Ele era... Tudo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não. Não pode ser. Não é verdade. Dean não morreu, claro que não. Ele nunca morre, né? Ele sempre escapa, ele sempre volta. Ele voltará. Metatron me disse que ele morreu e que apesar de eu ter feito tudo o que fiz para salvar não só a humanidade, mas especificamente um humano, o esforço foi em vão. Metatron disse que Dean se foi, e que dessa vez era pra sempre. Apesar de repentinas, as sensações que me tomaram eram extremamente intensas, fizeram eu me sentir tão... Humano. Muito mais humano do que eu me sentia no período em que eu estava sem a minha — e nenhuma outra — graça. E ser humano não é bom. Não é bom ter esses sentimentos ruins dentro de mim, me corroendo de uma maneira lenta, torturante.
Uma dor tão forte...
Fui ferido da pior maneira possível. Dean era, sem dúvidas, meu "Calcanhar de Aquiles", e por algo ruim ter acontecido a ele, foi inevitável eu não me sentir mal. Droga! Eu deveria proteger ele como venho fazendo desde que o tirei do inferno, ou ao menos como eu venho tentando fazer. Mas agora que ele está morto, e sinto como se estivesse sendo torturado. A dor certamente é muito maior do que quando essas espadas angelicais me atingiam durante algum confronto; maior do que quando leviatãs me possuíram; maior do que a dor que eu sentia a cada vez que eu falhava tentando defender o Winchester, ou quando ele desconfiava de mim... E isso já me machucava pra caralho.
Senti o desespero em saber que aquele humano que tanto fez por mim — não só pelo apoio nas batalhas, mas me ajudando a ajudar as pessoas, me mostrando o que é o livre arbítrio e me fazendo decidir por mim mesmo o que devo ou não fazer, me fazendo ter noção do certo e errado — estava morto; o que eu faria daqui pra frente? Ele era... Tudo.
A raiva também apareceu. Afinal, quem nunca sentiu o desejo de se vingar? Uma das coisas que aprendi — mesmo que involuntariamente — com a humanidade, principalmente com Dean Winchester, foi a ter determinação. Determinação para fazer justiça. Dean nunca deixou de fazer o bem, ele não merecia ter morrido tão cedo.. Ele salvava pessoas, caçava coisas... Esse tal "negócio da família" que, há tempos é parte de mim. Mesmo eu não sendo um Winchester, isso é algo que foi inevitável não absorver. Dean nunca desistiu de vingar a morte de sua mãe, seu pai, Sam — quando necessário —, da Jo, ou Bobby e de todos os outros amigos e conhecidos... Não importa o que ele teria de fazer, não importa o quão complicado seria, mas ele sempre iria atrás da justiça. Muita gente diz que a vingança é ruim, e que de nada adianta... Mas o que adianta ficar parado de braços cruzados? Só esperando mais e mais pessoas serem vítimas da crueldade... Justiça com as próprias mãos é válida sim!
Eu tive muita vontade de torturar o Metraton durante toda a eternidade só para vê-lo sofrer; ele sentiria na pele tamanho estrago que ele causou — não só a mim, mas ao Sam também — e só não o fiz porque antes eu precisava confirmar a veracidade da afirmação. Apertei o pescoço do Metatron com o máximo de força possível, e apesar de sentir dor, o desgraçado não tirava o sorriso presunçoso de seu rosto; o que me enfurecia ainda mais.
— Se isso for verdade — vociferei. — Eu acabo com você.
— Olhe pra você, Castiel! — riu. — Essa graça angelical não é a sua e não está fazendo bem pra você. Acha mesmo que pode me deter, assim... Fraco? — debochou. — Mas eu confesso, é um pouco doloroso até pra mim, ver você desesperado por causa de Dean Winchester. Seria até fofo ver você salvar ele... Pena que é impossível.
Mordi o lábio com tanta força que senti o gosto de sangue. O joguei contra a parede e saí apressadamente daquela sala. Segurei pela gola da camisa o primeiro anjo que cruzou meu caminho e com a minha espada angelical, o ameacei, forçando-o a me teletransportar para a Terra, já que eu não tinha poder suficiente para isso. Chegando à Terra, o tal anjo desapareceu imediatamente me deixando em um prédio abandonado. Roubei um carro e dirigi desesperadamente para chegar o mais rápido até o Bunker, onde provavelmente Dean estaria com Sam. Estaria tudo bem. Eles estariam pesquisando sobre alguma coisa e nada estaria fora do comum. É.
Eu tentava me convencer de que tudo estava bem e Metatron estava apenas zoando com a minha cara, mas foi difícil tentar acreditar que tudo estava bem quando vozes de outros anjos surgiam em minha mente.
"Ele se foi, Castiel, e dessa vez é pra sempre!"
"Adeus, Dean Winchester, você foi tarde."
Apertava minhas mãos no volante a cada frase. Minhas mãos já deviam estar vermelhas — tanto quanto o meu rosto também deveria estar de raiva —, meu olhos cerrados, enquanto tentava me controlar. Eu não poderia dar ouvido a esses desgraçados. Isso não podia ser verdade.
"Vai buscar ele no inferno de novo, pequeno Castiel?"
"Vai deixar outra marca nesse seu querido macaco?"
"Perdeu seu bichinho de estimação?"
Vozes conhecidas dessa vez. Zacarias e Uriel... Eu devo estar enlouquecendo, eles se foram há tempos. Respirei fundo, e pensei em coisas boas: Dean comendo torta, bebendo, sorrindo... Todos os pensamentos bons que surgiam — a fim de ocupar minha mente com algo para me distrair e ofuscar as vozes — eram sobre o Dean. Cada vez que ele se deliciava comendo torta, ou quando sua boca tomava forma de um bico para beber a cerveja direto da garrafa. Também quando ele dava aquele sorriso sacana e uma piscadela. Ou então quando ele lambia os lábios... Deus! Ele não pode ter morrido.
Pensar em Dean me distraiu um pouco, mas as vozes voltavam a me perturbar.
"Você se virou contra nós, Castiel."
"Você deixou um humano te comandar. Isso é livre arbítrio?"
"Valeu a pena você descobrir o que é sentir as emoções humanas, pra sentir o sofrimento? A dor da perda? A angústia?"
Valeu, é claro que valeu. Por mais que muita gente diga o contrário, Dean nunca me controlou. Ele abriu meus olhos para que eu pudesse enxergar o mundo como ele realmente é. Ok, às vezes eu, mesmo com alguma dúvida, o seguia, apoiava ele. Mas isso não é "manipulação", isso é "confiança". Eu confiei cegamente no Dean, e anjo nenhum pode me questionar sobre nada, afinal, nenhum deles pensa por si próprio. Portanto, sim, valeu. Os momentos de dor e sofrimento não são maiores do que os momentos bons que passei com Dean, e eu não os trocaria por nada. Eu faria tudo exatamente da mesma forma como aconteceu. Aliás, não... Eu mudaria apenas uma coisa: eu contaria o como me sinto sobre ele... Sobre nós.
Já faz um tempo que percebi que era inevitável negar; eu o amava. Talvez ele não reagisse bem ao saber que o amava desse jeito, mas, como eu disse... "Talvez". Viver nessa incerteza é a pior coisa, e eu me arrependo de não ter me aberto com ele enquanto tive tempo.
Mas espera, eu ainda tenho tempo. Dean não morreu. Não acredito sem ver. Não, ele não morreu. As vozes voltaram, e dessa vez, mais cruéis do que nunca.
"Você falhou, Castiel, você não protegeu meu filho", a voz de Mary soava decepcionada.
"Oh, irmão... Como você pôde ficar longe dele? Ele morreu e a culpa é sua", Gabriel lamentava.
"Você é um péssimo anjo. Você é um péssimo amigo. Você é péssimo. Você me deixou morrer, sem nem ao menos desabafar comigo. Agora eu estou no inferno por toda a eternidade, e sabe o que é pior? O pior é a sua vida. Você vai viver sozinho para sempre. Sem seus irmãos, sem um humano para proteger, sem amigos, sem ninguém. Sabe por quê? Porque você é um fracasso, você é uma vergonha!" a voz exaltada de Dean Winchester ecoava por minha cabeça.
Minha cabeça girava, eu estava surtando. Freei o carro e encostei a cabeça no volante, lutando contra a vontade de chorar compulsivamente como uma criança.
Por que isso está acontecendo? Por que todo esse tormento?
— Isso se chama culpa, Castiel. E isso é só o começo do que vem pela frente... Ainda tem muito pra piorar.
Para meu espanto, Dean apareceu em frente ao carro. Ótimo, era só o que faltava... Além de ouvir vozes, agora vejo coisas também? Cerrei os olhos e olhei atentamente o loiro que estava me fitando. Mas ele não era o Dean... Ou pelo menos, não o mesmo Dean. Havia algo diferente nele, algo obscuro. Não só pela sua aparência — sujo e coberto de sangue —, mas realmente havia algo diferente nele. Saí do carro e me aproximei dele. Observei-o com atenção e percebi o que havia de errado. Seu olhar estava diferente, não tinha o brilho de sempre, estava distante, vago... Morto.
Num instante, Dean desapareceu e eu voltei para o carro. Eu já quase não tinha mais esperanças que Dean pudesse estar vivo e foi impossível afastar o sentimento de culpa que se alastrava dentro de mim. A culpa me corroía, parecia que eu estava morrendo aos poucos. Eu era seu protetor, eu me sentia responsável pela sua segurança. Nós passamos por tanta coisa juntos... Ele sempre esteve "ali" por mim. Na época do purgatório, na época dos leviatãs, a guerra no céu... Dean sempre me ajudou tanto, e agora que ele tanto precisava de mim, eu não estive lá por ele. Talvez eu seja realmente um péssimo amigo e um péssimo anjo.
Cheguei ao Bunker, saí de dentro do carro tão depressa que poderia ter atravessado a porta do veículo. A cada passo que dava, sentia como se meu coração estivesse crescendo no peito, tornando minha respiração cada vez mais pesada e dificultosa. Estava com medo. A porta do Bunker estava entreaberta, o que claramente era sinal de que algo estava errado. Entrei desesperado, e meu coração — que parecia acelerar e crescer a cada momento — parou. Ver aquela cena me causou uma dor tão pungente. Eu quis a morte.
Dean estava deitado na cama. Machucado, ensanguentado, e sem respirar. Ele realmente havia morrido. Sam estava no canto da quarto, sentado com a cabeça abaixada, chorando baixinho.
Meu coração poderia ser comparado a um balão, um balão que se enchia, enchia — de desespero, medo e angústia —, até estourar e eu não aguentar mais viver.
Fiquei tonto, estava sem chão. Milhares de pensamentos invadiam a minha mente, mas eu não conseguia me concentrar em nada. Não conseguia pensar em nada. Só conseguia ver aquela cena que me deixou desestruturado.
Sufocado, caminhei lentamente até onde o corpo do Dean estava caído. Próximo a ele, minhas pernas — já bambas —, não me aguentariam por muito mais tempo. Sentei-me ao seu lado. Sam me olhou, mas continuou em silêncio. Não havia nada a ser dito. Aquele era o fim. O fim de Dean, Sam e eu. As lágrimas frias que escorriam dos meus olhos, caíam na pele suja do Winchester. Segurei seu rosto em minhas mãos e encostei minha testa a sua. Rezei diversas vezes para que ele voltasse. Ele não poderia morrer. Ele já voltou outras vezes, até eu já havia voltado.
Apesar da minha esperança em encontrar Dean vivo já quase não existir, ver ele morto de fato é muito pior. E o que me deixa pior ainda, é saber que eu não estava ao lado dele quando tudo aconteceu. Eu poderia ter evitado, ou ao menos tentado, mas não...
Agora ele se foi e é tudo culpa minha. Não aguentarei viver o resto dos meus dias sem ele, ele era tudo o que eu tinha. Eu não vou aguentar viver carregando essa culpa dentro de mim. Não vou suportar me lembrar dessa cena durante todos os dias, porque com certeza não é algo que esquecerei. Vou deixar de "viver" para "sobreviver", sobreviver a essa tortura psicológica que será passar o resto dos dias com essa angústia me dominando. Com o desespero, o ódio... O sentimento de incapacidade, a sensação do fracasso... Não, isso é demais pra mim.
Puxei minha espada angelical e a segurei firmemente. Selei meus lábios brevemente com os do loiro e logo me afastei, posicionei minha espada em frente ao meu corpo. Não aguento viver sem ele. Não quero viver sem ele. Não vou viver sem ele.
— Castiel? Solte essa espada! — Sam gritou assustado.
— Desculpe Sam, mas eu não posso mais viver... Eu não consigo! — solucei. — Quem sabe eu o encontre e dessa vez não o deixarei sozinho nunca.
De uma só vez, afundei-a em mim com toda a força e velocidade possível, fazendo-a perfurar meu peito, atravessando até minhas costas. Enquanto caía ao chão, proferi minha última palavra:
— Adeus.
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