Ele veio debaixo da cama

1 Ele veio debaixo da cama


Toda noite, a mesma coisa. Já havia virado um clichê. O problema era que só eu conseguia escutar. Claro, tinha que ser. O mais novo começa a ouvir coisas, tenta contar para os pais, parentes, e ninguém acredita. Só se arrependem de não ter dado ouvidos quando é tarde demais. Havia tido um pesadelo meio estranho noite passada, não consigo lembar ao certo do que se tratava. Tentei explicar para meus pais sobre o sonho que tive, mas nem quiseram dar ouvidos.

Eu já sabia dessa história toda. Já tentara de tudo. Se não consigo ajuda de ninguém, farei por mim mesmo.

Esperei chegar até as 10:00 horas. Era quando tudo acontecia. Quando começavam os barulhos debaixo de minha cama. Os mesmos barulhos que já estavam lá por alguns dias. Os mesmos barulhos que nunca tive coragem de olhar para descobrir o que era. Os mesmos barulhos que minha mãe e pai não conseguiam ouvir.

Sabe, pode parecer fácil simplesmente olhar debaixo da cama, mas quando se tem 9 anos, a história é diferente. Sou apenas um garoto, com medo de tudo. Quem sabe pelo fato de temer tudo eu não esteja exagerando com esse negócio do barulho? Bom, pode até ser.

A hora de ir para a cama chegou. 9:00. Ainda havia mais uma hora até começarem os barulhos. Fiquei deitado, na minha cama com o tema dos "Vingadores". Havia ganhado aquela cama fazia pouco mais de uma semana. Gostava muito dela. Parando para pensar, os barulhos começaram na mesma noite após eu a ter ganho. Não acho que seja só coincidência.

Haviam se passado mais 30:00 minutos. Eu continuava pensando sobre o barulho. Pensava em todas as vezes em que meus pais haviam me ignorado. Também pensava o porquê de apenas eu conseguir ouvi-lo.

Faz uma semana que não vou a escola também. Fiquei doente. Peguei uma gripe, já que é inverno, ficar resfriado é algo bem comum. No mesmo dia em que começaram os barulhos. É estranho, tudo ter acontecido de uma vez só. Ter ganho a cama, ficar doente, os barulhos terem começados. Não entendi a relação que todos tinham, mas com certeza havia uma ligação.

Pronto, 10:00 da noite. Não sabia dizer ao certo quanto tempo havia se passado, se 30 minutos se passaram mesmo, podiam ser 5. Só estava tentando adivinhar. A única coisa que tinha certeza era que agora são 10 horas. Os barulhos começaram de novo. Como se não fossem diferente, vinham debaixo da cama.

Demorou alguns segundos até que tomasse coragem, mas pensei comigo mesmo, "É agora ou nunca." O espaço entre minha cama e o que havia em baixo dela não era tão grande assim, mas cabia uma pessoa.

– 1...2...3. Contei comigo mesmo e finalmente olhei. Nada. Os barulhos pararam. Olhei por pouco tempo, mas não pude ver nada além de escuridão.

Tirei minha cabeça de lá e me ajeitei na cama. Pensei comigo mesmo: Nada? Como assim?

No instante em que olhei, o barulho havia passado. Resolvi olhar mais uma vez. O resultado foi o mesmo. Nada.

Resolvi fazer algo que nunca tive coragem de fazer, levantar da cama e ascender a luz. Nunca tive coragem de fazer isso pois achava que quando pisasse fora da cama, uma mão sairia de baixo da cama e me puxaria. Mas já havia olhado lá embaixo e conclui que não tinha nada. Pelo menos, era o que pensava.

Ainda com o receio de ser agarrado por uma mão vindo debaixo da cama, saí correndo como o vento até o interruptor. Foi quando tropecei. Me senti tonto ao tentar levantar. Não consegui me manter de pé e cai novamente. Devo ter batido a cabeça. A única coisa que lembro é que apaguei. Não sabia dizer se era pelo sono ou pelo fato de ter batido a cabeça. Como tinha 9 anos, não aguentava ficar acordado até muito tarde.

Acordei não sei quanto tempo depois, com o maldito barulho. Levantei, e não notei nada de diferente. Pensei sobre o meu medo da mão debaixo da cama enquanto andava em direção ao interruptor, será que aconteceu mesmo? Ascendi a luz. Estava com medo, mas quando a claridade tomou conta do meu quarto, o medo se foi.

O barulho continuava. Fui em direção a minha cama, olhar com mais clareza. No caminho (que eram de aproximadamente 7 passos) Olhei para o chão e vi o que causou a minha queda: Minha caixa de lego em que havia brincado mais cedo.

Quando percebi, já estava abaixado olhando o lugar de onde o barulho vinha. Como na última vez, ele havia parado.

Dessa vez consegui notar algo de diferente. Era como se fosse um alçapão. Na verdade, acho que realmente era um. Fiquei um pouco assustado de aquilo estar ali, já quem não temos porão nem nada do tipo. Sem muita demora, fui tentando encontrar um jeito de abri-lo. Não demorou muito e cumpri meu objetivo. O que aconteceu em seguida me pegou de surpresa. Uma luz forte saiu do buraco em que ficava o alçapão. Era um clarão de luz branca, que me fez cobrir os olhos imediatamente. Me senti indo em direção a luz, contra minha vontade. Não sei se estava delirando, mas juro que pude ouvir uma voz.

– Sua hora chegou. Estávamos te esperando. Demorou um pouco, mas finalmente você vai se juntar a nós.

A voz era feminina, não chegava a ser assustadora, mas sim tranquilizadora, bem suave e até um pouco sedutora. Era como se dissesse que estava tudo bem.

Não consegui dizer nenhuma palavra. Apenas estava sendo sugado pelo buraco aberto embaixo da minha cama. Pensei se meus pais não estavam ouvindo aquilo. Pelo jeito, não.

De repente eu apaguei mais uma vez. Acordei não sei quanto tempo depois. Acordei com uma luz no rosto, um pouco mais adiante percebi que era do sol, pois havia amanhecido.

Ainda bem que tudo foi um sonho. Eu tinha minhas dúvidas. Para mim pareceu bem real. Fiquei um pouco aliviado de ter acordado em cima de minha cama e saber que nada de mais havia acontecido. Tudo foi um sonho bobo. Um pesadelo para falar ser mais exato.

Levantei da cama e fui e direção a porta. Minha mãe e meu pai já estavam tomando café da manhã. Hoje é sábado, e papai falou que iria me levar para ver um filme no cinema hoje.

Abri a porta, mas virei para trás. Olhei fixo para a minha cama, e fui em direção a ela. Me abaixei e olhei por baixo dela. Não havia nenhum alçapão. Ainda bem.

Fui me aproximando da cozinha, onde meus pais provavelmente estariam. Desci as escadas e cheguei na cozinha. O que vi a seguir me fez pensar que estivesse sonhando (mais uma vez).

Pude ver minha mãe, sentada no sofá, dando um remédio para mim mesmo. O problema era aquele não era eu. Bem, era mas ao mesmo tempo não. Era como se fosse um clone.

Percebi que ainda não havia acordado. Aquilo era mais um outro sonho. Uma lembrança. Lembro deste momento, quando minha mãe me deu o remédio para passar a gripe. No mesmo dia que ganhei a cama, e que os barulhos começaram.

Bem, se era um sonho, logo deveria acordar. Não era um pesadelo igual ao outro, mas não deixava de ser estranho.

Fui me aproximando, até chamei a minha mãe, mas ela me ignorou. Ao passar pela porta, o mesmo clarão de luz branca apareceu, como se fosse um portal, ou como se estivesse me impedindo de avançar. Como não haviam muitas coisas a se fazer em um sonho, passei pelo portal de luz.

Estava no meu quarto. Consegui ver de novo minha mãe e meu clone. Era mais uma lembrança.

Pude ver eu deitado na cama, com as cobertas em cima de mim. Minha mãe estava sentada do meu lado, com a mão na minha testa, checando minha temperatura. Lembro deste momento também. Eu havia piorado um pouco. Foi nesse dia que faltei a aula, meus pais falaram que era melhor ficar em casa descansando, que no dia seguinte, eu voltaria ao normal.

Me virei em direção a porta, e o portal apareceu novamente, como se estivesse me esperando. Passei por ele.

O ambiente mudou por completo. Estava em um hospital agora. Fiquei um pouco assustado, pois não me lembrava muito desta parte.

Me vi deitado na cama do quarto, com um médico ao meu lado, examinando meu coração. Eu estava acordado, mas não parecia muito bem.

Como disse, não me lembrava de muita coisa, somente que meus pais chegaram alguns minutos depois e entraram no meu quarto. Eles falaram algumas coisas para mim, em um tom de preocupação. Não consigo escutar o que. Depois das coisas que disseram, lembro que dormi.

O portal se abriu novamente, e estava atrás de mim. Passei por ele.

Agora esteva em um velório. Foi bem assustador. Todo mundo chorando, vestindo preto. Decidi me aproximar para ver de quem era o enterro. Não consegui identificar muito bem aquelas pessoas, afinal, estavam meio longe.

Fui me aproximando e conseguindo enxergar melhor quem eram. Fiquei chocado. Primeiro vi meu vô, que estava solteiro, pois minha vó havia falecido alguns messes atrás. Depois vi minha madrinha e meu padrinho. Certamente alguém da minha família morreu. Talvez fosse uma lembrança do enterro da minha vó, já que pude perceber que quem estava mais triste era o meu vô.

Fiquei no meio de todo mundo. Eles não podiam me ver, era como seu eu fosse um fantasma. Consegui ver uma foto que estava em cima do caixão de madeira. A foto era de minha falecida vó.

O sonho que estava tendo era do enterro dela. Eu não fui ao enterro. Fiquei na casa de um amigo brincando. Acho que minha mãe não quis me levar. Ela queria me poupar do sofrimento, pois eu era muito apegado a minha vó. Todo fim de semana eu ia na casa dela. Era onde toda a família se reunia.

Enquanto estava na casa do meu amigo, lembro de ter ficado bem triste. Ele e a sua mãe faziam de tudo para me alegrar. Eu chorei bastante naquele dia.

Minha mãe certamente não iria me contar sobre a morte da minha vó. Eu fiquei sabendo da noticia enquanto escutava ela falar no telefone com minha madrinha.

Minha vó havia falecido aos 88 anos. Viveu o que tinha de viver.

Fiquei encarando a foto da falecida mulher de meu vô. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Comecei a lembrar dos bons momentos que tivemos. De todo o carinho e amor que ela pode me dar. Dos presentes que ela me deu. Das deliciosas comidas que ela fazia.

Senti pena do meu vô. Eles estava, casados a mais de 65 anos. Minha vó cuidava bastante do meu vô, que tinha vários problemas como diabetes e pressão alta. Imaginei como ele iria se virar sem ela.

Atualmente, meu vô mora com a minha madrinha e o marido dela. Ele continua sofrendo alguns problemas, mas melhorou um pouco. Chegou a ficar em depressão após a morte de sua querida esposa.

Ao ficar olhando por mais algum tempo para o retrato, uma coisa estranha aconteceu. A foto começou a se contorcer e a girar. O rosto nela começou a mudar. Agora quem aparecia na foto era eu.


Não entendi nada. Minha foto? Eu havia morrido?

Comecei a ouvir minha tia consolando a minha mãe.

– Ele foi um bom menino com certeza. Sinta orgulho, e não tristeza. — Falou ela em uma voz leve e carregada de tristeza.

Minha mãe não disse nada, apenas continuou a chorar.

Meu pai se aproximou de minha mãe e envolveu seus braços envolta dela, como uma forma de tentar conforta-lá.

O sonho virou um pesadelo. Estava indo tudo bem até agora. Começou a ficar estranho quando fui levado ao hospital, e agora isso. O enterro de minha vó havia se transformado no meu. Eu só queria voltar para a minha cama e rir disso tudo enquanto falava para meus pais sobre o que passei nessa noite.

O portal de luz branca se abriu. Foi um pouco longe de mim dessa vez. Fui em direção a ele.

Enquanto me afastava o barulho do choro ia ficando cada vez menor. Dei alguns passos adiante e parei. Pude ver algo saindo do portal. Comecei a ficar assustado.

A coisa que saia da luz tinha uma forma humana. Era uma mulher com um vestido branco, de cabelos longo, liso e pretos, que quase tapavam o seu lindo e jovem rosto. Eu não queria mais continuar andando, mas minhas pernas não me obedeciam. A mulher estava flutuando em frente ao portal, me esperando.

Estava poucos centímetros de distância dela. Ela simplesmente estendeu a mão para mim, e eu sem conseguir controlar meu corpo, segurei a sua mão e simplesmente apaguei.

Acordei no nada. Literalmente nada. O lugar onde estava era tudo branco. Me levantei o olhei em volta. Pude ver a mesma mulher do velório. Ela veio se aproximando.

– Olá garotinho. Finalmente acordou — Falou com sua voz acalmante, em um tom suave -

– Quem é você? Onde estou? — Questionei em um tom assustado.

– Não sou ninguém de importante. — Respondeu com o mesmo tom de voz. — Você estava um pouco doente e piorou um pouco.

– Como você sabe? — Perguntei ainda assustado.

– Eu estive te observando. — Aliás, lembra dos barulhos que estava ouvindo de noite?

– Sim... — Eu ainda havia mais coisa para falar, mas a mulher me interrompeu.

– Certas coisas devem ser deixadas de lado, por mais que incomodem. Não deveria ter olhado em baixo de sua cama. Da próxima vez, faça algo diferente. — Quando ela falou a última frase, sua voz mudou completamente. Foi de algo suave e tranquilizador para algo macabro e perturbador.

Eu fiquei mais assustado do que estava.

Olhei para trás e o portal se abriu atrás de mim, depois, voltei a encarar a mulher do velório, e ela fez um sinal para mim entrar no portal. Eu obedeci e fui andando para ele em um ritmo um pouco mais acelerado. Quando estava preste a entrar no portal, a mulher falou que eu iria estar no meu quarto, e tudo estaria bem. Andei mais um pouco e passei pelo portal.

Toda noite, a mesma coisa. Já havia virado um clichê. O problema era que só eu conseguia escutar. Já sei, vou esperar chegar as 10:00 e dar um fim nesse maldito barulho. Vou descobrir de onde vêm.

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