Eldamälle
4 Capítulo 4 - Confronto
– Vamos, não me diga que ficou tímido agora. – incitou Go’nor.
Legolas observava a porta e batia novamente nela, começava a ter problemas para controlar a força empregada em seu punho fechado.
Naquele dia logo cedo, antes que saísse para tomar o café. Seu antigo professor o aconselhou a convidar sua noiva para ir tomar o café junto a ele.
Novamente lançou um olhar a Go’nor.
– Meus dedos já se esfolaram de tanto bater nessa porta. Ela não está.
– Se ela não está aqui, onde poderia estar?
– Boa pergunta – Legolas disse, mas não havia ninguém a quem perguntar. Mas estranhou o fato dela já não estar em seus aposentos, o orvalho ainda permanecia nas folhas das plantas, e a luz do sol ainda era pálida e envergonhada e aos poucos ultrapassavam a montanha solitária.
Passavam em frentes as grandes janelas, Legolas pensativo e Go’nor que de alguma forma parecia se divertir com as reações do elfo.
– O que está acontecendo?
A voz de Go’nor fez o elfo louro parar e se virar para a janela. Ergueu uma sobrancelha com curiosidade e surpresa.
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– Ico! Elfia, mi iro namhaë? (Vamos elfo, isso é tudo o que você tem?) – Quem gritava aquelas palavras com voz de rompante era Idril. Os elfos andarilhos faziam um círculo em volta dos dois urravam e assobiavam em seu dialeto. Alguns elfos da floresta também assistiam o combate com interesse e surpresa.
Idril não usava um vestido, vestia-se como seus companheiros, calças de couro e uma túnica preta que cobria até seu pescoço. As mãos também estavam escondidas em luvas negras. Seu cabelo estava trançado e enrolado até formar um coque próximo a sua nuca. Seus olhos pareciam mais frios que nunca. Segurava uma espada qualquer que pegou com um de seus homens. Pequenas manchas de sangue se espalhavam por sua lâmina que escorria e pingava no chão formando possas.
Deu um passo em direção ao elfo com quem duelara antes, o conhecia desde criança, mas não se lembrava do nome. Possuía cabelo escuro e curto, e feições normais a um elfo. Apenas comum. Mas naquele dia enquanto se aproximava das tendas ouvira ele conversando com outro elfo sobre sua pessoa. Coisas que ela jamais perdoaria, seu coração era rancoroso e vingativo.
Ele arfava, sua mão estava ensaguentada, assim como suas vestes e seu rosto.
– Rineö mâennín...ime itnouÿ (Implore, e talvez eu lhe poupe).
– I eldamälle isso itnouÿ (Um elfo andarilho nunca implora)
O rosto do elfo se refletia na lâmina, apesar da postura destemida que tentava manter seus olhos o traíam, seus lábios pálidos e pressionados em uma linha rígida, a lâmina raspou em sua capa transferindo as manchas de sangue para o tecido, o metal frio tocou a pele do seu rosto fazendo um novo corte superficial. Com a ponta ergueu o queixo, a pele macia e pálida era pressionada contra a garganta.
Todos os que assistiam a luta ficaram calados, os elfos da floresta olhavam para cena com temor.
– Iff ill äah –
Legolas não sabia como reagir. Por um lado estava impressionada com as habilidades de Idril, ela era ágil e parecia graciosa, mas sentiu algo incômodo em suas expressões.
– Minha senhora. – disse quando mais ninguém parecia disposto a intervir.
– Meu senhor – respondeu com um gosto amargo na boca. Segurou o punho da espada com mais força durante um segundo enquanto se decidia o que fazer.
“Obediência.Lealdade. O seu sacrifício é o que nos fará prosperar, seja boa e não discuta” foram as ultimas palavras que ouvira de sua mãe. Obediência...
Mesmo que tenha dito apenas duas palavras Idril conseguiu distinguir o que elas escondiam. Fincou a espada no chão, sua lâmina dividida entre ela e sua vítima, apenas duas silhuetas fora de foco.
– Espero que tenha aprendido a lição. – se virou para Legolas. – Meu senhor.
– Pensei se me daria a graça de sua presença durante o café da manhã. – ignorou o olhar afiado, e os comentários de deboche vindo dos elfos.
– Claro meu senhor. – respondeu automaticamente.
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Go’nor andava atrás do casal, tentava lhes dar privacidade. As costas do príncipe estavam tensas sob o pálido e cinzento tecido da túnica que usava.
Essa tem temperamento difícil, mas tenho certeza que irá conseguir meu príncipe.
– Não sabia que manejava uma espada – tentou parecer casual.
– Não sabe muita coisa sobre mim, meu senhor. – respondeu mantendo o tom sereno.
– Fiquei impressionado, não é comum as elfas lutarem por aqui. – Novamente o rosto da ruiva que outrora fora apaixonado.
– Toda força é bem vinda, independente se é homem ...ou mulher. Minha aparência o desagrada?
A pergunta pegou Legolas de surpresa, não conseguia evitar encará-la vestida de negro e com os cabelos presos severamente. Preferia que usasse um vestido em uma cor alegre com tranças bem feitas e que adornassem o rosto de sua noite.
“Sim, pois parece que ando de braços dados com outro homem e não com uma mulher.” Foi um pensamento mesquinho, por que apesar das feições severas e sempre irritadiças possuía um belo rosto. Cílios longos e lábios bem desenhados, as maçãs do rosto rosadas após a luta que tivera.
– Acho exótica a forma com se vestem.
– Acho exótico meu senhor ser amigo de um anão.
Em sua voz havia aquela velha desconfiança entre elfos e anões.
– Tenho certeza que irá o achar digno de confiança e de sua amizade também.
– Veremos. – Idril disse empertigando-se, os olhos vidrados e estreitos em sua frente. Legolas tentou imaginar o que se passava pela mente daquela elfa tão diferente, e intrigante. Analisou seu perfil e notou que ela era muito bonita, chamaria a atenção, mas com toda certeza teria dado apenas um olhar para ela. Assim que a frieza de seus olhos e o hábito que tinha de nunca sorrir, o faria esquecer-se dela.
– Idril, Legolas. Fizeram um bom passeio? – Thranduil os saudou.
O casal o cumprimentou, Idril ficou feliz em ter uma desculpa para soltar seu braço do de Legolas, fez uma mesura e com o movimento uma mecha de cabelo próximo ao seu rosto se soltou.
– Sim, ada. – foi Legolas quem respondeu – Foi muito agradável assistir minha adorada noiva essa manhã.
Thranduil acenou com a cabeça sem saber que o filho se referia ao ver sua noiva lutar. Passou pelos dois dizendo algo sobre ter que se encontrar com Daeron, e que esperava que ele tivesse melhorado. Não suportaria ele relembrar mais uma história vergonhosa. E também algo sobre ter que acertá-lo com sua espada caso fizesse isso.
Legolas deixou escapar uma leve risada ao ver a reação de seu pai, sempre tão sério, era engraçado imaginar seu pai possuindo algum amigo, mas era isso que Daeron era para ele? Ou será que tudo o que se passava entre os dois elfos mais velhos tivesse o intuito comercial?
– O que o incomoda meu senhor?
Idril tentou retribuir, mas os cantos de seus lábios pareciam enrijecidos com o passar dos anos, tão duros quanto uma rocha. Mantinha a máscara a tanto tempo que a mesma em certos momentos não sabia como se portar em relação a emoções.
É um começo, pensou Legolas, que observava os grandes e redondos olhos azuis, tão vazios e secos que em alguns momentos se perguntava se ela poderia ter sentimentos.
Esse parecia ser um traço que pertence apenas as mulheres levando em consideração as atitudes de Daeron e seu filho.
Idril continuou a olhar Legolas fixamente esperando por resposta, ele parecia vagar e um leve franzir em uma de suas sobrancelhas demonstrava que pensamentos tortuosos e conflitantes se apossavam daquela mente por baixo dos fios loiros.
– Meu senhor – disse novamente.
– Nada me incomoda minha senhora.
– Com todo respeito meu senhor. Não sabe mentir.
Com essa última declaração, Idril fez uma mesura e se afastou de Legolas antes que ele percebesse ou conseguisse impedi-la.
*
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Andou apressada com uma postura rígida os olhos levemente estreitos. Alguns elfos que serviam o palácio cochichavam enquanto a futura princesa da Floresta das Trevas atravessava os salões e corredores. Comentavam sobre sua roupa incomum e escura. Preto é uma cor que nenhum elfo deveria usar. Era isso o que acreditavam, em seu dia a dia os elfos da floresta costumavam usar suas túnicas em uma grande gama de verdes. Idril deveria dar o braço a torcer, nunca imaginou que existisse tantos tons de verdes.
Já em seu quarto se permitiu jogar suas espadas sobre a cama, retirou a manta que cobria seus ombros com o brasão de sua família bordado, desfez a trança com certa violência, fazendo com que alguns fios ficassem presos entre seus dedos finos e pálidos.
– Já faz algum tempo que não a vejo tão desconcertada irmã.
Idril fechou os olhos com força por alguns segundos e praguejou apenas em sua mente. Se virou lentamente para ver seu irmão parado na entrada da varanda, as cortinas leves se moviam lentamente com a fraca brisa que fazia. Elros usava as vestes negras com o brasão de sua família o cabelo rebelde caía sobre seu rosto livremente. Estava inexpressivo, a máscara de alegria e companheirismo sempre caía quando não estava cercado pelo povo da floresta, ou pela realeza.
– Lutou muito bem essa manhã. – disse enquanto caminhava lentamente para dentro do quarto.
– Mas não veio aqui para me tecer elogios não é irmão.- respondeu afiada.
– Você foi imprudente poderia ter colocado tudo a perder. – Elros não elevava o tom, mas seus olhos pareciam adagas afiadas que se ficavam cada vez mais profundamente na pele de Idril.
– Ele me ofendeu! – exclamou com o punho fechado e os olhos fixos – Jamais permitiria que alguém espalhasse mentiras a meu respeito.
– E para isso você iria executá-lo na frente de todos aqueles silvan!
Elros nesse ponto ergueu sua mão pronta para estapeá-la, mas se segurou. Era apenas uma criança tola. Pensava ele.
– Eles não são como nós, eles não iriam compreender. Lembre-se...ou melhor, se esqueça de quem foi um dia. Você não pertence a nossa família, a cada minuto que a cerimônia se aproxima você pertence cada vez mais ao príncipe. Se comporte como nossa mãe tentou lhe ensinar um dia, guarde seus sentimentos para quando estiver sozinha. Não coloque tudo a perder.
Idril baixou a cabeça, todas aquelas palavras duras e frias perfuravam sua alma e infectava seu sangue, pensou em revidar com alguma resposta arrogante mas percebeu que se abrisse os lábios soltaria um soluço. Se desfez da capa e permitiu que ela caísse a seus pés, o broche tilintou contra o chão de mármore.
Deixe tudo para trás.
Seu cabelo parecia uma cortina de fios de ouro que cobriam sua costa e ultrapassavam sua cintura, fios ondulados e rebeldes que flutuavam conforme ela se moviam com a maior elegância e orgulho que conseguia. Seu rosto uma máscara de mármore perfeita. Abriu a porta dupla do banheiro e lançou um último olhar a seu irmão que continuou a olhar até que as portas se fecharam com um leve baque.
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". Desviou de um golpe curvando seu corpo para trás. Interceptou a espada que tentou acertar seu abdômen, sentiu um peso sobre suas costas, alguém tentava informá-lo com um fio de ferro. Bastou jogar seu corpo para trás de encontro a uma árvore diversas vezes que ele caiu inconsciente. Passou a mão pelo pescoço, imaginando se ficariam alguma marca. Abaixou-se quando o atacaram, a lâmina do inimigo ficou presa na árvore. Legolas o atingiu com o cabo da espada na nuca com força o suficiente para que caísse desacordado.
Não demorou muito e os invasores haviam fugido assustados por terem sido subjugados com tamanha facilidade. Filgor tinha um pequeno corte em seu rosto, logo abaixo do olho, Melgor tinha suas roupas machadas de sangue. Daeron havia conseguindo um olho roxo, o que o fez ficar irritado, o restante parecia bem, apenas arranhões superficiais.
Contaram os corpos.
– Três fugiram. – disse Legolas.
– Miffi e Käin, vão atrás deles – ordenou Daeron."
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