Elementais

2 Como isso pode?


Notas iniciais
Este cap foi escrito pela minha amiga.
O nome dela é Mary Maikele.

Eu tinha q sair dali. Já estava me sentindo sufocada naquele quarto. Tinha chorado a noite toda e precisava me recompor antes que alguém me visse daquele jeito. Fui até o banheiro e lavei o rosto, só pra me olhar no espelho e concluir que, tragicamente, não tinha ajudado nada.

Desci as escadas o mais silenciosamente possível, tentando não perturbar o sono leve de mamãe. Quando cheguei à porta, o vento frio que inundou o hall me fez tremer. A chuva que havia começado na noite anterior ainda caia. Sem ânimo pra subir novamente e pegar um casaco, saí como estava ignorando o clima nada propício para passeios.

Havia algo que me intrigava na chuva. Muita gente ficava triste quando chovia, mas às vezes, eu tinha a impressão de que só chovia por que eu estava triste. E mesmoassimeugostavadela.

Saí, a princípio sem rumo, mas logo percebi pra onde estava, inconscientemente, me dirigindo. O CP era onde sempre nos encontrávamos para jogar conversa fora. E era também aonde eu ia pra pensar. A perspectiva de uma caminhada de meia hora na chuva até lá me fez sentir melhor.

Chegando lá, lembrei da Anne. Eu não tinha falado com ela depois de ontem, mas sabia que ela estava tão triste quanto eu com a briga. Mas a Rafaela foi uma idiota. Ela realmente não precisava ter me dito aquilo. Bom, agora já passou. Eu já tinha conseguido me acalmar e parar de chorar. Olhei no relógio e vi que já eram 09h30min da manhã. Resolvi ligar pra casa e avisar onde eu estava, mas havia esquecido o celular.

Sai correndo pra chegar rápido em casa. Quando fui atravessar a rua, em direção a avenida principal, esqueci de verificar o trânsito. Sim, eu sou uma tonta descuidada. Quase fui atropelada por uma loira idiota.

Depois de alguns minutos, pra me acalmar do susto, vi que conhecia aquela loira idiota. Ela era do centro também.

- Eu não te conheço, não? – Pela cara que ela fez quando me perguntou, com toda certeza ela me conhecia.

- Anh... Não sei, acho que sim. – Eu ainda estava meio zonza. Convenhamos que ninguém raciocina direito depois de quase ser atropelada.

- Claro que te conheço! É Aghata, não é? Você não é do centro Wicca também? – Depois do susto que ela levou a repentina alegria que transbordava nos olhos dela era meio intimidadora.

- Sim, eu sou. Agora eu estou me lembrando de você... Claro! Desculpe-me, mas... Eu não sei o seu nome. – E não sabia mesmo, isso não era por causa do choque. Anne e eu sempre achamos a “menina loira do centro” muito parecida com o Johnny, mas nunca paramos pra perguntar o nome dela.

- Eu sou Kelly. Muito prazer. Agora entra no carro que eu vou te levar pra um hospital. – Ela disse tudo isso tão rápido que eu não tive nem tempo de resmungar antes de entrar.

- Anh... Não, Kelly. Não precisa se incomodar, eu estou bem. – Eu disse, já colocando o cinto de segurança. — Foi só o susto mesmo, eu...

- Mas é claro que você vai pra um hospital!

- Sério, eu estou bem. Além disso, eu tenho que ir pra casa logo, meus pais já devem estar preocupados comigo.

Ela fez uma cara de quem estava pensando, franzindo a testa. Foi bem engraçado.

- Está bem, então. Mas eu vou te levar pra casa e falar com sua mãe primeiro. Depois você fala com ela e faz o que quiser ok? – Ela era bem decidida pro tamanho que ela tinha. 1,65m de pura determinação.

Concordei por falta de opções melhores. Apesar do medo de contar em casa que quase fui atropelada, seria bem pior contar que fui para um hospital depois de quase ser atropelada.

Até que ela era legal. Conversamos sobre as reuniões do centro no caminho. Ela me contou que freqüenta há pouco tempo, mas já era “praticante”. Muitas delas se diziam praticantes, só por que faziam rituais de purificação. Mal elas sabiam que as Wicca ainda existiam, e que os verdadeiros rituais eram muito mais complexos que pedras da lua e velas aromáticas ao redor de um pentagrama.

Chegamos em casa cerca de 15min depois. Minha mãe estava na porta me esperando. Aparentemente, a presença da minha mochila no meu quarto foi um indício óbvio de que eu não estava na escola. Mas quando ela viu o arranhão no meu braço, provocado pelo tombo que eu levei quando saltei da frente do carro, sua expressão irritada logo se tornou preocupada.

Ela veio correndo na minha direção, ignorando completamente a presença da Kelly.

- Meu Deus, Aghata! O que aconteceu com você, filha?

- Mãe, eu...

-Não diga nada, querida. Você se machucou muito? Quem fez isso com você?

Depois de me fitar alguns instantes, em que eu fiquei em silêncio, ela me sacudiu e disse, já mais alterada:

- Responde, menina!

- Mãe, é pra eu falar ou ficar quieta? A senhora disse...

- Querida, vamos entrar. Fique quietinha no sofá, está bem?

- Anh, mãe... Essa é a Kelly, uma... amiga.

- Ãnh? Ah, claro... Entre. Vou te oferecer um café. E muito obrigada por trazer minha filha de volta.

- Não precisa. Eu só vim pra explicar o que houve.

- Ah!! Que ótimo, essa menina não fala!! Mas entre, vamos sentar.

- Entre, Kelly. É melhor não discutir. – Eu conhecia minha mãe muito bem pra saber que ela não deixaria Kelly ir embora assim tão fácil.

- Anh... Está bem, então.

Entramos. Minha mãe resolveu fazer um café antes de entrar em detalhes sobre o acidente. A preocupação dela se esvaiu depois de constatar que eu estava bem.

Depois do café, minha mãe sentou no sofá na nossa frente e iniciou a conversa:

- Muito bem, Aghata. Agora me conte exatamente o que houve.

- Bom, mãe. Eu resolvi sair um pouco de manhã...

- Você não foi à escola? – pior do que uma mãe exaltada era uma mãe que simplesmente arqueava uma das sobrancelhas e te olhava com uma expressão indefinida no rosto.

- Anh... É que... Ah, mãe, Eu nunca falto aula nenhuma. Não estava em condições de ir à escola de manhã, e precisava espairecer um pouco! Então eu fui até o Central park. Quando eu vi que já era tarde, resolvi ligar, mas tinha esquecido o celular e...

- Você, além de não ir a aula, saiu sem avisar e não levou o celular? – Aquela expressão de novo...

- Mãe, eu esqueci! Estava de cabeça quente. Bom, quando eu estava voltando, fui atravessar a avenida principal e não vi o carro da Kelly vindo, então... – mais uma interrupção.

- Você atropelou a minha filha? – Dessa vez ela se dirigia a Kelly, e seu olhar indefinido estava começando a transparecer uma raiva muito bem definida.

- Mãe, calma. Ela não me atropelou. Eu vi o carro a tempo e pulei, foi assim que eu me cortei. Mas é só um arranhão, nada de mais. Olha. – mostrei o corte superficial no meu braço, e ela aparentemente se convenceu.

- Olha, dona... – Kelly começou.

- Elizabeth. – atalhou minha mãe – Elizabeth Llyr. E não precisa me chamar de dona não, você já ta muito bom.

- Elizabeth, eu insisti para que a Aghata fosse para um hospital, mas ela não quis. Então eu resolvi vir até aqui falar com a senho... você e ver o que você acha melhor. Se quiser, eu posso levá-la até um hospital agora, afinal a culpa foi toda minha.

Minha mãe olhou para ela com outros olhos depois dessa ‘confissão’. Ela disse que eu não precisava ir para um hospital, que ela mesma fazia um curativo no meu braço. Convidou a Kelly pra almoçar com a gente, mas ela disse que precisava ir, pois o irmão a esperava e não podia se atrasar. Despedimo-nos já como velhas amigas. Ficamos de nos encontrar no centro na próxima semana, para apresentar a Kelly a Anne. Eu sabia que elas iam se adorar.

Subi, pensando no meu chuveiro quentinho. Achei meu celular em cima da cama, e vi as ligações da Anne. Liguei pra ela e marcamos de nos encontrar no CP às 15h30min. Alguma coisa aconteceu com ela hoje, mas ela não quis me dizer o que houve por telefone, e também achei melhor não falar nada sobre o meu acidente pra não preocupá-la.

Tomei finalmente meu banho quente, troquei de roupa e fui comer alguma coisa pra depois ir encontrar a Anne. Resolvi pedir ao Alfred que me levasse dessa vez. Alfred era o motorista da família a anos e fazia tudo o que eu pedia.

Claro que eu cheguei primeiro que ela. Anne tinha o dom de se atrasar. Dessa vez, porém, eu já estava meio preocupada com os 10min de atraso, pelo que ela me disse pelo telefone, algo ‘grande’ havia acontecido.

Quando finalmente vi o carro do pai dela apontar na esquina, dei um salto do banco e fui encontrá-la.

- Anne! O que você fez dessa vez? – Nessas horas eu entendia por que ela dizia que eu parecia a mãe dela falando.

Realmente não acreditei quando ela me contou toda a história. Ela não podia ter tido essa sorte... Não, era invenção dela. Apesar da minha dúvida, senti a cor me fugir do rosto. E se fosse verdade? Pior: e se não fosse, o que era bem mais provável? Será que a Anne tava bem? Perguntei de novo, só pra certificar que não era brincadeira, então resolvi mudar de assunto. Contei do quase atropelamento, e a reação dela foi a mais óbvia possível: porque eu não xinguei aquela guria? Porque eu não fiz nada pra ela? Mas eu estava bem mesmo, né?

Com toda certeza, a Anne com aquele jeitinho tão próprio dela, teria gritado muito, possivelmente até batido em alguém que estivesse por perto, e tudo por um arranhão no braço. Enfim, um verdadeiro escândalo no meio da rua.

Quando o telefone dela tocou, eu não acreditei que fosse ele. Eu não queria acreditar naquela história toda. E mesmo que fosse verdade, porque ele ainda lembrar-se-ia dela? Comecei a ficar nervosa por vários motivos:

1: Johnny Carter estava vindo e eu iria conhecê-lo; 2: eu estava ficando brava com a Anne por ele estar vindo por ELA; 3: eu estava ficando brava comigo mesma por estar brava com Anne. Não fazia parte de eu sentir inveja de ninguém, muito menos dos meus amigos.

Quando ele chegou espetacular, lindo, muito melhor do que em qualquer filme ou revista, eu fiquei ainda pior. Nunca fui uma pessoa muito ‘calma’, com aquele monumento na minha frente, então, eu estava com medo de até desmaiar. Não paguei esse mico, graças a Deus.

E lá se foram eles. Alguém me explica como a Anne podia ter tido a sorte de estar naquele carro incrível com aquele cara lindo, rico e famoso, indo pra um set de gravação? Eu não achei nenhuma resposta além de destino.
Notas finais
Reviews, please

*-*