Ele III: Com Ele
79 Com Ele: amor e confiança
Notas iniciais
—Acho que aqui está bom. — Damon me olhou trêmulo, enquanto tenta me deixar parada contra as ondas.
—Vamos entrar um pouco mais. — Ele nega com a cabeça.
—Não sei nadar, Elena. — Eu bufo. — Quero proteger você, e só posso fazer isso se for capaz de me manter a salvo, pra começar.
—Você me disse isso uma vez, mas não botei fé.
—Bem, é um erro. Um pouco de confiança vai bem num casamento. Não tenho por que inventar isto. Não sei nadar.
Respiro frustrada e vencida.
—Bem, ao menos eu posso me gabar que você está fazendo um belo sacrifício ao manter a água na cintura. — Ele percebe minha ironia e aperta minha cintura, me colando mais contra seu peito.
—Você gosta de me provocar, não? — Apenas assinto e ele estreita os olhos, empinando o nariz e depois me dando um beijo delicado, é neste momento que uma onda revolta nos atinge, me fazendo sorrir e Damon tossir a água salgada pra fora de sua boca.
—Acho que o mar é quem gosta de te provocar. — Sorrio.
—Bem, ele não sabe com quem está se metendo...
—Não mesmo. — sorrimos e ele me beija novamente.
Eu sinto meu coração aquecer. Ficamos um bom tempo juntos, trocando carícias e beijos enquanto nos banhamos no mar. Estou me sentindo plena e muito feliz. Eu nunca pensei que seria possível esquecer todos nossos problemas e preocupações, mas agora, aqui, nos braços dele, tudo se tornou tão pequeno. Ser feliz e lutar por isso torna tudo pequeno.
—Vamos entrar? Está começando a ficar frio. — Sorrio.
—Damon, estamos no meio de uma manhã.
—Você está aqui há muito tempo, Elena. Já chega de sol por agora.
Assinto, pois sei que ele tem razão. E a verdade é que adoro ver como ele cuida de mim, e se preocupa comigo. Conosco, na verdade.
Me solto de seu abraço protetor em um momento de deslize dele, e começo a correr pra beira-mar.
—Elena! — Me volto por um momento, o suficiente para vê-lo começar a me perseguir e eu me empenho para ir mais rápido. Lutando contra a água. — Para com isso, Elena, você pode se machucar.
Como eu ouço a voz dele mais próxima de mim, nem tento olhar pra trás, só coloco mais esforço e não demora pra sentir seus braços rodearem minha cintura, me puxando com um misto de força e cuidado.
—Você é impossível! — Ele grita-sorri, me abraçando e me dando um beijo esmagado nos lábios.
—Eu te amo. — Falo e ele me encara sério por uns segundos e depois sorri, suave e lindo.
—Eu te amo. — diz e me beija novamente. — Vamos tomar um banho e comer.
—Ai, eu estou adorando este seu itinerário de viagem. — Damon sorri e, ainda abraçado comigo, me guia para fora da água e caminha assim, abraçado comigo, até chegarmos a casa.
Depois de um banho divino e relaxado, estamos desfrutando de uma comida maravilhosa. Damon não deixou passar nenhum detalhe e descreveu muito bem a cozinheira tudo o que está em nossa dieta. E está tudo maravilhoso e saudável.
Quando me dou conta ele está me olhando, escondendo um sorriso por trás das mãos. Seu olhar é penetrante e sexy demais.
—O que foi? — Ele sorri ainda mais com minha pergunta.
—Você parece faminta. — A voz dele sai com tanta malícia que eu, instintivamente, olho pros lados e tento notar se não tem mais ninguém vendo a maneira fatal com que ele está flertando comigo. — Engulo em seco quando ele, me encarando, se inclina e pega um aspargo de meu prato e começa a mordiscar, passando a língua de uma forma que... Uau! Perdi o resto de meu apetite, ao menos pela comida. — Terminou? — Ele provoca sorrindo.
—Vamos pro quarto. — Ele ergue as sobrancelhas.
—Agora, esposa?
— Agora! — Dou a volta na mesa e agarro sua mão. Ele sorri levantando. — Agorinha!
Puxo Damon até o quarto, quando passo pela porta, ele me surpreende me puxando contra si e fechando-a atrás de nós, ele me gira, e vamos caminhando sem rumo pelo quarto a beijos.
—Elena, — ele começa — eu quero que essa viagem... que a gente possa viver... sem medo. Quero que me deixe.... amar você, como nunca. — Ele falava entre beijos. — Vamos esquecer todo o resto.
—Não tem resto agora, amor. Eu estou aqui e toda sua. — Falo segurando seu rosto.
Ele desce comigo contra o sofá que estava atrás de nós e começamos a nos perder um no outro. O ajudo a tirar sua roupa e ele faz o mesmo comigo para depois me erguer e me deitar na cama. Lá nós ficamos como um só. Mesma respiração, mesmos suspiros e gemidos. Desfrutando juntos de um sentimento que não achei ser capaz de aumentar. Mas todas as vezes que estou com Damon tudo é mais intenso. Tudo se renova e me deixa mais certa de que não há nada que eu queira mais, não há mais ninguém que eu ame mais.
Quando eu estou nos braços dele sinto que todo o meu mundo está em minhas mãos. Ele é minha vida.
Quando eu abri meus olhos, o quarto estava escuro, Damon não estava comigo, então, ainda atordoada, eu comecei a caminhar pela casa para achá-lo e vi uma luz bem familiar vinda da imensa varanda. Damon estava no computador. E eu achando mesmo que ele seria capaz de se afastar de tudo por tanto tempo.
Eu caminho devagar tentando não interromper e também querendo dar um susto nele. Mal sabia que o susto, ou bem melhor, a queda, era eu quem iria levar.
—Eu fico feliz que esteja dando certo. — Eu reconheço a voz e paro um pouco, hesitando para ouvir melhor. Sempre adorei as conversas de Damon com Alaric, elas revelam muito.
—Sim, foi bom vir com ela aqui. Tenho ficado com a mente mais limpa e me lembrei de mais algumas coisas.
—Fico feliz. Quando você vai voltar?
—Bem, eu quero marcar uma outra consulta com Máximus em breve. Preciso saber o que mais preciso lembrar. Ainda é difícil ver ela como minha esposa. Ainda estou confuso sobre nossa relação. Eu não confio totalmente nela, Ric. Isso não é bom.
—Eu entendo você. É complicado. Você pode me ligar a qualquer hora, sempre que tiver alguma dúvida, isso não muda.
—Sim, mas eu preciso de mais do que alguém me dizendo por que eu amo Elena, ou por que casei com ela. Eu preciso sentir dentro de mim todas as certezas necessárias. Eu lembro de coisas de nossa vida, mas não achei a razão de estar junto com ela, de aceitar tudo o que aceitei, de perdoar tudo o que perdoei. Ela é ótima, eu me sinto bem perto dela, me pergunto muitas vezes como posso merecê-la, mas tem um vazio Ric. É ruim. Eu vou sempre viver duvidando dela. Se ela me ama, ou ama meu dinheiro. Coisas que parecem estúpidas depois de tudo, mas não posso evitar.
—Eu quase sinto sua angústia.
—Eu estou angustiado. Fico revivendo imagens dela com outros homens. Há tantos ainda presentes em nossa vida. O ex, Elijah, o Tony.
—Damon, pelo amor de Deus!
—Eu não consigo evitar, eu sinto que vou morrer se não descobrir tudo. Eu quero perguntar tudo a ela, mas não sei como tocar no assunto sem que ela suspeite de tudo. Ric, Elena não pode saber de nada. Agora eu sei disso e concordo com você.
—Na verdade você está concordando consigo mesmo, pois a decisão de protegê-la foi sua.
—Elena não pode desconfiar que eu não lembro dela. Pelo menos não agora. Não serviria de nada, pois já estou lembrando, só preciso de mais tempo e essa amnésia nunca apareceu, e ela jamais suspeitará que um dia surgiu.
Meu corpo já estava tremendo, eu vacilei e tombei em algo, que derrubou sei lá o que. Então, Damon saltou da cadeira e fechou o notebook rápido, antes de se voltar na minha direção. Ele saiu da varanda, passando pelas cortinas e me encarou na sala, ele acendeu a luz do abajur próximo e ergueu as mãos, já em sinal de apelo.
Eu só ouvia minha respiração e um zunir no ouvido. Minha face queimava.
—Elena...
Eu acenei para ele não falar, não se aproximar, não me tocar. Como ele esperava que eu processasse tudo aquilo?
Eu me afastei até sentar no sofá mais próximo. Por instinto segurei meu ventre e tentei normalizar minha respiração. Damon ficou longe, me olhando em silêncio, me observando. E eu agradeci que ele não tenha continuado a tentar falar seja lá o que fosse.
Meu corpo estava um turbilhão, coração palpitando, tremores, respiração ofegante, choro querendo irromper. Eu estava um caos. Gemi.
—Meu amor...
—Não me chama assim! — meu grito foi tão alto, tão violento, que Damon paralisou, com os olhos arregalado, eu só conseguia ver medo neles, mas não estava nem aí. — Como você pode? — comecei a chorar. — Como pode, Damon?
—Elena... — ele tenta vir pra cima de mim novamente e me afundo ainda mais contra o sofá, segurando minha barriga e erguendo uma mão na direção dele.
—Não! Fique longe de mim!
Ele obedece, mas começa a falar.
—Fica calma e me deixa te contar tudo. Eu prometo que posso explicar tudo.
—Eu já ouvi tudo o que eu nunca deveria saber. O que seria muito melhor se eu nunca soubesse, Damon. Eu só não posso acreditar que você, depois de tudo, ainda não consiga acreditar em mim. Em que universo outra pessoa seria mais adequada para tirar todas as dúvidas que você contou ao Ric que não eu?
Ele abriu a boca pra falar, mas eu não deixei.
—Claro, no universo onde meu marido, o homem que eu amo nunca vai conseguir acreditar no meu amor, nem que o merece, e pior, nunca vai confiar em mim!
Ele acena em negativa e dá outro passo em minha direção, parando depois, antes que eu possa acenar que faça.
—Não, Elena, não se trata disto. Tecnicamente eu já superei tudo isso, eu só preciso lembrar...
—Para! — grito novamente. — Eu não quero ouvir você. — Estou com tanta raiva de não conseguir falar isso sem chorar. Malditos hormônios. — Eu já ouvi demais. — Tento parar o choro e respiro fundo. -Quero que me diga só uma coisa, Damon. — ele fica alerta, e tensiona todo o corpo. — Quando você gritou comigo naquele hospital, me pedindo pra não te chamar de amor, o que você lembrava sobre mim? — ele fecha os olhos, e parece sentir muita dor. — Fala! — grito novamente, mais choro surgindo descontrolado — Não me faça te odiar. Fala!
—Que eu estava tentando voltar pra casa e ver a apresentação da Sofia, mas você não estava conseguindo voo.
—Ai, meu Deus! — me sinto tonta. Desta vez Damon não hesita mais e vem até mim, segura meus ombros. — Não me toca! — grito, tirando suas mãos. — Não me toca! — ele ergue as mãos, o olhar suplicante. — Meu deus, Damon. Por que você fez isso?
—Era o melhor, Elena.
—Pra quem, droga? — grito.
—Pra você! — ele grita.
—Isso parece bom pra mim agora? — ele acena desesperado que não.
—Elena, eu... Você não devia ter ouvido isso.
—Agora é culpa minha? Agora vai me culpar, sério?
—Não. Deus! Estou dizendo que não devia ter acontecido, mas aconteceu, e agora você precisa me ouvir, com calma, por favor.
—Eu não quero. — Falo me levantando num movimento brusco e ele me segue, tentando me segurar e hesitando por saber que não quero. — Quero que me leve pra casa. Agora! — Dou as costas pra ele.
—Elena, não...
Então eu paro, e faço ele parar também. Uma ideia percorre todo meu ser e me faz tremer ao me voltar pra ele devagar, espasmando pelo choro.
—Quem mais sabe que você está assim? Sem memória?
—Apenas o Alaric, eu juro. — ele fala rápido.
—Sofia? — ele nega — Minha mãe? — nega outra vez. — Hayley? — ele bufa e nega de novo.
—Alaric.
—É parece que vou ter que confiar em você. — digo com todo o rancor que consigo e ele parece sentir dor outra vez. Maravilha! — Me leva pra casa, agora!
—Elena... — é uma súplica.
—Me leva pra casa agora eu não quero ficar aqui com você nem mais um minuto. Quando chegarmos em casa eu vou para casa de minha mãe. — Ele nega com a cabeça e me segura.
—Elena você tem que me ouvir.
—Me solta, Damon! — brigo em seus braços. — Tudo que sai da sua boca são mentiras. Você estava mentindo hoje cedo quando disse que me amava e está mentindo agora ao dizer que vai me contar a verdade.
—Não! Não Elena, não começa a interpretar tudo errado, eu amo você. — Bufo me soltando dele finalmente.
—Claro que sim. Como você quer que eu interprete o que eu ouvi, me esclarece! Eu acabei de ouvir de sua boca que você não consegue confiar em mim. Que está cheio de dúvidas, até de ciúmes.
—Por favor, você tem que se acalmar.
—Você disse isso, não estou tendo um surto gestacional, eu ouvi Damon. Você não confia em mim! Como isso pode funcionar? Como você acha que funciona depois de me esconder algo tão sério como uma amnésia?
—Eu posso não ter me expressado bem, mas Elena, eu amo você. Só precisamos encontrar uma solução pra isso.
—Agora você quer solucionar tudo junto comigo?
—Elena eu só estava desabafando com Ric minhas inquietudes.
—Suas inquietudes? Quanto a mim, a esposa de que não se lembra? A mulher que não sabe se é uma interesseira ou se te trai ou não? Como você conseguia me olhar e dizer que me ama sentindo tudo isso dentro de você? Como você é falso, Damon.
Eu começo a voltar para o quarto, ele me segue.
—Elena, por favor. Nós podemos solucionar tudo isso.
—Não quero fazer você perder tempo, acho que você lembra de que isso pra você é um crime.
—Não, amor, por favor.
—Eu já pedi pra você não me chamar assim. — abro a porta do quarto quase a derrubando do outro lado.
—Não posso chamar de outra forma, eu sinto que é verdade. — diz me seguindo para dentro.
—Sente, mas não tem certeza.
—Elena...
—Para! Para com tudo isso me leva embora daqui de uma vez. — Eu sento na cama, e afundo minha cabeça entre minhas mãos.
—Elena eu amo você, por favor meu amor. — Ele se abaixa e segura meus braços, puxando minhas mãos, suas mãos estão tão quentes e firmes. Meu corpo sempre reage quando ele me toca.
—Eu não acredito em você. Como se atreve a falar em amor neste momento? Quando tudo o que você demonstrou é que não confia em mim. Duvida de mim, de meu amor, de nossa relação, de tudo. — começo a tentar me soltar, mas ele não permite.
—Se você não quer escutar que eu te amo eu vou demonstrar então. — Ele diz a avança contra mim me deitando na cama e me cobrindo para um beijo, desesperado e voraz. Eu me entrego, cansada demais, e aceito a carícia de seus lábios exigentes contra os meus, mas o afasto assim que consigo a força necessária.
—Assim você vai demonstrar? Me beijando a força como um macho alfa. Te passas, Damon. — o empurro e ele me deixa levantar, mas me segue e estamos cara a cara de pé.
—E como você quer que eu demonstre que te amo se você não quer me escutar? Eu não quero te perder, Elena. — ele está alterado também, gritando.
—Você não entendeu. Não quero e nem preciso que você me demonstre nada.
—Elena, estávamos passando uns dias lindos e você não pode tomar uma decisão assim.
—Claro que posso, Damon. Sabe, agente tem que se afastar das pessoas que nos fazem mal e isso é o que vou fazer contigo.
—Elena, por favor, — ele segura meu rosto, mas afasto suas mãos, — a única certeza dentro de mim é que não posso seguir minha vida sem você.
—A única coisa que eu sempre fiz foi te apoiar, te amar, tentar estar ao seu lado mesmo quando você não queria que eu estivesse, e mesmo assim não fui digna de confiança. Não quero escutar mais nada. Eu tentei te fazer feliz.
—Elena...
—Tentei mesmo. Como eu tentei. O pior foi ter que brigar com você pra conseguir isto, mas mesmo assim o fiz. Não adiantou nada.
—Não pode tomar esta decisão assim. Elena...
—Quando voltarmos vou pedir o divórcio. — ele ficou branco, branco demais.
—Elena...
—Não! Sai daqui, me deixa terminar de arrumar tudo.
—Elena, vamos conversar. Podemos ser felizes, meu amor.
—Não me faça promessas que não pode cumprir, Damon. Você tem que se libertar destas suas dúvidas e poder seguir com sua vida, mas saiba que não vou estar por perto de você pra isso, vou cumprir sua vontade.
—Escuta, Elena, — ele vem novamente, se aproxima, mas não tenta me tocar — você está nervosa, está ferida, eu entendo. Vou levar você embora se é o que você quer, mas não posso fazer isso agora. Estamos ilhados. Você vai se acalmar, vai deitar nesta cama e vai descansar. Eu vou sair, dormir em outro lugar, não vou chegar perto de você, eu nem falo com você se não quiser, mas, por favor, fica calma.
Eu sei que ele tem razão, meu corpo treme de desespero. É uma luta interna entre se jogar em seus braços e o encher de bofetadas.
Me jogo de volta na cama, sentando, tentando me recompor.
—Está bem. — Ele respira aliviado. — Agora sai daqui.
—Vou pedir para trazerem algo pra você.
—Não quero nada.
—Água, ou um chá.
—Não quero nada! — grito.
—Isso não cabe discussão, pense em nosso filho.
A frase me faz vibrar novamente. Nosso filho, como vamos ficar agora? Acho que Damon percebeu no que pensei.
—Como vê, precisamos falar com calma, em casa, ou aqui, não importa. Não pode decidir nada agora, am... Elena.
—Só sai daqui, por favor. — ele assenti e caminha devagar pra saída, e eu afundo nos travesseiros, não o olho mais, e quando escuto o click da porta, apenas me permito chorar, chorar como nunca antes.
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