima da roupa de laboratório, mas desisto assim que noto o olhar de Mari queimando minhas costas. Suspiro constatando que fazer isso só iria deixar mais na cara que eu estou morrendo de frio e como consequência fazer uma certa shadow criar mais algumas rugas de preocupação.
Guardo os materiais e o jaleco encarando então meu blazer como se fosse a coisa mais bela do mundo. Ao vestir fecho-o imediatamente nem me importando com a sobrancelha levantada de Marian, apenas agradeço mentalmente pelo calor extra, apesar de ainda sentir minhas costas geladas e ser incapaz de aquecer minhas mãos.
Encaro o conteúdo jogado dentro do armário por alguns segundos fazendo uma nota mental de arrumar isso o quando antes. O que dona Lia diria disso? Provavelmente iria tirar tudo de dentro e me faria colocar em uma ordem de cor só para dificultar o trabalho para que eu me lembre de não fazer mais.
Então é isso que te impede de fazer idiotices? Vou aderir a esse método.
Um pequeno sorriso surge em meu rosto. Foram poucas as vezes que ela fez isso, mas todas funcionaram. O que ela diria se soubesse que estou mentindo descaradamente para todo mundo?
Não faça isso.
O que eles diriam se me vissem agora, escondendo como me sinto e tudo o que está acontecendo comigo? Como se sentiriam ao saber que briguei com uma professora?
Thais, pare!
O que fariam se soubessem que eu quase morri ao ser congelada? Ficariam orgulhosos por eu salvar uma criança ou me achariam irresponsável?
Pare de pensar nisso!
O que diriam se soubessem que estou morrendo?
Seus pais te amavam antes e continuam te amando agora, independente do que fez ou deixou de fazer.
Não.
O que?
Eu morri. Eu nem existo mais para eles e você sabe disso.
E desde quando você para de amar uma pessoa depois que ela morre?
Um som agudo e alto me sobressalta arrastando-me para o corredor de armários novamente. Olho ao redor me certificando de que está tudo bem, foi apenas o sinal indicando o fim do tempo letivo por hoje. O jantar está próximo. A noite está próxima.
O fato de o corredor estar quase vazio e as luzes das salas se apagando aos poucos me fazem perceber que fiquei tempo demais encarando cadernos desarrumados. Mari ainda está aqui, ainda me esperando e se preocupando com todas as minhas esquisitices. Escorada nos armários as suas costas e batendo um pé descontroladamente. Está impaciente.
Fecho a portinha e lhe direciono um sorriso amarelo. Andamos pelos corredores em um silêncio mortal, mas não desconfortável. Fico grata por não me fazer mais perguntas e ela parece estar presa em seu próprio mundo.
Passos apressados chamam minha atenção quando estou esperando-a guardar seus materiais. Observo a esquina do corredor até os cabelos castanhos e rosto abatido entrarem em meu campo de visão. Assim como eu, ele está com o uniforme devidamente fechado e não me contenho em pensar que mesmo ele detestando a roupa social lhe cai bem. Até posso imaginar a expressão orgulhosa de Max ao ver o blazer alinhado e a gravata pela primeira vez na altura certa.
Austin para e nos observa mexendo as mãos nervosamente antes de se aproximar. Mari lhe direciona um olhar cortante, quase tão frio quanto o que me mandou a momentos atrás. Ele abaixa a cabeça e esconde os pulsos nos bolsos. Respiro fundo ao me lembrar da situação desconfortável da aula de anatomia, agora eu entendo como ele se sente.
Analiso todo seu rosto procurando por mudanças e me perguntando como ele conseguiu se esconder de todos nos últimos dias. Não me lembro de tê-lo visto em nenhuma aula e isso até onde me lembro é basicamente um estopim para as perseguições do Argonel.
Os cabelos sempre despenteados estão em um caos maior que o normal, a pele em um tom tão pálido quanto os dos Shadows e assim que ele me encara observo o castanho extremamente opaco. Ele está pior do que eu pensava.
– Milena está te procurando. – ele diz sem encará-la, os olhos fixos no armário as costas da garota.
– Sabe onde ela está? – ele da de ombros desviando os olhos rapidamente para o rosto dela, Mari suspira e me encara – Você vem?
Sem esperar resposta segue pelo corredor que levará a sala de estar. Estou prestes a segui-la quando ele segura meu braço, seus olhos com um pedido mudo. Afasto-me gentilmente, me encostando novamente no armário e encarando as costas da Shadow.
– Eu te encontro no refeitório. – falo alto o bastante para que me escute, ela não se vira apenas responde.
– Claro, podem discutir seja lá o que esteja acontecendo, não vou atrapalhar.
Espero o som de seus passos sumirem entre os corredores para me virar para o garoto. Ele está na mesma posição, mas agora parece ter voltado a respirar e me encara com o rosto sereno apesar de abatido. Nos encaramos por alguns segundos e ele exibe um pequeno sorriso fazendo uma massa fervente de raiva explodir dentro de mim, quando percebo minhas mãos já estão estapeando-o.
– Thais! – ele se esquiva dos tapas e tenta segurar meus braços – Ficou maluca?
– Onde você se meteu? – pergunto sem controlar a altura da voz, me afasto ainda encarando-o mortalmente – No que você estava pensando?
– Eu não queria conversar. – seus olhos caem para os pés como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
– “Eu não queria conversar”. – repito levando uma mão a mecha de cabelo em frente aos meus olhos.
Sua imitação da voz dele é medíocre.
Eu estou tentando passar um sermão aqui, da licença.
– Você não tinha que conversar, não tinha que fazer nada bastava estar aqui. – suspiro exasperada, deixando toda a frustração dos últimos dias vir a tona – Como você achava que eu iria me sentir com você desaparecendo logo depois de ter me confirmado que estava sendo afetado por aquela droga de mapa?
Ele não responde, apenas continua parado com as mãos nos bolsos e expressão envergonhada. Sei que estou descontando nele bem mais do que a preocupação pelo seu sumiço, mas não consigo parar agora.
– Toda essa porcaria está prestes a explodir bem na nossa cara e você simplesmente resolve desaparecer? Qual é o seu problema? – meus pés se movem de um lado para o outro, estou gesticulando demais.
Fecho os olhos e me forço a ficar calma. Eu só queria que tudo parasse, que o mundo deixasse de girar dando uma pausa no tempo para que eu possa pensar. Como as coisas chegaram nesse ponto? Precisamos resolver isso antes que eu fique louca.
– Desculpe. – sua voz é baixa e envergonhada.
– Não, me desculpe você, não é culpa sua. – respiro fundo e me encosto mais uma vez nos armários mexendo os dedos compulsivamente dentro dos bolsos do blazer.
Ele assente e também se escora na parede. Parece bem mais cansado do que na segunda-feira. O tempo está acabando, as coisas estão piorando. Temos que acabar com isso logo.
– Você vai à reunião? – pergunta hesitante, assinto tentando conter o nervosismo – Como acha que eles vão reagir?
– Eu não sei. – engulo em seco imaginando as expressões assustadas – Isso não importa mais, eu estou cansada de mentir.
Ele concorda com um aceno de cabeça. Parece tão ou mais nervoso que eu, mas a esse ponto não posso criticar ninguém considerando que tive um ataque de pânico durante a aula em frente a todos os nossos colegas de turma.
– Veja pelo lado bom. – ele sorri levemente e encaro-o confusa, ele da de ombros o que acaba sendo uma imagem estranha por ser um gesto descontraído enquanto sua postura é totalmente tensa – Max nem vai poder brigar com a gente já que vai ter que se preocupar com o fato de estarmos morrendo.
Assisto seu olhar se tornar desconexo e seu peito subir em um suspiro frustrado. Desvio os olhos para os meus sapatos tentando engolir o nó em minha garganta. Morrendo. É uma palavra que minha mente vem repetindo cada vez que me lembro da conversa com Blake, o que é praticamente o tempo todo. Isso é uma droga.
– Temos que trocar de roupa, está quase na hora do jantar. – falo atraindo sua atenção recebendo um fraco aceno.
Andamos devagar pelos corredores e por mais que eu tente evitar, os calafrios sempre voltam e me encolho ainda mais dentro da roupa social. Esse blazer me parecia mais quente. Seguro firmemente o pano entre os dedos que continuam tão gélidos quanto antes.
– Você também está com frio. – suas palavras me atingem como pedradas e evito seu olhar.
– É um dia frio. – finjo não saber do que ele está falando e vejo-o de relance fazer uma careta de desgosto.
Não trocamos mais nenhuma palavra até chegarmos as escadas dos dormitórios. Subo-as rapidamente, tudo o que consigo pensar durante o caminho até o quatro é no banho quente que me espera.
Assim que adentro o quarto agarro a primeira calça de moletom que vejo e um suéter de lã. Os minutos gastos debaixo da água quente não são de longe o suficiente para espantar o frio que me perseguiu o dia todo. Depois de colocar as roupas de inverno e cogitar pelo menos cinco vezes a ideia de levar uma coberta para a cantina, desistindo por fim já que me renderia muito tempo tentando explicar, saio do quarto com as mãos bem guardadas nos bolsos.
No fim do corredor C, Lilian está encostada na parede me encarando como se procurasse algo. Também já estou cansada disso. Aproximo-me lenta e cautelosamente, ela não parece estar brava ou qualquer coisa do tipo, mas sua expressão está tão séria que me assusta. Terá Marian contado a ela sobre o surto na aula? Ou ela falou com outro aluno que lhe disse como eu tive um vergonhoso ataque de pânico em meio a cadáveres de mentira?
Empurro todas as dúvidas para um canto escuro em meu cérebro ciente de que tenho que pelo menos agir normalmente. Não preciso mentir, tudo será resolvido essa noite. Bem, pelo menos uma parte dos problemas.
– Pensei que não ia descer para jantar. – seu semblante sério está me deixando nervosa, o que ela quer dizer com isso?
– Por quê? – tento sorrir, mas tenho certeza que estou fazendo uma careta horrível.
– Porque estava demorando. – ela sorri levemente e sinto o ar voltar a meus pulmões.
Se controle mulher.
Estou tentando.
– Eu acabei me distraindo. – não deixa de ser verdade.
É, você se distraiu com a água quente.
Quieta.
Seguimos o mesmo caminho dos grupos de alunos, agora todos agasalhados e sorridentes. Já me foi dito que em Wirdgewt a temperatura é sempre controlada para que não haja desequilíbrio entre os elementos e é exatamente essa informação que deixa claro que o frio que estou sentindo não é devido à chuva. Claro, também tem o pequeno detalhe de que Fênix não sentem frio.
A algazarra me encontra antes mesmo de chegarmos ao corredor principal, tento me concentrar nas conversas animadas ao invés de todas as dúvidas e medos que rodam meus pensamentos a cada segundo. As grandes janelas dando vista para o campus encharcado, os pingos de chuva se chocando contra o vidro me trazem recordações de casa, os dias frios sempre foram uma ótima desculpa para tomar café o dia todo e fazer maratona de filmes.
Quando eu era menor nada valia mais do que uma tarde usando pijamas, baldes de pipoca espalhados pela sala, cobertas e almofadas por todo o chão, o cheiro de café invadindo toda a casa enquanto a maratona de filmes da Disney passava na TV. Lembro-me de cantar as músicas com meus pais tentando sempre falar mais alto que o barulho da chuva. Foram dias bons.
Observo um raio iluminar a entrado do colégio próximo a guarita de portão principal, imagino como deve ser proteger o terreno em dias como este, onde não é possível enxergar um palmo a frente do nariz mesmo com toda a iluminação dos muros.
O caminho por dentro do prédio letivo sempre trás um sentimento de solidão ainda que esteja rodeada de pessoas. Todos os corredores apagados com exceção do hall de entrada conferem ao lugar uma aparência levemente macabra e tenho certeza que eu não teria coragem de me aventurar por aqui durante a noite.
Minhas mãos se apertam dentro dos bolsos e um pequeno sorriso se abre em meu rosto quando imagens do dia logo após o jogo tomam meus pensamentos. O dia em que aprendi a voar, ainda não tenho como definir o que eu senti com a experiência, mas foi algo único. Mesmo eu tendo sido jogada de cima de um prédio, não posso negar a sensação incrível de ter o ar se chocando contra o meu corpo enquanto flutuo.
Mas como tudo que é bom dura pouco, tão rápido quanto as imagens felizes vieram elas se vão, sendo substituídas pela lembrança de livros pesados e o pedaço de papel que eu nunca queria ter encontrado. Esse foi o dia em que conheci a biblioteca central e consequentemente o mesmo que encontramos o mapa. Lembro-me de cada parte daquele dia como se tivesse acabado de acontecer. Por que não deixamos lá? Ou jogamos fora? Qualquer coisa menos trazer par dentro do colégio como se fosse um panfleto.
Ter achado aquela coisa foi a primeira grande besteira que fiz nesse lugar, depois daquilo só fiz escolhas erradas que levaram as coisas de mal a pior. Sinto como se a cada momento que tento encontrar um saída ou uma explicação eu fosse do nada a lugar nenhum, as coisas pararam de ter sentido a muito tempo. Se é que posso dizer que encontrei sentido alguma vez.
Os corredores passam tão despercebidos pelos meus olhos e me distraio tanto que quase não sinto a mão em meu braço. Olho-a levemente assustada só então me dando conta que estamos quase nas portas de vidro da cantina. Lili me encara com os olhos verdes brincalhões como sempre, mas sua expressão ainda tem um resquício de seriedade e isso é o bastante para me preocupar. O que ela sabe?
– Você anda bem distraída ultimamente. – novamente não sei como agir diante a afirmação – Eu sei que está acontecendo alguma coisa.
– Lili...
– E também sei que não pode me contar. – seu olhar é preocupado, mas ao mesmo tempo compreensivo, ela suspira e encara os pés voltando a andar – Milena falou comigo.
Não consigo evitar o calafrio que sobe pela minha espinha. Encaro-a provavelmente com uma expressão assustada, a única coisa que consigo pensar é nas cenas do corredor após o último horário. Milena estava procurando Marian. Ela falou com a Shark. Quantos mais sabem da situação? O que exatamente ela contou?
– Ela não me disse muita coisa. – analiso seu rosto buscando desesperadamente informações, mas Lilian está incrivelmente inexpressiva – Apenas para ir a sala de estar depois do toque de recolher, algo sobre esclarecer as coisas.
Assinto lentamente, o sentimento de pânico ainda forte em cada músculo do meu corpo. Pela manhã a única coisa que me importava era o tempo que faltava para a reunião, mas agora cada minuto que passa me deixa mais aflita. Não entendo porque me sinto assim, mas algo me diz que contar a todos pode piorar a situação.
Você tem alguma coisa a ver com isso?
O que quer dizer?
Seu sexto sentido talvez.
Não tenho nada a ver com isso.
Ótimo, então é sou paranóia mesmo.
Não conte com isso.
Pare!
– Imagino que tenha a ver com o sumiço do Austin, as fugas do Blake e... – seu olhar desvia rapidamente para mim, mas disfarça quando me encontra encarando-a – A forma como você está agindo nos últimos dias.
“A forma como você vem agindo nos últimos dias”. Certo, ao que ela está se referindo com essa frase? Ao fato de eu estar paranóica com tudo, fugindo de toda e qualquer pergunta ou a minha incrível capacidade de agir como louca?
– Lira também não tem falado muita coisa. – mesmo ela tentando esconder, consigo registrar uma pitada de mágoa em sua voz – Estamos preocupados, todos nós.
Ela para quando estamos prestes a chegar à cantina, segura meu braço e me encara. Seus olhos verdes parecem buscar alguma coisa, se frustrando ao não encontrarem. Assim como Mari, ela parece cansada de toda essa situação, mas não posso culpá-la já que eu estou prestes a jogar tudo para os ares.
– E por mais que esconder talvez seja a ideia de vocês de nos proteger. – ela engole em seco e se afasta lentamente voltando a ficar inexpressiva – Não melhora as coisas.
Não sei o que fazer ou falar então me limito a continuar encarando-a até ela decidir entrar na cantina. Sei que esconder as coisas deles não é o melhor a se fazer, mas não consigo afastar a sensação de que estamos colocando todos em perigo com essa ideia de deixar tudo as claras. Sinto como se estivéssemos pisando em um lago congelado onde qualquer movimento brusco pode quebrar o chão por inteiro.
Mesmo tendo comido pela última vez a horas atrás, as comidas não me parecem nada atraentes o que pode ser colocado na minha lista de esquisitices já que a comida desse lugar é ótima. O nó na minha garganta me impede de sentir fome e toda a aflição não me permitem apreciar o sabor de nada. Pego o mínimo possível sabendo que não comer está fora de cogitação. Provavelmente seria como pintar a frase “estou com problemas” com tinta fluorescente na minha testa.
Ao me juntar com todos na grande mesa de metal tento mais uma vez ignorar os olhares questionadores. Max observa tudo ao seu redor e parece muito mais sério que o normal, posso sentir seu olhar sobre mim assim que me concentro em meu prato. Jack, que não compareceu a última aula se encontra agora ao lado de Marian, parece mais confortável que o Shark com toda a situação desconfortável e não posso deixar de ficar contente ao perceber que os problemas entre ele e a namorada parecem esquecidos.
Em minutos a mesa tem suas cadeiras ocupadas por Valeri, James e Rachel. Os três ao se sentarem também desviam os olhos rapidamente para mim, mas ao contrário dos outros não se demoram muito. Rachel tenta sempre manter a conversa fluindo, mesmo sendo assuntos sem sentido algum ou extremamente banais. Está tentando aliviar a tensão que paira sobre todos.
Em um dado momento simplesmente desisto de comer e me concentro em tomar o suco torcendo para que ninguém me pergunte sobre a comida quase intocada. O frio que consegui diminuir com o banho quente está voltando e preciso fechar as mãos em punhos mais uma vez. Não posso me dar ao luxo de mais pessoas vendo minhas mãos tremerem.
Um movimento rápido ao meu lado me sobressalta. Ele se acomoda na cadeira sem desviar os olhos da bandeja. Em momento algum parece perceber os olhares sobre ele ou provavelmente não se importa, apenas senta e come. Respiro fundo tentando acalmar a crescente preocupação, sei que encarar minha comida como se ela fosse criar pernas e sair correndo não ajuda nada no quesito agir normalmente.
– Você precisa se acalmar. – sussurra próximo ao meu ouvido e me impeço de encarar-lhe, os olhares ainda estão sobre nós.
– Estou tentando.
Leva mais uma quantidade de comida a boca e mastiga lentamente, a expressão despreocupada. Mas por que diabos ele está tão calmo? Estou prestes a iniciar um questionário nada conveniente quando sinto dedos gelados envolverem uma de minhas mãos.
Não tenho certeza de como reajo, mas posso imaginar que de uma forma extremamente cômica. Meus olhos caem assustados para meu colo onde ele está segurando minha mão. Os dedos tão brancos quanto os meus no momento.
– Você está tremendo. – observo-o pelo canto do olho, ainda não me encara, na verdade finge que nada está acontecendo.
– Eu estou com frio. – assim como ele, sussurro o mais baixo que consigo, mas tenho plena consciência que Lilian presta atenção no pequeno diálogo.
– Eu sei. – aperta levemente meus dedos e desvia os olhos para mim por breves segundos.
Os minutos se arrastam como se a cada movimente o ponteiro do relógio precisasse ser empurrado. Durante todo o tempo no refeitório registro rostos preocupados e percebo que alguns dos alunos estão ausentes. Milena. Blake. Lira.
Onde estão? Por que não vieram até aqui receber os olhares questionadores e desconcertantes?
Não pode culpá-los por quererem se privar disso.
Não estou culpando. Só quero que isso pare.
Vai parar.
A essa altura não sei até que ponto essa frase é boa.
Os minutos se arrastam como se uma hora fosse muito mais que sessenta minutos. Encaro o relógio como se minha vida dependesse disso e não me atrevo a levantar até que todos os façam, sabendo que no momento que fizesse o movimento teria que me explicar.
As mesas estão quase vazias quando eles decidem que é hora de ir embora e tenho certeza que não foi por vontade própria que permaneceram sentados até o fim do horário de jantar, os olhares nervosos e a falta de assunto deixa claro que estão apenas tentando fazer com que o maldito relógio corra mais rápido.
A sensação de estar sendo observada me persegue pelo caminho todo até a sala de estar, mas sempre que os encaro, fingem estar concentrados em outras coisas, na maioria das vezes o chão.
Assim que adentro o amplo cômodo procuro os três, mas meus olhos não os encontram. Paramos atrás dos sofás e me dou conta que eles parecem mais perdidos que eu, ou Austin, tentam a todo custo não nos encararem por muito tempo, mas é óbvio que esperam por uma instrução nossa. O que Milena disse a eles?
Quando finalmente o ponteiro ultrapassa a marca de nove e quarenta o nervosismo toma conta da quase todos na sala. Sabemos que não podemos permanecer aqui após o toque de recolher devido a ronda, portanto temos que subir para os quartos e descer novamente mais tarde.
Meus pés parecem mais pesados a cada passo e não posso dizer se é um sintoma ou somente a tensão. Com a porta fechada atrás das minhas costas não posso deixar de suspirar mais aliviada. Aqui, protegida pela minha caixa de concreto, longe de todos os olhares questionadores e decepcionados, me permito relaxar por alguns minutos.
Não me deito ou sento sabendo que se o fizer não terei forças o bastante para levantar depois. Quinze minutos. Agora prefiro que o ponteiro se arraste, meu quarto me deixa segura, mais do que me senti em qualquer outro lugar desde que cheguei.
Observo mais uma vez as gotas de chuva que assim como meu nervosismo e frio parece aumentar a cada momento. Procuro concentrar meu olhar em qualquer lugar que não seja o pequeno objeto no criado-mudo. O tic-tac alcançando meus ouvidos em uma altura anormal. O silêncio acaba sendo ensurdecedor.
Dez horas. Quase posso escutar as badalas da torre, não tem mais como adiar, é hora de encarar isso. Quinze minutos, é o tempo que me pediram para esperar até a ronda acabar. Não consigo conter meus pés que se movem pelo chão constantemente.
Você precisa se acalmar.
Agora é tarde para isso.
Um leve toque na porta me faz interromper mais uma caminhada. Encaro a madeira assustada, tenho que abri-la, mas abandonar minha zona de conforto não me parece nada atraente. Mais um toque, engulo em seco indecisa.
– Austin Lee Clarck se encuentra en la puerta. – a voz ecoa pelas paredes.
Se antes eu encarava a porta assustada, agora minhas sobrancelhas estão quase em meu cabelo. No que ele está pensando vindo aqui? Caminho rapidamente até a porta e abro-a abruptamente. Ele olha nervosamente ao seu redor, os corredores estão desertos e escuros.
– O que...
– Antes de qualquer coisa. – ele me interrompe apressado – Não posso ficar no corredor, seu inspetor está fazendo ronda.
Reviro os olhos e puxo-o para dentro, trancando a porta mesmo sabendo que ninguém pode abri-la. Analiso-o por inteiro, agora jogado em minha cadeira. Os ombros ainda tensos, mãos enfiadas nos bolsos do casaco de frio, cabelos recém lavados e expressão cansada.
– O que diabos você está fazendo aqui? – interrompo o silêncio tentando manter o tom de voz ameno, não tendo muito sucesso – Ficou doido? Isso é proibido!
– Não haja como se eu nunca tivesse feito isso. – ele sorri debochadamente, mas volta à seriedade no momento em que o fuzilo com os olhos – Não consigo ficar sozinho no meu quarto até dar o horário.
Suspiro levando uma mão ao cabelo provavelmente provocando um caos nos fios, mas isso não é importante no momento. Mesmo sabendo que é errado e que provavelmente eu devia mandá-lo para o quarto novamente, não consigo deixar de me sentir grata por ter sua companhia. Seu rosto brincalhão e o sorriso maroto de certa forma conseguem diminuir a tensão que me cerca.
– Acha que já podemos descer? – pergunto incerta ciente do estrago que meus dentes estão fazendo em meu lábio inferior.
– Não, quando passei eles ainda estavam lá, precisam checar os corredores dos dormitórios agora. – responde se balançando na cadeira feito uma criança, levanto uma sobrancelha e ele sorri – Sim, eu quase fui pego pelos monitores, mas isso é só mais um dia normal.
Me encosto na porta decidindo me sentar assim que leio a mensagem enviada por Milena.
“22:40 na sala – M.”
Encosto a cabeça na madeira tentando espantar a euforia. As dores no pescoço e nas costas ainda estão aqui me condenando por estar no chão e não estirada em minha cama. A cabeça pesada e o frio só aumentam a vontade de deitar, fechar os olhos e simplesmente deixar que o sono me encontre apagando brevemente todos os problemas.
– Você está bem? – sua voz contida e gentil interrompendo o silêncio me faz sorrir, pelo menos ele está aqui me impedindo de enlouquecer sozinha.
Abro os olhos lentamente e encontro-o em minha frente. Os olhos castanhos preocupados, porém gentis, assim como no jantar, ele agarra uma das minhas mãos e segura firmemente entre as dele. Talvez em uma situação menos desesperadora eu me sentisse envergonhada, mas por hora apenas agradeço pelo conforto.
– Estou cansada. – seus dedos apertam levemente minha palma e ele suspira – Estou nervosa e essa droga desse frio não vai embora nunca.
– Nós vamos resolver isso. – um brilho determinado toma suas íris fazendo um sorriso contido surgir no meu rosto – Isso vai parar.
– E quanto mais vai piorar até lá? – pergunto deixando toda a angústia transparecer sendo acompanhada de raiva.
– Eu não sei. – ele suspira e encara nossas mãos juntas – Mas vamos resolver toda essa merda juntos.
O silêncio toma o cômodo mais uma vez, somente nossas respirações igualmente pesadas são ouvidas e devo admitir que o carinho em meus dedos está me deixando com mais sono ainda. Meus olhos vagam por todo o quarto até finalmente se fixarem na escrivaninha. Imagens de tudo o que aconteceu durante o dia e semana tomam conta novamente dos meus pensamentos.
– Eu nunca te pedi desculpas. – as palavras deixam meus lábios antes que eu possa pensar direito nelas.
Seus olhos focam em mim rapidamente, as sobrancelhas franzidas, testa enrugada e os olhos confusos. Ele parece analisar todo meu rosto enquanto tenta me entender. Não posso culpá-lo, minhas palavras não foram muito explicativas, mas não posso mais pensar nessa lembrança sem me sentir culpada. Não posso mais guardar só pra mim.
– O que?
– Eu sinto muito por você estar lá naquele dia. – engulo em seco repentinamente esquecendo de como proferir palavras – Se não fosse por mim, você não estaria assim.
– Thais, do que você...
– Lamento por ter te feito encontrar aquela coisa, por ter feito você ficar doente, por ter começado tudo isso. – seu semblante é tão confuso que acaba aumentando meu nervosismo, sei que estou falando rápido demais, mas é possível entender não? – Desculpe por ter colocado você nisso tudo.
Seus olhos estão cravados nos meus e consigo ver o exato momento em que a compreensão o encontra. Ele fica sério, mais sério do que já o vi ficar, mais sério do que imaginei que Austin Lee Clarck poderia ficar. Seus olhos se tornam duros, como se alguém tivesse trocado suas pupilas por chumbo. O maxilar está travado e os lábios prensados um no outro.
Apesar de sua atual expressão me deixar mais nervosa do que já estou, não posso deixar de admirar como ele parece mais velho e maduro dessa forma, o contorno do rosto tomado pela fina barba e os cabelos desgrenhados parecem fora de contexto.
– Nunca... – ele pigarreia fazendo uma careta como se tivesse comido algo ruim – Nunca mais me peça desculpas por isso. Entendeu?
– Eu...
– Entendeu? – os olhos duros de certa forma me intimidam prendendo a resposta em minha garganta – Você não tem culpa nenhuma no que está acontecendo e você se desculpar me faz perceber o quão idiota estou sendo por deixar você se quer cogitar a ideia de ter causado isso a mim. A nós.
Desvio o olhar tentando inutilmente evitar as íris escuras. Sinto a intensidade de seus olhos me seguindo, me analisando me deixando envergonhada.
Ele tem razão.
Não começa. Não acredito em você.
Por que sabe que também estou certa. Nada daquilo foi sua culpa.
– Você precisa parar de fazer isso sabia, me deixa preocupado. – encaro nossas mãos ouvindo suas palavras, mas sem entende-las – Não se feche no seu mundo, fica frio aqui fora.
Engulo em seco novamente. Afasto todos os pensamentos ruins e tento me concentrar apenas no agora. Aqui no meu quarto, com Austin Lee Clarck, o garoto mais desalinhado que já conheci.
– A culpa não é sua. – fecho os olhos, sei que está me encarando, mas não quero ser observada agora – Você nunca teria ido lá se não fosse por mim. Eu te levei, você encontrou um mapa porque um imbecil colocou lá, eu fiquei doente por que fui mais imbecil ainda em ficar com ele como se fosse um suvenir.
Meus dedos são apertados levemente por ele numa tentativa falha de chamar minha atenção, ainda estou presa em uma onda de confusões internas. Me culpo pela situação em que ele se encontra, no entanto, suas palavras fazem sentido.
– Estamos todos no mesmo barco Thais. – ele suspira cansado, sua voz mais gentil como quando entrou no quarto – Não existem culpados entre nós, somente aqueles que foram afetados e os bastardos que pensam que podem roubar de um elementista sem serem punidos.
O tom enraivecido que toma conta de sua voz ao longo da frase me faz sorrir. Encaro-o com um sorriso brincalhão, é extremamente engraçado a forma como ele parece uma criança emburrada que acabou de perder um brinquedo, mesmo quando se trata de algo tão importante quanto nossas vidas.
Continuo olhando-o tentando entender como consegue se livrar da tensão a sua volta tão facilmente. Percebo que fiquei tempo demais encarando-o quando, ao sair dos meus pensamentos, encontro seus olhos fixos nos meus, me olhando tão profundamente que preciso me obrigar a permanecer na mesma posição e não sair correndo para me esconder de toda essa atenção.
– Adoro seu sorriso.
Sinto o calor invadir minhas bochechas e não sei como reagir a suas palavras, portanto só me mantenho ali, olhando-o provavelmente com uma expressão extremamente desconcertada. Ele parece perceber o que disse e pigarreia desviando os olhos envergonhado.
Em uma tentativa falha de acabar com toda aquela situação me levanto rapidamente sendo observada por seus olhos arrependidos (não sei exatamente em relação a que), meus olhos vasculham pelo quarto um motivo bom para mudar de assunto, até que o pequeno objeto vermelho chama minha atenção. Agora os ponteiros não me decepcionam, está mancando dez e trinta e cinco.
– Temos que ir. – não o encaro, apenas apanho mais um casaco e sigo nervosamente até a porta.
Ele me segue de perto, mas a uma distancia confortável. Ainda parece arrependido e ainda não sei por qual motivo. Talvez por ter vindo até meu quarto, ou por ter sentado no chão gelado comigo enquanto eu fazia uma bela cena de “coitada”. Quem sabe seja por ter me feito acreditar que não sou culpada ou então, se arrepende de... Vocês sabem.
Pare de fugir das coisas.
Não estou fugindo de nada.
Claro que não está.
Por que eu tenho a impressão de que você está se divertindo com tudo isso?
Porque eu estou.
Pensei que estivesse do meu lado.
Estou me divertindo justamente por estou do seu lado.
O que quer dizer?
Que eu gosto das coisas como estão.
Estamos morrendo.
Não dessa parte.
O mundo está a beira de um apocalipse.
Essa parte também não.
Realmente não vejo o que pode te agradar nisso tudo.
Lenta.
Antes que eu possa continuar minha discussão interna, meu corpo se choca com algo fofo, mas ao mesmo tempo duro. Volto a realidade notando que já estou na sala, o sofá a minha frente e percebo que, por estar distraída, não desviei do móvel.
– Viram um fantasma? – pela primeira vez o tom brincalhão em sua voz é forçado e parece desconexo.
Tento sorrir já sabendo que estou falhando miseravelmente, porém o sorriso de Rachel também não é lá aquelas coisas. O clima de enterro que banha a sala chega a ser quase palpável, as expressões preocupadas e até magoadas cercam todos os lados.
Estou com uma forte impressão de que estarão mais magoados ainda ao fim dessa ”reunião”.
Não posso discordar.
Sento-me afastada da barreira de olhares chateados, tentando inutilmente ignorar Lilian e Marian que praticamente me fuzilam com os olhos. Se elas estão assim sem saber de nada, imagina como vai ser quando descobrirem que menti sobre várias coisas. Acho que vou acabar essa noite sem algumas amizades.
O ambiente parece dividido, um lado pertence aos mentirosos e outro aqueles que foram enganados. O ar gelado, não sei se devido ao clima do lado de fora ou aos olhares frios direcionados ao meu lado da sala, deixa tudo mais tenso, começo a sentir saudade do calor aconchegante do meu quarto.
Milena e Blake parecem estar perdidos em um mundo só deles, ignorando totalmente os amigos, sussurrando tão baixo que quase posso afirmar que não pronunciam palavras, ambos sob uma grossa manta negra quase tão pálidos quanto o sofá.
Além deles, nosso sofá conta com a presença de Lira e Michael Ridins, que até o momento não parece se importar com a presença de Austin, apenas se mantém ao lado da namorada. Ambos emitem uma luminosidade avermelhada, a mesma que vi ao redor das duplas de shark e fênix durante a excursão ao Alasca, o que me leva a crer que não sou a única a sentir frio quando não deveria.
O lado oposto do cômodo está mais movimentado tornando evidente a quantidade de pessoas que enganamos durante esses dias. Marian e Jack, Valeri e James, formam um conjunto de shadows bem intimidante do lado esquerdo enquanto Lilian, Luide, Rachel, Bryan e James H. tornam um tanto colorido o resto do sofá. Noto a evidente ausência de Max e a presença de três pessoas desconhecidas, fato que me deixa levemente mais nervosa.
Uma garota, aparentemente fênix, de pé atrás do sofá com os braços cruzados sobre o peito, porém sua expressão é mais confusa do que brava. Um garoto elétrick extremamente sério, encara o casal fênix sem emoção alguma e uma mulher. A semelhança entre ela e Lira é gigante, poderia dizer que são gêmeas, mas a primeira parece emanar uma aura de maturidade. Suas roupas são elegantes e ao mesmo tempo casuais, mesmo com o olhar confuso, a seriedade parece lhe conferir certo domínio sobre toda a situação.
O silêncio não é absoluto apenas pelos murmúrios vindos de Milena e Blake, mas estes são cessados quando passos apressados invadem a sala. A expressão transtornada e os passos duros acompanhando sua postura rígida, posso afirmar sem dúvida alguma que ele não está nada satisfeito.
Ao adentrar a sala seus olhos vagam por todos os presentes por fim fixando em Milena. Antes de se sentar ao lado de Lilian, ainda irritado, suspira exasperado afundando as mãos nos bolsos.
– É bom você ter um ótimo motivo para quebrar as regras de forma tão explicita. – os olhos verdes encaram a shadow que ainda parece estar desorientada em meio a tanta atenção.
– Por que estamos aqui Milena? – A voz de Valeri é carregada de cansaço.
Milena assente levemente e se levanta, agora sem a coberta posso ver o conjunto de moletom preto e aparentemente grosso que a abriga, no entanto, não parece aplacar todo seu frio. Ela suspira e nos encara antes de responder o lado que agora está cheio de olhares curiosos.
– Estamos morrendo.
ASSIM NA LATA?!
A frase é tão direta que quase perco o sentido do que ela diz. Demoro alguns segundos para registrar que ela realmente disse em voz alta o fato do qual venho me escondendo a um tempo. Observo os outros presentes no cômodo e fico contente ao constatar que o olhar confuso está em todos.
– Espera. – Lilian é a primeira a se manifestar, ainda assim sua expressão é tão surpresa quanto os outros – O que?
– Estamos morrendo Lili. – a shadow leva as mãos aos bolsos e sei que está tentando parar o tremor das mesmas, seus olhos vagam sem rumo pela sala,um comportamento atípico de quem gosta de olhar nos olhos enquanto fala – Já faz um tempo.
– Quando você diz nós, se refere a quem? – a mulher que antes parecia segura de si agora aparenta ter tomado um soco na boca do estômago, seus olhos fixos nas fênix ao meu lado, esta que não devolve seu olhar.
– Nós. – Blake responde fazendo um movimento com a mão que abrange todo o nosso sofá.
A reação acontece em cadeia, a compreensão atingindo cada um, suas expressões mudando para várias emoções em segundos. A que por fim permanece é horror,Marian reveza seu olhar entre mim e Austin enquanto Max e Jack encaram o nada como se tivessem visto um fantasma. Lilian está estática encarando Milena, abre e fecha a boca várias vezes, mas acaba desistindo de dizer qualquer coisa.
– Como?
Rachel, que até então estava tão quieta e “apagada” que sua presença quase não era notada, faz a pergunta que provavelmente ronda a mente de todos. A pergunta que nem nós sabemos uma resposta concreta, ou melhor, temos uma resposta, mas como explicar?
– Nós não ficamos doentes, não estamos sujeitos a venosos nem nada do tipo, então... – ela pensa como se procurasse a palavras corretas se é que elas existem – Como?
– Um mapa.
Ela sabe que está deixando eles ainda mais confusos né?
Não sei, ela está estranha.
Efeitos da quase morte eu imagino.
Não podemos culpá-la.
– Um o que? – encaro a shadow diretamente nos olhos pela primeira vez, encontro um misto de raiva e preocupação.
– Olha, não entendemos exatamente como isso aconteceu, apenas sabemos que alguns objetos de uma equipe de Wirdgewt foram roubados e “alterados”. – Milena olha para Blake, talvez em busca de segurança, antes de voltar a explicar – Vocês devem saber a essa altura que a essência elementista pode ser ligada a outras coisas para fins diferentes, como armazenar poder, transferências, exames, enfim, o objetivo aparente dessa alteração é armazenamento, não sabemos pra que ou pra onde está indo, apenas que está tirando de nós.
– Objetos? – a mulher mais velha deixa de encarar Lira e fixa seus olhos em Milena, esta desvia os olhos desconfortável.
– Mapas.
– Por que mapas? – Max ainda carrega o olhar confuso, mas repleto de preocupação agora.
– Porque cada membro da equipe possui um mapa da missão, para ter noção de onde está cada integrante ou o que ele tem que fazer. – Blake responde percebendo que Milena não consegue seguir com as respostas sozinha.
– Certo. – o tom enraivecido me faz voltar a encarar o chão, seus olhos estão escuros e a expressão séria – Levando em consideração que apenas você tem contato direto com equipes de combate, eu quero um explicação plausível para vocês terem se metido nessa história?
Austin engole em seco e me encara em busca de ajuda, mas não sou muito útil visto que não consigo sequer encará-las.
É hora da verdade.
Não quero falar sobre isso.
Você precisa. E por que toda a preocupação? Você não fez nada de errado quanto a isso, achou o mapa por acidente.
Mas escondi isso deles.
Você não é obrigada a contar tudo também, era só um mapa, você não tinha como adivinhar que ele significava o apocalipse.
– Lira! – agora quem carrega um olhar transtornado é a mulher de roupas elegantes.
– Eu não sei Mun. – a fênix suspira chateada – Fui acusada de ter roubado ele, mas a verdade é que eu não tenho ideia de como ele foi parar nas minhas mãos, eu não me lembro de tê-lo encontrado, não me lembro de ter ido até o outro lado do campus, só sei que fui encontrada lá.
– É verdade Mun. – Milena encara Lira com um pequeno sorriso solidário – Eu fiz o interrogatório.
– Então, você está morrendo por ter entrado em contato com um mapa que nem se lembra de ter pego? – Lira assente e a mulher fecha os olhos suspirando pesadamente – Eu devia ter te levado comigo, sabia que não era uma boa ideia te deixar aqui, primeiro o julgamento, agora isso.
– A culpa não foi dela. – Ridins se manifesta encarando a mulher seriamente – Não pode repreendê-la por algo que ela não fez Munique.
– Não estou brigando com ela Michael, apenas estou dizendo que se ela tivesse ido comigo, nada disso estaria acontecendo.
– Minha vida é aqui Mun, sabe que eu não posso simplesmente ir embora. – Lira devolve olhando-a nos olhos dessa vez.
– Vida? Aparentemente você não tem muito mais o que viver não é? – o efeito é imediato em Lira, ela abaixa os olhos que ficam perdidos em algum lugar do carpete, Munique percebe suas palavras e seu rosto é tomado por uma expressão arrependida – Me desculpe Lil, eu só não sei como lidar com isso.
– Acredite, nenhum de nós sabe. – Austin resmunga ao meu lado, mas alto o bastante para que Lilian escute.
– Eu ainda estou esperando minha explicação. – posso sentir seu olhar queimar em minha direção, mas não a encaro, se vou falar algo vai ser para o carpete – Como se meteram nisso?
– Foi um acidente. – Austin responde baixo, porém firme, sinto sua mão em minhas costas, mas não me mexo.
– Estou ansiosa pra saber como foi esse acidente. – a voz de Marian é ácida e carregada de mágoa – Ou melhor, estou ansiosa para saber quando foi.
– Depois do jogo. – tendo controlar meu tom de voz, porém ainda sai baixo e trêmulo.
Eita, a gente vai entrar nessa confusão?
Já estamos na confusão a muito tempo.
– Fomos a biblioteca central. – observo Austin pelo quanto dos olhos, mas ele não me ajuda com a história, se limita a encarar o outro lado, provavelmente a shadow – Eu encontrei o mapa em um livro.
– Nós encontramos. – ele me corrige sem desviar os olhos dela – Estava escondido dentro de uma folha.
– E por que não ficamos sabendo disso? – Jack se pronuncia pela primeira vez, não demonstra emoções, mas não parece satisfeito.
– Não sabíamos que era importante. – respondo da forma mais sincera que consigo.
– Que engraçado. – a risada sarcástica atrai a atenção de todos, Max balança a cabeça levemente sorrindo de modo estranho – Isso é no mínimo engraçado.
Ele bebeu? Que diabos isso tem de engraçado?
Não sei.
– Max...
– Olha me desculpe Thais, mas... – seu sorriso some e seus olhos nos encaram com irritação – Posso até acreditar que você não soubesse o que era aquilo, mas ele... Não, ele sabia.
– Eu não faço parte de equipes Max. – Austin contesta aborrecido.
– Jura? – um sorriso de escárnio toma o rosto do shark — E ao ver o carimbo oficial, você não imaginou, nem por um segundo do que se tratava?
Austin desvia os olhos para os sapatos como se de repente eles fossem a coisa mais interessante do mundo. Max encara-o sério, mais rígido do que quando entrou e com toda certeza mais irritado.
– E quanto a você? – Valeri direciona o olhar, desorientado e preocupado, para Blake – O que você fez Adreotti?
– Ele estava me ajudando e acabou entrando em contato com um dos mapas. – Milena responde, ela se mexe nervosamente, as mãos enterradas nos bolsos, os olhos agora elétricos e o maxilar travado – Essa não é a questão, o problema é simples, entramos em um esquema de ataque sem intenção, estamos morrendo lentamente e não temos uma solução.
– Vocês não parecem tão mal. – a voz contida atrai a atenção de todos na sala, a garota ao lado de Munique cutuca o garoto que pigarreia ao notar os olhares sobre ele – Quero dizer, não parecem estar morrendo.
– Tem estágios diferentes, depende da exposição e de quanto tempo a ligação foi feita. Eu passei muito tempo com o mapa, quando Rox foi atacado eu já estava recebendo suprimento do hospital, meu tempo lá retardou a drenagem – Milena me encara rapidamente antes de voltar os olhos para o chão – Blake e Austin são o mais afetados. Austin foi muito exposto, mas foi inteligente o bastante para não ficar usando os poderes, ao contrario do Blake.
– Eu ainda não sabia que estava sendo afetado. – ele se defende indignado fazendo-a sorrir levemente.
– Lira teve contato com o mapa recentemente, os sintomas devem estar entre descontrole leve e cansaço. – a fênix assente em concordância, Milena me encara como se pedisse permissão, mas não recebe resposta – Thais, assim como eu, retardou os sintomas com seu tempo no hospital, mas...
– Eles voltaram. – suspiro afirmando a frase que tempo ignorar desde que descobri sobre o pequeno problema.
– Quais são esses sintomas? – Munique nos observa um a um, como se tentasse avaliar a gravidade da coisa.
– No início a ligação com os poderes parece fraca, você se sente mais cansado e perde o controle com facilidade, depois a falha na conexão começa a aumentar, os poderes param de te obedecer, aumentando o descontrole, você se sente fraco, tem dificuldade de se concentrar em qualquer coisa. – Milena suspira e tira as mãos dos bolsos, esticando-as a frente do corpo, os dedos tremem – O tremor começa a aparecer com o avanço da drenagem, então é como se sua conexão estivesse quase nula.
– Vocês sabem se tem um limite para a drenagem? – James indaga tentando chamar a atenção de Valeri que encara Milena fixamente, estática.
– Provavelmente quando não houver mais o que tirar.
As palavras da shadow rondam o cômodo atingindo cada um de forma diferente. Bryan, Luide e James H., estão mudos e imóveis, seus olhos fixos em qualquer ponto da sala. Ninguém sabe como reagir e de fato essa já era uma reação esperada. Como você reage quando um amigo diz que está morrendo? Não acredito que alguém saiba como agir.
– Você disse que é uma falha de conexão? – Max parece encontrar a voz, esta está baixa e contida, Milena assente voltando a esconder as mãos – Martin sabe?
– Sim, ele sabe. – o sorriso sarcástico em seu rosto demonstra sua irritação – Com nove internados, sete desaparecidos e dois alunos do colégio afetados, não tem como ele não saber. Sem contar o fato de ele também ter sido exposto.
– Vocês são cinco.
– Esse é o ponto Rachel. – Milena encara a amiga de forma cansada – Ele não sabe sobre eles, não foram registrados, não recebem suprimento do hospital e se o nosso diretor não está fazendo nada pelos soldados que ele sabe que estão afetados, como acha que eles vão sobreviver até essa história acabar?
– Não podemos simplesmente informá-lo sobre os três? – a garota fênix indaga confusa.
– Blake não devia ter contato com o mapa, eles não podem saber que ele teve acesso aos comandos da missão, o mesmo serve para Thais e Austin, além de, claro... – ela olha rapidamente para Austin, seus olhos com um brilho de irritação – Ele ter escondido um objeto oficial no dormitório.
– Irresponsável! – Austin abaixa a cabeça sob o olha de Max – Você não pensa no que faz? Isso...
– Isso não importa agora. Temos que resolver isso. – Milena corta a discussão impaciente – E é por isso que estamos aqui.
– Eu ainda não entendi, o que quer que a gente faça? – o garoto elétrick a encara sério, os olhos azuis curiosos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Temos um plano. – a voz de Blake é hesitante e baixa – Mas precisamos de ajuda.
– Que plano? – a voz me assusta me fazendo tentar conter a expressão de espanto, porém duvido que Michael percebe, pois seus olhos estão fixos na shadow.
– Bem, o que eu vou propor é arriscado, insano, provavelmente significa nossa morte, e vamos estar quebrando umas dez regras do colégio.
– Eu não ligo Milena, quero saber se esse plano resolve o problema? – Ridins indaga impaciente, a preocupação evidente em seus olhos.
Pelo menos ele é um bom namorado.
– Se tivermos sucesso, sim, resolve.
– E o que exatamente temos que fazer? – Lilian exibe uma expressão determinada, o que em nada combina com seu olhar perdido.
– Coisa simples. – Milena sorri nervosamente e suspira antes de continuar – Vamos destruir uma base militar.
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