Elemental 6 - A Luz Contra As Trevas
20 Epílogo
Notas iniciais
“Um sonho pode definir tudo. Um objetivo, uma missão, um destino. Talvez não somente de um, mas de vários outros. Juntos, ligados pelo tempo e pela história. Uma trajetória, movida pela força mortal dos sonhos. Uma força quase inabalável, que consegue recompensas grandiosas.”
Essas palavras pareciam ressoar sobre a mente deles. Os heróis. Eles não sabiam de nada: onde estavam, como foram parar lá ou como sair. Nem ao menos pareciam ver. Ambos andavam pelo obscuro local, só que a neblina era tamanha que mal podiam enxergar-se. As palavras ressoadas chegavam devagar, quase sussurradas pelas vozes (aparentemente, por pessoas de variadas idades). Elas tinham um tom rouco e sofrido, mas sentiam a satisfação e a paz no fundo de cada sílaba ressoada.
Eles não se enxergavam e nem pareciam terem pensado na possibilidade de estarem acompanhados... Até enxergarem, em meio ao nevoeiro, peculiares silhuetas. Os olhos brilhavam de forma vibrante, quase hipnotizante. Cada silhueta aparentava-se com alguma criatura ou humano. Uma grande ave de olhos vermelhos-escarlate, longas penas e um bico fino, voando de forma graciosa pelo local; um aparente jovem de robe e capuz, irreconhecível, mas com profundos olhos verdes, bem claros; uma elfa de robe leve e descalça, com longos cabelos (chegando até o chão) e belíssimos olhos azuis como o mar; uma criatura que se aparentava com um lobo com asas, sentado e curvo, com um olhar sério, marcado pelos olhos brancos; e claro, os principais. Dois dragões. Um era de asas membranosas, cheias de furos; o outro, com asas plumosas e longas. Um tinha uma série de chifres crescendo pela cabeça, de forma decrescente; o outro tinha apenas um longo par. O que tinha os olhos fundos e púrpuros era menor, só que mais forte; o outro que possuída um olhar mais calmo e de olhos azuis bem claros, era maior, magro e mais esguio. De cara, todos reconheceram quem era mesmo com a espessa neblina: Julius, o dragão da luz e Burns, o dragão das trevas.
“Porém muito ainda precisa ser feito. Não pensem que apenas isso poderá dar a vocês grandes poderes: às vezes, pequenos atos podem mover as verdadeiras gerações. Um de vocês não está presente aqui... Está descansando após a luta. Um grande esforço fora feito contra a criatura bestial... E foi necessária até a nossa invocação... Mas agora, é hora de vocês se prepararem e procurarem por ela. Desejamos a vocês toda a força, vigor e sorte para as próximas missões. Vocês também necessitarão de tempo para isso... Tempo que já os foi concebidos. Talvez não tenham notado, mas cem anos podem se passar como apenas um para vocês. E lembrem-se: as suas estrelas brilharam. Não as decepcionem...”
Enquanto eles falavam as últimas frases, a neblina vagamente começou a aumentar, escondendo aos poucos as silhuetas, até definitivamente eles desaparecem. O grupo voltou a andar às escuras, mas logo uma luz surgiu na frente de todos, cegando-os por completo... E fazendo-os acordarem.
***
O despertar deles tinha sido lento. Os sons faziam o grupo se recobrarem aos poucos: desde o farfalhar das folhas daquele calmo bosque até o canto dos pássaros. O sol a pino fazia-os forçarem a visão, pondo, ambos, a mão no rosto. Após acordarem por definitivo, o grupo ainda trocou olhares por um instante, confusos. Não sabiam por onde começar e quase não acreditavam no que tinham visto. Juravam estarem mortos após a luta. Poderia ser aquele local tão belo o céu?
–... Vocês viram o que eu vi? – Pepper arriscou.
Todos balançaram a cabeça positivamente, mas as reações ainda eram vagas; aos poucos, o grupo abaixou a cabeça, repensando nas palavras proferidas pelos anciãos. Soul, por um instante, levantou os olhos olhando o grupo inteiro, até que finalmente disse:
– A Kiara é quem sumiu.
–... Não me diga! – Vinícius levantou levemente a cabeça, com um olhar sério e fixante.
Sybria segurava-se enquanto isso, até que não se conteve e levantou-se trêmula, falando em um estado de aflição:
– Se a Kiara sumiu e pelo o que os anciãos disseram, “ela está descansando”. O que isso significa? Ela está bem? Por favor, me digam que não é o que eu estou pensando!
– Sybria! Se acalme, por favor! – Ruth a interrompeu, rangendo os dentes. – Tem horas que você me dá nervoso, sabia disso?
– De acordo, mas... – Soul levantou-se devagar. -... Sybria, você só assimilou metade do que eles disseram: sim, ela está descansando. E seja onde for eles disseram para nos prepararmos e irmos procurar ela!
Ela fixou o olhar no cavaleiro, ainda recompondo-se. Agora, a dançarina tinha ficado cabisbaixa por vergonha. Ruth suspirou com a situação e levantou-se dizendo:
– Como eles disseram, temos que nos preparar. Primeiramente, precisamos de um novo lugar para...
–... “chamarmos de Lar?” – Pepper completou com um riso.
– Engraçadinho. – Ela resmungou. – Mas é por aí.
– E você tem alguma sugestão?
– Você sabe que eu descobri uma ilha paradisíaca muito bem, não é?
– Tenho que dizer: melhor do que nada. – Vinícius suspirou. – Ao menos teremos sossego para procurarmos por ela.
– Não acho! Eu acho que essa ilha deveria ter um pouco de cada um aqui! – Retrucou Pepper, dando ênfase em “cada um”.
Soul encarou o arqueiro por um instante, mas logo voltou o olhar para o resto do grupo, dizendo:
– Como se tivéssemos tempo para isso. Lembram-se do que os anciãos disseram? Cem anos podem se passar como se fosse um. Não temos que perder tempo “decorando uma ilha”.
– Só estou tentando dizer que sentirei falta dos ventos de Kori. Aquilo sim eram ventos! – Pepper comentou, com um sorriso.
– Não acho que sentirei falta de alguma coisa. – Ruth e Sybria disseram ao mesmo tempo.
– E pelo menos em algo vocês duas concordam! – Pepper riu.
Sybria e Ruth trocaram olhares enquanto o arqueiro ria e logo imobilizaram o rapaz contra uma árvore, em um movimento quase coordenado. Enquanto Pepper se relutava para libertar-se, quase em desespero, Soul gritou:
– Chega! Vocês três, se aquietem! Foda-se homem ou mulher!
As duas largaram Pepper de imediato, espantadas pelo súbito grito do cavaleiro. Já o arqueiro apenas ficou sentado no chão, com o mesmo olhar das garotas. Soul bufou encarando os três e continuou:
– O que importa é que devemos ser rápidos!
– E por acaso não dá tempo de conseguirmos usar um pouco de magia para dar um ar do “nosso lar” naquela ilha? Afinal, não ficaremos que nem escravos atrás da Kiara! – Pepper retrucou.
– Eu bem permitiria, mas tem dois problemas! – Ruth se impôs na discussão. – Um: “pouca” magia nada!
– Dar-se um jeito, mas continue.
– E dois: muitas magias e elementos em um lugar só! Imagina o desastre...
– Dividimos a ilha em partes: uma região para cada um. Com certeza, tem espaço para todo mundo lá!
– Ok, ok; podemos decidir isso no caminho? – Soul cerrou punhos e dentes, impaciente.
Ruth e Pepper se entreolharam por um instante e logo se lembraram do porquê de estarem ali. Apenas balançaram a cabeça em sinal positivo.
***
A chegada até a tão falada ilha teria sido mais rápida, se não fosse o fato deles não saberem a devida localização anteriormente. Só após descobrirem onde estavam é que puderam seguir viagem. A ilha foi se revelando vagamente ao grupo em pleno voo: um pequeno ponto esverdeado no meio do oceano, que foi se mostrando um verdadeiro paraíso perdido. O grupo pousou em uma casa local (pequena de longe, mas grande em pessoal), aparentemente abandonada no meio da floresta tropical (à frente apenas de um corredor verde feito manualmente) e Ruth seguiu na frente, abrindo a porta do local. A poeira e o abandono tinham tomado conta do local: era possível ver os móveis, os lampiões que iluminavam o lugar e todas as estantes e mesas, completas por livros e mapas na qual Ruth e sua tripulação usavam nas suas viagens e caças. Tudo abandonado pelo tempo. A pirata suspirou ao ver a cena: isso lhe trazia algumas de suas melhores lembranças; lembranças que a torturavam. O grupo via o olhar de tristeza dela, mas apenas Vinícius tentou consolá-la.
– Não se preocupe, Ruth... Você vai ter muitas coisas melhores... – Ele disse, pondo a mão direita no ombro dela. A mão do automail.
–... Eu não preciso... – Ela suspirou novamente e virou-se com um sorriso para o grupo. -... Porque eu já tenho.
Vinícius apenas devolveu o olhar de felicidade da pirata. Ruth deu dois passos à frente do grupo, olhou tudo de cima a baixo novamente e falou:
– Antes, precisamos arrumar esse lugar.
– Então deixa que eu arrume! – Pepper falou sorridente, se ponto entre o grupo e Ruth.
– Não, nada disso! Todo mundo aqui se lembra da última vez que você limpou algum lugar, não é? – Sybria se impôs e todos ali concordaram quando ela terminou de falar. – Pois bem. Desta vez, deixa que eu limpo! – Sybria terminou, dando ênfase no “eu”.
– Ei, calma aí, que eu também vou fazer isso.- Ruth implementou.
–... Tá, ok; as empregadas vão limpar a casa, né? – Pepper disse irônico.
Aquele foi um dos piores comentários já feitos pelo arqueiro: as meninas olharam curvadas para os rapazes, completamente insultadas. Não se teve outra reação em comum e mais adequada: as duas conseguiram botar os rapazes para fora do local à força e se trancaram dentro do local, deixando-os do lado de fora. Enquanto as meninas tratavam de limpar a casa, eles ficaram na entrada na casa, esperando. Mesmo sendo o mais provocativo, Pepper ainda conseguia safar-se dos outros homens com sua velocidade; logo, só tinham dois rapazes frustrados do lado de fora, esperando as mulheres acabarem, enquanto o arqueiro estava escondido deles.
Elas demoraram e os minutos pareciam horas naquele cálido local; quando finalmente estava anoitecendo, as meninas saíram do local, sujas, mas em compensação, a casa estava impecável. Soul e Vinícius suspiraram impacientes, mas com certo alívio, e finalmente entraram no local, com cuidado para não tornarem a sujar; afinal, não queriam voltar a provocar as moças sujando o local novamente. Mas logo os quatro já estavam à vontade no local. Elas sorriram para eles enquanto os três observavam o local e por um instante, as duas se entreolharam sorrindo. Elas haviam feito uma descoberta que poderia valer o local onde Kiara estava. Após alguns minutos, Sybria falou em tom tímido:
– Pessoal...
– Que foi? – Vinícius foi o primeiro a responder.
– Descobrimos uma coisa importante enquanto arrumávamos o local... – Ruth continuou.
Sybria estendeu a mão, revelando uma joia de cor azulada fracamente iluminada. Soul, assim que a viu, notou algo vagamente familiar, até que lhe veio a confirmação visual; a joia foi vagamente mudando sua cor para uma cor roxo-púrpura. O cavaleiro levantou uma sobrancelha, mas logo as franziu enquanto pegava a joia com agressividade da mão da dançarina.
– Me dê isso aqui! – Soul resmungou.
– Ei! E os outros, grosso? – Sybria reclamou.
–... Eu não acredito nisso... – Ele já não prestava mais atenção ao seu redor, falando consigo mesmo enquanto admirava a joia. – Teleitos!
– Espera aí... – Vinícius duvidou.
O cavaleiro virou-se para o grupo primeiramente sério, até que deu um sorriso, deixando o ar macabro. Sybria ainda deixou-se intimidar pelo sorriso do próprio aliado. Soul respondeu:
– Sinto que vocês estão certas, meninas.
–... Soul, não assuste minha irmã. Sabe muito bem que eu não tolero isso! – Resmungou Vinícius.
– E quem disse que eu queria assustar alguém, viado? – O cavaleiro tornou ao olhar sério.
–... Já vi que esse grupo nunca vai mudar! – Ruth suspirou.
– Esses dois brigando, Pepper pirraçando... — Sybria riu.
–... E nós, no meio termo...
Por um instante, mesmo com as desavenças do grupo, tudo parecia natural ali, mas foi apenas Ruth apaziguar a discussão dos dois rapazes e o arqueiro reaparecer para eles se focarem novamente na situação; uma vez que o grupo separado não obteve sucesso, agora, por mais que alguns sentissem isso como sendo insuportável, eles iriam ficar unidos no mesmo local. Além disso, a busca pela aliada perdida. Eles não tinham nenhuma prova concreta, mas naquele momento, arriscar seria a melhor das opções, em ambas as situações. Teleitos vinha da caverna anciã que Pho-Seyk descobriu e ali, seria o local mais fácil de procurar por ela. Porém, uma vez soterrada, seria tarefa dos irmãos Vinícius e Sybria procurarem por ela. Pepper ria sadicamente com a situação: ele gostaria de ter a prova concreta, mas com os seus amigos, sua mente se sentiria mais confiante em arriscar.
E assim começa o novo destino dos Elemental 6. Um livro se fecha, outro se abre. Histórias que estão longe de acabarem. Os ventos do leste os chamam, assim como o começo de uma nova história.
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