El Tango De Lovino

1 You don't have to sell your body to the night


O céu estava nublado naquela tarde de outono. A rua estava molhada pela chuva que a pouco acabara, mas que arriscava voltar à qualquer momento. Eu vestia um sobretudo e andava despreocupado em direção à um velho condomínio de esquina, no fim da rua a qual me encontrava. Estava quase anoitecendo, mas eu não tinha pressa; o lugar em que eu estava indo só ficava ativo de noite mesmo.

Se tratava de um prostíbulo. Era o “Fromage Lune”, a peculiar herança de um velho amigo meu, Francis Bonnefoy. Ele tinha me convidado para ver as “mudanças” que ele tinha feito. A reinauguração do lugar tinha sido a meses atrás, e eu fora convidado, mas tinha negócios importantes a tratar fora do país, por isso só pude ir agora. Estava entediado, então até que seria interessante me entreter com alguns rostinhos bonitos.

Eu, Francis e muitos outros estávamos fadados desde que nascemos, a vida de mafiosos. Durante um tempo de minha juventude, eu até quisera fazer um pensamento de bom moço, e tentar uma vida diferente da de meus pais. Mas depois eu simplesmente aceitei e aprendi a conviver com as barbaridades que diariamente tinha que fazer. No final, eu me adaptei e descobri que tinha mesmo nascido para a coisa.

Alcancei o lugar, e em nada parecia com um prostíbulo para cafetões criminosos. Para qualquer um que olhasse, aquilo era só um pequeno condomínio no estilo inglês, abandonado. Mas eu sabia que assim que abrisse aquela porta, veria decorações extravagantes francesas, e lindos e jovens rapazes e moças andando pelo lugar com roupas provocantes, sob os olhares de milionários velhos sedentos por seus corpos esguios e belos.

Sem mais cerimônias, abri a porta e entrei.

Me deparei com uma recepção que dava para alguns corredores e portas. A sala tinha dois sofás roxos, e em um estava sentada uma morena com os cabelos presos em dois laços vermelhos, lendo uma revista. Provavelmente era mais uma empregada do estabelecimento, pensei com pesar. Tão nova...

Aproveitando que a garota não tinha me visto, me dirigi até o balcão, e vi que tinha um loiro de óculos de grau que dormia sobre os braços, que estavam apoiados no balcão. Que incompetente, pensei, enquanto o sacudia.

- Hei garoto, o trabalho não é lugar pra dormir. – eu disse seco, enquanto ele me olhava. E depois, desengonçado, tentou se ajeitar na cadeira e parecer apresentável.

- Sorry, sir! É que aqui os horários são invertidos, se é que me entende. – ele disse, e depois abriu mais os olhos, dizendo – Meu nome é Alfred! Bem-vindo à Fromage Lune! Em que posso lhe ajudar?

- O Francis está? – fui direto

- O Sr. Francis? Ah! Hm... depende. – ele disse, me olhando desconfiado. Revirei os olhos.

- Só o chame aqui, sou um convidado especial. – eu disse, impaciente, olhando bem fundo nos olhos dele. Ele pareceu entender, pois foi logo sacando um celular e ligando. Em poucos minutos, meu amigo de longas datas estava bem na minha frente, com seu típico sorriso

- Antônio! Oh, tanto tempo que não nos vemos! – ele me abraçou brevemente – Como vão as coisas lá na Espanha?

- Vão indo, como sempre. Pelo visto, você está bem animado com o novo negócio.

- Ah, e como não? – alargou ainda mais o sorriso – É lucrativo, divertido e prazeroso! Eu estou adorando!

Estávamos nos sofás roxos agora, eu estava em um de frente para o francês, que conversava comigo abraçando a garota morena que eu tinha visto antes, pela cintura. Ela fazia pouco caso para ele e a nossa conversa, e continuava a ler sua revista.

- Aqui não é muito grande, mas o fato de estarmos todos mais apertadinhos é bom também! Não é, Mih? – ele se dirigiu à morena que abraçava

- Uhun. – ela respondeu, sem realmente ouvir o que o outro falava.

- Michelle é linda, e me é tão lucrativa! – pude jurar que vi uns $$ brilharem em seus olhos enquanto falava – Mas você tem que conhecer a minha atração principal! – ele se levantou animado, largando Michelle e me puxando pelo braço pra me fazer levantar.

- Agora eles devem estar dormindo, mas eu vou mandar acordá-los! Na verdade, quase todos aqui estão dormindo. Nossa vida é à noite~

- Eu sei. Mas do que você está falando? Atração principal?

- Ah sim! São os gêmeos italianos! – ele me respondeu animado – Alfred! Vá chamar os gêmeos! – e logo se virou em minha direção, com um sorriso malicioso – Me diga, espanhol, você gosta de gêmeos?

- Agora você me deixou curioso. – retribuí o sorriso

- Hon hon, eu sei!~

Continuamos a conversar sobre banalidades do trabalho, até que escutamos o som de passos. Eu olhei em direção ao corredor que dava para a escada, e vi dois jovens sonolentos seguindo Alfred. O de cabelos arruivados usava apenas uma grande camisa de botões branca, que obviamente não era dele. Já o outro, que emburrado, usava uma jeans marrom, uma t-shirt preta com um tomate desenhado (gostei disso!) e chinelos laranjas. Que fofos!

- Bom dia, mes petit amours! – ele disse, os abraçando ao mesmo tempo. O ruivo respondeu com um “veeh~”, enquanto o devidamente vestido se soltou rapidamente dele, me surpreendendo ao dizer:

- O que é que você quer, bastardo? Nós trabalhamos quase até o amanhecer, acho que essa é a nossa hora de dormir!! – ele gritou com Francis, que evidentemente já estava acostumado com o jeito difícil dele.

- Perdona me por interromper seu precioso sono, mi ángel. – eu disse logo depois dele, pegando sua mão e a beijando. Ele puxou-a rapidamente, limpando-a na blusa e me olhando numa mistura de vergonha e arrogância. Ignorei o seu olhar de desprezo e continuei – Eu estava louco pra te conhecer, e eu-

- Quem é você? – me interrompeu seco, e antes que eu pudesse fazer algo, Francis respondeu por mim

- Esse é o meu melhor amigo, o Antônio. Nós nos conhecemos desde muito pequenos, e eu quero que vocês o tratem muito bem, oui? – perguntou olhando sugestivamente de um ao outro irmão sonolento.

- Sim! Sou o Feliciano, prazer em conhecê-lo, senhor! – ele pulou em cima de mim e me deu um caloroso abraço, seguido de um beijo nas bochechas. Tão meigo e adorável!

- ... – o outro só me lançou um olhar entediado e rabugento.

- E esse é o Lovino, claro! – ele disse entusiasmado, enlaçando sua cintura de lado – Ele não é perfeito para aqueles que curtem desafios? – Obviamente, depois de tanto tempo Francis já sabia os meus fetiches.

- ... é – disse olhando abobado ao ver suas bochechas corarem, contrastando com sua expressão injuriada

- Hon hon, domar esta fera aqui é difícil, e já te aviso pra tomar cuidado, ele morde, também! – e rindo do que disse, abraçou o outro irmão com o braço livre – Já esse aqui é fofinho e educado, é ótimo pros solitários e sozinhos que precisam de carinho e amor. – abraçou-os mais apertado, passando a ponta do nariz de um pescoço a outro, e por fim, dizendo – Mas juntos, são incríveis, o perfeito agridoce! Tão iguais, mas ao mesmo tempo tão diferentes...

Eu tinha ficado a observar os irmãos. Eles eram realmente muito diferentes em personalidade, mas tirando alguns tons dos cabelos e a cor do olhos, eles eram idênticos.

- Ah! Mas é claro que eles são muito valiosos! Passar uma noite com essas gracinhas aqui sai uma fortuna, e eu já recebi milhões de pedidos de compra definitiva deles! Mas o preço seria tão alto, que eu simplesmente nego~

- E você deve adorar isso, não é? Todo esse lucro...

- Sim sim! Aaaah meu amigo, você teve sorte tendo vindo numa quarta-feira aqui! Posso deixar você escolher um deles. – ele disse, sorrindo sugestivamente, como se já soubesse qual seria a minha resposta. Eu sou assim tão previsível?

- Ei bastardos, não falem como se nós não estivéssemos aqui! – exclamou Lovino – e eu quero dormir, cazzo!

- Sinto lhe dizer, Lovi, mas você não vai dormir agora~~

- C-CO-COMO?!! – ele corou fortemente, enquanto seu irmão ria suavemente, delirando coisas como “Ludwig” e “paaaastaaa”, despreocupado com a movimentação ao seu redor. Me aproximei dele, pegando sua delicada mão suavemente, e a beijando.

- Meu doce e amado Feli, você é muito fofinho e meigo. Mas lhe digo; escolhi seu arrogante e raivoso irmão.

- ... veeh~ — ele murmurou, com os olhos quase se fechando de sono. Francis riu e disse.

- Acho melhor deixá-lo dormir agora, está tão cansado que daqui à pouco desmaia, tadinho... – e pegando o pequeno italiano no colo no estilo matrimonial, foi corredor adentro, parando em frente à uma porta e falando malicioso por cima do ombro – Divirtam-se, rapazes! Mostre o quarto dele, Lovi, ele vai adorar! – e logo depois entrou.

Estávamos sozinhos no corredor, eu agora o encarava atentamente. Seus braços estavam cruzados sobre a camisa preta, e um de seus pés batia impacientemente no chão, olhando para o lado com uma expressão rabugenta. Mas ele estava tão adorável! Me dava vontade de avançar sobre ele, prensá-lo na parede, beijá-lo e... E por que não? Era pra isso que ele estava ali, não é?

Foi isso que fiz, rapidamente eu estava com ele preso entre eu e a parede. Ele tinha levado um susto com o evento, e ia gritar comigo, mas antes que ele pudesse falar alguma coisa, tomei seus lábios com volúpia. No começo ele se debateu e se recusou a abrir a boca, mas eu fiz mais pressão, passando um dos braços em sua cintura, enquanto o outro continuava apoiado na parede. Aos poucos ele foi cedendo, e enfim concedeu a passagem da minha língua na sua boca. O beijo seguia intenso, ele me correspondia muito bem. Enlaçou meu pescoço e se esfregava em mim sensualmente. Cessamos o beijo por falta de ar e ficamos nos encarando. Ele tinha olhos de cor dourada, sua boca estava entreaberta e seus lábios levemente inchados. E mesmo nessa situação, ele não tinha cedido por completo. Continuava me encarando num olhar entediado e arrogante.

Mas eu já estava esperando por isso.

- O que está olhando, seu imbecil? – me perguntou, me empurrando e saindo de perto da parede, me encarando. – Ah, dane-se. Venha comigo.

E segurou meu pulso, me puxando pelo corredor até uma porta, a abrindo. O quarto era grande, com detalhes em vermelho, e uma espaçosa cama. Um lindo quarto, sem dúvidas. Lovino foi entrando sem cerimônias, como se já estivesse mais do que acostumado com a situação. Voltou-se para mim, que tinha ficado parado na porta, o observando.

- Não vai entrar, bastardo imbecil? – disse arrogante, me encarando com um olhar entediado. Logo depois sorriu malicioso e completou: — Ou aquilo tudo lá fora era só fachada e vai ser eu quem terá que tomar as ativas aqui?

Em resposta eu lhe sorri igualmente e fechei a porta, me aproximando dele, que estava no meio do quarto. Enlacei sua cintura possessivamente e o puxei para perto, recebendo um olhar provocativo dele. Aaaaah Lovino, você não sabe com quem está mexendo...

- Vai ficar me encarando assim até quando, ein? – disse num tom irritadiço. E eu o conduzi até a cama e o empurrei nela, fazendo ele cair de frente para mim. Me debrucei sobre ele, indo até seu ouvido e disse:

- Vou fazer você implorar pra ser meu.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-. (preguiça de fazer lemon)-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Eu acordei sentindo um perfume maravilhoso e lençóis em volta de mim. Abri os olhos e me deparei com cabelos ruivos, eram deles que saía aquele cheiro tão bom. Sem roupa alguma, notei que tinha alguém comigo, alguém que eu abraçava por trás. Lovino, claro! Fazia tempo que eu não tinha uma noite tão perfeita assim.

As lembranças do que nós fizemos, do que eu tinha feito, me atingiram e eu me peguei querendo que elas se repetissem. Eu pagaria o preço que fosse para tê-lo, para Francis ou qualquer outro. Nem que tivesse que roubá-lo daqui, eu o queria. Agora.

Querendo aproveitar até o último segundo que tivesse com ele, comecei a lhe tocar e chamar, tentando acordá-lo, mas estava difícil.

- Me deixe dormir, cazzo. – resmungou rabugento, sem nem querer abrir os olhos.

- Lovino, você é tão bonito... – disse mergulhando meu rosto em seu pescoço e cheirando.

- E você é um idiota, agora me deixe dormir. Você me deu trabalho ontem.

- Ah, então fui eu quem deu trabalho? – perguntei risonho

- Ontem você era meu trabalho. Nada mais que isso. – aquelas palavras me abalaram um pouco, porque ele estava certo. Lovino só tinha se deitado comigo por causa do dinheiro que receberia de Francis, como sempre. Eu era só mais um que ele tinha que agradar.

Com a realização daquilo eu me senti um pouco traído. Só um pouco, e sem motivo nenhum. Ele era uma prostituta, pode-se dizer assim, e eu não deveria esperar nada mais do que sexo vindo dele.

Então por quê eu sentia que não era suficiente?

O apertei mais em meus braços, ele ainda tentava voltar à pegar no sono. Devia estar cansado mesmo, quando Alfred o tinha acordado, junto com o irmão, ele já estava com sono, imagina depois de tudo aquilo que nós tínhamos feito naquela cama. Procurei meu celular no bolso da minha calça, que estava caída no chão ao meu lado, e chequei as horas. Quando tinha chegado ali eram 6 da tarde, e agora já eram 3 da manhã. O lugar já deveria estar bem movimentado.

Contrariado, me separei de Lovino e me levantei, vestindo minhas roupas, enquanto via Lovino se aconchegar melhor entre os lençóis, agora sozinho. Era um jovem realmente muito bonito, magro e um pouco baixo, devia estar nos seus 20 anos. Mas eu tinha que parar de pensar nessas coisas, tinha que me lembrar que ele era um fonte de prazer, nada mais. Não poderia esquecer isso nunca!

Repetindo tais pensamentos como um mantra, saí do quarto e fui andando pelo corredor. Quando cheguei à sala principal, vi pessoas. Não muitas, mas o suficiente para encher o recinto sem deixá-lo desconfortável. Logo vi Francis bebericando um vinho recostado à uma pilastra. Fui até ele, que assim que me viu, sorriu abertamente.

- Tonio! Diga-me, como foi? Gostou de Lovino? – ele me perguntou, olhando sugestivamente em meus olhos

- É impossível não gostar de Lovino! Ele é perfeito, exatamente como você tinha dito! – eu respondi entusiasmado, e completei um pouco mais sério – Mas, quanto devo lhe pagar?

- Ah, em consideração à você por ser um velho e bom amigo, só lhe cobrarei a parte de Lovino. – e então discutimos o preço e eu lhe paguei a quantia.

Logo começamos a conversar sobre algumas banalidades, e eu também degustava um vinho. Estávamos em silêncio, apenas observando a movimentação da clientela de Francis, quando eu resolvi falar sobre o que eu pensara mais cedo.

- ... Francis... – eu o chamei num tom calmo e simples, como quem não quer nada.

- Oui?

- Eu... Eu quero comprar o Lovino. – fui direto, e me virei de frente pra ele, o olhando nos olhos – Pago a quantia que você quiser, pode me cobrar qualquer-

- Não, Tonio, eu sinto muito. – ele disse, e vi agonia em seus olhos. – Eu gosto muito de você e te considero um grande amigo, então por favor, não vamos insistir nesse assunto. Não quero ver você machucado. – e por fim, disse firme – Esqueça-o enquanto é seguro para você.

- Calma, Francis! Eu não estou apaixonado por ele!! – ao ver o olhar sarcástico dele, como quem não acredita, continuei – Fala sério, eu nem o conheço direito! Nós só transamos uma vez, eu não sei nada dele!

- Então por quê quer comprá-lo?

- Porque... Porque eu gostei de transar com ele, só isso!

- ... Sabia que não era uma boa idéia...

- Francis, eu juro. Não estou sentindo nada por aquele moleque. Agora pare de me atormentar. – e a conversa terminou ali. Depois de um tempo nós tínhamos voltado a falar, mas logo eu tive que ir embora dali. Tinha que voltar para o hotel, afinal eu estava na França para negócios, e só tinha passado ali pela conveniência da proximidade do lugar.

Me despedi de Francis e fui embora. Estava fazendo frio nas ruas daquela cidadela, mas nada que meu sobretudo negro não resolvesse. Fui andando solitário até um ponto de táxi, e logo eu estava indo em direção ao hotel onde eu estava. Na minha cabeça estava Lovino, eu já tinha desistido de parar de pensar naquele jovem rabugento que eu nem conhecia direito, mas que, ignorando todos os conselhos de Francis, estava determinado à ter só pra mim.

Custasse o que custasse.

Roxanne, you don’t have to wear on that red light

Walk the streets for money

You don’t care if it’s wrong or if it’s right

Roxanne, you don’t have to wear on that red light

Roxanne, you don’t have to sell your body to the night

Notas finais
EEEEEEH ACABEI O CAPÍTULO! UM MÊS PRA ESCREVER OMG
Ahn, enfim. Essa fic é ANGST, que fique bem claro. Não vai ser bonita. E, você deve estar pensando que eu sou uma desgraçada por não ter escrito lemon numa fic com um tema tão lidibinoso como esse. Bom, eu não escrevi porque achei que não tinha necessidade +.+ sou uma desgraçada, mas ok. Eu queria dar mais ênfase pra história, ainda estamos começando, afinal.
Falando assim até parece que vai ser uma fic imensa, mas na verdade serão três capítulos. É uma história pequena por natureza, quem ler a letra de El Tango de Roxanne vai entender. É isso, deixe reviews, sim? Vai me deixar muito motivada, até porque eu estava morrendo de vergonha de postar isso aqui. Mas liguei o dane-se e postei... É.
Até logo! ^^