Element - X
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Cameron parou de respirar. Que tipo de piada sinistra era aquela? Ele teve ainda mais vontade de bater em Joe com aquela brincadeira de mau gosto.
– Você é lunático. – Ele conseguiu dizer depois de um bom tempo encarando Joe com a expressão mais incrédula que conseguia ostentar. – Eu estou dando o fora. – Isso tudo é ridículo!
Ele se virou para voltar, mesmo que não soubesse mais o caminho depois de todas as curvas que haviam feito. O cheiro podre do esgoto ainda queimava suas narinas. Ele ouviu Joe suspirar atrás de si, mas não se virou para ver se era acompanhado.
– Sério, Cam? – Ele continuou andando, afastando-se ainda mais de Joe. Ele não queria mais ouvir um monte de mentiras ridículas, ele queria saber o que estava acontecendo e por que ele não se lembrava de absolutamente nada.
Não me ignore, Cameron Montgomery!
Cameron gritou. A voz de Joe ainda ecoando em sua cabeça. Ele se virou bruscamente e encarou o garoto desde a cabeleira loira até os pés mergulhados em água lamacenta.
– Como você fez isso? – Ele amaldiçoou o tremor perceptível em sua voz, mas não abrandou o tom mordaz.
Eu disse que podíamos fazer coisas que ninguém pode.
– Eu mandei ficar longe da minha cabeça!
Joe ergueu os braços, rendendo-se. Sem auxílio de movimento nenhum, toda tranqueira que estava submersa na água pútrida levantou no ar e começou a girar ao redor dos dois. Tênis, sacolas plásticas, um boné e até uma carteira.
– Mas que diabos... – Cameron viu os objetos despencarem e pararem no ar novamente, a centímetros da superfície da água. Joe piscou e tudo afundou, a água agitada sendo a única coisa que constatava que eles realmente haviam se movido outrora.
– Isso está muito longe de ser uma besteira, Cam. Tudo o que eu te contei é a mais pura verdade e você seria um idiota saindo por aí sozinho. – Joe deu de ombros, casualmente desdenhando das próprias palavras.
– Você disse que eu morri, Joe. Você é doente!
Joe cerrou os punhos e o corpo de Cameron foi arrastado para frente, sem que ele pudesse fazer absolutamente nada para impedir o poder do garoto.
– Você não era imune à radiação, Cameron! – A voz de Joe tremeu quase imperceptivelmente, mas foi o bastante para Cameron perceber que Joe realmente havia sido seu melhor amigo. – Você foi infectado, mas continuou conosco por que nós dois nos tornamos inseparáveis. Depois de um tempo você ficou muito doente para continuar e eu simplesmente não pude assistir você morrendo. Eu deixei você, Cam. Não espere, nem por um segundo, que eu vou ser capaz de fazer isso novamente.
Cameron não se sentia nada bem. Ele havia adoecido por conta da radiação? Ele havia sido curado? Ele deveria estar morto.
– Quanto tempo... — Ele respirou fundo e se concentrou em não permitir que a voz o traísse. – Quando tempo faz desde a última vez que você me viu?
– Eu tenho me odiado por ter deixado você para trás há três anos, parceiro. – Um sorriso envergonhado curvou o canto dos lábios de Joe.
Cameron não sentia nem uma nesga da raiva que experimentara anteriormente. Então ele havia contraído o câncer proveniente da radiação que havia chegado à América. Ele havia sucumbido à doença sem a menor chance de resistir ou de lutar contra ela. Mas ele não havia morrido, isso era impossível. Ele estava vivo e saudável (exceto pela sua incomoda amnésia), então o que diabos havia acontecido?
– Temos que continuar andando, eles vão ficar preocupados se demorarmos a chegar à Central. – Joe girou nos calcanhares e continuou o percurso através das bifurcações entre os dutos.
Cameron o seguiu em silêncio pelos primeiros cinco minutos antes de decidir jogar todas as suas dúvidas no ar. Eles começaram a se aproximar de um declive quando sua voz ecoou pelas paredes cheias de limo.
– Você acha que eles podem ter usado o vírus mutante em mim?
Joe não olhou para trás, mas seu tom de voz deixava claro que era exatamente aquilo que ele pensava.
– O que você fez com o vento e com os trovões deixa bem claro que você tem o gene X, camarada. – Cameron queria perguntar o que era gene X, mas foi impedido assim que escorreu ao tentar descer o declínio. Seu corpo teria, literalmente, se afundado na merda se não fosse a mão mágica e invisível de Joe impedindo-o de dar um mergulho nada convidativo. – Obrigado.
– Não há de quê.
Eles continuaram andando, mas agora Joe precisou usar seu isqueiro para iluminar o caminho completamente escuro e fétido.
– Então você quer dizer que eu tenho poderes especiais? Eu sou uma Cobaia agora? Sou imune a radiação? Estou curado do meu câncer? Eu quão mal eu estava quando você mexeu essa bunda gorda e decidiu me deixar a mercê da minha própria sorte, babaca?
Joe riu, uma risada sincera dessa vez. Parecia rouca, quase como se ele não risse muito.
– Acho que você tem. Acho que sim. Não faço ideia. Como eu vou saber, cara? E eu realmente não quero falar sobre essa última pergunta. – Eles haviam chegado ao fim da linha. Havia uma escada enferrujada e provavelmente muito perigosa que levava para a escuridão nada inspiradora. Joe se virou para Cameron e apontou para cima.
– Vamos sair na Quinta Avenida, o meu pessoal esta abrigado no Empire State há três meses. A maioria já conhece você, mas eles vão exigir uma explicação quando colocarem os olhos em você. – Antes que Joe pudesse se virar Cameron fez novamente a pergunta que ele continuava se recusando a responder.
– Joe, como eu estava na última vez que você me viu?
O loiro prendeu a respiração e a manteve assim por um tempo, até soltar o ar pelas narinas e comprimir os lábios antes de responder.
– A radiação te afetou bem rápido. O câncer se espalhou pro todo o seu cérebro e em poucas semanas você não tinha mais controle nenhum sobre o seu corpo. Você não me contou quando as dores de cabeça começaram e eu só fui perceber quando você tinha apagões e convulsões periódicas. Você teve lapsos de memória e crises esquizofrênicas. Você ficou insano e perigoso por um bom tempo antes de simplesmente deixar de ser você. Digo, você estava lá, mas não estava. Sua coordenação motora ficou debilitada, você não conseguia controlar sua bexiga, nada do que eu fazia você comer ficava no seu estômago e depois de uma semana você não falava e nem andava. Todos achavam que era desumano deixar você daquele jeito e que era mais digno acabar de uma vez com o seu sofrimento, mas eu tinha esperanças, Cam. Mesmo quando o câncer destruiu tudo o que você tinha nessa cabeça oca... – Joe engoliu em seco, respirou bem fundo de novo e concluiu. – Depois de um tempo eu não aguentei ver você reduzido à uma massa de carne e ossos, então eu parti.
Aquilo havia sido um tapa na cara, um enorme e ardido tapa na cara. Cameron queria saber as respostas para a sua pergunta, mas ele não sabia que não estava preparado para ouvir a resposta.
Joe se virou, guardou o isqueiro no bolso do jeans preto e começou a subir as escadas. Cameron não o impediu dessa vez, apenas seguiu o antigo melhor amigo, sentindo como se o câncer ainda estivesse lá apenas esperando para destruir a sua vida novamente.
. . .
Eles saíram no meio da Quinta Avenida, como Joe havia dito. Atravessaram a rua em direção ao enorme arranha-céu que devia ser o Empire State. Cameron ficou estupefato com o caos em que se encontrava a cidade. Carros abandonados, colisões esquecidas pelo tempo e alguns prédios completamente destruídos. Não tinha ninguém na rua, nem um ruído sequer. Era uma cidade fantasma.
Ambos entraram no hall do edifício e passaram pela recepção vazia e completamente destruída. Rachaduras grossas se espalhavam pelas paredes, vidro quebrado refletia a luz prateada da lua.
Não havia luz naquele imenso saguão, por isso ele tomou o dobro do cuidado para ter certeza de que não cortaria o pé em nada.
Havia um espelho destruído em um canto mais afastado do hall. Cameron avaliou seu reflexo, surpreso em se ver. Ele não se lembrava de como era a sua aparência, mas esperava que estivesse desnutrido e imundo.
Seu reflexo era esguio e atlético, exibindo saúde. A pele pálida contrastava com os cabelos escuros e o rosto tinha traços firmes e angulosos. Ele não estava se gabando quando falou:
– Nossa, eu sou bonitão.
Joe olhou para trás e gargalhou quando o viu encarando o espelho. O loiro se dobrou para frente, abraçando a barriga com um dos braços e tentando abafar as risadas com a outra mão.
– O quê? Eu não me lembrava como eu era! – Ele não gostava de quando debochavam dele, mas não pode negar que a cena realmente deveria parecer ridícula. Cameron começou a rir também e os dois só param quando ficaram e sem ar e com a barriga doendo de tanto gargalhar.
Uma garota apareceu sob a soleira da porta que deveria levar às escadas. Ela era loira e certamente a garota mais linda que Cameron já havia visto. O corpo era curvilíneo e esguio. O cabelo loiro e liso estava preso em um coque feito às pressas e sua expressão não era a mais amigável.
A recém-chegada vestia uma calça de couro preta (aparentemente o padrão por aquelas bandas), e uma jaqueta do mesmo material. As botas de salto alto tinham bico de ferro.
Joe olhou para trás e soltou um palavrão ao ver a garota. Cameron ficou tenso quando a expressão dela mudou de irritação para confusão assim que ela o viu.
– Cam?
– Desculpe, eu te conheço? – Cameron detestava não reconhecer ninguém do seu passado, mas realmente não podia fingir o contrário.
Diferentemente de Joe, a única expressão que permeou as feições da garota foi a mágoa.
– Hã, Cameron, essa é a Scarlet. – O olhar de Joe se bipartiu entre os dois, lentamente. – Skye, o Cam não está muito bom hoje.
A garota bufou e cruzou os braços em frente ao peito.
– O pessoal que foi dar uma volta com você pelo esgoto voltou todo cheio de segredinhos, você demora mais de meia hora para voltar e agora Cameron Montgomery está aqui, vivo? Que brincadeira é essa? Isso é impossível.
Joe ignorou Scarlet e se voltou para Cameron.
– Ela é a minha irmã mais nova, conheceu você antes de tudo o que eu te contei.
– Ah, sim.
Scarlet avançou na direção do irmão mais velho e o agarrou o pela gola da camisa preta e apontou o dedo para Cameron.
– Eu quero saber o que está acontecendo aqui!
– Eu vou contar tudo mais tarde, mas primeiro vamos acomodá-lo! – Os dois irmãos tiveram uma troca de olhares muito significativa e Cameron se perguntou se Joe falava com a irmã mais nova através dos pensamentos.
Scarlet olhou para Cameron de novo, confusa e magoada.
– Você realmente não se lembra de nada? – A voz dela tremeu, mas Cameron não achou que alguém além dele tivesse percebido. Scarlet aparentava ter a idade de Joe, o que o lembrou sobre aquilo das células feitas em laboratório terem um efeito de desacelerar o envelhecimento. – Nem de mim?
Cameron tentou se lembrar dela. Olhou de verdade para o rosto daquela garota, perscrutando cada detalhe com a devida atenção. Nem uma centelha de recordação espreitou em seu cérebro cancerígeno. Nada.
– Não, sinto muito.
Scarlet sacudiu a cabeça como se não conseguisse acreditar. Ela se virou e correu em direção às escadas, atravessando a porta como se ela simplesmente não estivesse ali. Cameron ficou um bom tempo encarando a porta, perguntando-se como aquilo era fisicamente possível.
– Mas o quê...?
Ele olhou para Joe em busca de auxílio, mas tudo o que o garoto fez foi dar de ombros.
– Minha irmã não lidou muito bem com a sua suposta morte. Eu não quero me meter entre vocês dois, mas vocês definitivamente precisam conversar.
– Como assim, Joe? – Cameron sentia como se tivesse acabado de acordar naquela caixa. Completamente desorientado.
– Algumas pessoas aqui eram suas amigas e eu lamento mesmo que não possa se lembrar delas, mas todos nós gostávamos muito de você e tenho certeza de que faremos de tudo para que você se sinta em casa. – Joe disse aquilo sem ressentimento nenhum, sem nenhum traço de aspereza na voz. – E quanto a minha irmã... Antes de você sucumbir ao câncer cerebral você e a Scarlet eram bem próximos.
Cameron sentiu-se péssimo. Como ele podia esquecer tantas pessoas que se importavam com ele? Aquela maldita doença havia feito um estrago irreparável e agora ele tinha que arrumar a bagunça toda sozinho.
– O quão próximos nós éramos, Joe?
Joe deu de ombros como se aquela informação não tivesse a menor importância naquele momento. Eu ver o olhar incisivo de Cameron ele suspirou e deu de ombros novamente.
– Vocês namoravam, parceiro.
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