Elementar, Meu Caro Holmes

1 Elementar, Meu Caro Holmes


Elementar, Meu Caro Holmes

Faria um ano desde a falsa morte de Sherlock Holmes. E lembro-me de como aquela fora uma época em que Londres parecia ser mais sombria do que costumava ser normalmente. A Scotland Yard teve trabalho para resolver os novos casos que apareciam, pois a Senhora Holmes se fechara em luto e quase não era avistada andando pelas ruas. Estas, voltaram a se encher com as mais variadas mentes assassinas e a sensação de medo tomou conta de toda a cidade. Mesmo minha Mary, que nunca demonstrou ser uma grande adepta às maneiras de Sherlock, lamentara sua morte. É claro, o estado em que Anne ficara após aquele dia, ajudou a enternecer o coração de minha esposa.

Dentro do coche da polícia, ela derramava lágrimas grossas sobre meus ombros, murmurando palavras confusas. Se culpava pelo que acontecera, por não ter cuidado de sua saúde e assim não ter tido forças para salvar seu marido. A senhora Hudson e eu concordamos que seria melhor para ela não voltar à Baker Street naquela noite. Mary e eu cuidaríamos dela. Contudo, quando desceu, foi direto para a sala de estar, sem dizer uma única palavra, e se sentou perto da lareira, ainda caíam algumas lágrimas de seus olhos. Achamos melhor deixá-la sozinha, enquanto preparávamos o quarto de hóspedes e alguma coisa para ela comer. Nada a fazia se sentir melhor, somente bebera uma mísera xícara de chá. Ouso dizer que sequer dormira.

No dia seguinte, começamos a tomar os preparativos para o enterro. Mycroft fora alertado e chegou o mais rápido que pode, também tentando animar sua cunhada ao fazê-lo. Fora uma longa cerimônia e Holmes seria enterrado ao lado dos pais dela. Escolhemos os dizeres da lápida, Anne e eu. Fomos também os últimos a sair dali. Demonstrara mais força do que no dia anterior, aceitando as condolências de todos, mesmo Lestrade, com doçura. Somente nos dias que se seguiram, percebemos que não seria assim para sempre. A senhora Hudson me escrevera, contando que ela se fechara no quarto e que começara a tocar uma música melancólica com seu violino, e que depois disso, pediu a ela para que apanhasse os relatórios dos antigos casos que estavam no quarto e os trancasse junto ao laboratório.

E tudo somente piorou a partir de então. Anne passara de uma mulher alegre e extrovertida para uma mulher triste e completamente contida, fechada. Guardara seus preciosos livros de Edgar Allan Poe em um armário, no quarto da senhora Hudson e mandara retirar os anúncios sobre o trabalho de Holmes dos jornais. Não saía de casa, e em todas as minhas visitas a Baker Street, ela se apresentava da mesma forma. Vestidos escuros que lhe cobriam até a altura do pescoço e o cabelo preso em um coque apertado. O rosto perdera o brilho usual e seus olhos não chamavam mais atenção. Pensávamos que fosse morrer, era visível que sua saúde, física e mental, não estava bem. E quando Holmes resolvera deixar de lado seu disfarce, deduzi que talvez tivesse sentido que aconteceria alguma tragédia, pois apareceu para a senhora Holmes em um momento em que já estava no fundo do abismo.

Tudo voltara ao normal. Os casos continuavam a ser resolvidos e Anne voltara a ter o antigo brilho. O mesmo que fizera com que meu amigo se interessasse por ela desde o começo. Lembro-me de quando, no primeiro caso em que ela participara, Holmes levara uma bala por sua companheira. Anne ficara realmente preocupada e ainda fraca, invadira o quarto para vê-lo, eu já vinha desconfiando há algum tempo, pela quantidade de discussões, mas aquele dia fora decisivo. Após a visita dela, meu amigo e eu começamos a conversar, e fora uma das raras ocasiões em que o vira sorrir daquela forma.

_ Você sabia que ela tocava? – ele me perguntara, enquanto eu examinava seu braço.

_ Não. – respondi, distraído.

_ Admirável, vocês parecem tão íntimos. – comentara ele surpreso. – Sempre tramando alguma coisa pelas minhas costas.

_ Confesso que nossa amizade é muito estreita. – retruquei, começando a passar gaze no braço. – Mas, na minha opinião, ela se diverte muito mais com você.

_ Comigo? – indagou ele, ainda surpreso. – Estamos sempre discutindo.

_ E ela gosta de discutir com você. – rebati, sorrindo. – Não reparou ainda? Acho que está perdendo seu dom, meu amigo. – disse para provocá-lo

_ Deixe disso, Watson, o sexo frágil sempre foi o seu departamento. – retrucou Holmes, irritado.

Eu ri.

_ Está enganado se pensa que ela é frágil. – disse, defendendo minha amiga.

Aqui ele parou e sorriu. Aquele sorriso que sempre dava quando chegava à resposta de um caso, seu sorriso triunfante, de como era mais esperto do que todos os homens, que se achavam espertos. Contudo, daquela vez, não fora um sorriso presunçoso, na verdade, fora sincero, sem nenhuma arrogância. E não sorria para mim, sorria consigo mesmo.

_ Ela é frágil, Watson. – retrucou meu amigo, de modo sério. – Pode atirar como um homem, duelar como um também e até mesmo possuir aquela língua ousada. Contudo, mesmo demonstrando toda essa força, é uma mulher como todas as outras. E é susceptível a emoções. Ela sentiu medo ao ver aquele quarto ensanguentado, e também não consegue ser discreta quando está com raiva ou morrendo de felicidade. A diferença e é isso o que a torna diferente aos nossos olhos, meu amigo, o que facilita para que ela nos engane, é a forma com a qual ela lida com tudo isso. – explicou.

_ Parece que a tem estudado em demasia. – observei, terminando meu trabalho.

_ Confesso que ela é um excelente objeto de estudo da mente feminina. – concordou Holmes. – E que tem se mostrado assim desde que a conhecemos naquele jantar de natal na casa de Vladmir e Susanna. Lembra-se daquele incidente no cabaré? – ele se referira a vez em que Anne nos seguira na resolução de um caso e acabara no palco de um pub noturno, dançando.

_ Como poderia me esquecer? Foi incrível, completamente inesperado. Confesso que também foi engraçado, ver a sua reação. – disse me recordando da expressão de assombro que percorreu o rosto do meu amigo.

_ De fato, inesperado. – concordou meu amigo, rindo de si mesmo. – E desde aquela noite descobrir o que se passa na mente dessa garota tem sido algo que tomou parte do meu tempo. Toda vez que estou perto de uma resposta, ela se prova impossível. Anne Bergerac me frustra de uma maneira que eu julgava ser improvável.

_ E mesmo frutrando-o de todas as formas possíveis, você não consegue odiá-la. – eu completei, concluindo algo que já sabia.

_ Exato. – resmungou Holmes, passando a mão no curativo em seu braço. – Como a Medicina explica isso?

_ Elementar, meu caro Holmes. – retruquei. – Não a Medicina. O que se passa aqui, nunca conseguiu ser explicado pela ciência.

Tornei a comentar o assunto com Anne três dias depois. Ela parecia mais receptiva para me entender do que ele, contudo, menos disposta a fazer alguma coisa a respeito. Tanto positiva quanto negativa. Apenas conviveria com isso, fingindo que não era real. Seu disfarce acabou com a ajuda de uma das amigas da vítima, Gautier. Imaginei o quanto Anne deveria ter se sentido humilhada naquele dia. Provavelmente não imaginara que aconteceria daquela maneira. No fim, é claro, tudo acabou se resolvendo. E Sherlock Holmes, que jurara nunca se casar, acabou quebrando essa promessa.

_ John. – chamou Mary, interrompendo meu relato no diário. – Eles chegaram. – avisou, voltando para fora do quarto.

Fechei meu mais novo diário. Como Holmes uma vez dissera, nunca tive a oportunidade de escrever sobre o caso em que ele e Anne confessaram estarem apaixonados. Agora haveria tempo e eu poderia escrever livremente sobre todos os casos depois daquele. Afinal, sempre haveria um caso a ser resolvido pelo casal de Baker Street e seu fiel amigo Watson. Lá embaixo, Anne cumprimentava Mary sobre como a casa estava organizada, enquanto Sherlock revirava os olhos.

_ Você não sobreviveria naquela casa se ela vivesse constantemente organizada. – argumentou ele.

_ Talvez esteja certo, Sherlock. – concordou Anne. – Apenas estou fazendo um elogio a Mary, sobre como ela é melhor dona de casa do que eu.

_ Ah, isso é bem uma verdade. – concordou meu amigo, fazendo sua esposa assassiná-lo com os olhos. – Watson!

_ John! – felicitou-me Anne, correndo para me abraçar. Um dos velhos hábitos dela, ao qual me habituei e do qual sentiria falta caso viesse a desaparecer com o tempo. – Obrigada por nos convidar para jantar.

_ É sempre um prazer Anne. – disse. – A senhora Hudson não veio dessa vez?

_ Ela fora convidada para passar o ano novo na casa de uma amiga. – explicou Anne, desolada. – Seria o primeiro ano sem poder brindar com ela.

_ Vou terminar de verificar algumas coisas na cozinha. – disse Mary, saindo em direção a cozinha.

_ Espere, Mary! Vou ajudá-la! – disse a senhora Holmes, indo atrás dela.

_ Não a deixe muito a vontade perto do fogão, senhora Watson. Detestaria perder minha parceira para essa tarefa. – comentou Sherlock, recebendo um olhar brincalhão de Anne em resposta.

Ficamos sozinhos na sala, rindo da cara um do outro. Quem poderia imaginar que um dia estaríamos passando o ano novo com nossas próprias esposas? Certamente não eu.

_ Uma coisa que não tive tempo de perguntar desde a sua volta, Holmes, onde ficou escondido durante todo aquele tempo? – perguntei, extremamente curioso.

_ Ah, Watson, contei com a ajuda de meu irmão para isso. – revelou ele, o que me chocou muito. – Sim, Mycroft sabia de tudo desde o inicio, afinal, eu precisava de alguém que me enviasse o dinheiro necessário para viver. Ele sempre fora discreto e guardaria o segredo. Sinto não ter confiado em você, mas é tão emotivo que poderia ter estragado o disfarce, precisava ficar fora por um tempo. – disse sem mais.

_ Não contou isso a Anne, contou? – indaguei imaginando a reação dela.

_ Mas é claro que sim. – respondeu meu amigo, ofendido. – É claro que tivemos uma das nossas discussões, mas, terminou tudo bem, como sempre.

_ Imagino. – retruquei, sorrindo diante do ar jovial dele. – Até hoje me surpreende como seu julgamento mudou. Disse que nunca se casaria, pois prejudicaria seus julgamentos nos casos. – comentei, me lembrando de nosso caso quando conhecemos Mary.

_ Sabe, Watson, fiquei um ano longe da rotina de Baker Street. Longe de minha amada senhora Holmes...nunca diga a ela que a chamei assim, ficará insuportável. – disse ele realmente sério, o que me fez rir. – Enfim, foi como se tivesse voltado aos meus anos de quando ainda era dedicado apenas a uma coisa, resolver meus casos. Confesso, foi um ano extremamente difícil. Me acostumei a tê-la por perto, dizendo bom dia todos os dias, as discussões, como ela sempre sabia o que se passava na casa, os seus altos e baixos por assim dizer. Passaram a ser uma segunda parte de mim. Um alívio, com certeza, poder voltar.

_ Foi um alívio, com certeza, para toda Londres você ter retornado. É claro, a mais beneficiada foi Anne. – ponderei.

_ Elementar, meu caro Watson. Como disse uma vez, é algo que a ciência nunca conseguiu explicar. – lembrou meu amigo, acendendo seu cachimbo.

Notas finais
Sei que ficou pequeno... mas eu não mudaria nenhum pedacinho dela. Espero que também gostem! Deixem Reviews para fazer essa autora feliz!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!