Notas iniciais
Heeey... Vocês leram as lista gigante de notas no disclaimer, não é? Ok, então, tudo bem. Espero que gostem e, se gostarem, deixem seu comentário! :3

Você conhece a morte. Você olhou a morte nos olhos mais de uma vez. Sua mãe, nova demais e boa demais para merecer algo assim; seu pai, que você mais do que quis que tivesse esse fim bem antes; o cara que implorou pela vida quando você meteu o cano da arma entre os olhos dele. Você conhece a morte tão bem quanto a palma de sua mão. Porque ela está sempre ao seu lado. Você se acostumou com a morte do mesmo jeito que se acostumou com a garrafa de whiskey na mesa da cozinha. A morte costuma assustar os outros. No seu caso, o que te assusta é a vida.

Pratos sujos, roupas largadas pelo chão, o cheiro de bolor que viaja do lixo e adentra suas narinas. É óbvio que quem mora (ou morava) ali é descuidado. No entanto, a bagunça em que aquele cara se meteu vai além de uma louça esquecida e envolve mais sangue do que Ethan está acostumado.

Ele apaga as luzes pela última vez. Pisca. A escuridão repentina o atordoa por um instante. O dono da casa nunca foi do tipo que saía muito e, no lado de fora, não há nada que chame atenção. Quando os vizinhos perceberem que Jimmy Rogers desapareceu, ninguém saberá exatamente quando, e os responsáveis já estariam bem longe dali. Porque a bagunça tinha a ver com o irmão de Ethan e Logan já tinha fugido antes do sol se por.

Em casa, o relógio de cabeceira marca 2h17. Tira as roupas antes de entrar embaixo das cobertas, mesmo que não houvesse cheiro nenhum nelas e sabendo que Riley dirá que ele está fedendo de qualquer maneira; ele está encolhido na cama, respirando suavemente. Ethan acaricia os cabelos dele e observa o peito nu subir e descer lentamente. Ele cheira à sabonete barato.

Passam-se algumas horas até Ethan cair no sono. Ele sempre tem medo de fechar os olhos, medo de que, se fechá-los, Riley não vai estar mais lá quando abri-los novamente. Certa vez, em um de seus pesadelos — aquele sem sangue, armas, ou morte — tudo o que ele vê é o outro indo embora, desaparecendo enquanto os dedos de Ethan tentam alcançá-lo.

Ele sempre espera o momento em que isso se torne realidade. Imagina os lábios de Riley se movendo com desculpas esfarrapadas. Ele engoliria em seco e deixaria o garoto ir. Riley sempre mereceu coisa melhor. Mas as semanas se tornam meses e os meses passam sem que Riley faça qualquer menção a ir embora. E isso é bom, mas assustador também.

Quando acorda, Riley ainda está lá, sentado na cama, lendo um de seus livros sem graça com palavras demais. Ethan grunhe para atrair sua atenção. Riley sorri para ele, os olhos verdes brilhando.

— Você está cheirando a cadáver. — ele brinca.

Ethan tem uma coleção nada invejável de cicatrizes. Riley é a única pessoa, além de Sally, que conhece a história verdadeira de cada uma. Não os contos de fadas que ele era obrigado a contar aos adultos: “eu bati na porta”, “tropecei na escada”, “entrei em uma briga com o meu irmão”. Para os professores do segundo ano, Ethan era só um garoto muito desastrado. Riley, por outro lado, sabe a marca que um controle remoto deixa depois que acerta sua cabeça; conhece os círculos de cigarro que foram apagados em seu braço; ele sabe que as tatuagens possuem um objetivo além do artístico.

Às vezes, Ethan para na entrada da cozinha e observa o namorado. Riley tem aquele tipo de presença que ilumina qualquer ambiente onde entra. Às vezes, ele acha que só ele vê. Jamais admitiria isso em voz alta, é claro, porque seria muito gay e tal.

Riley está fumando na mesa do café da manhã e sopra a fumaça no rosto de Ethan quando ele senta-se ao seu lado. Sally, a cozinheira da vez, rouba o cigarro do cunhado e dá um trago. Ela serve um prato de ovos na frente de Ethan. “Bom dia, flor do dia”, ela sussurra no ouvido do irmão.

Ethan murmura uma resposta mal-humorada e dá uma garfada.

— Cinema com meus irmãos, mais tarde? — Riley pergunta. “Cinema”, nesse caso, significa um filme qualquer na televisão defeituosa deles, com os vários irmãos de Riley empilhados a sua volta.

— Claro. — Ethan diz e, quase sem pensar, entrelaça os dedos dos dois. Sally rola os olhos. Dessa vez, ele deixa passar, porque Riley ri e esse é o seu som favorito.

Alguma coisa sobre coisas que dão voltas. Coisas que você ama e que matam você. Ethan não entende o filme, mas quase entende a mensagem que ele passa. Em sua opinião, amar e destruir deveriam ser sinônimos.

Se Deus realmente existe, ele está no calor que a pele de Riley emana, nos seus olhos cor de esmeralda que brilham mais do que pedras preciosas, no tom rouco de sua voz que manda calafrios pela sua espinha toda vez que ele abre a boca, nos seus lábios contra os dele, nos seus lábios, nos seus lábios...

— Eu não estou acostumado com pessoas que ficam. — Ethan confessa certa noite. Os dedos dos dois estão entrelaçados, os corpos nus e suados tão perto quanto era fisicamente possível. Riley levanta os olhos para Ethan. — Durante todos esses anos... É quase como se a morte me seguisse por aí. — Ele ri um riso duro.

Ele se pergunta se Riley consegue ver, consegue enxergar o medo que Ethan tem — que ele sempre teve — de ser abandonado, um temor que ele esconde naquilo que não foi dito, por trás de seus olhos cheios de experiência, cheios de coisas que não deveriam ser vistas, escondido fundo, tão fundo que quase o afoga.

— Você não vai se livrar de mim. — Riley sussurra e, no meio da noite, com as palavras viajando entre a respiração dos dois, é a promessa mais importante que poderia ser feita.

Notas finais
(Quem quiser, leia "She Tastes Like Nicotine" também. É só ir no meu perfil ;D)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!