Eighteen.

1 A Décima Oitava Primavera.


Notas iniciais
É realmente curtinho, mas como é pra registrar, se gostarem já é bônus. :)

Ela sentia frio, e se encolheu debaixo das cobertas, com seu pijama. Era 19h, no máximo. Mas as noites estavam esfriando mais rápido nos últimos tempos. Dia 25 de Outubro de 2018. Não parecia um dia especial. Mas agora ela podia pagar se fizesse alguma burrice. A Tv não parecia interessante, então resolveu pegar algum livro antigo para reler. Cerca de 20min depois, seus pais chegaram. Era quinta-feira, então havia passado o dia sozinha em casa. Escola não era opção no próprio aniversário, a não ser que quisesse voltar pra casa como uma grande omelete crua. Sua mãe lhe jogou um bombom, abraçou, deu um beijo, “Feliz Aniversário”. Seu pai abraçou, disse algumas palavras bonitas. E pronto. Era isso. Ou ela achava que era.

— Que tal irmos comprar churrasquinho? Só pra não passar em branco. – A mãe falou. Ela deu de ombros. Não seria tão ruim. Vestiu jeans e camiseta, e os pais que haviam acabado de chegar cansados, embarcaram no carro outra vez. Isso ela reconhecia o quanto significava.

O churrasquinho era perto, e havia uma festança mais abaixo da rua, no Recinto de Festas da cidade. Sempre era alugado para essas coisas particulares, custava uma nota e ainda por cima vivia ocupado. A mãe começou a fazer dancinhas com a música alta que vinha da festa, e ela sorriu simplesmente por ser uma coisa boba e costumeira.

— Vamos lá xeretar que festa é essa? – Perguntou, e ela revirou os olhos.

— Mãe, isso é ridículo. Deve haver seguranças, convites e esse tipo de coisa. Não dá pra fazer festas abertas aqui, pelo menos não sem esperar uma horda de usuários de drogas e bêbados. – Disse. Ela não tinha preconceitos muito fortes, mas era difícil lidar com pessoas nesse estado numa festa aleatória. A mãe dela insistiu que fossem pelo menos sondar a porta. Desceram a rua, e não havia segurança. Havia duas entradas criadas por panos escuros. Uma delas virava a esquerda, como um túnel, direto para a secretaria do Recinto. E foi por esse que a mãe a puxou. Devia ser 20h30, algo assim. E então, lá dentro, havia uma equipe de maquiador, cabelereiro, estilista e manicure/pedicure. Ela encarou a mãe, e esta sorria receosa. Agora a ficha havia caído. Aquela era a festa dela. E bastava ela aceitar a ideia ou não. E claramente... Não havia como recusar. Sentia-se inquieta, nervosa e um tanto culpada. Dinheiro não nascia em árvores, mas lá estava sua mãe gastando o suado dinheiro dela com uma festança de 18 anos para a caçula. Foi produzida da cabeça aos pés desde que chegara, até 23h30. Estava quase desistindo daquela ideia louca, porque nunca teve paciência para esse tipo de produção. Finalmente podia por o vestido, os sapatos, e sair. Era um vestido daqueles enormes, que lembravam um bolo de casamento ambulante. Era preto, com babados enormes na saia, e corpete de cor vinho em cima. Pelo menos sua mãe aceitara que nunca ia usar um vestido rosa, azul, amarelo, dourado, prateado, ou qualquer outra cor ao melhor estilo da Barbie Girl. Preto era mais que suficiente. E antes que saísse lhe foi entregue uma máscara. Então esse era o foco. Um Baile de Máscaras. Ela não podia negar... Era um sonho.

Já era meia-noite quando adentrou o Recinto. Havia tecidos escuros, dourados e vermelhos, pendurados em todo o teto, o lugar estava irreconhecível. Sentiu o coração bater na garganta. Havia mesas à volta, e o salão principal estava livre, decorado com velas, rosas vermelhas, e candelabros elegantes. Um grande tapete vermelho se estendia do mesmo tamanho de seu clichê, ou seja... Enorme. Seguiu insegura, vendo as pessoas mascaradas sorrirem a ela, sem reconhecer praticamente ninguém, a não ser uma pessoa. Todos usavam roupas extravagantes como na moda vitoriana. Mas aquela mulher ela jamais deixaria de reconhecer. O vestido era dourado e creme. Os cabelos tinham um penteado caprichoso, e a máscara enaltecia seus olhos enormes. Era sua irmã. Daquele tipo de irmã que não tem o mesmo sangue, mas supera até aquelas que têm. Sabia que tinha dedo dela, principalmente pela elegância da decoração. Era até curioso, porque mesmo com todo o clima vitoriano, as músicas eram eletrônicas e faziam as pessoas dançarem ensandecidas. E é claro que ela tentou arrastá-la, mas nunca foi do tipo que gostasse de dançar. Passou a cumprimentar as pessoas e reconhecer a maioria. Eram da escola, do grupo escoteiro de que fazia parte, das amizades de infância, e da família. Acabou encostada, falando da surpresa, com suas melhores amigas, todas produzidas e radiantes. Foi quando a música parou. As luzes apagaram e se acenderam. E quando se acenderam, havia uma figura nova parada no palco ao fim do salão, em frente ao DJ. Era alto. Usava smoking completo, e uma capa curta, no ombro direito. Tinha barba rala. A máscara era preta como o resto do traje. E o que mais chamava atenção... Os cabelos eram azuis vibrantes. Mesmo dali, longe dele, ela sabia que os olhos eram verdes. Porque ela reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, ainda que ninguém ali soubesse. Uma música diferente começou a tocar. Uma música que ela conhecia e que arrepiou até o último pelo de seu corpo.

“"In sleep, he sang to me,
In dreams, he came...
That voice, which calls to me
And speaks my name...”

Ele sorriu com a reação de todos. Ninguém sabia quem era o estranho do cabelo azul. Apenas ela. Algumas pessoas deduziriam, mas não estragariam o mistério.

“…And do I dream again?
For now, I find.
The phantom of the opera is there —
Inside my mind."

Ele caminhou até ela, diretamente até ela. Parou a sua frente, e ela não pode segurar um riso fácil. Estavam juntos há três anos, mas ninguém sabia. O cabelo azul era novidade, e a barba costumava ser raspada caprichosamente, mas hoje não. Ele fez uma reverência charmosa, e sorriu.

— Srta. Alba... – Disse, chamando-a pelo sobrenome. Ela corou, amaldiçoando-o por ter essa habilidade horrorosa. Devolveu a reverência.

— Senhor... – Respondeu, sem citar nomes. Estava gostando do jogo, e se divertindo com o rosto daqueles que nem faziam ideia. A música ainda tocava e ele estendeu o braço a ela. Ela obviamente aceitou, e os dois seguiram ao centro do salão. Ele colocou um braço em sua cintura, ela em seu ombro, e ambos traziam o outro estendido, as mãos juntas. A posição perfeita de valsa. Mas ela riu.

— Da última vez que chequei você não fazia ideia de como valsar... E então? – Questionou, e ele riu também.

— Eu aprendo rápido. – Respondeu, e iniciou o galanteio. As pessoas ainda olhavam curiosas, mas alguns casais se juntaram a valsa macabra que a trilha sonora proporcionava. Estavam se divertindo, conversando. E quando a música parou, ele roubou um beijo dela. Daqueles que o fariam tomar um tapa por fazer em público. Mas não naquela noite. As pessoas riram, assoviaram, aplaudiram, gritaram e zoaram. E embora vermelha, ela riu com ele. Seus pais encaravam com a maior ‘poker face’ que ela já vira, mas não importava. Passaram a noite juntos, e toda vez que alguém tentava falar com ele, ele ficava em silêncio, sorrindo, como uma estátua. Só falou com ela, a noite toda.

A festa foi até pelo menos 4h. Mas ele desapareceu perto de 3h20, deixando apenas seu perfume e uma rosa pintava de preto com ela. As pessoas se despediram, seus pais haviam escolhido não dizer nada, e ela agradecia. Demoraram um tempo para organizar tudo e poder ir embora. E quando ela chegou a casa... Mais surpresas. A melhor delas. Abriu a porta do quarto, acendeu a luz, e havia alguém jogado em sua cama. Ainda fantasiado, de máscara. Os cabelos recentemente pintados de azuis brilhavam. Ele exalava perfume, ou vai ver ela estava fantasiando demais. Sorriu para ela, e a chamou com um gesto de cabeça. Ela trancou a porta, e foi até ele com um sorriso malicioso no rosto.

— Você não presta. – Foi a última frase concreta e completamente lúcida que disse naquela noite.

Notas finais
Espero que tenham gostado, comentem, por favoooor. :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!