Ele não queria crescer

1 Wendy conhece a Terra do Nunca


Notas iniciais
Espero que gostem, eu particularmente achei que ficou bom... Bem, que comentário e nesses comentários vocês podem escolher qual conto eu escrevo depois de Peter Pan.
Boa leitura!

"Ela lhe contou histórias, ele a ensinou a voar... Amavam-se, mas ele não queria crescer..." — J.M. Barrie

***

Wendy Darling discutia mentalmente suas opções de futuro quando o garoto de verde a assaltou. A menina acabara de sair do supermercado, suas mãos estavam cheias de besteiras para seus irmãos mais novos – João e Miguel – e vagueava em sua mente sobre o final de seu colegial. Um vulto verde passou na esguelha, porém a garota não oferecia atenção no que ocorria a sua volta.

Wendy andou despreocupadamente até que chegou a uma esquina, preocupada com seus pensamentos, não percebera que o local estava vazio, preenchido somente por um morador de rua que dormia ao longe. O Garoto de Verde aproveitou sua chance, vendo que a menina possuía gordas sacolas de mercado. Ele correu até ela e puxou suas sacolas, Wendy demorou a reagir, tentando entender o que estava ocorrendo.

Ele começou a correr para um beco a esquerda, Wendy praguejou e correu atrás do menino. Ela corria razoavelmente bem, então conseguiu ficar na cola do ladrão. Quando viu que a menina o perseguia, o Garoto de Verde jogou as comprar pelo outro lado da cerca no fim do beco e esperou por ela.

Wendy chegou arfando e encarou o menino, não poderia ter mais que dezenove anos. Ele vestia calça jeans velha e um casaco com capuz verde, que mascarava seu rosto, era grande e musculoso. O menino sorria diabolicamente para a menina que o havia seguido para um beco vazio, seus punhos estavam cerrados e seu peito subia e descia em uniformidade, não demonstrando o cansaço que Wendy sentia.

— Roubou a menina errada, Robin Hood. – Wendy respirou fundo e arqueou a coluna, preparando-se para uma luta, o que seria muito bem-vinda. – Sou faixa preta.

— Admiro sua coragem. – disse o menino em sua voz incrivelmente forte e confiante – Mas ainda é somente uma garota.

Wendy cerrou os dentes e encarou o garoto com um novo tipo de raiva.

— E você acabou de deixar essa garota com muita raiva. – Wendy saltou para lhe dar um chute lateral, acertou o Garoto de Verde com tudo, ele não esperava tal reação.

O menino tombou para o lado, enquanto Wendy lhe acertava uma joelhada. O garoto se afastou com o nariz sangrando, a menina lhe deu um ganho de direita e, quando viu que ele estava tonto, começou a escalar o arame para o outro lado. O Garoto de Verde parecia ter se recuperado, pois quando Wendy pulou para o outro lado, ele já estava na metade do muro. Ele era tão rápido que dava a impressão que voava.

Wendy pegou suas sacolas e começou a correr, porém viu que não havia mais rua, apenas a grande selva da cidade onde morava. Ela ficou atordoada por alguns segundos, não sabendo para onde correr, ela só sabia que não podia voltar. O Garoto de Verde a alcançou e a puxou pela barriga, Wendy gritou, mas não havia ninguém na rua que pudesse escutá-la. Ela sentiu a respiração do menino na sua nuca, arrepiou-se, mas tentou manter a calma.

— Você daria uma ótima Menina Perdida. – sua mão direita a segurava, enquanto a esquerda tirava as sacolas da mão de Wendy, que tentava desesperadamente segurá-las, como se sua vida dependesse disso. – Pena que não aceitamos garotas.

— Você deveria aprender a como tratar uma. – Wendy acertou-lhe uma cotovelada na costela, o menino se afastou com dificuldade, mas o sorriso bobo não deixava seus lábios. – Não ficaria surpresa – disse ela enquanto tentava lhe dar uma cruzada de direita, que ela segurou com facilidade – se não tivesse namorada. – o menino virou sua mão e a prendeu em suas costas, Wendy arfou e tentou se afastar.

— Não preciso de namorada. – o menino professou as palavras com um tom brincalhão – Só preciso que você seja uma boa garota e pare de tentar ganhar de mim.

— Eu não vou parar. – Wendy se abaixou e jogou o corpo do menino por cima do seu, ele caiu no chão e começou a gargalhar.

Seu rosto finalmente apareceu, ele possuía olhos azuis, mas não um azul qualquer, um azul como o céu, pois neles pareciam estar todas as galáxias e estrelas possíveis, uma imensidão de coisas inexploráveis e algo muito mais profundo, algo que mentes mortais não compreenderiam. Algo que Wendy temeu, mas que também a fez procurar por mais. Seus cabelos eram de um loiro claro, seu rosto era fino e brincalhão, como se ainda não tivesse crescido. Suas orelhas eram o mais engraçado no Garoto de Verde, elas eram pontudas como as de um duende. Wendy se segurou para não rir, porém era uma tarefa claramente impossível, já que o próprio menino sorria e isso destacava mais sua orelha.

— Qual é o seu problema? – ela perguntou.

— Ora, nenhum. – ele se levantou em um salto, o que fez a menina se afastar, dando tempo para que ele pegasse as sacolas e começasse a correr para a floresta.

— Fala sério! – disse a menina jogando os braços para o alto, ela estava cansada e seu pulso doía, com certeza ficaria roxo e inchado, não aguentava mais correr atrás do Garoto de Verde. Contudo, ele deixara bem claro seu machismo e isso Wendy não deixaria para trás.

— Já disse – gritou ele enquanto corria – Pare de tentar ganhar de mim.

— Eu não vou parar. – então correu o mais rápido que pode.

Correu mesmo que seus pés já não aguentassem, quase caia quando pisada em algum declínio ou elevação, mas continuou atrás do ladrão. Ele correu até uma pequena colina, segurou uma corda que ali estava e voou para o nada. Wendy chegou ao local e segurou a corda enquanto ela voltava, viu que havia uma casa abandonada o grande declínio a sua frente. Segurou a corda com coragem e se lançou, quando chegava perto da varanda do segundo andar da casa, se jogou, caindo com tudo no chão de madeira. Sentiu seu rosto sendo ralado e seus ossos sendo socados, porém ela se levantou com dificuldades e tentou abrir a porta que dava para casa, mas estava trancada.

Wendy viu que crescia hera em volta da casa, pulou o cercado da varanda e começou a descer, no começo fora fácil, contudo, seu pé logo ficou preso na hera, ela tentou puxar, mas a planta logo cedeu e a menina se encontrou caindo em direção ao chão. Ela esperou a dor e o desmaio que viria logo depois, porém nenhum dos dois aconteceu, enquanto gritava, Wendy sentiu que caia no colo de alguém. Abriu os olhos para encarar o Garoto de Verde, que a segurava firmemente, ele sorria torto e seus olhos eram curiosos.

— Acho que eu salvei sua vida.

— Me ponha no chão. – Wendy começou a se debater, até que o menino a colocou no chão com calma, mas não deixou de rir com a atitude dela. A menina alisou a roupa e tirou o cabelo do rosto.

Ele arqueou a sobrancelha esperando algo.

— Não vou pedir obrigado. – Wendy bateu os pés e lhe fuzilou indignada – Foi você que me roubou para começo de conversa, Robin Hood.

— Foi você que veio atrás de mim. E meu nome é Peter Pan.

— Eu queria dizer que foi um prazer conhecê-lo, mas não foi. – ela cruzou os braços – Quero as minhas compras. Agora.

— Ora, ora... Se a garota não é insistente. – ele caminhou até ela e segurou o seu queixo – Esse foi o preço pago por eu ter salvado a sua vida.

Wendy afastou o rosto e praguejou.

— A garota tem nome, em primeiro lugar, é Wendy. E, segundo, não se pede a caça para agradecer ao caçador. Quero as minhas compras, Peter.

— Meu nome fica lindo na sua boca. – disse ele vagueando e chegando perto mais uma vez – Por que não entra? Talvez encontre suas compras.

Ele se virou e começou a dar a volta na casa, Wendy se apressou para acompanhá-lo, havia uma placa bem grande e malfeita na entrada, estava velha de havia musgo por cima dela. Porém seu escrito ainda era bem visível:

Terra do Nunca

Logo abaixo havia uma especificação de proibida a entrada de garotas, mas havia um porém, uma tal de Tigrinha podia entrar se levasse doces.

- Você pode perguntar se tiver vontade. – disse Peter sem olhar para trás, Wendy abriu a boca para falar, mas se calou. – Chamamos assim porque aqui nunca se cresce.

— Que bobagem! Todos crescem...

— Não... Só se você admitir tal fato. – ele chegou à porta e deu três batidas, esperou mais um segundo e deu mais cinco batidas.

— Peter voltou! – gritou alguém do lado de dentro, logo várias vozes estavam gritando, até que uma criança abriu a porta, não tinha mais que nove anos, vestia roupas velhas e seu rosto estava pintado com duas linhas na bochecha.

— Vamos Wendy. – chamou o garoto enquanto pegava as compras do chão e entrava na casa.

Wendy hesitou, porém sua curiosidade fora maior que si mesma. A casa era velha, parecia que cairia a qualquer momento, o carpete estava mofado e cheirava mal, as paredes tinham manchas e a tinta já não coloria mais. Não havia moveis e nem sinal de que alguém vivia ali. Peter colocou as comprar em cima de um balcão velho e foi para sala, Wendy puxou o casaco com um frio repentino e seguiu Pan enquanto mais seis crianças corriam e gritavam para o cômodo.

— Meninos, em formação. – os seis garotos se colocaram em uma fileira crescente, do menor ao maior, todos eles a encaravam assustados, com certeza Wendy era primeira garota que Peter levava ali (tirando a tal Tigrinha) – Quero que conheçam Wendy.

— Olá, Wendy. – disseram em uníssono.

A menina encarou Peter com curiosidade, porém o menino não parecia ver aquilo como uma cena peculiar, estava mais preocupado em tirar seu casaco, mostrando mais uma camisa verde de manga com gola em V. Ele pegou um chapéu, que mais parecia um touca, verde com uma única pena vermelha presa e colocou na cabeça, deixando que sua orelha se sobressaísse.

— Olá, garotos. – Wendy falou sem jeito.

— Esses são os Meninos Perdidos. – Pan cruzou os braços e apontou com a cabeça para cada um deles, começando pelo maior. – Firula, Bico, Magrelo, Caracol e os Gêmeos – ele olhou para Wendy, brincalhão – Ninguém nunca sabe quem é quem.

— Vocês moram aqui?

— É claro. – Peter falou como se fosse algo óbvio.

— Quem são seus pais? – Wendy abominou a ideia de morar em um local como aquele, sujo e claramente inabitável, não tinha aquecedor ou moveis, seis crianças e um adolescente não poderiam morar em um local como aquele.

— Não temos pais. – disse Firula, o que havia aberto a porta – Por isso “Meninos Perdidos”.

— Peter nos encontrou. – gritou Bico, que era visivelmente acima do peso e tinha lindos cabelos dourados.

— Ele nos trouxe para cá. – explicou o ruivo e travesso Caracol. – Não nos lembramos de nossos pais.

— Ora – assustou-se a garota – Quem não se lembra de seus próprios pais?

— Wendy trouxe doces para vocês. – Peter logo tratou de mudar de assunto, laçando um olhar incisivo para a menina – Hoje, garotos, jantaremos como reis. – os meninos gritaram e logo começaram a correr, voltando com suas brincadeiras.

— Isso não é justo. – Wendy olhou para ter certeza que os meninos não ouvissem – Você não pode fazer isso, é baixaria. Sabia que eu me compadeceria deles?

— Na verdade não. – Peter deu de ombros – Você foi a primeira garota que eu tenho vontade de trazer até aqui.

De um jeito estranho, Wendy se sentiu verdadeiramente especial com aquilo, era algo muito importante para eles, isso era evidente, por isso ela sorriu.

— Obrigado... Eu acho. – Peter andou até a porta e a abriu para Wendy passar – Pode ficar com tudo, falarei ao meu pai que fui roubada e não darei queixa.

— Eu não ia devolver. – disse ele fechando a porta.

— Eu estou tentando ser legal aqui, que tal começar a ser legal também. – Wendy jogou os braços para cima, Peter riu e começou a andar em direção a floresta.

— Eu acabei de dizer que você foi a primeira garota que eu trouxe aqui. – ele colocou a mão no bolso e olhou para ela pelo canto do olho.

— Isso não é justo. – reclamou Wendy – Eu tive que correr atrás de você.

— Se eu não quisesse, Wennie, você nunca encontraria esse lugar.

— Acredita muito nas suas habilidades, senhor Pan.

— Cresci nesta floresta, então sei o que estou dizendo.

— Como veio parar aqui? – perguntou a menina com a curiosidade renovada.

Ele balançou a cabeça.

— Ainda não confio em você o bastante para lhe contar isso.

— Muito bem, segredo é segredo. Porém... – Wendy colocou a mão no queixo e inspirou fundo – Por que você vive com mais seis crianças no meio do nada? Se elas fossem órfãs não é aconselhável que estejam em um orfanato? E quem é Tigrinha? Porque é óbvio que ela já esteve aqui... E como voc...

— Deus – exclamou ele, calando a menina – Você fala demais. É por isso que garotas não são permitidas aqui.

— Mas deveria. – Wendy cruzou os braços, pronta para discutir – Aquele lugar está uma bagunça e cheirando muito mal, se uma garota estivesse cuidando do lugar isso claramente não aconteceria.

— Agora você manda demais.

— Eu tenho razão, Peter. Você sabe disso, e, além do mais, você não respondeu as minhas perguntas. Como vo...? – Peter fez um movimento rápido e prendeu Wendy na árvore, colocando o polegar em sua boca, calando-a, ela sentiu o corpo dele por debaixo da roupa e respirou fundo para se controlar.

— Chega de perguntas. – ela tentou falar, mas ele a calou novamente – Venha amanhã e talvez eu as responda.

Wendy se limitou a assentir.

— Bem mais fácil, não? – Peter se afastou, deixando uma Wendy sem fôlego perto da árvore – Acha que pode encontrar o caminho daqui?

— Hãm... – ela olhou para os lados tentando se situar, tirou os fios que caiam em frente de seus olhos e confirmou – Sim, posso.

— Ótimo. – Peter sorriu torto e piscou – Te vejo amanhã, Wennie.

E sumiu.

Wendy caminhou até em casa sem saber ao certo como havia parado naquilo, ela já havia sido roubada várias vezes, mas nunca por um garoto de verde que cuida de mais seis crianças em uma casa abandonada na floresta. Isso era loucura e ela concordara em voltar, mesmo que não fosse obrigada, ela voltaria, algo naquele lugar a puxava, como mágica.

***

Peter estava tentando pegar a maçã mais alta que havia naquela árvore. Não era a melhor e nem a mais vermelha das maçãs que havia naquele bosque, porém era a mais difícil e ,por isso, ele tinha que pegá-la. Desafios nunca intimidaram Peter, nem quando disseram que era impossível fugir do orfanato, a mera intenção do impossível o deixava cada vez mais vivo. Quebrar regras e leis era o que ele fazia para viver e isso tornava a sua vida emocionante.

O garoto tinha conseguido pegar a maçã quando ouviu um leve som de uma música, ele desceu alguns galhos para ver Wendy caminhando despreocupadamente pelo bosque, cantarolando alguma música que Peter desconhecia. Ele não costumava achar garotas bonitas, mas Wendy era diferente, ela exalava algo que Peter já se via viciado. A menina vestia calça preta rasgada e um suéter cinza que mostrava seus ombros, seus lindos cabelos castanhos claros estavam presos em um rabo de cavalo e seus maravilhosos olhos verdes pensavam despreocupadamente.

Ela não estava preocupada em andar em uma floresta escura sozinha, ainda cantarolava mexendo em sua mochila marrom de vez em vez. Já passava das três da tarde e Peter achou que ela não iria mais, isso o desanimou mais do que ele pretendia, teve que sair da Terra do Nunca para poder pensar. Peter Pan não gostava de garotas e isso não podia mudar. Ele já não entendia como deixara Wendy chegar até sua casa, estava se descuidando.

O menino suspirou e pulou da árvore, ele estava a mais de cinco metros do chão, mas sua queda foi serena, fazendo Wendy dar um grito e colocar a mão no peito.

— Tem certeza de que não voa? – perguntou ela sorrindo – Começo a achar que você é meio sobrenatural.

— Achei que não viria mais. – Peter pegou a mochila dela sem que Wendy lhe autorizasse, ela tentou protestar, mas ele ignorou e abriu o bolsa, revelando vários utensílios de limpeza.

— Eu achei que vocês gostariam de um banho. – disse ela constrangida – Desculpa se me atrasei, estava na escola.

Peter fez um careta ao escutar o nome daquela prisão.

— Nós não gostamos de tomar banho. – disse ele dando de ombros – Mas vamos fazer isso. Venha.

Eles começaram a andar na direção da Terra do Nunca, Wendy pediu a mochila de volta, mas o garoto insistiu em levá-la.

— Como comprou isso tudo?

— Trabalhei no verão passado, tinha algum dinheiro guardado e isso não foi tão caro.

— Não gostamos de caridade, Wendy.

— Eu entendo, ok? Sei que você deve achar orfanatos uma coisa horrível, eu não me imagino vivendo em um lugar como esse. Mas, se você se importa com esses meninos, deveria dar uma vida a eles, crianças devem tomar banho e tomar vacina, e se eles ficarem doentes?

— Eles nunca ficaram doentes. – disse ele baixinho.

— Ainda. Eu trouxe o suficiente para um mês de banho. – ele olhava para frente, com as mãos no bolso, ele se importava com os Meninos Perdidos, mas ainda era só um garoto – Não é caridade, Peter, eu quero ajudar.

— Tudo bem. – ele deu de ombros e subiu a colina – Você pode ajudar.

— Eu ia ajudar de qualquer jeito.

Peter pegou a corda e pulou, quando tinha chegado à casa, ele saltou, dando um mortal e caindo no chão, leve como uma pena.

— Exibido. – gritou Wendy.

Wendy fez a mesma abordagem que fizera da outra vez, caindo na varanda do segundo andar. Seus ombros já doíam, mas ela mordeu o lábio se levantou, sentindo a dor no pulso que estava roxo. Ela foi até o cercado da varanda e olhou para baixo, Peter a encarava com divertimento.

— O quê? Eu sou apenas uma garota, não sei fazer essas acrobacias. – ela olhou para a porta e depois para o garoto que usava verde – Não sei como vou descer daqui, não quero cair de novo.

Ele pôs as mãos na cintura e respirou fundo, como se fosse algo muito difícil de pensar.

— Estou avaliando seriamente deixar você aí em cima.

— Então eu iria descer pela hera e iria cair, Robin Hood. – Wendy apoiou o cotovelo na madeira e arqueou uma sobrancelha.

— Não. – disse ele descartando a ideia – Eu ia pegar você.

Ficaram se encarando por um segundo, Wendy não sabia o que dizer, mas Peter estava despreocupado, como se dizer a verdade não tivesse nada de tão especial.

— Vou pegar uma corda.

Ele sumiu por alguns segundos, mas logo voltou segurando uma extensa corda com vários nós a cada meio metro. Peter a jogou e Wendy segurou, sem saber como iria descer naquilo.

— Amarre-a bem firme. – ela obedeceu, dando vários nós, Peter puxou a corda para ter certeza que estava bem amarrada e a menina começou a descer.

Ela era bem desajeitada, pensou Peter, deveria ser culpa de ela ser uma garota. Wendy demorou um pouco para descer, mas não caiu, eles foram em direção a porta da casa para mandar os meninos ao banho.

— Você vai pegar o jeito. – constatou ele.

— Isso é um passe livre para eu poder vir aqui sempre?

— Se você sobreviver a hoje... Pode ser.

Peter demorou um pouco para juntar todos os meninos, Caracol estava escondido e não queria ser achado, mas Peter sabia exatamente onde ele gostava de esconder em dia de banho. Firula estava animado, ele era o único que gostava de tomar banho, Magrelo chorou e os Gêmeos fugiram, mas Wendy conseguiu pegá-los antes que pudesse ir longe. Bico estava dormindo no telhado, então Wendy deixou que Peter o pegasse. Ela já estava suada, até ela merecia um banho, mas deixou que os meninos se divertissem. Havia um rio não muito longe dali, onde eles geralmente pegavam água para a Terra do Nunca.

— Tem certeza que vai ficar bem sozinha? – perguntou Peter na porta, segurando uma toalha verde e as coisas que Wendy levara.

— Sim, demorem o tempo que for preciso. – ele piscou e fechou a porta.

Wendy foi até a cozinha e viu que eles tinham uma louça gigante na pia, havia uma encanação improvisada, então ela puxou as mangas e começou a lavar e a secar. Depois subiu até o segundo andar e abriu todas as janelas, foi até a lavanderia e viu que tinha uma vassoura velha, pegou-a e começou a varrer tudo o que pôde. Havia três quartos na casa, um era de casal, onde provavelmente dormia Peter, o outro tinha dois beliches e o outro, duas camas de solteiro, Wendy pegou todos os lençóis e um sabonete e tentou encontrar o rio. Não demorou muito, ele fazia um barulho que o tornava fácil de achar, ela prendeu os fios atrás da orelha e começou o trabalho.

Ela havia gasto seu verão trabalhando em um hotel como camareira, seu pai insistira que ela fosse trabalhar no banco como ele, mas só a ideia de ser como seu pai a repugnava. Ela não queria ser presa ao trabalho e ir a festas enjoativas onde pessoas sem graça ficavam trocando monossílabas. Wendy queria algo mais, uma aventura, uma paixão, algo que a consumisse por inteiro.

O Sol já estava se pondo quando ela acabou todos os lençóis, quando olhou para o lado, Peter estava a encarando, segurando sua blusa verde em mãos, o que significava que ele estava sem camisa. Peter Pan mostrava seu incrível peito nu, seus músculos definidos e seu abdômen completamente atrativo. Ele estava com o cabelo loiro molhado e cheirava a lavanda, Wendy respirou fundo e passou a mão no cabelo. Peter era lindo e ela deveria estar toda molhada e acabada, não que isso importasse, eles não se suportavam, não poderiam gostar um do outro.

— Te procurei na casa, você não estava lá. – sua voz estava triste, mas ele sorria, revelando seus dentes incrivelmente brancos.

— Eu tive que lavar esses lençóis, estavam imundos, vocês são sete então demorou mais que o normal. – Wendy tentou olhar para o seu rosto e esquecer que Peter estava seminu, mas era uma tarefa impossível.

— Obrigada, eu acho. – ele agachou ao seu lado e lhe entregou sua blusa – Há tempo para mais uma?

— Acho que consigo encaixar. – ela puxou a manga novamente e começou a lavar, suas mãos doíam e seu pulso estava latejando, mas ela se sentia bem, estava fazendo algo bom. – Pronto, temos que colocar isso em algum varal para secar, amanhã já terão suas roupas de cama secas. – ele a encarava sério, Peter não sabia dizer que tipo de garota Wendy era, não lhe fizera mais perguntas e não havia entregado-o para a policia, ele não conseguia entender por que fizera isso.

— O que aconteceu com seu pulso? – ela segurou-o na mesma hora e deu de ombro.

– Você me apertou um pouco forte demais, não é nada.

- Está inchado. – ele pegou sua mão e o massageou vagarosamente, Wendy apertou os lábios e segurou um grunhido de dor – Desculpa, estou acostumado a lidar com os Meninos Perdidos. – ele levou sua mão até a boca e depositou um beijo em seu pulso ferido. – Vamos colocar gelo nisso.

Wendy só conseguiu assentir. Ele se levantou e ofereceu a mão para que ela pegasse, pegaram as roupas de cama e foram para Terra do Nunca. Um passarinho verde começou a cantar e pousou no ombro de Peter, ele sorriu como se fosse algo comum e assentiu para o passarinho.

- Wendy – chamou ele – Essa é Sininho.

- Seu passarinho? – perguntou ela completamente maravilhada – Você tem um passarinho criado livre.

- Conta a história que Sininho já foi uma fada, aprisionada por uma maldição no corpo desse passarinho verde.

- Prazer, Sininho.

O passarinho voou e bicou a orelha de Wendy.

- Ai!

- Ela não gostou muito de você. – Peter deu de ombros, aquilo costumava acontecer.

Peter improvisou um varal e começaram a pendurar os lençóis, a noite estava estrelada, então eles não se preocuparam em deixar as roupas de cama do lado de fora.

- Encontrei Firula há mais de três anos, roubando comida de um restaurante; Caracol foi há dois anos, ele dormia na rua com apenas a roupa do corpo; Magrelo foi há seis meses, ele nos encontrou e tentou roubar nossa comida; Os Gêmeos eu encontrei andando no parque sem qualquer indicio dos pais e Bico eu salvei de se afogar na praia. Nenhum deles se lembra dos pais de maneira clara, somente Magrelo acha que se lembra da sua casa.

- Você os salvou.

- Eu estive em um orfanato e não gostei nem um pouco da experiência. Achei que poderia dar a esses garotos uma vida melhor, ser criança para sempre.

Wendy pensou antes de falar:

- Quantos anos você tem, Peter? – ele parou de estender e olhou para o céu.

- Eu não sei?

- Como assim “não sabe”? Todo mundo sabe a sua idade.

- Acho que tenho dezoito ou quase isso. – ele deu de ombros e voltou ao trabalho.

- Você poderia trabalhar e comprar essa casa, consertá-la e transformá-la em um lugar melhor para os meninos. Não precisariam roubar mais.

- Não. – disse ele simplesmente.

- Você nem pensou sobre o assunto.

- Vivemos bem assim, Wendy! – gritou.

- Bem? Isso não é bem Peter, vocês roubam para viver e nem tomam banho com frequência. E quando não conseguem roubar? Vocês passam fome? – Wendy colocou as mãos na cintura e foi até Peter – Você os deixa passar fome, Peter?

- Eu vivo assim desde os seis anos e não tive problemas... Nós vivemos bem assim desde sempre, não é você que vai mudar isso.

- Eu não quero mudar o jeito que vocês vivem, só quero que você pense que pode melhorar a vida deles, é o único pai que eles conheceram.

- Não. – gritou – Não.

- Muito bem. – Wendy piscou e começou a caminhar até a casa – Sou só uma garota, não é mesmo? – quando ela olhou para trás, viu que ele havia sumido.

Wendy queria entrar na casa sem ser vista, pegar sua mochila e ir embora, mas os Gêmeos a encontraram e seguraram sem sua perna.

- Você pode contar uma história para nós, Wendy? – eles não tinham mais do que cinco anos, seus olhos estavam cansados e um deles estava com o dedão na boca.

- É claro que sim. – Wendy os pegou no colo e foi até o andar de cima, colocando-os no quarto que tinha duas camas – Qual história vocês querem ouvir?

Os dois deitaram em uma cama e se aconchegaram perto de Wendy, Firula, Caracol, Bico e Magrelo entram logo depois, acomodando-se na outra cama e Firula ao lado dos Gêmeos. Ela começou a fazer um cafuné nos irmãos e pensou em uma história.

- “Era uma vez, uma menina chamada Cinderela...”.

Quando o conto chegou ao fim todos estavam dormindo, Wendy levantou devagar e fechou a janela, achou duas colchas no armário e cobriu os seis meninos que dormiam em posições diferentes. Ela fechou a porta e desceu as escadas em silêncio, pegou sua mochila e decidiu ir embora. O que ela não sabia era que Peter viu tudo o que ela fez pelos meninos e escutou sua história sobre a empregada que virara uma princesa, ela também não sabia que ele a acompanhou pela floresta para ter certeza que ela chegaria bem casa e descobriu onde a menina morava.

***

Wendy não sabia se voltava a Terra do Nunca no dia seguinte, Peter não queria a sua ajuda, mas os Meninos Perdidos precisavam dela e isso a motivou a pegar seu dinheiro e comprar cinco pizzas. Pegou seus irmãos mais novos e foi até a floresta, João e Miguel não sabiam o que estavam acontecendo, mas Wendy pediu que eles confiassem nela, João tinha dez anos, enquanto Miguel tinha apenas quatro. Naná os seguira, ela não deixaria que os meninos saíssem sem sua supervisão. Naná era o cachorro da família, mas parecendo uma babá que não era remunera, cuidou de Wendy quando ela era pequena e agora cuidava de Miguel e de João de um jeito infalível, era mais prestativa do que Lisa, que quase nunca comparecia.

Wendy decidiu descer o barrando invés de usar a corda para ajudar os meninos, as pizzas em sua mão ameaçavam cair, por isso Naná ajudava os meninos. Assim que chegara a Terra do Nunca, Wendy bateu três vezes, esperou um segundo e bateu de novo, Firula abriu a porta e gritou ao ver Wendy, todos os meninos correram e a abraçaram. Ela apresentou Miguel e João, que logo começaram a correr para cima e para baixo com os Meninos Perdidos. A menina pegou as pizzas e colocou na bancada.

A porta da frente se abriu, Peter entrou escancarando-a, usava sua blusa verde e sua chapéu, mostrando suas lindas orelhas, ele parecia irritado. Então Wendy permaneceu quieta até que ele a visse.

- O que está fazendo aqui? Achei que tinha sido claro ao falar que não precisamos da sua ajuda.

- Talvez você não, mas os meninos sim.

Ele a encarou por bom tempo até assobiar bem alto e todos os meninos começarem a aparecer, eles se sentaram no chão, inclusive os irmãos de Wendy.

- Hook está aqui.