As nuvens carregadas escureciam o céu do entardecer, muitas pessoas já acendiam as luzes de suas casas para clarear o ambiente, pouco a pouco os pingos de chuva começavam a cair no solo daquela cidade, podia se ouvir o som dos carros no trânsito, das pessoas se locomovendo e conversando, mesmo na chuva a cidade não parava. Em uma avenida um pouco mais movimentada, uma pessoa abria caminho na multidão de guarda-chuvas, usava o capuz de sua blusa para esconder seu rosto, ofegante, ela ia empurrando e esbarrando nas pessoas em seu caminho, deixando um rastro de reclamações por onde passava.

Poucos metros a frente avistou um beco por onde entrou correndo, pisando nas poças de água que haviam se formado, aos poucos encharcando seu tênis, deu uma pequena olhada para trás, viu três homens vestidos de preto na entrada do beco, que a avistaram e começaram a correr em sua direção. Poucos minutos de perseguição a fizeram parar em um local sem saída, quando se virou viu que seus perseguidores estavam em sua cola, cercando-a, sentiu um frio lhe correr pela espinha, dando alguns passos lentos para trás até encontrar a parede com suas costas.

— Não se preocupe. — Disse o primeiro, pegando algo que estava pendurado em sua cintura. — Não vai doer nada. — Em sua mão direita possuía uma pequena pistola, mas que não era munida com balas, “Dardos tranquilizantes”, pensou ela.

— Por favor... Não... — O coração dela batia cada vez mais rápido à medida que eles se aproximavam, sua feição era de puro pânico. — NÃO!

Ela apontou seu braço direito na direção deles, com a palma da mão aberta, e por um momento, a chuva pareceu parar no ar, os homens de preto olharam para aquilo, incrédulos, e antes que pudessem reagir, a garota agora de olhos fechados, cerrou o punho, tudo que se pode ouvir foi um grande estrondo e o grito daqueles homens.

A garota caiu de joelhos no chão, ofegante, a chuva voltava a cair normalmente, quando reabriu os olhos, viu seus perseguidores, todos deitados no chão em locais diferentes do beco, inconscientes, e antes que pudesse ter força para se levantar e continuar andando, desmaiou.

...

[Horas depois]

A garota abriu os olhos em um quarto pouco iluminado, a chuva continuava incessante lá fora, os ventos sacudiam levemente a janela, não estava mais usando as roupas molhadas e sujas de antes, estava usando roupas quentes e confortáveis, que obviamente não eram dela, a única luz que iluminava o ambiente era de uma pequena luminária sobre um criado mudo ao lado da cama, junto dela estava uma bandeja com um copo com um líquido escuro já frio e alguns biscoitos.

Deixou tudo como estava, se levantando lentamente da cama, sentindo o piso frio nos seus pés descalços, um arrepio correu pelo seu corpo, caminhou de forma silenciosa até a porta do quarto, abrindo-a, se deparando com um corredor com as luzes apagadas, apenas um cômodo mais a frente estava com a luz acesa. Andou até a porta, se deparando com a cozinha do que parecia ser um apartamento, havia um homem, de costas para ela, lavando a louça na pia, enquanto escutava música que tocava no alto falante do celular, “Pop internacional”, identificou a garota, quando o homem abriu a torneira para tirar a sujeira de um prato, ela moveu o braço na direção da água, então a mesma parou de escorrer, assim como a chuva, parando no ar.

— Mas o que... — Falou o rapaz baixinho, se virando imediatamente para a porta, não havia ninguém lá. — Não fique nervosa, eu não vou te machucar.

Ela saiu das sombras, se revelando.

— Eu não te conheço. — Começou ele. — Mas sou como você. — Ele estendeu o braço, com a palma da mão virada para cima, e uma pequena chama surgiu poucos centímetros acima da pele dele, os olhos da garota se arregalaram, e a água voltou a escorrer pela torneira, ele fechou a mão, fazendo a chama sumir.

— O que aconteceu? — Ela falava pela primeira vez, sua voz era suave e jovem, a luz iluminava bem seu rosto, ela deveria ter em torno de 16 anos, seus cabelos eram ruivos, iam até os ombros, seus olhos eram tão azuis quanto o oceano, sua pele era parda e seus lábios rosados, o nariz era curvado para cima. Tinha uma expressão confusa. — Depois de...

— Depois de você derrubar três agentes, sozinha? — Cortou ele, ela assentiu. — Eu vi tudo daqui de cima, teve sorte de eu ter conseguido te tirar dali antes das autoridades chegarem, certamente você seria pega. — Explicava mostrando a janela que ficava alguns metros acima do local daquele evento.

—Por que me ajudou?

— Pessoas como nós, se não se ajudarem entre si, não haverá ninguém mais que possa fazer isso. — Fechou a torneira e se sentou á mesa de madeira.

Ela pode dar uma boa olhada nele, tinha pele marrom, e cabelos pretos bem curtos, seus lábios eram grossos, seus olhos possuíam uma íris em um tom vermelho escuro, seus braços eram fortes, deveria ter por volta de 24 anos.

— Obrigada, mas eu tenho que ir, eu só vou te atrair mais problemas. — Ela se virou na intenção de procurar a saída.

— Ei espere!

— Sério, você já fez muito, eu tenho que ir para... — Uma memória desagradável lhe veio á mente, ela deu um suspiro, andando em direção a porta do apartamento.

— Está escuro, chovendo e eles estão procurando por você, acho mais prudente esperar até de manhã. — Ele ficou parado em frente à porta da cozinha, observando ela chegar até a porta. — E você está de pijama.

Ela parou olhou para seu próprio corpo, vendo que a roupa que usava era um pijama branco com imagens de ursinhos, então se deu conta do quão cansada e faminta estava, entendeu que uma noite de sono realmente lhe faria bem.

— É, eu acho que... — Ela ia se virando quando foi interrompida por batidas rígidas na porta, olhou para o rapaz com olhar de pânico, ele devolveu esse olhar.

— Quem é? — Falou em voz alta, enquanto mandava um “Se esconde” baixinho para a garota.

— Polícia. — Respondeu uma voz grossa do outro lado. — Temos um mandato, só estamos fazendo uma vistoria nos apartamentos.

— Claro, só um minuto. — Ele deu uma verificada pelo olho mágico, e realmente era um homem fardado com o distintivo da polícia, então destrancou a porta e abriu, quando ele entrou, a garota havia sumido do corredor.

Enquanto isso ela havia se escondido no quarto onde havia acordado, dentro do guarda-roupa, aproveitou que tinha uma estatura baixa para se enfiar lá dentro, espiando pela fresta da porta, ao longe escutava a conversa entre o policial e aquele homem, não conseguia entender o que estavam dizendo, eles iam passando de cômodo em cômodo, até chegar ao que ela estava.

— Como eu disse, não tem nada. — Falou o rapaz.

Ela pode ver a sombra do policial parando em frente ao guarda-roupa, prendeu a respiração, seu coração foi a mil, mas o oficial saiu dali, aparentemente voltando para a porta do quarto.

— É, parece que tudo certo, tenho que ir. — Ele foi em direção a saída, e o rapaz o acompanhou.

— Pode vir, é seguro. — Falou ele de longe, então a garota deixou seu esconderijo e surgiu no corredor. — Você ainda não me disse seu nome.

— Lynn... E o seu?

— Flint. — Encarou ela. — Como eu disse, é melhor esperar de manhã.

— Sim. — Ela se rendeu. — Tem algo pra comer?

— Tem sim. — Ele sorriu. — Vem.

Ele andava á frente dela, quando deu o primeiro passo na frente da porta da cozinha, a garota ouviu um barulho de vidro quebrando que a fez assustar, e viu Flint tombar no chão, ela correu até o corpo dele, o colocando de barriga para cima, vendo algo em seu braço que não estava ali antes, um dardo tranquilizante, em seguida escutou vários passos vindos do lado de fora.

— Mas como...?

— Lynn... — Sussurrou Flint. —... Fuja. — Depois disso ele ficou inconsciente.

Então veio uma forte batida na porta, estavam tentando arrombá-la, Lynn correu para o quarto, pegando as roupas que usava antes de vir parar ali, que estavam sobre uma cadeira, uma mochila que tinha visto no guarda-roupa, já haviam dado muitas batidas, a porta estava no seu limite, guardou os biscoitos e a roupa na mochila, e quando a porta finalmente caiu, ela saltou pela janela, quebrando o vidro para uma queda de 10 metros de altura.