Ele
1 Stained glass windows in my mind
Notas iniciais
A noite começa a esfriar na medida que as horas vão passando e você observa, quieta, as teclas do seu computador brilharem como se estivessem te chamando. À exatas quatro horas atrás você saiu do quarto para fazer um chá preto, daqueles que de simples não tem nada, esperando que conseguisse escrever madrugada a dentro. O quão ingênua você era a quatro horas atrás, não é mesmo? Fazem mais de 1113 dias que você não consegue escrever uma linha sequer, mas ainda sim, pelo menos uma vez por mês, você faz questão de fazer seu chá, um vicio novo que você adquiriu nos últimos meses, e sentar na sua mesa, como se esperasse um milagre dos deuses acontecer, como se esperasse que a própria luz fraca da tela do computador, sua única companheira, te abençoasse naquela madrugada. Mas nunca acontece. É sempre a mesma coisa. Você, a mesa, o computador, e o chá amargo, já gelado.
Você suspira fundo e olha para a janela, imaginando que em cada um dos apartamentos que ainda estão acesos, tem pessoas que assim como você, trocam a noite pelo dia. Você meio que já se acostumou com o cinza e o clima inconstante da cidade. Mas são as noites que fazem você se sentir em casa. O escuro iluminado pela luz fraca da cidade, o quente do chá contra sua pele e a sensação de solidão sempre te acompanhou, e que em alguma medida, é até aconchegante.
Você passa as mãos pelos cabelos, como um claro sinal de rendição. O cansaço já se mostra na dor de cabeça, que começa a ficar cada vez mais insuportável. Como sempre é. Mais uma madrugada perdida, mais horas vendidas ao tempo que não te resta mais. O que te resta, no fim, é colocar a louça para lavar e deitar na cama para esperar a madrugada passar enquanto você observa as rachaduras do teto do seu quarto. Você coloca as mãos na mesa, e faz força para se levantar da cadeira, sentindo as pernas pela primeira vez em algumas horas. Leva mais que alguns segundos para você sentir que é seguro voltar a andar.
Você olha para a página do Evernote aberta, vazia, e agarra a caneca gelada de chá nas mãos, saindo sem se preocupar em fechar a janela ou a porta. O caminho do escritório até a cozinha não toma mais que 10 passos, e pela janela você observa a sacada do apartamento da frente, aquele que sempre está aceso, diferente do seu. Aquele que tem sempre um cor diferente vindo do que você imagina ser o quarto da pessoa. Nunca chegou a ver quem mora lá, mas como não há barulho que te atrapalhe, sua curiosidade continua escondida debaixo da coberta.
Você atravessa a pequena cozinha, e acaba se vendo na vazia sacada do seu apartamento. A lua se encontra escondida por debaixo das nuvens, e o vento frio corta a pele do seu rosto, mas mesmo assim você se apoia no parapeito do corrimão, sem coragem de olhar para baixo mais uma vez. No meio dos prédio e salas escuras, a luz azul suave que sai do janela da frente chega a ser reconfortante. A sacada desse lugar parece aconchegante, dois gatos dormem calmamente em meio a vários travesseiros, e vidros servem como janelas para provavelmente impedir que os felinos caiam do decimo quinto andar.
Mas o que realmente chama a sua atenção é algo completamente diferente. Algo pequeno. Algo esquecível. Algo que passaria direito por alguém diferente, mas não pra você. Não para a escritora dentro de ti gritando por uma maneira de se expressar. Um pequeno espelho, daqueles que não deveriam estar no parapeito da sacada, mas em uma mesa no quarto de alguém. Um espelho enferrujado, não parece ter mais que 15 centímetros de comprimento. Mas ele está virado para ti. E é esse momento que você perde controle dos próprios pés.
"E quando você viu ele se aproximar, já era muito tarde. Você deveria ter olhado melhor, prestado mais atenção na porta atrás de ti, deveria ter sido mais você. Mas agora ele já te olhava nos olhos, com um semblante curioso através do espelho. E a ameaça de se virar para trás bate contra seu peito, e a cada nova onda bate contra sua pele no desejo de não vê-lo mais ali. Cada respiração sua é uma prece diferente. Cada piscar é um desejo feito às estrelas. Cada centímetro do seu corpo grita para que não se mova. Aguarde.
Olhando firmemente nos olhos dele, as cores de seu quarto começam a se misturar em sua visão, e na medida em que as paredes derretem, as cores começam a sumir, o ambiente muda, se modifica, mas você continua a mesma pessoa ali. O mesmo corpo. As mesmas memórias. A mesma mão gelada apertando firmemente as mangas do seu cardigã bege novo. A mesma forma de tentar voltar à realidade. O mesmo triangulo prateado que você pressiona contra a palma da sua mão direita, como se a dor fosse te salvar naquele momento. Na frente daquele espelho, esperando não precisar dar o primeiro passo, ele te observa.
O medo te consome. Você não se reconhece mais olhando naquele espelho, mas ainda são os mesmos olhos, o mesmo fio de desespero refletindo na pupila enquanto você olha para ele atrás de ti. Você não se reconhece mais nos 1113 dias que te separam das palavras que preenchem suas notas, você não se reconhece mais no cheiro amadeirado e doce, que preenche a sala. Você não reconhece mais o corpo a sua frente, a cor da sua pele e de seu cabelo, as unhas que antes eram longas, agora quebradiças e curtas, as marcas que antes não existiam, mas agora te lembram daquilo que você se tornou. Nada faz sentido quando não existia antes de ser visto.
Sua garganta fecha, e você sente o remédio te sufocar. Ele falhou contigo, assim como todo o resto falhou. Ele foi prometido como um sonho americano, o diagnóstico como aquele que te faria companhia quando os sintomas dominassem as vozes da sua cabeça até o fim do vazio. Mas ele não deixou de estar lá. Ele não te abandonou. E hoje você entendeu por que, quando olhou para aquele espelho e ele te esperava atrás de ti. Seus olhos olhando firmes contra os seus. Ele sempre esteve lá. Escondido contigo.
Ele chega mais perto. É quase como uma premonição, você vê seu futuro na sua frente, mas ainda se recusa a se mexer mesmo sabendo do fim dessa história. Você vê o futuro atravez so espelho na sua frente, e ele se mantêm atrás de ti como se ele também quisesse ser passado. Mas ele não é. E ele então, em passos lentos e ritmados, se aproxima ainda mais te ti, e aos poucos, cobre a visão que você tinha de si mesma, entrando entre ti e o espelho a sua frente. E no reflexo dos olhos dele, você sente seu coração apertar contra o peito. Ele sente isso.
Ele te abraça. Ele te abraça forte, deitando a cabeça no seu ombro, e você sente os soluços misturados a lagrimas contra suas costas, o peito dele subindo e descendo contra sua pele. O desespero preenche a sala, e você finalmente deixa o ar sair de seus pulmões. Você conta os segundos entre cada uma das suas respirações, na medida em que ele te aperta cada vez mais, como se, se ele te soltasse, você fosse desaparecer em pleno ar. Ele te segura como se você fosse cair a qualquer instante. Talvez você vá. Talvez com ele, não mais.
E então você lembra. Lembra das últimas vez que o encontrou. Você estava nesse mesmo apartamento quando ele entrou pela porta da frente, e te abracou forte, te pegando no colo e girando como você sempre sonhou. Ele se afastou de ti, e olhando nos seus olhos, passou a mão pelo seu rosto, e perguntou como tinha sido seu dia. Você nem lembrava mais. O que importava era que ele estava ali. Alguém estava ali com você. Isso era tudo que importava. Você sabia que ele sempre entraria por aquela porta, bastava pedir.
Nesse dia, ele te levou para ao sofá, próximo da janela, e deitada no colo dele, tomando seu chá favorito, você finalmente pode respirar. O dia finalmente tinha acabado, e você ainda sentia o calor dos lábios dele contra sua testa quando ele te apertou forte e disse que tudo ficaria bem. Que logo isso tudo iria acabar. Ele mexeu no seu cabelo até você dormir, e ali você ficou. Ali era o seu lugar, seu conforto.
No dia seguinte, como todos os outros, ele não estava mais lá. E o dia se passou. E a noite, ele voltou. Sempre igual. Sempre te abracando forte. Sempre te dizendo que logo tudo iria passar. Hoje você entende. Ele sempre soube. Ele estava tentando apenas amenizar aquilo que te esperava no futuro. Era como os raios de sol, quentes na pele antes da tempestade. Por que ele sempre soube. As tuas feridas já não cicatrizam mais.
As memórias eram como armas. Nunca suas para empunhar, mas sempre contigo. Todo dia você tentava juntar os pedaços daquilo que um dia você foi, tentando fazer pontos naquilo que já tinha deixado de ser final. Por que você sempre se lembra. E a mais pura verdade é que a dor era o paraíso. Para você, era o paraíso.
Talvez seja isso. O tempo já não existe mais, e dentro daquele segundo, olhando nos olhos dele, você percebe que ja deixou de existir a muito tempo. Hoje ele te deixou ver seu verdadeiro eu. Não existe motivo para continuar, você não pode mais pular os parágrafos de descrição e ir para os diálogos interessantes quando quer. A vida é lenta demais. Suas mãos são lentas demais para tudo que vem na cabeça, os pensamentos rápidos demais. Tudo demais. Demais para perde-los
Você desvia os olhos, e sentindo os labios dele contra sua testa, olha para suas mãos, onde um filete de sangue sai do anelar. O anel havia te cortado, mas você percebe que é muito mais profundo. É mais do que um simples corte de papel. O choque da dor chega ao seu cérebro atrasado, e você do começa a sentir o ardor segundos depois. Ele é muito maior do que antes. Sua mente ainda não processou a visão a sua frente. Sua mão está sendo tomada por uma cor vermelha escarlate, e você sente o grito subindo a garganta.
Ela estava dentro de ti, sempre esteve, e você sempre soube, mas o conforto que ele te trazia naquelas noites em que você não conseguia dormir era tão grande que você decidiu ignorar. Até aquele dia. Naquele dia, enquanto te abracada forte, a morte sorriu tristemente para ti."
Você só percebe o que acabou de acontecer quando o celular ao lado do seu computador acende, mostrado 6 e 30 da manhã, e você percebe suas bochechas estranhas, com algumas lagrimas ainda a secar e outras que já secaram a pelo menos 2 horas. Você, pela primeira vez em algumas horas, tira os olhos da tela do computador e percebendo finalmente as 2 mil novas palavras escritas no documento, sente o sol nascer na janela que você esqueceu de fechar no inicio da noite, o que machuca seus olhos acostumados com o escuro.
E enfim, você se levanta, e usa o resto da sua força para sair daquele escritório, torcendo para conseguir descansar depois daquilo tudo. Quando você passa pela sala, a mesma sala em que ele cuidou de ti antes de hoje, você vê. O destino te sorri, ele levanta levemente os olhos e te vendo, sorri, como se reconhecesse o mar nos olhos daqueles que dormem quando o sol nasce. E então, o vermelho termina de manchar o assoalho, e o mundo escurece outra vez.
Finalmente acabou.
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