Ela não está assim tão interessada
4 Trocando o errado pelo certo
Notas iniciais
Enfiei a mão dentro do cesto de lixo revirando-o até recuperar o post-it. Assoprei esfregando-o contra minha blusa perante o olhar chocado e enojado das meninas.
– É muito porca mesmo. — Diana balançou a cabeça comentando enquanto seguiamos pelo corredor já não tão cheio.
– Então ela estava sem créditos no celular. — Bia debochou com a voz carregada de ironia.
– Sim. — Respondi ignorando a indireta que ela me lançava.
– E você acredita? — Continuou aparentemente motivada a me desanimar.
– O nome dela é Fernanda. — Comentei mordendo o lábio com um sorriso. — Eu nunca peguei uma Fernanda.
– É só isso que quer dela? — Carla se fez ouvir em alto e bom som claramente indignada.
– Ah, qual é?! — Diana abriu os braços entrando literalmente entre Carla e eu. — A garota acabou de sair de um relacionamento e está encantada com uma estranha que conheceu em um bar alguns dias depois. Espera que ela caia de cabeça num novo namoro? Seria totalmente precipitado. Ela precisa curtir.
– No mesmo dia. — Falei baixo um tanto envergonhada pois sabia o que viria a seguir; expressões de choque e desaprovação como se eu fosse a primeira lésbica agindo como uma filha da puta. — Eu conheci ela no mesmo dia em que meu namoro terminou. — Corrigi.
E..bum! Lá estavam as expressões.
– No mesmo dia?! — A frase soou em coro.
– Pensei que tinha dito que o namoro terminou há uma semana. — Bia estava de olhos bem abertos.
– Não. Sim. Quer dizer... — Bufei me esparramando na primeira cadeira vaga que avistei na cantina. — Ela terminou comigo há três dias exatamente, mas para mim já estava tudo terminado há uma semana. Talvez mais que isso.
– E aí foi encher a cara no bar e pegar uma mulher. Normal. Eu aprovo, só que deveria ter transado e seguido em frente. Se não rolou é porque ela simplesmente não está interessada.
– Ela está interessada. Se não estivesse porque se daria ao trabalho de me mandar mensagem? — Elas se entreolharam enquanto se acomodavam nas restantes cadeiras a volta da mesa.
Finalmente Carla prosseguiu com o pensamento de Bia concluindo-o. — Ela não está assim tão interessada. Desculpe! — Acariciou a pele da minha face com as costas dos dedos.
Então ela não está afim. Tudo bem. Tá certo. O que não falta aqui são mulheres. Observei o ambiente na porta do bar onde várias pessoas, a maior parte mulheres, circulavam entrando, saindo ou apenas batendo papo.
– Eu consigo fazer isso. Você consegue, Ester. — Olhava o espelho acima da minha cabeça me auto motivando antes de sair do carro e partir para a segunda conquista pós término de namoro. Já que a primeira visivelmente falhou. — Quatro anos fora desse mundo não farão diferença. Basta...conversar. — Encorajava meu reflexo de uma moça com olhos pequenos escondidos atrás da armação do óculos graduado e de cabelo liso quase escorrido até os pequenos cachos nas pontas.
Olhei o celular antes de tirar o cinto com a desculpa de ver a hora, mas no fundo sabendo que esperava algum sinal de que eu estava enganada sobre a garota que não havia saído da minha cabeça nas horas vagas em que não me ressentia pelo fim do meu namoro. A sua última mensagem dizendo um simples "Até mais" permanecia no topo da minha lista de conversas após me despedir dela dizendo que tinha um compromisso. E nada mais.
Eu estava indo bem. A moça pálida, de lábios pintados de vermelho e unhas cobertas por um esmalte preto sorria constantemente ao longo da nossa conversa; me tocando no ombro ou se encostando a mim sempre que surgia a oportunidade criada por ela mesma. Ela havia dito qualquer coisa sobre ser do sul e ter vindo ao Rio por algum motivo ao qual não prestei atenção olhando dezenas de vezes para o celular ou sentindo-o vibrar no bolso do meu jeans quando não havia absolutamente nada novo a não ser a hora e os minutos avançando.
– Eu moro há uma hora daqui. Ônibus são tão demorados por aqui. — Comentou exagerando na casualidade que queria transmitir com a voz quando toda sua linguagem corporal havia deixado claro o que ela queria no final da noite.
– Bem, eu vim de carro. Se você quiser... — Meu celular tocou dando sinal de mensagem recebida e enfiei a mão no bolso me sentindo estúpida por te-lo sentido vibrar a noite toda quando nem sequer estava no modo vibratório.
"Você me pediu que te dissesse quando estivesse sozinha em casa e com privacidade para conversar com vc na webcam. Então...estarei sozinha nas próximas horas :)"
– Se você quiser...? A moça de cabelos lisos e preto com uma mecha azul aguardava que eu finalizasse a minha frase.
Senti a saliva descer com dificuldade na minha garganta enquanto eu lutava contra aquela vontade incontrolável que me consumia.
– Se você quiser eu chamo um táxi. — Sorri recebendo uma expressão carrancuda como resposta. — Me desculpe, mas tenho de ir. Surgiu um...imprevisto.
Não esperei que ela abrisse a boca antes de sair apressada para fora do bar tentando não correr em direção ao carro. Já com o cinto posto e o motor roncando digitei rápido uma mensagem para ela "Estou chegando. Me espera".
Sim, eu estava trocando uma noite garantida de sexo por uma conversa a distância com uma garota que nem está afim de mim. Eu posso ser mais idiota?!
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