Elemental
1 Welcome to our life
Notas iniciais
Os gritos de medo preenchiam o cemitério supostamente abandonado. Pessoas (vivas e mortas) corriam, fugindo do caminho das chamas. A chuva e o chão separando-se não facilitava em nada as suas fugas. O homem da máscara de lobo olhava atentamente o espirito que se encontrava no topo da colina. Esse ser estava atacando a sua gente, e isso ele não ia perdoar. Olhou para o lado, vendo uma mulher correr na sua direção.
—Bruce, temos um problema!
—Sim Nataly, eu reparei. Element voltou.
A de cabelos castanhos olhou para trás do homem de cabelos compridos, batendo com a mão na própria testa por não ter reparado nele antes. Mas quem a podia culpar? Chegara ali á menos de duas semanas. Pensou no nome que Bruce mencionou. Element… então, aquele era o nome do espírito que assombrava o cemitério? Aquele ser que mencionaram que voltava todo mês?
—O que fazemos?! Como se pode derrotar uma coisa daquelas?!
—Usando o poder dos elementos, claro. –disse o homem de cabelos lisos, baixando o tom de voz com a retardice da mais baixa.
—Se fosse assim tão simples, ele não voltava todo mês.
O mascarado virou as costas para ela, pegando no seu cajado. Reparou que o espírito estava na sua forma de fogo, então, usou os seus poderes de água. Antes de poder atingir o “monstro”, ele mudou para uma forma mais leve e ágil. Ar.
—Bela pontaria para alguém tão poderoso, ein?
Levou as mãos ás têmporas. Aquela era a escolhida? Aquela que ia salvá-los a todos?
—Cale-se.
Calmo como sempre, o homem correu para mais perto de Element. Bateu com o seu cajado no chão, fazendo com que grandes rochedos avançassem na sua direção. Infelizmente, passaram todos por ele.
Nataly observava a luta sem saber o que fazer. O que ela estava a fazer ali? Porque é que aceitou vir morar num maldito cemitério com um monte de gente estranha (e seres que já nem gente eram), tudo porque havia pessoas ali com o mesmo poder que ela? Ela estava com medo. Desde pequena, os pais escondiam-na para não revelar os seus poderes. Diziam-lhe que ninguém a entenderia. Agora com os seus 15 anos, via o seu mundo desabar com a morte dos pais, e a sua vida terminar por completo ao ter que vir viver para aqui. E se ela não fosse capaz de os proteger? E se estragasse tudo, e todos morressem? E se…
—NATALY!
Tirou as mãos da cabeça, levantando-a, dirigindo o seu olhar para o homem com a máscara de lobo. Notou várias queimaduras e cortes no seu corpo, provavelmente resultantes de tentar proteger as pessoas que ali viviam. Sentiu algo molhado escorrer pelo seu rosto. Levou as mãos aos olhos. Lágrimas? Quando é que ela começara a chorar?
—Nataly, oiça-me! Você tem que confiar em si mesma! Nós somos a sua família agora, tem que nos proteger!
Levantou mais o rosto, percorrendo os olhos pelo sítio sombrio. Várias pessoas estavam desmaiadas (e ela sinceramente esperava que estivessem só desmaiadas), e muitos dos espíritos estavam sendo contidos pelos magos mais poderosos, que tentavam a todo o custo interromper a corrupção daqueles seres.
Fechou o rosto, os olhos cobertos de ira. Como era possível que ela se tenha esquecido daquela forma do que era realmente importante? Ela era a esperança deles, a nova Messias. Não podia simplesmente ignorar os gritos de dor e de aflição. Ela iria salvá-los.
O seu corpo começou a cobrir-se de chamas. Os olhos adquiriram uma cor negra como fumaça. As mãos criaram labaredas. Iria usar o seu elemento mais poderoso. Fogo.
Element olhava para a humana, estando ainda na sua forma de ar. Fogo não vencia o ar. Ela jamais seria capaz de vencê-lo. Mas quem disse que isso seria capaz de impedi-la?
Usando as chamas como um meio de transporte, a mulher direcionou-se para o ser maligno. As gotas de chuva ardiam na sua pele, a movimentação era escassa com as fissuras na terra. O vento não estava a seu favor. No entanto, o fogo que cobria o solo foi um impulso para ir mais velozmente. E também um combustível para atacar.
Já sem ter os seus pés tocando na terra, e estendendo as mãos, aumentou o tamanho das labaredas. Uma gigantesca bola de fogo foi criada, grande o suficiente para fazer o ser mudar para uma forma aquática, tentando criar uma barreira de água á sua volta. Tarde de mais. Fogo evapora água.
Nataly lançou o seu poder, e com a força do disparo, caiu em direção ao chão, sendo antes apanhada por Bruce. O monstro gritou em agonia, e um jato de água quente misturado com vapor começou a cobrir o chão do cemitério. Bruce, com o resto das suas forças, criou uma barreira de ar para proteger toda a gente, desmaiando em seguida. Os espíritos voltaram á normalidade. As pessoas começavam a se levantar. O monstro desaparecera, por agora. E Nataly desmaiou.
*****
A jovem de olhos castanhos acordou numa cama de hospital. Deixou os seus olhos ajustarem-se á luz do ambiente de paredes cinzentas, para depois movê-los para ver em que estado estavam os seus braços. Enfaixados, possivelmente para cobrir as queimaduras feitas por usar os seus poderes daquela forma. Ouviu gemidos de dor, e finalmente reparou que havia mais gente naquele espaço. Uma enfermeira aproximou-se de Nat, dizendo que Bruce e seu amigo japonês, Ushijima, esperavam por ela na sala de reuniões. Agradeceu a mais velha, levantou-se e saiu.
Os seus passos ecoavam pela casa de 3 andares. Pensando bem, qualquer um temeria viver no meio de um cemitério. Mas quem disse que ela era normal, juntamente dos outros? Afinal, seu pai sempre disse que devemos ter mais medo dos vivos do que dos mortos.
Chegou á porta da pequena sala de reuniões, batendo 3 vezes, depois ouvindo um “entre” baixo e sereno. Demorou para entender qual dos amigos tinha falado, chegando á conclusão de que não valia a pena tentar descobrir. Entrou, para depois fechar a porta atrás dela. Sentou-se na cadeira á frente de Bruce, que olhava a mais nova de maneira irritada.
—Sabe o que você fez?
—…Salvei todo mundo?
—Não, Nataly Adams. Você ia morrendo. Sabe bem que não pode dar-se ao luxo de deixar isso acontecer.
—Own, meu amigo de infância está com medo de me perder?
Olhando-a atentamente com os olhos azuis cobertos, Bruce ia continuar a falar, quando foi interrompido por Ushijima.
—Ly. O que o sr.Liam quer dizer é que você tem que ter mais cuidado. As pessoas deste lugar precisam de você para as proteger. Vimos isso muito bem hoje.
—Vá lá, me deem um desconto! Eu cheguei á pouco tempo, e nem fazia ideia de que aquela criatura era daquele tamanho!
—Por isso mesmo você não pode morrer. Element volta todo mês. Eu esperei você fazer 15 anos para te chamar aqui.
—Eu sei disso. Mas meu trabalho agora é proteger aquela gente, e eu farei de tudo para fazê-lo. Se eu precisar de perder um braço, eu perco um braço. Se precisar de morrer para destruir Element, eu morro. Não importa se estou cá á pouco tempo. Eu vou assumir esta responsabilidade.
Levantou-se sem ouvir mais nada, retirando-se da sala, e fechando a porta com força suficiente para se ouvir na casa toda. Saiu para o lado de fora, vendo tudo vazio. Ou assim parecia.
—Boa noite gente!
Vários espectros apareceram, sorrindo para a menina. Crianças, adultos e idosos. Todos estavam lá.
—Boa noite Nataly.
Aquela era a sua vida. Não era muito normal. Mas se fosse, que graça teria a vida?
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