Electric Love
1 U: You're like lightning in a bottle
Notas iniciais
Primeiramente quero agradecer ao convite das meninas para participar do Pride Month, ainda mais considerando as últimas situações envolvendo a autora da saga. Ter um mês dedicado à personagens e casais LGBTQ+ é um ato absolutamente incrível e estou amando fazer parte lendo e escrevendo!
Como vocês notaram é um capítulo grandinho, então não vou me estender - mas peço que vocês leiam as notas finais.
A fanfic leva como nome e inspiração a música "Electric Love", do BØRNS. Você pode se aventurar pela fanfic ouvindo essa música ou a playlist completa (que pode ou não conter alguns spoilerszinhos) no seguinte link: https://open.spotify.com/playlist/1vGEuMK7fJn0cZsg82D0cD
P.S: não há cena de sexo explícita, somente insinuação.
É isso! Espero que gostem :)
— Não podemos continuar fazendo isso.
— É brincadeira, né? Alice, você está brincando, não é?
— Nós nunca nem falamos sobre isso que tá rolando. Aliás, quando estamos juntas nós nem falamos.
— Pra que falar quando tem coisa muito melhor pra fazer? Falar a gente pode fazer tranquilamente na frente de todo mundo. Mas o resto...
— Ah, então você só pretende me beijar e foder comigo pro resto da vida às escondidas sem nunca definir o que é que existe aqui?
— O quê? Claro que não!
— Então vamos falar sobre o assunto.
— Aqui, agora? Não acho que seja uma boa ideia…
— Dominique, achei que você fosse uma Weasley e uma grifinória mais corajosa.
D O M I N I Q U E
A verdade é que Dominique Delacour-Weasley não fazia ideia do que queria para a vida. Sequer sabia quem era, se fosse para ser sincera. Ter o sobrenome Weasley, primos brilhantes, uma irmã mais velha perfeita, um irmão mais novo superdotado e uma mãe controladora não ajudavam sua autoestima em absolutamente nada.
A verdade mesmo é que Dominique estava no sétimo ano de Hogwarts sem perspectiva alguma. A única certeza que ela tinha é que estava gostando muito de beijar — entre outras coisas mais — Alice Longbottom, sua colega de dormitório. Mas no fundo ela não fazia ideia de onde essa vontade havia surgido. Não sabia nem se definir, muito menos definir o que aquilo era. Não fazia ideia alguma de nada.
— Você sabe que eu odeio que me lembrem que sou uma Weasley. — sibilou enquanto passava a mão pelos cabelos curtos, que combinavam em corte e altura com os de Alice.
— Você tem mania de fugir das coisas demais, Dominique.
— O quê? — a loira fez uma careta, se sentando na cama, emburrada. — Claro que não.
— Ah não? — Alice cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha, e Dominique quis tirar aquela expressão de “eu-sei-do-que-estou-falando” da cara da garota com um beijo.
Dois meses antes
A Grifinória costumava usar qualquer desculpa para dar festas, mas era indiscutível que vencer a Sonserina no quadribol — mesmo que em uma partida não-decisiva — merecia uma comemoração em grande estilo. Dominique não poderia estar mais feliz, afinal era a artilheira responsável por marcar mais gols na partida, mas havia sido ela que tinha angariado da vitória: Alice Longbottom quase derrubou Albus Potter da vassoura ao agarrar o pomo de ouro e garantir mais 150 pontos para a Grifinória e a humilhação da Sonserina.
Das poucas conquistas de Dominique, ser artilheira era a que ela possuía mais orgulho. Seus pais adoravam o empenho dela nos treinos, o problema é que a garota só se dedicava à isso. Os NOM’s haviam sido um desastre e toda semana Dominique recebia uma carta chorosa da mãe, pedindo para que ela se esforçasse para conseguir ao menos um cargo básico no Ministério ou, na pior das hipóteses — do ponto de vista da matriarca Delacour, que sonhava com a pompa de pelo menos um de seus filhos ter o "prestígio" de trabalhar lá, já que Victoire estava muito bem comandando sua galeria de arte junto à Teddy e Louis fugia das perguntas dizendo ser muito novo -, uma vaga em algum time profissional.
Fazer parte do único time majoritariamente feminino da escola e que vinha conquistando vitórias invictas de lavada era um feito e tanto. O suficiente para que ela e o restante de suas companheiras sempre fossem ovacionadas, assim como seu primo hugo, o único garoto do time. Nenhum outro time e nada se comparavam ao entrosamento incrível das garotas.
— Por Merlin, não quero nem imaginar como vai ser se ganharmos na final.— Hugo, praticamente gritou no ouvido da prima, que sorriu.
— Correção, quando nós ganharmos.
Estava absolutamente impossível ouvir qualquer coisa. Não percebeu quando foi levantada por alguém, mas se permitiu aproveitar o momento. Também não notou quando Richard Thomas-Finnigan a puxou para um beijo rápido. Aquele gesto a fez franzir o cenho, porque havia terminado com ele um dia antes da partida justamente por ele estar atrapalhando demais sua vida esportiva.
— Richard, nós terminamos.
— O quê? — falou um pouco alto, mas Dominique sabia que ele havia escutado muito bem. — Depois a gente se fala. — com um sorriso e um beijo, mas dessa vez no rosto, o garoto se afastou.
— Vocês voltaram? — Alice perguntou rindo, enquanto limpava a testa molhada de suor.
— Nos sonhos dele. — Dominique fez uma careta e Alice revirou os olhos, abanando-se. — Acho que vou subir para trocar. — anunciou ao pé do ouvido da amiga, que assentiu, ignorando um leve arrepio.
— Também vou. Tudo bem que é legal ganhar da Sonserina e tal, mas o pessoal poderia deixar a gente pelo menos tomar um banho. Já estou ficando cansada. Nossos fãs precisam de limites. — Alice riu enquanto se apoiava no ombro da loira.
— Tantas vitórias assim estão te deixando um pouco metida. Só porque você é a estrela do time. — cutucou de provocação a morena, que revirou os olhos, dirigindo-se para as escadas.
— Hey, hey, onde vão? — Fred posicionou-se para que as duas não fossem adiante, segurando uma garrafa de tequila em uma mão e um balde com limão e um pote de sal na outra. — Não foram batizadas ainda.
— Por Merlin, Fred, a gente acabou de jogar. O batismo da vitória pode esperar um banho. E pare de exibir isso por aí, se descobrirem que traficamos álcool pra cá vai dar merda. — Dominique tentou afastar a garrafa, mas Fred sacudiu a cabeça, irredutível.
— Ninguém vai descobrir porque ninguém aqui é idiota de contar. E não vamos exagerar dessa vez, já que algumas pessoas não sabem se comportar. — ele olhou feio para a irmã Roxanne que encarava o copo de refrigerante de soda com tédio. — E uma vez ou outra não faz mal. Pelo menos não para nós. — o garoto sorriu e Dominique revirou os olhos, porque desde que James ensinou aos primos mais novos sobre as passagens secretas para Hogsmeade produtos contrabandeados em plena luz do dia estavam ficando cada vez mais comuns. Isso resultava em pequenas comemorações que estavam tomando proporções inimagináveis na Torre da Grifinória. Não que alguém estivesse reclamando. — E esse é só o começo, priminha, e você sabe. Ainda temos o shot de groselha e vodka bem ali. — ele indicou com a cabeça o local onde Rose batizava Freya Chang, batedora do time.
— Vai, anda logo, Dominique. Pelo menos já vamos entrando no clima. — Alice incentivou com um leve empurrão de ombro e um sorrisinho animado.
No minuto seguinte ambas estavam brindando. Uma, duas, três vezes.
E depois recebendo shots de groselha e vodka com Rose.
Eventualmente, posando para uma foto com todo o time ainda de uniforme, bem como fazendo um novo brinde, com direito ao grito de guerra da Grifinória e uma virada de copo cheio de firewhiskey.
— Puta merda a gente precisa mesmo ir tirar isso logo. — Dominique berrou quando Rose derrubou groselha no uniforme de Hugo. Alice assentiu, rindo e ambas subiram as escadas rapidamente.
Chegaram sem fôlego no quarto e Dominique sentia a cabeça girar um pouco pela mistura de álcool, euforia e calor. Precisou se apoiar na porta, ainda mais quando uma crise de gargalhadas surgiu ao ver que Alice tropeçou e caiu no chão ao tentar arrancar a camiseta do uniforme enquanto andava.
— Caralho, Alice, foram só umas oito doses.
A gargalhada das duas preenchia o ambiente, sobrepondo-se ao tom abafado de falatório vindo lá debaixo.
Em um instante Dominique se apoiava nos joelhos, rindo, e no outro estava no chão devido à porta que estava sendo brutalmente aberta.
Era Nina Longbottom, encarando as duas com o cenho franzido.
— Ai que susto, achei que fossem garotos tentando invadir o dormitório feminino.
A declaração da caçula Longbottom apenas fez as duas rirem mais, agora estiradas no chão. Nina revirou os olhos, bufando.
— Precisam ser mais discretas ou o castelo inteiro vai saber que a Grifinória está dando uma festinha. E, como Monitora, eu nem deveria estar permitindo isso aqui. Ainda não acredito que o Fred me convenceu a não contar nada depois da Roxanne quase ter ido parar na enfermaria.
— Você é legal, maninha. — Alice fez um coração com os braços acima da cabeça para a irmã, que balançou negativamente a cabeça. — Gosta de ver a Sonserina perder tanto quanto a gente.
A falta de resposta da garota apenas fez as outras duas rirem mais.
— Tá, tá, mas falem mais baixo! E não façam coisas erradas.
Deixando a frase suspensa no ar, Nina bateu a porta. No instante seguinte as duas começaram a rir novamente, agora rolando no chão.
— Por Morgana, sua irmã é muito certinha! “Coisas erradas”. — a loira fez aspas com a mão, tentando controlar a respiração.
— Ela é tão pura, coitada. — Alice balançou a cabeça, enxugando o canto dos olhos.
Ainda rindo, sentou-se no chão para tentar novamente tirar a blusa. A regata que ela usava por baixo da camiseta do time enroscou na altura no busto, exibindo a barriga surpreendentemente cheia de sardas.
A visão fez com que Dominique finalmente parasse de rir, analisando a amiga verdadeiramente pela primeira vez. Não que nunca tivesse reparado no quão ela era linda e atlética — afinal dividiam quarto e tomavam banho no mesmo vestiário -, mas o efeito da situação toda — o álcool, a groselha, a vitória, o calor, a frase de Nina — fizeram com que a garota começasse a prestar um pouco mais de atenção para se lembrar da sensação estranhamente excitante no pé da barriga — e, se fosse ser sincera, por todo o corpo — que estava tendo naquele momento.
Alguns segundos depois Alice conseguiu desenroscar as peças de roupa, ficando somente de sutiã. Os fios do cabelo castanho-claro estavam grudados no pescoço devido ao suor. Os lábios estavam entreabertos e levemente avermelhados no canto por conta da groselha. O rosto estava corado e os olhos fechados. Seu peito descia e subia com intensidade conforme ela tentava controlar a respiração.
De repente Dominique sentiu a necessidade de se sentar também e tirar a blusa. Tentou fazer com agilidade, mas bateu o cotovelo na porta, o que chamou a atenção de Alice.
No momento seguinte tinham os olhares fixos uma na outra, em um primeiro instante nenhuma se atreveu a quebrar o contato visual, mas resistir estava impossível, então Dominique o fez. Notou que os seios de Alice eram bem menores do que os dela, mas extremamente convidativos.
Gostava de estar sendo olhada com vontade por Alice. Estava apreciando tanto, que quase soltou um muxoxo audível quando a morena desviou os olhos e se levantou para buscar alguma coisa no baú.
Sem saber muito bem porquê e como arranjou coragem, Dominique se levantou e andou até a amiga.
— Você não quer isso. — Alice soltou simplesmente quando sentiu a loira roçar de leve em suas costas, repletas de sardas assim como sua barriga, com as mãos quentes.
— Você não sabe de porra nenhuma, Alice.
Dominique sabia que não era um jeito muito gentil de dizer que ela queria sim. Mas estava desesperada demais e quem bem a conhecia sabia que ela não poupava palavras. Porém, pensou que, se fosse mesmo fazer o que estava pretendendo fazer, precisaria ser mais gentil. Com uma careta, abriu a boca para pedir desculpas, mas Alice se virou com um sorriso zombeteiro, quase que desafiador, como se quisesse apostar que Dominique jamais faria aquilo mesmo.
— Você está duvidando. — constatou com incredulidade. Alice deu de ombros, rindo.
— Se você diz…
Ficaram em uma competição silenciosa para ver quem cederia primeiro. Mas Dominique conhecia Alice e sabia que ela jamais daria o primeiro passo se aquilo significasse perder. E ela estava desesperada demais para saboreá-la que não se importava em ser chamada de perdedora e, afinal, não ligava tanto assim para esse título, pois já estava acostumada a não criar muitas expectativas sobre si mesma. Justamente por isso que resolveu acabar logo com o espaço restante entre elas.
Percebeu que Alice ficou chocada com aquela atitude, pois ambas mantiveram os olhos abertos durante o meio segundo que seus lábios ficaram colados. Dominique estava experimentando, já que aquilo era algo totalmente novo, então queria fazer de uma maneira completa e cuidadosa.
Foi ela quem juntou as bocas no segundo instante também, demorando-se um pouco mais nos lábios da amiga, que a encarava com expectativa. A terceira foi quase que um grito de desespero silencioso para que Alice correspondesse, o que não levou muito tempo, pois quando Dominique fechou os olhos e segurou o rosto da amiga, foi puxada pela cintura, sentindo o choque do roçar das duas peles quentes.
A atmosfera do beijo, rodeada pelo sabor de groselha e álcool, bem como o fato daquilo ser uma experiência totalmente nova, fez com que Dominique quisesse explorar tudo. Percorreu os dedos pelos braços e costas da amiga, achando divertido esbarrar no fecho do sutiã amarelo algumas vezes, e vibrou ao sentir a lateral do pequeno seio dela. Puxar cabelos mais compridos que os dos garotos que ela havia beijado também era uma coisa nova que ela gostava bastante. Enlaçar a cintura fina da garota e agarrar suas coxas e glúteos com vontade também era surreal. Nada como estar com um garoto. Muito melhor do que estar com um garoto.
E, além disso, a sensação de estar sendo igualmente desbravada por Alice era excitante. Sentia-se arrepiada da cabeça aos pés e completamente ansiosa pelo toque dela em cada centímetro de seu corpo.
— Puta merda… — foi o que conseguiu verbalizar quando sentiu os lábios de Alice percorrerem seu pescoço e pairarem na região do busto.
Dominique percebeu, com um pouco de ansiedade, que Alice gostava de provocar demais, ou só estava sendo cuidadosa. Portanto, resolveu arriscar por conta própria.
Nada a preparou para a informação de que a morena tinha piercing nos dois mamilos. Aquilo a excitou de tal forma que o gemido alto que veio na sequência fez Alice separar-se, sorrindo com os lábios um pouco entreabertos, como se estivesse se divertindo com a animação de Dominique.
— Se você for querer continuar, talvez seja uma boa trancar a porta e silenciar. — a garota achava que aquilo fosse fazer a loira despertar, mas a busca desesperada pela varinha, seguida do ato de juntar os lábios novamente, era exatamente a resposta que Alice estava esperando.
Aquela sequência de eventos só não tornou-se tão frequente quanto Dominique gostaria porque elas dividiam quarto com outras três garotas, então os encontros costumavam acontecer no quarto somente na única janela disponível de ambas, na quinta-feira, enquanto nas outras vezes tinham que se esgueirar pelas salas vazias ou darem a desculpa de estarem fazendo treinos extras para aproveitarem o vestiário vazio.
Fora da bolha que haviam construído elas eram, aos olhos dos outros, boas amigas que faziam piadas o tempo todo e nada mais. Mas juntas, eram fogo e eletricidade puros. A vontade de Dominique só aumentava a cada encontro e orgasmo proporcionados. Nada que havia vivido com garotos era como aquilo. Parecia certo de uma forma que nunca pareceu com os inúmeros rapazes que ela experimentou. Era viciante.
Presente
O problema é que Dominique era péssima com palavras. Um eufemismo, pois ela era horrível. De uma sensibilidade e tato deploráveis que deixariam Fleur Delacour-Weasley de cabelos em pé!
— Não precisamos definir tudo. — argumentou com um resmungo.
— Mas também precisamos definir alguma coisa. — Alice se sentou na cama oposta à Dominique, que fez uma careta ao perceber que provavelmente perderiam uns bons minutos de amassos por conta daquela conversa.
Não conseguia deixar de se sentir ansiosa em tocar a garota novamente. Era torturante dormir na cama ao lado e não poder esgueirar-se para sentir o calor emanando ou trocar alguns beijos. Sem mãos bobas, somente um carinho singelo. Dominique não ligava. Só queria sentí-la.
— Ok, então vamos conversar. — bufou já perdendo as esperanças de conseguir qualquer coisa.
— Você nunca me contou se é lésbica ou bi... Ou nenhum dos dois.
Revirar os olhos foi inevitável, mas o olhar que Alice lhe lançou a fez engolir em seco.
— Não estou tentando te pressionar, mas quando tento abordar o assunto você foge. Eu poderia tentar ajudar, sabe. Quando me assumi lésbica também precisei de um empurrão.
— Mas que diferença isso vai fazer?
— Dominique, eu não quero ser seu projetinho pra irritar sua mãe ou uma aventura para você parecer descolada.
Aquilo doeu de uma forma que Dominique não esperava. É verdade que ela havia uma coleção de ex-namorados que pareciam perfeitos para irritar Fleur Delacour-Weasley, já que todos possuíam um péssimo histórico escolar, e ela mesma estava longe de ser uma Weasley modelo como Molly ou Rose — o que já deixava a mãe de cabelos em pé por si só. E nem abriria a portinha da comparação com seus irmãos, porque a síndrome da filha do meio era real e uma ferida bem mal cicatrizada.
Mas, apesar de tudo aquilo ser verdade, jamais pensara em colocar Alice naquela situação, como fazia com os outros. Os outros eram os outros. Alice era diferente. Dominique gostava de estar com ela. Novamente, um eufemismo barato. Dominique estava viciada em estar com ela. Não somente pelos amassos, mas pela tranquilidade que ela exalava ao estar com a garota. Por simplesmente sentir que não devia nada à ninguém. E por isso mesmo não queria estar tendo aquela conversa com a amiga. Não queria complicar nada.
— Puta merda, Alice. Você acha isso mesmo? — a risada irônica preencheu o ambiente. Alice apenas deu de ombros, com um resquício de mágoa visível nos olhos.
— Você só quer saber de transar. — Dominique considerava que aquilo era um pouco de exagero, pois quando estavam em público, e não podiam manifestar-se fisicamente, o que elas mais faziam eram conversar. E eram extremamente boas nisso! Mas por que conversar quando tinham um tempo para si, sendo que tinham tão poucos momentos a sós e eram tão boas no que faziam juntas e sozinhas uma com a outra?
— Fala como se não gostasse.
— E gosto. Nunca disse o contrário. — rebateu rapidamente, arregalando os olhos castanhos. A loira baixou os olhos azuis, irritada. Teria sorte se ao menos conseguisse um beijo. — Esse é o problema.
A garota ergueu os olhos rapidamente, assustada. Então era aquele tipo de conversa.
No fundo Dominique estava desesperada. Queria Alice, mas a ideia de estar gostando dela a assustava. Tanto pela reação dos outros, mas também porque Domi considerava Alice um mulherão da porra, muito além de sua alçada. Sentia-se extremamente sortuda por estarem se divertindo juntas, no entanto aquilo tudo era novo para ela, ao passo que Alice era conhecida por colecionar ex namoradas que demoravam uma eternidade para superá-la — não à toa era conhecida como a entidade lésbica da escola.
Não que no quesito romântico Domi ficasse para trás — havia namorado muitos caras, todos medianos, se fosse para falar a verdade, e nunca capazes de lhe darem prazer verdadeiramente -, mas não considerava nada realmente um sucesso. E tentar aquilo com Alice parecia aterrorizante demais em muitos sentidos.
— Dominique, eu só não quero ser mais uma das pessoas com as quais você transa pra irritar sua mãe e chuta quando ela para de ligar. Ou ficar no banho-maria igual o Richard.
Aí é que estava.
— Isso é ciúme porque ele tem se aproximado?
O garoto havia ressurgido das cinzas para tentar conquistá-la novamente, mas Dominique o achava um completo chato. Fora que sua mãe mal se importara com sua presença no aniversário de casamento dela naquele ano, pouco antes do ano escolar começar. Ou seja, inútil.
— É uma merda se envolver com garota hétero curiosa, só isso. Se for voltar pra ele, só vai. Se você for bi e tal vou entender que você só curte mais ele do que eu e não vou sair por aí dizendo que fui trocada por um macho mediano de beleza questionável. — a risada que ela soltou fez Dominique relaxar um pouco.
— E se eu for lésbica…
— É bom assumir para si mesma. Não necessariamente só por minha causa. — o sorriso foi um pouco mais frio que o habitual e a loira não arriscou nenhuma piadinha. — Independente do que for, só acho melhor parar. Você está claramente me usando para fins sexuais e tudo bem, sabe, isso de manter relações casuais é bem comum, mas eu não sei me relacionar assim. Achei que eu pudesse. Mas eu não consigo. E só piora o fato de você não saber o que quer da vida, porque pior do que se apaixonar por uma lésbica que só quer algo casual é se apaixonar por uma hétero indecisa.
Dominique não foi capaz de dizer uma palavra sequer.
— Desculpe, mas eu me apego muito fácil. — a morena acariciou o braço da garota, sorrindo minimamente. — Boa sorte na sua descoberta e… Se você quiser algo casual é só entrar no meio do rebuceteio que opção não vai faltar, viu. Metade de Hogwarts tem um puta crush em você e não é só por você ser ⅛ veela. — Alice levantou lançando uma piscadela para a garota que agora tinha uma expressão confusa. O tom irônico e meio passivo agressivo era palpável.
— Rebuceteio? — o questionamento era verdadeiro, pois Dominique não fazia ideia do que aquela expressão significava, mas Alice só riu pelo nariz.
— Tchau, Dominique.
Dominique considerava um absurdo que Alice estivesse supondo que ela só estivesse a usando como forma de provocar a mãe. Ela só gostava demais de ficar com a amiga, não havia mal naquilo. Mas, como uma criança mimada — e sabendo que estava sendo uma -, Dominique fez questão de reatar com Richard e de não esconder suas escapadas noturnas. Só que se Alice se afetava, sabia esconder muito bem, e isso deixava Dominique cada vez mais frustrada e irritada. Isso e o fato dela perceber que não sentia um pingo de atração por Richard e a única vez que quase gozou enquanto transava com ele foi quando pensou em Alice. Não demorou muito para ela perceber que precisava terminar com aquela palhaçada, mas Richard foi mais rápido ao ouvir a então namorada gemer o nome da amiga.
E é óbvio que a história correu como fogo pela escola, porque ninguém jamais imaginou que Dominique, que colecionava ex-namoradinhos, pudesse ser lésbica, muito menos ter tido um affair com Alice, a entidade pública lésbica da escola. Ao menos o assunto parecia não ter chegado aos professores, o que lhe dava algumas semanas sem uma carta furiosa de Fleur por mais um boato rondando solta. A diferença é que aquela vez era verdade.
— Por que você não veio falar comigo antes de fazer toda essa merda, Dominique? — Albus ralhou enquanto pousava a vassoura ao lado da prima.
Estavam treinando rebater balaços no campo de quadribol em um fim de tarde gelado, uma tradição comum entre os dois, quando um precisava extravasar a raiva de alguma forma.
— Que merda? — se fazer de desentendida era a coisa que mais vinha fazendo. E continuaria assim, porque odiava assumir que estava errada. — Foi só um pequeno desentendimento.
— Porra, Dominique. Pegando a Matilda e o Richard só pra reprimir o que você sente pela Alice? Quantos anos você tem? Ou isso ou você está querendo chamar a atenção da sua mãe de novo.
— Caralho Al, não é nada disso!
— Para de mentir pra mim.
— Já parei com essa história da minha mãe. — falou por fim, enquanto rebatia um balaço que vinha em sua direção com mais força que podia.
— Então é o lance da Alice. — o sorriso de Al entregava o quão ele amava estar certo. — Mas sério, Dominique, qual é a sua? Fora seus mommy issues e síndrome de filha do meio?
— Não sabia que estávamos falando sobre você, Al.
— Não tenho mais problemas com meus pais desde que me assumi e parei de ser um rabugento. Você deveria tentar, talvez diminuísse potencialmente as merdas que você faz.
— Se for para ficar aqui me avacalhando eu vou embora. — Dominique fez menção de voar para longe, mas Al riu, acompanhando-a.
— Se queria alguém passando a mão na sua cabeça deveria ter ido falar com a Rose, não comigo.
— Você é melhor em Quadribol do que ela. Só por isso que te procurei. — a garota sussurrou a contragosto e Al sorriu , apoiando o rosto nas mãos.
— Se é assim, por que você despejou toda a história em cima de mim e mal rebateu de verdade?
O silêncio respondeu tudo e Al apenas sorriu satisfeito, rebatendo o balaço de Dominique, que voltava em direção aos dois.
— Não rebati direito porque não é minha função de verdade. Só estou tentando pensar melhor.
— Ainda bem que a Grifinória não depende das suas rebatidas. — ela se segurou para não jogar o taco na direção do primo.
— Não acho que tenha nada demais. — deu de ombros enquanto dava algumas voltas no ar, ignorando o comentário anterior.
— Não, você só fez exatamente o que ela não queria que você fizesse.
— Mas então que porcaria que ela queria que eu fizesse?
— Que admitisse que gosta dela! E assumisse ela. — Al falou como se fosse óbvio e Dominique bufou, irritada. Aquela história toda estava dando uma dor de cabeça maior do que ela gostaria.
— Como é que eu iria fazer isso se eu nem sei se gosto dela. Ou sequer de garotas! — aquilo era mais ou menos uma verdade, porque Dominique pensava em Alice o tempo todo e ficar com Matilda Benson foi muito melhor do que ficar com Richard. Mas não queria parar para pensar mesmo naquilo.
— Bem, todo mundo sabe de você e da Matilda.
Dominique sentiu o coração gelar e disfarçou o choque com uma rebatida.
— O que?
— Ela espalhou para todo mundo que vocês ficaram. Ela não superou a Alice e o fato de você ser tecnicamente uma ex dela e vocês terem ficado… Bem, na cabeça dela foi uma vingança e tanto.
— Puta merda eu vou matar aquela garota. — Dominique estava incrédula. Tinha exigido sigilo para a garota, justamente para que seu nome não voltasse a circular na escola novamente.
— Mas por quê? Achei que estivessem se relacionando.
— Foi só uma maldita vez. Ela é muito chata.
— Achei que teria com ela o que teve com Alice. Ela também não é de se jogar fora, mas isso não sou eu que estou dizendo. Os caras do meu dormitório parece que voltaram a ter catorze anos falando de garotas se beijando. Mas já dei um jeito nisso. — Al girava a pena em uma das mãos, com a outra servindo de apoio para o rosto. Ele estava se divertindo em observar o desespero da prima, mas mantinha o sorriso contido com o cuidado de não irritá-la ainda mais.
— Sonserinos são nojentos. E bem… As duas são lindas, é óbvio. Mas Matilda não é nada como a Alice.
— Mas estar com a Matilda é melhor do que com o Richard?
— É óbvio, Richard é muito sem graça. — torceu o nariz de desgosto e Al riu de leve, rebatendo.
— Mas não tão bom quanto com Alice?
— Nunca.
— Você nem percebeu a resposta óbvia. — o garoto agora ria enquanto balançava a cabeça.
— O que? — a loira franziu o cenho, voando em direção ao primo, que fez uma expressão de que a resposta era óbvia. — Isso é ridículo, Al, só porque minha experiência com o Richard não foi legal não significa que nenhuma com um cara foi.
— Me fala uma boa então. — ele ergueu as sobrancelhas e Dominique abriu a boca, percebendo que não tinha ninguém em mente.
A falta de resposta foi o suficiente para Al soltar uma risada.
— Olha eu não sou especialista nenhum, mas sei que é plenamente normal isso de querer procurar prazer em algo que constantemente não lhe dá para tentar suprir uma coisa que falta e você não faz ideia do que é. No seu caso, faltava buceta. No meu, pau.
— Albus que porra? — a garota olhou para os lados atônita, o campo poderia estar vazio, mas a acústica ali era péssima.
— Dominique fala sério, você nunca sentiu atração sexual por mulher antes?
— Albus eu engatava um namoro fuleiro atrás do outro, e já pensei em algumas mulheres durante… Mas achei que era normal, sabe, uma atração pela forma em si… Ou só achava que eu era meio pervertida mesmo. — a constatação em voz alta a fez corar um pouco e Al riu com vontade, precisando desviar de um balaço no último segundo pois não tinha forças para rebater. Estava ocupado demais sem acreditar no que a prima lhe confessava.
— Você nunca pensou que essa busca por romance e prazer com caras que nunca te satisfizeram era por conta disso? Da sua preferência ser por mulheres?
— Não. — falou sinceramente enquanto suspirava e Al a encarou por alguns minutos.
— E como você está se sentindo desde que se envolveu com a Alice?
Dominique ponderou um pouco sobre o que responder, mas no fundo sabia que nunca se sentiu daquela forma com ninguém.
— Parecia… Certo. E eu fiquei muito, mas muito animada em finalmente conseguir sentir alguma coisa, sabe. E não só no sentido sexual, mas ficar com todos aqueles garotos era extremamente chato e irritante. Quando éramos amigos tudo fluía bem, mas era só rolar a primeira pegação que eu sentia uma pressão enorme em ter que manter aparências, dizer as coisas certas… Com Alice eu podia agir normalmente. Quero dizer, em público e nos treinos permanecíamos as mesmas, e quando nos beijávamos era absolutamente incrível. O problema é que ela reclamou que parecia que eu só queria transar, mas eu só queria aproveitar nossos momentos à sós de um jeito mais interessante, sabe.
— E aí as coisas acabaram e você resolveu que seria uma boa ideia pegar justamente a ex dela? E seu ex, também, inclusive?
Naquele momento Dominique sentiu que era a pessoa mais idiota de toda a Hogwarts. Estava agindo feito uma idiota há tempos, mas aquele realmente havia sido o ápice. Deu sua rebatida mais forte do dia, fazendo com que o balaço atravessasse uma das arquibancadas. Talvez não fosse uma batedora tão ruim, caso fosse convidada a se retirar da posição de artilheira. Teria que arrumar aquilo, não queria mais uma repreensão verbal da diretora. Ou de sua mãe. Ou pior: de seu pai. Não ligava muito de irritar Fleur, porque a mulher se estressava facilmente com as coisas. O problema mesmo era quando Bill Weasley ficava irado. Ou, no pior cenário possível, decepcionado com a filha.
— Eu sei que se afastar pode ser um reflexo sabe, e talvez por isso você tenha feito isso, para repelir a Alice, mas ninguém é de ferro. Tipo, você está percebendo isso agora, ótimo, mas ela deve estar puta com tudo isso. Você foi extremamente babaca. — Al deu de ombros e Dominique resmungou.
Não gostava de ter seus defeitos apontados, mas Al era sincero demais. E talvez justamente por isso ela recorreu a ele. Sabia que estava precisando de um choque de realidade e tinha plena consciência de que não era capaz de chegar em conclusão alguma sem ajuda, pois se deixava levar demais pelas emoções. Se dependesse dela, apenas ignoraria Alice até a garota ir atrás dela. Mas, novamente, Dominique não ligava de perder. Daria o primeiro passo se fosse necessário. No entanto, só o faria quando tivesse certeza do que fazer. E no momento, tudo o que ela não tinha era resposta sobre como proceder.
— Eu disse que se você queria alguém que passasse a mão na sua cabeça tinha que falar com a Rose, já que vocês possuem os mesmos interesses.
— Por Merlin, a Rose é sempre tão careta que eu até me esqueço que ela arrasta um caminhão pela irmã do Richard há séculos. Não acredito que aquela garota pegou dois dos nossos primos.
— Bem, tecnicamente uma prima minha e meu irmão. — Al torceu o nariz e Dominique riu.
— Não sei porque Alice insiste tanto sobre minha sexualidade. Rose não é assumida sobre sua sexualidade, só nós sabemos, e tudo bem.
— Rose pode não ser assumida publicamente, só que é uma situação completamente diferente. Você está mais para Emma enquanto a Alice está para Rose do que o contrário.
— Que absurdo.
— Claro que não, Dominique. Você não se lembra que Emma basicamente iludiu a Rose porque na verdade nunca quis nada? E realmente, como você não se lembra do escândalo que foi quando a Matilda descobriu que a Emma e a Alice estavam saindo?
Pensar em Alice com Matilda e Emma a fez se encolher novamente, trincando a mandíbula de raiva. Felizmente o balaço retornou, dando a oportunidade perfeita para tirar um pouco da sua raiva. O rebatimento não pegou no lugar certo, de modo que Al precisou desviar do balaço que veio em sua direção.
— Acho que é uma má ideia te provocar quando você tem um taco na mão e o poder de quebrar meus ossos com um gesto.
— Por Morgana, todas as garotas lésbicas e bi dessa escola já se pegaram? — ignorou o comentário do primo com uma pergunta, porque certamente não hesitaria em machucá-lo um pouco se ele ultrapassasse demais os limites. Mas só um pouco.
— Bem-vinda ao rebuceteio. — ele sorriu enquanto acariciava o ombro da prima e Dominique riu, finalmente entendo o termo.
Ficaram alguns instantes em silêncio, observando o balaço que retornava. Com um gesto da varinha, Dominique o imobilizou no ar, fazendo com que retornasse para a caixa. Apressou-se em descer da vassoura para guardar o balaço de maneira segura, para finalmente perguntar o que vinha corroendo-lhe.
— Você acha mesmo que eu sou babaca?
— Dominique, você não tem que levar tudo que eu falo tão ao pé da letra. — o garoto revirou os olhos, mas encarou a prima com um sorriso, enquanto pousava ao lado dela. — Não acho que você agiu certo com a Alice, mas eu não estaria aqui falando com você se não achasse que valeria a pena.
— Achei que estava falando comigo pra tentar me trazer pro lado dos únicos primos gays da família. — ela riu sem emoção e Al balançou a cabeça.
— Ousado da sua parte supor que entre treze pessoas só eu, você e a Rose fomos os escolhidos para sofrermos preconceito da sociedade. E todo mundo esquece que o tio Charlie não se casou. Eu tenho certeza de que ele é assexual, mas ninguém fala sobre isso!
Os dois primos começaram a rir, especulando sobre quem mais da família estava prestes a sair do armário, quando Dominique se calou de repente.
— O que foi?
— Você acha que minha mãe ainda vai me amar? — perguntou com um nó na garganta, enquanto trocava a vassoura de mão em mão. — Bom, ela diz que me ama, mas acho difícil ela gostar tanto de mim igual ela gosta da Vic e do Lou, ainda mais considerando todo o inferno que eu a fiz passar no último ano por ter exposto minha vida sexual precoce pro mundo bruxo inteiro, fora a bomba nos NOM’s e o provável fracasso nos NIEM’S. E eu estou longe de ser a melhor artilheira, então nenhum time vai me querer.
— Dominique, você marcou mais gols que qualquer outro no último jogo.
— Aquilo foi sorte porque o goleiro de vocês estava indisposto e vocês tiveram que colocar o mão furada do Malfoy.
— Nossa, sim, o Scorpius é muito ruim. — Albus gemeu de desgosto, mas abrindo um leve sorriso em seguida, e Dominique assentiu, segurando um lado da caixa dos equipamentos enquanto o primo segurava o outro. — Mas não acho que tia Fleur fosse sei lá te deserdar, sabe. Desde que você ainda esteja apta a querer adotar uma criança pra dar um neto a ela, que é o que ela mais pede para a Vic e o Teddy, tudo certo.
— Albus, eu tenho cara de quem sequer pensa em ter filhos?
Al a olhou com um riso reprimido e deitou-se ao lado dela.
— Você seria uma péssima mãe. Mas a sua mãe não deixaria de amar você. Não mesmo. Mesmo tendo uma filha sendo tão babaca com a futura nora.
Com uma vassourada no estômago de Albus, Dominique começou a pensar como seria assumir que gostava de garotas. E que, provavelmente, só gostava de garotas. Mas antes, precisava ter certeza.
…
— Você quer saber o que?
— Como você teve certeza de que você era lésbica, ué. O que é difícil de entender? — Dominique cruzou os braços enquanto balançava a perna, nervosa. Ela e Rose estavam na Biblioteca logo após a rodada de rebatidas com Albus. Por ser um final de domingo, Dominique sabia que encontraria a prima por lá, estudando, porque, segundo ela, era o melhor momento para tal. Acontece que garota estava estranhamente agitada pela presença da loira ali.
— Dominique, primeiro que eu não sou lésbica, sou bi. — a resposta fez Dominique franzir o cenho, confusa. Foi ela que descobriu uma das cartas de Rose para Emma, falando de seus sentimentos, e nunca sequer viu a prima se relacionando com qualquer outra pessoa, muito menos garotos. Aquela era uma informação totalmente nova. — Segundo que ninguém sabe disso sem ser meu irmão e nossos primos, então você precisa falar baixo.
— Não tem ninguém aqui, Rose. — ela bateu as mãos na mesa de uma forma exagerada. — Vamos, eu estou em um grande dilema, me ajuda!
— Dominique, é simples. — a ruiva fechou o livro com força, puxando a prima para trás das estantes. — Você sente prazer com homens? Ou sente vontade de beijá-los?
— Não.
— Pois eu sinto. Assim como também sinto por garotas. E você, sente isso por garotas?
— Olha, você me puxando aqui para trás me deu até um frio na boca do estômago, então acho que a resposta é bem óbvia. — a tentativa de aliviar a tensão apenas fez Rose revirar os olhos, mas um sorriso reprimido brincava em seus lábios. — A questão é que eu não tinha parado para pensar nisso.
— Dominique, essas coisas acontecem. Eu fui apaixonada pela Emma por anos, mesmo ela tendo me trocado pelo James. Cheguei a pensar que eu fosse lésbica e que todas as minhas paixonites por garotos fossem sei lá heterossexualidade forçada, mas isso foi até… — ela se calou por alguns instantes, olhando ao redor. — Isso foi até eu ficar com um garoto pela primeira vez e perceber que era tão bom quanto com Emma.
— Seu primeiro beijo da vida foi com ela? Por Merlin, isso explica você não ter superado ela. — a loira riu, encostando-se na estante e Rose fez um gesto para ela ficar quieta. Jogou os cabelos para trás, enquanto suspirava.
— Eu já superei ela, na verdade. Tive um rolo rápido com… Uma outra garota. Mas ela reatou o namoro.
— Caramba, Rose, deve ser uma merda ficar sendo trocada por macho. — o comentário de Dominique fez Rose fechar a cara, se arrependendo de estar contando tudo aquilo à ela.
— Ela namorava a Alice, se quer saber.
Dominique não podia acreditar no que Rose estava lhe falando. Alice não pode ter reatado o namoro, não mesmo.
— Quem é a garota?
— Freya Chang.
De repente as imagens de Rose batizando a garota na festa e Freya puxando Alice para fotos só das duas inundaram a mente de Dominique. Mas aquilo era um absurdo, Domi nunca soube do relacionamento das duas e todas elas jogavam pela Grifinória há dois anos!
— Como eu nunca soube disso? — Dominique perguntou se aproximando da prima com os olhos semicerrados. Rose engoliu em seco, dando um passo para trás, olhando ao redor para se certificar que ninguém estivesse ouvindo ou vendo nada.
— Como é que você está no time e não sabe que relacionamentos entre os membros é desestimulado?
— Desestimulado? — o escárnio era evidente na voz da loira. — Eu achei que isso sempre fosse uma piada, não que rolasse mesmo.
— Freya vivia reclamando disso, porque a Alice ficava usando isso como justificativa para elas não ficarem se agarrando por aí. Eu deveria ter percebido que isso era um sinal de que ela não tinha superado a Alice. — a garota levou a mão ao queixo e Dominique revirou os olhos, colocando as mãos nos ombros da prima.
— Rose, você é muito ingênua, só pode.
— Já é a segunda ofensa hoje, acho que já deu né? — a ruiva começou a se afastar, guardando o material, e Dominique franziu o cenho.
— Não ia estudar aqui?
— Ah… Eu lembrei que… Tenho outra coisa pra fazer antes. — ela andava para trás enquanto falava, ajeitando os livros nos braços. — Boa sorte com tudo. Sinto muito pela Alice, mas acredite, opção é o que não falta em Hogwarts.
— Rose? — a voz de Malfoy soou na entrada da biblioteca e a ruiva fechou os olhos.
— Ah, entendi o que é que você tinha que estudar, Rose. — Dominique soltou enquanto ria baixinho, olhando de um para o outro, que estavam totalmente vermelhos.
— Não é nada disso, Dominique…
— Não tudo bem, eu entendi. — ela deu um tapinha no ombro da prima. — Uma pena, porque achei que poderia contar com você para separar a Alice e a Freya. — sussurrou para que Malfoy não escutasse e Rose se afastou na mesma hora, olhando indignada para a loira.
— Dominique, você ficou doida?
— Estou brincando, querida. Precisa andar mais comigo ou com o Al.
A ruiva ainda tentou chamar a atenção da prima mais algumas vezes, mas a garota já estava longe dali. Precisava arranjar uma forma de consertar as coisas. Logo. Rose havia sido de muita ajuda, ainda mais porque saber que Alice afastava Freya com a desculpa do Quadribol era muito satisfatória, já que aquilo nunca havia sido um problema para as duas. Talvez Dominique ainda tivesse uma chance afinal, se deixasse a imaturidade de lado e começasse a agir.
A L I C E
Alice tentou não surtar muito com o fato de estar indo à festa de aniversário de Roxanne na Toca e ter concordado em dormir por lá. A esperança que tinha era que Dominique voltaria para o Chalé das Conchas assim que a festa se encerrasse, caso contrário a noite poderia ser catastrófica. Não queria nem saber o que Freya acharia quando soubesse. Alice parou de se maquiar por um instante, lembrando que não tinha que se importar com o que a garota iria achar. Todo o ciúmes possessivo de Freya a respeito da reaproximação de Dominique estava a deixando muito irritada.
De início entendia o lado de Freya, porque realmente parecia que a Weasley estava tentando provocar Alice a todo custo, mas depois de umas semanas tudo aquilo passou e, por incrível que pareça, Dominique parecia estar lidando bem com o fim do rolo das duas. O que, obviamente, deixou Alice com a pulga atrás da orelha. Talvez aquela fosse uma tática pra garota entrar em sua mente e, bem, talvez tivesse funcionado um pouco. Ao menos ela já não se importava mais com o fato de Domi ter saído com Richard e Matilda como uma clara provocação.
A questão é que, poucas semanas antes do recesso de Natal, Dominique havia voltado a interagir normalmente com Alice, como era antes de toda a confusão sexual começar. Era assim que a morena buscava definir o que tiveram para se lembrar que não deveria colocar expectativas alguma sobre. Era inegável que esse súbito ato de amadurecimento de Domi estava deixando Alice interessada novamente e tentada a dar uma nova chance. Afinal, talvez tudo o que Dominique precisava era de tempo para se assumir e assumir que também gostava dela.
No entanto, toda vez que pensava no assunto uma mágoa estarrecedora acometia Alice. E se ela realmente fosse só mais um dos projetinhos de Dominique? E se essa maturidade toda não fosse nada menos que a loira deixando claro que já superou. Ou pior: que nunca houve algo realmente ali para ser superado.
Se sentia na estaca zero a todo instante, em uma verdadeira montanha russa de emoções. Mas é óbvio que não deixaria que a garota percebesse o quão ela se sentia afetada por essa reaproximação. Os últimos treinos antes do recesso foram os mais hilários possíveis — além do pivô da separação dela com Freya, já que Alice admitia, com certa culpa, que realmente não conseguia tirar os olhos da loira enquanto ela contava algo tão animada e com um sorriso e uma gargalhada tão envolventes.
— Eu só vou por ser Roxanne. — Nina deixou claro enquanto entrava no quarto da irmã. — Uou, você definitivamente se vestiu pra matar hoje.
Alice encarou o vestido branco aberto atrás como se não fosse nada demais, mas aquela era exatamente a reação que esperava causar.
— Você está… Usando maquiagem? — a mais nova se aproximou e Alice resmungou, parando de passar seu batom coral no mesmo instante. — Você nunca usa maquiagem.
— Não uso porque estou sempre treinando e é absolutamente inútil passar pra isso.
— Estamos fingindo que não é pra uma certa Weasley dos cabelos loiros, então? Beleza. — Nina abriu um sorriso, enquanto alisava a saia preta com as mãos. — Precisa de mais quantos minutos para não se arrumar pra Dominique?
Nina não conseguiu falar mais nada, pois Alice lhe expulsou do quarto para terminar de se arrumar, dessa vez retirando um pouco de maquiagem apenas para que a irmã não lhe irritasse mais e não ficasse tão óbvio quando Dominique colocasse os olhos nela.
D O M I N I Q U E
Era evidente que bancar a madura, como se tudo estivesse bem, fazia parte do plano de Dominique. Entretanto, a cada dia que ficava mais próxima de Alice novamente, sentia a necessidade de ser sincera sobre tudo. Exceto seus sentimentos e o motivo pelo qual voltou a se aproximar. Bom, sobre quase tudo. O problema é que Alice não demonstrava um pingo do que estava pensando, era óbvio que Dominique jamais arriscaria dizer: “Hey, então, finalmente aceitei que sou lésbica e que sinto por você algo muito maior que um mero gostar”.
Em certo ponto realmente começou a cultivar mais os momentos com Alice com muito cuidado e, de certa forma, se sentia bem. Não estava mais fingindo, mas ficava realmente difícil manter a tranquilidade com Freya parecendo um cão de guarda por toda parte. Era impossível não torcer pelo término.
Foi inevitável não revirar os olhos quando viu Freya na festa. Dominique olhou bem para o próprio copo e virou o conteúdo, jogando-o fora e garantindo para si mesma que aquele seria o último, caso contrário acabaria fazendo alguma loucura por ali.
— Procurando alguém? — a voz de Al soou alta no pé do seu ouvido. A garota fez que não, mas o primo lhe lançou um olhar cético.
— E você?
— Sempre. — sorriu enquanto bebericava o que parecia ser suco de abóbora, já que não era fã de bebidas alcóolicas. — Que milagre é esse que você não está bebendo?
— Alice Longbottom. — respondeu em um resmungo. — E também Freya Chang. Se eu beber demais não vou me responsabilizar por tentar separar as duas no tapa, sério.
— Isso é pra ser uma atitude madura? — ele arqueoou a sobrancelha e Dominique quis derrubar o suco de abóbora em sua camisa branca.
— Se eu parei de beber justamente pra não fazer isso, certamente é, idiota.
— Só estou provocando você. — Al passou o braço pelo ombro da prima e assobiou enquanto olhava para ela de cima a baixo. — Alguém aqui não veio para brincadeiras. Esse short grita “Alice, por favor, olhe para as minhas coxas”.
Dominique revirou os olhos por puro charme, porque a escolha não havia sido aleatória. Sabia do fraco da morena por coxas. Especificamente as dela. Dominique não tentaria nada, mas não fazia mal relembrar o que Alice estava perdendo.
Apesar de gostar de falar sobre Alice com Albus, pois o primo era adequadamente sincero — apesar de pisar em seu calo mais vezes do que gostaria -, Dominique estava concentrada em seu irmão Louis flertando com um garoto que ela nunca havia visto antes e que parecia alheio às investidas. Seu sorriso foi aumentando quando um pensamento travesso sobre juntar os dois por meio de um visco lhe ocorreu. Estava prestes a sacar a varinha quando Al soltou uma exclamação, levando a mão livre à boca.
— Dominique, você vai gostar de ver uma coisa.
A loira seguiu o olhar do primo para se deparar com Rose e Freya se agarrando loucamente no batente da porta da cozinha.
— Eu não acredito!
— Isso é surreal!
— É claro que é! Freya está traindo a Rose, de quem é ex, e Rose está traindo o Scorpius!
Al parou de rir na mesma hora, olhando confuso para a prima.
— Como é?
Então Dominique contou sobre como ela e Scorpius haviam sido óbvios no outro dia na biblioteca, ainda mais por Rose ter acabado de lhe confidenciar que havia beijado um garoto e gostado.
— Não é necessariamente traição, pra falar a verdade, se nenhum deles estava namorando. Mas uau, a Rose é rápida.
A tentativa de piada não atingiu Albus como Dominique havia esperado, já que o garoto não soltou nenhum comentário sarcástico ou ácido. Ele apenas pediu licença e sumiu do recinto.
Fez menção de ir atrás do primo, mas Roxanne, Fred e James apareceram segurando garrafas de vodka e groselha. Sentindo-se um pouco mais esperançosa nas coisas fluírem melhor com Alice, então não negou o shot, até porque o sabor lhe trazia memórias bem vívidas da noite em que se envolveram pela primeira vez.
Apesar de estar se sentindo ansiosa pela chegada da garota, estava mais contente por constatar que talvez o rolo dela com Freya tenha realmente acabado e não que aquilo se tratasse de uma talaricagem por parte de Rose. Arrastou Catherine Lu, sua melhor amiga que, infelizmente, já havia se formado, e se colocou a dançar na pista.
O momento com a amiga não durou muito, porque James foi azucriná-la — já que tinha uma paixão nada secreta por ela há anos — e a garota se inclinou para cochichar no ouvido da loira:
— Doms, vou me esconder no banheiro por uns quinze minutos até esse idiota esquecer que eu existo e depois eu te procuro, ok?
Ela sabia que aquilo significava que provavelmente Cate iria se agarrar com o primeiro cara que aparecesse por aí para esfregar que ela estava muito bem sem James. Nenhum dos dois superou de verdade o fato de que ele, que se disse tão apaixonado por anos a fio, acabou traindo ela com ninguém menos que Emma Thomas-Finnigan, ex-paixonite aguda de Rose Weasley e irmã do ex de Dominique. A loira não conseguia parar de pensar o quão pequeno Hogwarts era para suportar todos os rolos amorosos envolvendo os Potter-Weasley-Delacour.
Absolutamente a família inteira ficou contra James, pois ele havia magoado Rose, uma integrante valiosíssima da família — mas esse ponto apenas os primos mais próximos sabiam, já que Rose não era assumida para os mais velhos — e Cate, que, por ser grande amiga de Dominique, frequentava a Toca em demasia. Albus comenta que, se na época a família soubesse sobre Rose e Emma, James provavelmente teria sofrido algum dano físico por parte de Ronald Weasley. Dominique não contestava.
O problema não era nem James ter beijado outra, pois Cate admitia que eles não tinham nada e isso não era um grande problema. A questão é que Emma e Cate eram eternas rivais de Quadribol. Os embates entre Corvinal e Grifinória ficaram cada vez mais fervorosos por conta das duas, rebatedoras de renome, que deram os cargos em nome da competitividade, já que, quando estavam no sexto ano, foram convidadas por Minerva a se retirarem do time após protagonizarem uma carnificina nos ares.
Catherine se afastou jogando os cabelos pretos no rosto de James, que gemeu de desgosto, olhando pesaroso para a prima.
— Nique… — ela revirou os olhos ao ouvir o tom de voz meloso. Sabia exatamente o que aquilo e a passada de braço por seu ombro significavam. — Se ela sabe que não foi traição, porque simplesmente não deixa pra lá? Ela nem vê mais a Emma.
— Você confraternizou com o nêmesis dela.
— Eu sei que ela é mais madura que isso.
— Ela é mesmo. — a garota assentiu, puxando o primo para a pista. — Mas ficar correndo atrás é sufocante, sabia. Dê um tempo pra ela.
— Um tempo? Nique você sabe o quão torturante é vê-la todos os dias na academia dos aurores e não poder falar nada?
— Ela só foge de você porque você repete o disco toda hora. Tenta, sei lá, ser amigo dela.
O garoto coçou a barba, ainda em dúvida.
— Vou acabar caindo na friendzone, eu tenho certeza.
— É melhor estar em qualquer zona do que em nenhuma. Ou pior, na zona de insuportáveis. — Dominique rebateu soltando a mão do primo. — Agora vai se divertir, esquecer um pouco isso e dar um tempo pra ela. E pare de ficar de chorôrô no meu ouvido.
A loira perdeu as contas de com quantas pessoas interagiu e quantas músicas dançou. Sequer se importou em beber mais nada, pois já se sentia extasiada, com o gosto de groselha vívido em sua boca. Cate apareceu pouco tempo depois, agarrada com ninguém menos que Luke Zabini, já um dos aurores seniores no Ministério, um ano à frente de James e Cate, além de ser um dos maiores desafetos do Potter mais velho desde os tempos de escola.
Dominique balançou negativamente a cabeça para a amiga, pois sabia que aquela escolha havia sido a dedo. A verdade é que Catherine era tão cabeça dura quanto James e não deixaria o que havia acontecido pra lá. Ao menos não tão cedo. Dominique buscou James com os olhos e podia claramente ver seus neurônios entrando em combustão com a cena. Ele ameaçou ir em direção ao casal, mas Roxy, de mãos dadas com o namorado Anthony Zabini, o impediu. Quando James alcançou os olhos de Dominique ela apenas deu um sorriso sem graça e James assentiu, bufando e saindo do ambiente enquanto bagunçava os cabelos castanhos.
— Ele não está por aqui. — falou alto depois que Luke saiu para cumprimentar alguns conhecidos e Cate parecia olhar pela sala com uma curiosidade maior que o habitual que Dominique sabia exatamente do que se tratava.
— Dominique, não sei do que você está falando. — a morena de um gole demorado em sua bebida, com os olhos faiscando para a suposição da amiga. — Estou apenas vendo se sua namoradinha está aqui. Ah é, esqueci, você vacilou e ela obviamente não é sua namorada.
— Ter te mandado aquela carta foi estúpido. — resmungou se apoiando em um armário próximo.
— Foi sensato. Uma pena você ter me contado tudo isso semanas depois que a merda estava feita. Pelo menos você está sendo uma boa garota seguindo meus conselhos finalmente. Tá vendo, crescer não dói.
— E você beijar o Zabini na frente do James está em qual escala de maturidade mesmo?
Catherine lhe mostrou a língua, bagunçando os cabelos da amiga e sorrindo de forma marota para um ponto distante.
— Por Merlin, Dominique, como você só foi se descobrir lésbica pegando justamente o ícone sáfico da escola, eu realmente não sei. — ela parou para refletir por um instante, aproximando-se de Dominique. — Na verdade eu sei sim, porque ela me faz questionar a minha própria sexualidade. Olhe só para aquilo.
Catherine virou o rosto de Dominique para o local onde Alice estava parabenizando Roxy. A visão das costas nuas repletas de sardas discretas — que se ela fechasse os olhos poderia se lembrar perfeitamente da localização de cada uma — a fez perder o fôlego. Vendo-a ali, com os cabelos soltos em um vestido ridiculamente provocante, na medida certa para Dominique — pois ela tinha certeza que, assim como foi feita sua escolha do shorts, Alice pensou nela ao escolher algo tão revelador nas costas, já que não era segredo nenhum a fixação dela por aquela região.
— Puta merda. — foi o que finalmente conseguiu soltar, fazendo com que Catherine gargalhasse alto.
— Você tá muito caidinha, Doms. Eu mal posso acreditar.
— Acho que preciso de ar. — soltou depois que Alice cruzou o olhar com o dela e lhe sorriu abertamente, sendo retribuída graças ao esforço gigantesco que Dominque precisou fazer para não ficar igual uma idiota com olhos fixos na garota.
Já fora da casa, pensou em várias formas de chegar perto de Alice para conversar casualmente sem parecer que havia esquecido o próprio nome, mas foi interrompida por Rose Weasley indo em sua direção como um furacão.
— Que merda você disse pro Albus, Dominique Delacour-Weasley?
A loira estava prestes a rir pelo uso do palavrão e de seu nome completo, mas nunca havia visto Rose tão brava na vida. E tão bêbada, também.
— Eu não fiz nada.
— Como assim você não fez nada? Então ele não ouviu da sua boca que eu e o Scorpius estávamos nos beijando?
— Ah, é sobre isso? Desculpe eu não sabia que era segredo.
Dominique deu de ombros, fazendo menção de pegar um copo que voava perto dela, mas Rose bateu em sua mão e o pegou, virando o conteúdo. A loira arregalou os olhos, percebendo que Scorpius e Freya se aproximavam com cara de poucos amigos.
— Não era segredo porque simplesmente é algo que nunca aconteceu!
— Rose, fala sério. — soltou uma risada nervosa, pois a prima estava realmente agitada. — Fica tranquila. Você me contou na biblioteca que beijou um garoto depois que a Freya te trocou, certo? E depois você se encontrou com o Scorpius… É meio óbvio.
— Pelas barbas de Merlin, como você é prepotente em assumir as coisas assim e tomar como verdade! — a frase havia saído mais alta do que Dominique esperava. Scorpius tentou chamar o nome de Rose, que gritou para que ele ficasse fora daquilo e Dominique realmente sentiu que talvez precisasse de proteção física. — Custava me perguntar ao invés de supor coisas sem sentido? Agora o Al está magoado e não quer nos escutar por culpa sua!
— O quê? — foi praticamente uma pergunta retórica, pois Dominique estava assimilando aquele caos todo à reação nada feliz do primo mais cedo. Al gostava de Scorpius. Ou talvez até tivesse um rolo com ele. E ela havia lhe dito que ele estava tendo um caso com a prima. Simplesmente genial.
— Não foi o Scorpius que eu beijei! Foi o Nott, amigo do Scorpius e por isso ele foi conversar comigo na biblioteca, pra acertar meu encontro com ele mais tarde. Você não cansa de ser intrometida e irresponsável, Dominique? Fala sério! — a última frase foi pontuada por um empurrão no ombro um pouco mais forte que o normal, que fez Dominique cambalear.
— Rose, calma. — Freya tentou, mas aquilo pareceu enfurecer Rose mais ainda.
— Você só sabe magoar as pessoas, Dominique. Está apaixonada pela Alice e não tem um pingo de coragem de admitir isso e só deixa a garota sofrendo lá. Acabou de colocar na cabeça do Al que o cara com o qual ele está saindo traiu ele com a própria prima. Você sabe que apesar dele ser daquele jeito excêntrico ele é inseguro! Eu sou bi e Scorpius também, e o fato dele ter gostado de mim no primeiro ano deixa o Albus todo na nóia, sabia disso? É claro que não, porque você só quer saber dos seus problemas! E o que você pensa que a Freya achou quando ouviu isso, também? Mas foda-se, você pode espalhar uma fofoca sem fundamento por pura falta de noção. — Rose agarrou mais um copo, virando-o. — E tem mais. Você só fala comigo por interesse em alguma coisa, seja matéria ou dicas de relacionamento. — debochou, rindo de uma maneira um pouco assustadora. — É só isso que eu sou pra você? Uma porra de um google lgbt ambulante? Achei que pudéssemos ser amigas. Pare de ser tão egoísta! E pense mais nos sentimentos dos outros! Quer um conselho, Dominique? Vai se foder!
A ruiva deus as costas cambaleando um pouco. Scorpius e Freya a socorreram, mas ela parou de supetão, virando-se para Dominique.
— Meu conselho não era pra você ir se foder, eu troquei a ordem porque sua estupidez me fez beber além da conta. Mas quer saber? É um bom conselho. Vai se foder!
— Ok, Rose, já chega. — Scorpius a puxou de volta, lançando um olhar sem emoção para Dominique, enquanto Freya sequer fez questão de encará-la.
Dominique só sabia que queria sair dali. Rose nunca havia aparentado estar brava com ela a respeito de tudo aquilo que tinha despejado, mas ela não conseguia nem ficar magoada com a falta de diálogo, pois tinha culpa em tudo. Não era exatamente uma prima presente e sabia disso. Se fosse ser sincera consigo mesma a única pessoa da qual ela realmente sabia de coisas extremamente pessoais era James, mas só porque ele corria atrás dela para falar sobre Catherine.
Por mais que estivesse falando com Albus há um bom tempo sobre Alice, nunca perguntou sobre os garotos com os quais ele saía. Se sentia pior ainda ao lembrar que mencionou Scorpius uma vez em um conversa e não pescou o que o sorrisinho de canto de lábio de Albus indicava.
E quanto à Rose, ainda se lembrava do quão a prima havia se chateado quando ela interceptou uma das cartas à Emma. Aparentemente Rose não estava pronta para se assumir e ela não havia sido muito tranquila a respeito. Falava propositalmente de Emma sempre que podia. Na realidade, era até irônico que Rose não tivesse despejado que havia se incomodado com aquilo também.
Foi então que lhe ocorreu que talvez ela não fosse uma pessoa tão agradável mesmo. Gostava de brincar demais e se enjoava fácil dos dramas das pessoas. Chegava a ser irônico como ela própria agora estava chorando as pitangas pelos cantos com outras pessoas, exatamente da forma que ela não gostava.
Talvez por isso ela não soubesse dessas e muitas outras informações pessoais que Rose havia lhe dito. Porque não tinha paciência para dramas. Mas agora estava no meio de uma situação muito pior do que a que estava com Alice: se encontrava no olho do furacão Weasley. Sempre que havia uma briga entre os primos, a família inteira se dividia. E ela tinha a impressão de que não teria muito apoio nessa. Era uma briga de gigantes afinal, já que Rose era muito querida e Al, por ter se assumido recentemente, andava sendo o protegidinho da família.
Se repreendeu pelo pensamento, pois era exatamente esse tipo de coisa que a fazia querer não se misturar demais. Qual era seu problema afinal?
A L I C E
Viu Dominique por uma fração de segundos e depois a loira evaporou da festa. Alice tentou não dar muita bola e até se divertiu com todas as outras garotas — e Hugo — do time de Quadribol. Até Freya, que beijava Rose Weasley, lhe sorriu simpática em algum momento.
Além disso estava feliz por Nina estar se soltando, algo que só parecia acontecer fora dos muros de Hogwarts, já que lá ela se colocava uma pressão enorme por ser monitora chefe e filha de um dos professores mais adorados da escola. Alice sempre dizia para Nina ser menos desencanada, como ela, mas a irmã simplesmente não conseguia. Não à toa o pai delas não pensou duas vezes antes de liberá-las das férias na casa da avó para irem até a festa e fazerem um sleepover depois. Ele sempre dizia que era importante que elas aproveitassem, já que ele próprio viveu seus últimos anos escolares em meio à uma Guerra que lhes privou e lhe retirou muitas coisas. Vê-la ali, finalmente aos beijos com Fred Weasley após meses de paixão aparentemente unilateral, sendo apenas uma adolescente normal, era revigorante.
A sensação de felicidade, no entanto, foi abalada quando ouviu Albus e Rose brigando ao passarem por ela, aparentemente sobre Dominique. Tudo que ouviu foi que havia acabado de acontecer do lado de fora e que Rose não havia poupado palavras para magoar a prima. Não pensou duas vezes antes de correr para fora da Toca, não vendo nenhum sinal da loira.
Alice conhecia muito bem o quintal da casa do senhor e senhora Weasley, pois sempre que ela e sua família era convidada a visitá-los ela brincava por lá. Não era tão próxima de Dominique por a achar feminina demais na época, apesar da garota adorar as brincadeiras que envolviam lama e gnomos, e achava curioso que somente após uns bons anos em Hogwarts é que foram se aproximar, sendo o motivo o Quadribol.
A lembrança dos gnomos de jardim a fez dar a volta na casa, para encontrar uma cabeleira loira em meio às abóboras. Não conteve um sorriso, mas o desmanchou antes que a garota a visse, pois ouviu um barulho estranho.
Primeiro Alice achou que Dominique estivesse chorando, mas ela estava apenas resmungando enquanto rabiscava um papel. Com um aceno da varinha o fez pegar fogo e, ao suspirar, conjurou outro.
— O que você está fazendo? — perguntou se sentando em uma abóbora próxima, ficando mais alta que a loira.
Dominique pareceu ficar sem ar por um segundo — talvez pelo susto, mas Alice secretamente queria que fosse pela visão que a loira estava tendo -, mas deu de ombros, recuperando-se.
— Aparentemente eu sou uma vaca egoísta que a família inteira odeia. Ou se não odeia certamente vai passar a odiar depois que Rose contar pra todo mundo o que eu fiz.
E sem nem mesmo precisar que Alice perguntasse o que de fato havia acontecido Dominique desabafou. Em momento nenhum chorou, apesar da morena ter certeza de que havia visto os olhos dela marejados.
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— Eu te conto tudo isso e você basicamente a defende?
— Não, não estou defendendo ela. Estou dizendo que ela não te chamou de vaca. Só de egoísta. O que é teoricamente um bom sinal. Ser egoísta dá pra corrigir um pouco e subir no conceito dela. Mas tirar o rótulo de vaca é meio complicado.
A risada que saiu da garganta de Dominique parecia desesperada e Alice balançou a cabeça, rindo.
— O que eu quero dizer é: a Rose estava bêbada, isso potencializa muito as coisas e você sabe. — não resistiu a lançar a indireta e comemorou internamente ao ver o sorrisinho de Dominique. — Talvez você seja um pouco egoísta? Talvez. Mas eu acho que é mais uma forma de… Defesa.
A loira olhou para a garota com o cenho franzido. Alice mordeu os lábios, de nervosismo por não querer falar nada que a magoasse, mas também por perceber que a luz do luar casava bem até demais com Dominique. Se não tivessem no meio de um assunto sério ela provavelmente só ficaria ali a olhando até dizer chega.
— Você evita conhecer a fundo as pessoas. E até mesmo evita falar abertamente dos sentimentos. Eu me afastei justamente por isso. Quero dizer, não por você ser assim, mas por você nunca ter demonstrado que gostava de mim. Eu não podia só continuar ali me iludindo. Não tenho nada contra sua personalidade, que fique claro. Só que eu concordo um pouco que talvez você seja fechada demais.
As mãos de Alice estavam suando. Ela se sentia uma idiota por estar nervosa por falar a verdade. Esperava que Dominique fosse gritar com ela, mas a garota apenas segurou sua mão, olhando para a lua.
D O M I N I Q U E
Era estranhamente doloroso estar ali de mãos dadas com Alice. Em algum ponto Dominique apenas parou de falar sobre o problema entre ela e Rose e se colocou a conversar sobre coisas banais com Alice, como a partida tradicional de Natal que havia acontecido na noite anterior e havia sido totalmente desastrosa após o afastamento da melhor artilheira do Holyhead Harpies.
Quando menos percebeu estavam rindo de Nina e Fred tentando fugir sem nenhuma preocupação da festa, sabe-se lá para onde. E, com um choque absurdo, Dominique viu Catherine puxando James pela mão. Em um impulso ela puxou a garota para que se escondesse por entre as abóboras junto dela e se arrependeu imediatamente da atitude, pois o perfume de rosas de Alice certamente ficaria impregnado em suas narinas. Quase teria ficado distraída com a proximidade, mas precisou mesmo é se controlar para não gritar de susto ao ver a amiga puxando, de livre e espontânea vontade, James para um beijo.
Nem mesmo ele parecia acreditar no que estava acontecendo e, contrariando o que estava fazendo no momento, Catherine se separou bruscamente e lhe deu um tapa na cara. Apesar do choque o primo de Dominique não parecia bravo, pois ostentava um sorriso idiota no rosto, enquanto massageava o local que certamente estava vermelho.
Assim que James se afastou as duas explodiram em risadas incrédulas. Mesmo em um momento descontraído, Dominique não conseguia parar de pensar no quanto queria resolver as coisas com Alice, mas Rose tinha um pouco de razão no que havia dito. Dominique era egoísta, mesmo que Alice tivesse justificado aquilo como uma forma de defesa — que certamente era -, ela não podia negar os fatos. E por isso sentia que precisava começar a ser mais sincera. A começar por si mesma.
— Acho que está na hora de deixar de ser tão egoísta. — ela encarou profundamente os olhos castanhos de Alice, que mordeu os lábios em expectativa. — Mas vou fazer do jeito certo.
Quando seus olhos caíram sob os lábios da morena foi muito difícil sair da redoma de abóboras que lhes protegia do mundo, com apenas os astros de testemunha do que estava prestes à acontecer.
Foi com uma imensa força de vontade que ela se levantou e despediu-se da garota com abraço, dizendo que elas conversariam depois, e andando, sem olhar para trás, para o ponto de aparatação. Deu de cara com Nina e Fred voltando com sorvetes, de mãos dadas, mas não parou para fazer algum comentário engraçadinho nem nada. Apenas sorriu para o casal e seguiu rumo. Em menos de alguns segundos já encontrava-se na porta do Chalé das Conchas, analisando a luz da cozinha acesa e sabendo exatamente quem encontraria ali.
— Filha? Já de volta? — Bill olhava para a garota com o cenho franzido, percorrendo os olhos preocupados pelo seu corpo para se certificar de que ela não estava fisicamente ferida. Os olhos ansiosos dele pararam no rosto da filha.
No primeiro instante Dominique não entendeu o que motivou o pai a largar a faca que usava para cortar carne e vir correndo lhe abraçar, mas quando sentiu a primeira lágrima escorrer ela não conseguiu pensar em mais nada.
Ela poderia ter falado sobre Rose, Al ou Alice... Mas a única coisa que saiu de sua garganta, pois não imaginava que seria capaz de proferir outra coisa, foi:
— Pai, eu sou lésbica.
Bill arregalou os olhos em surpresa e Dominique chorou ainda mais.
— Dominique, calma. Vai acabar acordando sua mãe. Vamos ali fora.
Sentaram-se na varanda arejada do aconchegante Chalé, no mesmo banco em que seu pai lhe ensinou sobre as constelações e sua mãe lhe contou histórias de seus antepassados veela. Parecia um bom lugar para uma conversa sincera, afinal.
— Querida, não precisa chorar de soluçar… — Bill observou sem jeito e Dominique fungou o nariz, indignada. Não chorava há meses, então sentia-se na necessidade de extravasar tudo. E aquela situação toda exigia aquilo.
— Como não? Eu te conto que gosto de garotas e você faz essa cara de susto absurda.
Bill riu baixinho, o que fez com que Dominique o olhasse irritada.
— Querida, não fiz cara de surpreso pela notícia. Fiz pela quantidade de lágrimas que você soltou quando contou isso. Era pra ser algo positivo, não?
O homem afagou o ombro da filha, ainda com receio de uma nova explosão, pois conhecia bem o gênio da garota, mas Dominique apenas limpou as lágrimas — inutilmente, já que novas brotavam no lugar — e o olhou com expectativa.
— Então… Tudo bem?
— É claro que sim, querida. Não vou dizer que isso já passou pela minha cabeça, mas não é uma ideia absurda. Você é uma garota incrível, Dominique. Pensou que fosse te amar menos por isso?
Bill tinha um tom de incredulidade pesarosa e ao mesmo tempo divertida na voz e Dominique assentiu, voltando a chorar. O pai a abraçou, consolando-a ao embalá-la devagar nos braços, como fazia quando Dominique tinha pesadelos enquanto criança.
Ela não se lembrava da última vez que havia chorado no colo de seu pai. Aliás, não se lembrava da última vez que tivera uma conversa tão intensa quanto aquela. Por isso resolveu derramar todo o chá de uma vez e contar tudo. Porque agora, com seu pai sabendo da principal coisa, ela sabia que precisava de uma luz sobre o que fazer.
— Você deverria socarr a Rrose, isso sim. — ambos se assustaram com a voz irritada e carregada de um sotaque ainda forte, como acontecia quando era uma situação de estresse, de Fleur Delacour-Weasley. Dominique se colocou de pé imediatamente, encarando as feições duras de sua mãe, que estava encostada ao batente da porta, enrolada em um robe azul.
— Querida… — Bill a repreendeu e Fleur revirou os olhos.
— Ninguém chama minha filha de egoísta e sai impune assim.
— Ela não está tão errada assim. — ela começou, olhando para baixo. — Eu deveria ser uma prima melhor. Na verdade uma amiga melhor. Rose sempre me ajuda e eu realmente compliquei as coisas para o Scorpius. Ela toma muito as dores dos amigos e acho isso muito leal da parte dela, por isso não a julgo. Vou resolver com ela pela manhã, quando as coisas esfriarem.
Fleur aliviou as feições quando caiu os olhos sobre Dominique e sorriu minimamente.
— Eu tenho tanto orgulho de você. Te amamos como você é. Nunca duvide disso.
Aquela talvez tenha sido a primeira vez que Fleur havia dito aquilo. Mas Dominique sabia que não era, pois a mãe ficara feliz quando a garota entrou no time de Quadribol e Madame Hooch deu os cumprimentos pelos feitos dela pessoalmente à Fleur em uma festa do Ministério. No entanto, parecia que daquela vez era diferente, pois Dominique sentia que merecia, de fato. Mesmo que sua vida pessoal estivesse um caos, ela sabia que poderia contar com os pais.
Estendeu a mão para apertar a da mãe, que sorriu para o gesto, ficando emocionada também.
— Meu bebê realmente crresceu… — falou com um biquinho antes de chorar.
Bill abraçou a esposa e Dominique riu, finalmente conseguindo controlar o choro. Quando o homem se levantou as duas sabiam exatamente o que estava por vir. Menos de cinco minutos depois ele tinha três canecas de chocolate quente nas mãos.
— Acho que podemos tomar isso lá dentro, é mais confortável.
— Vou trocar de roupa e me junto à vocês na sala. — informou mas recebeu um olhar de dúvida dos pais.
— Querida, depois dessa declaração toda sobre Alice achei que você iria lá consertar as coisas.
A garota conferiu o relógio. Já era bem tarde. Não fazia ideia de que havia chorado por tanto tempo no colo do pai.
— É melhor eu ir amanhã.
— Bobagem. Parra que perderr tempo, se vocês duas querrem a mesma coisa? — a loira mais velha colocou as mãos na cintura, arqueando uma sobrancelha para a filha. Sabia que naquele momento a garota estava sendo só medrosa. — Não me faça aparratarr com você e te levar até a garota.
— Mãe, pelo amor de Merlin, não! Tá, eu vou! — pegou uma caneca da mão de Bill e tentou tomar o máximo que pôde. Sabia que sua mãe era persuasiva e, acima de tudo, incisiva. Não duvidaria que ela a arrastasse pela mão até Alice e mandasse as duas se resolverem logo. Qualquer coisa era melhor que aquilo. E, se desse um bom perdido, poderia se instalar em algum quarto qualquer bem longe do qual Alice ficaria.
Mas, depois de se despedir de seus pais e usar a rede de pó-de-flu, ela percebeu que a festa estava bem morta, com alguns de seus primos e um ou dois agregados girando em torno de Roxy.
Fred, James, Anthony, Nina, Hugo, Lily, Lucy e Molly gritaram quando viram Dominique, chamando-a para a rodinha, que a garota não recusou. Roxy agia como se fosse a rainha dali — o que provavelmente era, pela noite — e todos riram, dançando ao som de uma música trouxa extremamente animada. Ao fim dela eles finalmente pararam, tentando retomar o fôlego. Não viu Al e Rose em lugar nenhum, então arriscou uma ida à cozinha antes de se ajeitar para dormir.
Enquanto subia as escadas tentando equilibrar alguns muffins a primeira porta do primeiro andar abriu, revelando Albus. Ele encarou a prima por alguns instantes e Dominique sentiu o coração apertar, mas relaxou ao ver que ele sorria para ela.
— Você não vai querer entrar aqui, Rose vomitou em quase tudo.
Dominique fez uma careta e Al aproveitou a deixa para roubar um de seus muffins.
— Ela exagerou um pouco e sabe disso. Passou o resto da noite te procurando para pedir desculpas e disse que você não era nada daquilo. Só um pouco. Ela chutou a Freya quando ela disse que te achava uma grande filha da puta. Acho que agora é pra valer. — ele riu enquanto mordiscava o muffin, mas Dominique não o acompanhou no riso. — Tá tudo bem, Domi. É uma confusão normal de se fazer, não tinha como você saber.
— Tinha sim. Se eu tivesse perguntado.
— Mas não perguntou. E eu também não contei. — argumentou com as duas sobrancelhas erguidas e Dominique suspirou se apoiando no corrimão enquanto arrancava aos poucos a cestinha de papel do muffin.
— Sinto que eu preciso melhorar mil coisas.
— E precisa. Assim como eu e a bebum sem filtro ali. — ele indicou a porta com a cabeça e Dominique finalmente soltou uma risadinha, fazendo com que Al pendesse a cabeça para o lado e suspirasse. — Eu sentaria e contaria tudo agora, mas você tá precisando de uma boa noite de sono, pelo visto.
— E eu te contaria tudo que rolou nas últimas horas, mas você pelo visto está prestes a ficar bem ocupado. — ela indicou o final do corredor com o queixo e Al se virou para ver Scorpius com as mãos nos bolsos, vindo em direção aos primos.
— Controle de dano? — perguntou o loiro ao parar de frente para o moreno e segurar a cintura dele.
— Total. — sorriu ao envolver o pescoço de Scorpius com os braços. Um urro abafado soou ao fundo e Dominique ficou horrorizada ao perceber que era Rose. — Ok, talvez uns setenta e cinco por cento.
— Diminuiu tudo isso em uma gorfada? — Scorpius estava surpreso.
— Você precisa ver o quanto essa garota vomita. Sério, tá o apocalipse ali dentro.
Os dois garotos começaram a se olhar intensamente enquanto riam e Dominique acenou, indo procurar algum refúgio. A cada porta que abria só encontrava caos, pois aparentemente mais agregados haviam resolvido passar a noite por ali. Mal acreditou quando viu Catherine deitada ali usando a jaqueta de James. Isso a fez ficar irritada e correr escadas abaixo para estuporá-lo.
— O que a Cate tá fazendo lá em cima com sua jaqueta seu safado?
— Ei, calma! Ela desmaiou por ter bebido demais depois de um… Choque. — Dominique sabia muito bem do que ele estava falando, pois ela mesma ainda estava chocada com o beijo que presenciou. — Ela não me dizia o endereço do apartamento dela, então eu a deixei ali. Mas ela está em um dos quartos reservado para as meninas, fica tranquila. Vou dormir no quarto do Fred. — James olhou para onde o amigo beijava Nina Longbottom sem parar e torceu o nariz. — Ou talvez em qualquer outro canto. Pode ficar lá naquele quarto, se quiser, pra confirmar. Tinha uma cama reservada pra Nina, mas… Bem…
— Eu entendi. — Dominique riu um pouco, mas ainda lançando um olhar inquisidor para James.
Subiu as escadas com mais pressa dessa vez, tentando se lembrar de onde havia deixado a mochila com suas roupas. Infelizmente estava no quarto vomitado e, por sorte, não havia sido atingida pelo furacão Rose Weasley.
Dominique sabia que se o quarto em que ela dormiria tinha uma cama reservada para Nina, então aquele provavelmente era o local onde Alice estava, portanto não estava exatamente com pressa de tomar banho e se trocar, de maneira que o fez com uma vagarosidade extrema.
Sentia o coração disparar conforme se aproximava do quarto. Quando girou a maçaneta apertou os olhos para identificar onde a garota estava, sem sucesso. Avistou a cama disponível e estava prestes a ir até lá quando uma mão segurou seu pulso. Sentiu o coração na boca de susto quando viu os olhos de Alice se abrindo.
— Domi? Desculpe, achei que era algum garoto idiota tentando entrar. — a forma quase brusca como Alice soltou sua mão a fez sentir como se tivesse levado um soco no estômago.
Dominique apenas suspirou e fechou a porta, praticamente correndo para a cama.
Mas é óbvio que ela estava sentindo tudo menos vontade de dormir. Alice estava ali, a duas camas de distância. Apenas alguns metros separavam Dominique de sentir o calor da garota novamente.
Suspirou pesadamente, tentando desviar os pensamentos.
— Não está conseguindo dormir? — a voz baixinha de Alice parecia melodia aos ouvidos.
Dominique assentiu, mas depois se tocou de que a garota não poderia ver e afirmou em voz alta.
— Eu também não.
Havia um pedido silencioso naquela frase que fez Dominique se contorcer na cama.
Não queria mais se sentir com medo. Não queria mais mentir para si.
Queria Alice. E, naquele momento, queria dormir com Alice. Não de uma maneira sexual, mas apenas dormir. Relaxar.
Com isso em mente, pulou da cama e se enfiou embaixo das cobertas, sem ouvir nenhum protesto da garota, que cedeu espaço sem demora.
Pela luz que vinha da fresta da janela Dominique podia reparar melhor na expressão de Alice. Havia uma mistura de expectativa e carinho. Alice percorreu os dedos finos por baixo das bolsas vermelhas que haviam se formado debaixo dos olhos da loira, de tanto chorar nas últimas horas. Dominique colou a testa das duas, fechando os olhos e deixando-se levar pelo cheiro de rosas e sabonete que a garota exalava no momento e pelos toques gentis.
Tateou o colchão em busca da mão de Alice e a envolveu em um aperto firme. Não se sentia sozinha mais. Estava confiante. Tinha Alice consigo. Rose não estava realmente brava com ela, nem Albus ou Scorpius, e seus pais tinham orgulho de quem ela era.
Fez menção de abrir a boca para despejar um pedido de desculpas, provavelmente seguido de muitas lágrimas por ainda estar se sentindo sensível e querer contar à garota tudo o que havia acontecido nas últimas horas, mas Alice apenas negou com a cabeça, dando um sorriso tímido enquanto selava os lábios da loira. O coração de Dominique parecia estar livre de todo o peso existente. Quando Alice se moveu para afastar-se, Domi a envolveu em um beijo mais profundo e urgente. Ao se separarem nenhuma das duas escondeu um sorriso enorme. Poderiam esperar para conversarem amanhã, pois já haviam esperado muito tempo.
Dominique sabia que ainda tinha que resolver algumas coisas e que estava longe de um dia ser perfeita, mas não ligou. No momento sentia uma corrente elétrica percorrer seu corpo inteiro. Ela e Alice eram eletricidade pura e Dominique gostava daquilo. Na verdade, gostar era pouco.
Dominique amava.
Notas finais
Quero agradecer a todos que leram até aqui haha Espero que tenham gostado! E se você se tornou fã da Dominique nesse Pride tanto quanto eu, vai ficar feliz em saber que em abril de 2021 vai rolar o Delacour's Month (twitter: https://twitter.com/delacoursmonth) (o jabá é a alma do negócio né nom).
Beijos! Vejo vocês nos comentários ♥
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