Ela&Ela

1 Fiz o que nunca imaginava


Notas iniciais
História inteiramente fictícia que se passa no Brasil. Espero que aproveitem.

É estranho como a vida é curiosa. Comecei a frequentar o colégio com meus seis anos (isso porque infelizmente peguei uma doença que me deixou no hospital durante um bom tempo), e desde o inicio percebi que não me dava bem com as crianças mais descoladas, que já exibiam desde cedo comportamentos maldosos e esnobes, sempre querendo ser o centro das atenções, seja zombando de alguém ou simplesmente causando confusão. A minha vida era um inferno, e sofri muito com isso. Os anos se passaram e finalmente entrei para um circulo social de amigas que não eram exatamente as mais populares. A puberdade chegou e me deu formas, e então percebi que estava atraindo a atenção dos garotos, que se mostravam mais gentis e legais. Mas, entretanto, portanto e todavia eu nunca me interessei por nenhum deles. E como não havia nenhuma popularidade para me proteger fui cercada de comentários sobre eu na verdade gostar de outras garotas. Sempre tentei ignorar e não me importar com esse tipo de coisa, até porque sempre achei que era mentira. Mas alguns anos se passaram e eu pensei que sempre seria a garota ignorada da qual todo mundo achava que era lésbica. E então eu o conheci. Um youtuber famoso e bonito. Era ninguém mais ninguém menos do que o Guilherme Morais do vlog FalandoSobreTudo. Primeiramente se aproximou sutilmente de mim e um belo dia me convidou para sair, e eu não tive escolha a não ser aceitar. Eu já estava meio que apaixonada.

E de repente todas as câmeras e comentários positivos me cercavam como eu jamais imaginava. Frequentava os melhores lugares da cidade, aqueles que só as pessoas mais ''tops'' vão. Mudei o meu circulo social instantaneamente. Abandonei minhas antigas amigas e até hoje ainda me sinto culpada por isso.

O problema era que eu e ele não éramos tão próximos assim. Não mesmo. Não que o Guilherme seja uma pessoa ruim, muito pelo contrário, mas faltava algo nele que eu não entendia. Fiquei receosa de que se terminasse com ele aquele conto de fadas iria acabar e eu iria ser apenas a rejeitada fechada e esquisita.

Pensei calmamente, respirei fundo, analisei a situação com calma e decidi larga-lo após aproximadamente um ano de namoro. Por sorte, consegui manter a minha popularidade.

Por incrível que apareça consegui fazer algumas amizades solidas entre as pessoas populares. Parei de ser fechada.

–Qual é a espécie daquele peixe ali?- Diz o menino de nariz melequento e olhos azuis.

Meu emprego irritante me despertou novamente do meu devaneio. Por que eu tinha de ser tão estúpida quando o assunto é escola? Minha mãe me decidiu me colocar nessa droga de zoológico e ter de aguentar as crianças que frequentemente vinham dentro de ônibus escolares. A irmã dela é dona da empresa ''PasseioEco'' e deu um jeito de me arranjar este belo emprego. Quem mandou tirar notas baixas?

Eu já tinha praticamente vinte anos e ainda estava no final do ensino médio. Sim. Você pode zombar de mim.

–Não sei. Acho que outro funcionário deve saber- Digo rudemente e me afasto. Ouço o som dos meus pés se arrastando contra as folhas que se movimentam com a força do vento. O clima está tão bom. Eu poderia estar em um daqueles locais que eu frequentava antigamente quando ainda podia desfrutar de muito dinheiro. E não. Eu não sinto falta do meu ex apesar de tudo. Posso ter feito muitas coisas erradas como dirigir bêbada várias vezes ou fumar cigarros e maconha escondido, mas ainda não cheguei ao ponto de usar uma pessoa. Não sou fria. Apenas problemática.

O menino não parece ter gostado da resposta, porque ele joga um pouco de água sobre minha blusa e sai correndo. Nada de mais. Observo os detalhes verdes estampados sobre um fundo branco que agora estava um pouco úmido. Percebo que a água estava com um pouco de lama e penso em lava-la quando chegar em casa, mas sinto preguiça ao lembrar que infelizmente a máquina de lavar estragou. Agora vou ter de lavar na mão. Que droga!

–Ei você!

Ao ouvir a voz desconhecida, penso em duas coisas: ou eu estou fodida e minha patroa vai reclamar sobre alguma merda que eu fiz, ou eu estou fodida por ter de aturar algum menino(a) melequento e chato.

Viro-me de lado e vejo que é a segunda opção. Relaxo os ombros demonstrando cansaço e pergunto:

–O que foi menino? Vai querer saber sobre algum animal também?

–Nada disso. Eu tenho uma mensagem para você. Tem alguém querendo te encontrar debaixo daquela ponte- E ele aponta para a ponte a alguns metros daqui.

O menino tinha por volta dos nove anos. Não sabia se deveria confiar nele ou não.

–Se for algum dos empregados idiotas fazendo graçinha...

Vou em passos largos e impacientes. A ponte se aproximava cada vez mais da minha visão. Quando cheguei até meu destino, observei alguém por trás de uma sombra. Logo percebi que era ele com seus olhos verdes, cabelo marrom claro e espesso e altura de 1,80 m.

–Oi- Digo para Guilherme. Não sabia como reagir.

–Oi Mia.

–Você pagou para aquele menino enviar uma mensagem para mim, não foi?

–Sim. E também paguei para o segurança me deixar entrar aqui, mas isso não importa. O que importa é que estou vendo você agora.

Quase tampei os ouvidos. Não queria ouvi-lo dizer as palavras. Guilherme se aproximou e apertou a minha mão.

–Mia. Eu não aguento mais. Nós precisamos voltar- Ele toca uma mexa de cabelo minha- Não sei o que fez agente se separar, mas eu estou disposto a ser uma melhor pessoa se você quiser. Só volte pra mim. Por favor. Eu te amo, tá?

Ele sempre foi um cara ousado e impaciente. Guilherme avança e toca meus lábios. Tento entender o que acabou de acontecer enquanto ouço o som da sua respiração e seus dedos entrelaçando meu cabelo comprido e marrom. Eu reagiria e diria alguma coisa, mas apenas faço o que uma menina estúpida e obediente faria.

–É claro que sim. Nós podemos voltar.

E no fim, a moçinha que não era tão moçinha assim sucumbiu a necessidade de grana e mais status, mesmo que não fosse mais tão necessário. Malditas necessidades carnais e humanas!

Pelo menos vou poder comprar uma máquina de lavar agora.

E foi assim que fiz o que nunca imaginava.